Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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A relutância da esquerda em aprender com a realidade

Uma das coisas mais desanimadoras do debate com a esquerda é a relutância desta em aprender com a realidade. Nesta semana que acaba, com a divulgação do PIB de 2016, que confirma a pior recessão da história do Brasil, muita gente teve a petulância de ironizar o governo atual pelo resultado! Nenhuma surpresa, afinal o economista petista Márcio Pochmann já fazia isto desde o primeiro mês do governo Temer, desconsiderando que o país estava em recessão desde o segundo semestre de 2014. Ou seja, estamos em recessão há 33 meses, mas a culpa, claro, é do Temer.

O mesmo acontece neste momento na Argentina, onde a esquerda tenta colocar na conta de Maurício Macri todas as consequências de anos e anos de distorções econômicas e fraudes contábeis acumuladas pelo kirschnerismo. Previsível, afinal uma das especialidades da esquerda é confundir causa e conseqüência. Às vezes por ignorância. Às vezes por pura desonestidade intelectual mesmo.

Mas o que mais me chamou a atenção nesta semana foi uma análise que tenta diminuir a culpa do governo do PT na crise, observando a queda da participação da indústria no nosso PIB, provocada por um ente capitalista conspirador global que planejou tudo desde os anos 80! Segundo a análise, não só o Brasil como países ricos estão sofrendo os efeitos deletérios da migração de suas fábricas para países asiáticos, com o objetivo de explorar mão de obra escrava e a quase ausência de legislação trabalhista. Leia mais

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Uma grande interrogação no futuro da Europa

inglaterra_euroA saída da Inglaterra da Comunidade Européia é um daqueles casos onde todos tem um pouco de razão e ninguém está totalmente certo. Não por acaso, divide tanto a esquerda quanto a direita.

Do ponto de vista da direita liberal, qualquer secessão é bem vinda. A explicação é óbvia: quanto menor o território, menos instâncias de poder, menos gastos com a máquina pública, menos burocracia, menos corrupção e mais pressão para que o país abra sua economia. Não por acaso, os países com maiores rendas per capta são os menores em extensão territorial e menos instâncias de poder. Vejamos o caso de Luxemburgo, por exemplo, um minúsculo país europeu que ostenta a maior renda per capta do mundo. Quantas marcas de multinacionais daquele país conhecemos? Alguma gigante da eletrônica? Nenhuma. Praticamente todos os produtos de alta tecnologia que Luxemburgo consome vêm de outras nações. Cerca de 70% de sua economia vem de pequenas e médias empresas e fazendas familiares. Cerca de 20% de serviços financeiros e cerca de 10% de indústria química e de aço. Se não se globalizasse, Luxemburgo simplesmente não poderia usufruir da maioria das conquistas tecnológicas do nosso tempo e estaria condenada a pobreza. No entanto, não foi o que aconteceu. Leia mais

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A grande desaceleração

brics_afundandoA revista britânica The Economisth é ótima em “fotografar” momentos importantes da história, mas péssima em analisar tendências de longo prazo. Sua última capa, que mostra a desaceleração dos BRICs, é um choque de realidade em suas otimistas análises anteriores. Já comentamos aqui algumas de suas capas. Vamos relembrar.

Em 2009, a revista publicou uma análise excessivamente otimista do Brasil, ilustrando sua capa com a imagem do Cristo Redentor decolando. Apesar do equívoco, a reportagem teve dois grandes méritos: 1) desmistificar o ufanismo lulista que atribuía a si todos os méritos do bom momento do Brasil, valorizando as reformas anteriores ao governo Lula; 2) apontar arrogância de Lula como um dos principais problemas do país, ao promover a radicalização política e impedir o verdadeiro debate que deveria ser tratado nas eleições, que seria a qualidade e a sustentabilidade do nosso crescimento nos próximos anos. Neste caso, a revista acertou em cheio, pois foi exatamente o que aconteceu.

Em 2010, a revista publicou mais uma capa otimista sobre a América Latina, com uma análise parecida com a anterior, apontando o boom dos preços das commodites como a principal alavanca do crescimento da região, o que possibilitou uma sensível redução da pobreza da região e uma maior resistência às crises. Claro que o boom das commodities não iria durar para sempre, mas pelo menos em relação à América Latina a revista até que não errou tanto, afinal, com exceção dos países que mais mergulharam no populismo, como Venezuela e Argentina, de um modo geral a América Latina aproveitou melhor a década passada. O link do nosso site com os comentários sobre as duas capas pode ser lido aqui.

Em 2012 , a revista apontava o novo “capitalismo de estado” dos BRICs como uma suposta alternativa ao capitalismo de livre mercado. Ou seja, mais uma vez a revista deixou-se levar pelo sucesso momentâneo sem olhar para o longo prazo. Nosso post sobre o assunto pode ser lido aqui.

Portanto, a “fotografia” atual da revista, que mostra a desaceleração também dos BRICs é de certa forma uma correção de rota. Uma capa mais realista, que de certa forma coloca um contraponto ao otimismo em relação a tais países em anos anteriores.  A ilustração é melhor que a reportagem. Ela mostra a China bem à frente dos demais, mas já começando e pisar em lama; a Rússia ainda em pé, mas já enrolada; a Índia afundando na lama, mas ainda com os braços livres; e por fim o Brasil, com braços e pernas afundados na lama. Leia mais

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O “capitalismo de estado” vai substituir o capitalismo de livre mercado?

Uma recente reportagem de capa da revista The Economist colocou um pouco mais de lenha na fogueira da clássica disputa entre esquerda e direita. No “novo modelo” esquerdista de capitalismo, cujos principais protagonistas são a China, a Rússia e o Brasil, o Estado estimula a fusão de grandes empresas para criar gigantes em setores onde tais países apresentam vantagens competitivas.

Para valorizar a tese da reportagem, a revista cita alguns percentuais de ações de “estatais” negociadas nas bolsas de alguns países, onde a China aparece no topo do “estatismo”, com 80% das ações de empresas. Em segundo, aparece a Rússia, com 68%. O Brasil, surpreendentemente, aparece com 38%.

E aqui cabe um primeiro questionamento, afinal o critério adotado para considerar uma empresa deste “novo modelo” é ter pelo menos alguma participação do governo, mesmo que minoritária.  Ou seja, mesmo na China onde o estatismo aparece com o maior percentual nas ações negociadas na bolsa no gráfico da revista, na verdade o capital governamental é insignificante em relação ao privado.  Por este critério de classificação de “estatais”, a Vale pode ser catalogada neste time, afinal o governo mantém alguns tentáculos na empresa, via fundos de pensão. Leia mais

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Por que o capitalismo está em crise?

crise_europeiaAntes de responder a esta pergunta, precisamos antes falar de dois princípios básicos essenciais a qualquer empreendimento:

O primeiro é a eficiência. O empreendedor procura tornar seu produto mais atrativo, tanto pela melhoria da qualidade ou pela oferta de um menor preço, deixando ao consumidor a analise final do custo-benefício do seu produto.

O segundo é o equilíbrio nas finanças. Não se deve gastar mais do que se arrecada. Com exceção de alguns momentos cruciais onde a certeza do lucro no futuro compense o risco da obtenção de um financiamento, o objetivo de todo empreendedor é acumular riquezas.

É assim desde sempre. Até mesmo antes do surgimento do capitalismo. Eficiência e equilíbrio nas finanças, portanto, valem tanto para o açougueiro da esquina, quanto para as grandes corporações e governos.

Quando analisamos estes dois princípios de forma macro nos três últimos séculos de capitalismo, a primeira conclusão é de que o princípio da eficiência  foi obtido com louvor, afinal a riqueza gerada desde então foi incomparavelmente maior que tudo que havia sido produzido desde os primórdios da humanidade, tornando possível a aquisição de produtos de alto valor agregado inclusive para as classes menos favorecidas. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 18)

Olá amigos! Havia programado concluir esta série neste post. No entanto, mais uma vez, tive que mudar os planos, pois senti a necessidade de sintetizar algumas conclusões sobre alguns assuntos importantes na trajetória da Esquerda e da Direita.

Para ver o primeiro post desta série, clique aqui. Para ver o primeiro post das conclusões, clique aqui.

Conclusões (continuação)

Como vimos ao longo dos vários posts desta série, muita coisa mudou na disputa entre os dois pólos ideológicos, principalmente após a implosão do mundo comunista. Desde então, a Esquerda teve que adaptar seu discurso ao sistema capitalista, mas sempre procurando colocar-se acima das mazelas capitalistas. Nesta estratégia, o “neoliberalismo”, a globalização e o FMI sempre foram pintados pelos partidos de Esquerda como instrumentos de dominação do imperialismo norte-americano.

Mas como sempre acontece, entre o discurso e a realidade existe uma grande diferença. Os Estados Unidos hoje não são nem sombra da única superpotência que emergiu do antigo mundo dividido entre capitalistas e socialistas. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 16)

Crise de 2008

Olá amigos! Finalmente chegamos ao ponto inicial da nossa série, o momento em que estourou a crise de 2008 e as famosas medidas keynesianas voltaram à moda. Desde então Keynes foi transformado no novo Max das esquerdas, servindo de justificativa para o aumento do Estado na economia.

A crise de 2008

A crise de 2008 não apenas ressuscitou John Mainard Keynes, como também elevou ao estrelato o economista turco Nuriel Rubini. Ele previu, em 2005, a hecatombe financeira mundial decorrente de uma bolha imobiliária que inflava a economia norte-americana.

De fato foi o que ocorreu, mas ele não foi o único a ver o óbvio. Senadores norte-americanos, desde o início da década de 2000, usaram a tribuna mais de uma vez para alertar sobre os rumos da economia. Mais recentemente o documentário “Inside Job”, ganhador do Oscar 2011, mostrou que nos bastidores do mundo financeiro muito mais gente sabia do que estava ocorrendo. O governo norte-americano foi alertado, e mesmo assim a crise estourou.

E como sempre ocorre, enquanto a economia cresce, tudo é festa, ninguém se preocupa com a sustentabilidade deste crescimento no futuro, pois para os políticos e agentes financeiros o que mais importa é faturar no presente. Qualquer um que alerte sobre potenciais ricos é logo taxado de pessimista, catastrófico ou de jogar no time do contra. E aí vem a crise e então todos ficam se perguntando como ninguém percebeu o que estava acontecendo. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 15)

Ascensão dos BRICs

Olá amigos! Neste post, finalmente vamos falar da ascensão dos BRICSs no panorama global dos anos 2000.

Se você não leu os posts anteriores desta série, leia pelo menos o post 13 desta série, um pré-requisito para entender este post. Se preferir ler desde o início, clique aqui.

A ascensão dos BRICs

Nos dois últimos posts desta série exibimos uma série de gráficos que mostram claramente a aceleração da economia global a partir do ano 2003, com um aumento expressivo da importância dos países periféricos e, em contrapartida, a diminuição do peso dos países ricos na economia mundial.

Só a título de ilustração, o FMI prevê que a partir de 2013, o PIB dos países emergentes e em desenvolvimento irá ultrapassar o PIB das economias avançadas. Vale lembrar que em 2000, o PIB dos emergentes representava menos que 60% do PIB das economias avançadas. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 14)

Charge Emergentes

Olá amigos! Havia planejado falar neste post sobre as mudanças do cenário econômico da década de 2000 que colocaram os países emergentes como eixo principal do desenvolvimento mundial. No entanto, devido aos questionamentos aos gráficos publicados no nosso último post em alguns sites de grande circulação, resolvi me estender um pouco mais sobre o assunto em resposta a tais críticas.

Se vc não leu o post anterior, clique aqui.

A vez dos emergentes II

A principal crítica aos gráficos do post anterior concentra-se no fato deles serem baseados em preços correntes em dólares norte-americanos , metodologia adotada pelas Nações Unidas desde 1970 e outros organismos internacionais. Desde a década de 2000, no entanto, surgiu uma nova metodologia criada pelo FMI que desconsidera as variações cambiais em relação ao dólar, o que atenua as curvas mostradas nos gráficos anteriores.

Portanto, tais “críticos” utilizaram a nova metodologia criada pelo FMI não apenas para questionar meus argumentos, como também para questionar a minha honestidade, já que, para estes, criei os gráficos com números falsos. Infelizmente não se deram ao trabalho nem de conferir os dados da ONU cujo link está disponível no final do post. Se o fizessem teriam que questionar a ONU e não a mim. No entanto, como é de costume, estes “iluminados” da rede não se dão ao trabalho de pesquisar, apenas repetem a publicidade oficial ou de alguns “comentaristas profissionais da rede”, empenhados em enaltecer Lula e desconstruir FHC. Aliás, repetem também uma prática que se tornou uma regra no PT: desqualificar qualquer interlocutor para desfocar o cerne da questão. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 13)

decadência dos EUA

A era dos emergentes

Como vimos no último post, a fase de estagnação econômica dos anos 90 que atingiu principalmente os países emergentes se estendeu até 2002 com os efeitos do 11 de setembro. A partir de 2003, finalmente o cenário começa a mudar. Só para dar uma idéia, o PIB mundial, que de 1990 até 2002 tinha aumentando pouco mais de US$ 10 trilhões, apenas em 2003 deu um salto de mais de US$ de 4 trilhões, continuando a crescer numa proporção semelhante até 2008, quando o PIB mundial chegou a casa dos US$ 61, trilhões. Ou seja, em apenas seis anos (de 2003 a 2008), o PIB mundial cresceu o triplo que havia crescido em toda década de 90!

Mais interessante ainda é observar que tal crescimento foi mais concentrado entre os países emergentes e pobres, o que contraria todo o discurso dos partidos de esquerda que passaram toda a década de 90 alardeando os efeitos negativos do “neoliberalismo” e da globalização, como instrumento de dominação dos países ricos.

Vamos ver os gráficos da evolução dos PIBs de cada região econômica do planeta para entender o que aconteceu nos últimos anos. Vamos começar pela América do Sul: Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 12)

Luta dólar x real

Os difíceis anos 90

Olá amigos! Neste post vamos falar dos complicados anos 90, mais precisamente do período compreendido entre 1989, que marca a derrocada do comunismo e a conseqüente hegemonia norte-americana como única super-potência,  e 2001, ano que marca o início do fim da hegemonia do império norte-americano. Entre os países periféricos, a década marca também o processo de reformas das economias, principalmente na América Latina e nos países do leste europeu. Tudo isso em meio a um cenário turbulento de crises entre os emergentes.

Uma era de transição

Como vimos nos posts anteriores desta série, o final dos anos 70 e início dos anos 80 ficou conhecido por uma combinação inusitada de estagnação e inflação. A partir de 1983 a economia mundial dá sinais de melhora e inicia uma recuperação que dura até 1988. A partir de 1989, a economia mundial começa a perder força gradativamente, culminando em 1991 com a terceira pior média de crescimento desde o fim da II Guerra Mundial (perdendo apenas para os anos de 1982 e 2009).

O novo período de recessão global tem início com a derrocada do bloco socialista, o qual leva as economias pós-comunistas a quedas sucessivas até meados da década de 90, processo este que leva os países do antigo bloco comunista a encolher em média 40% do seus PIBs. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 10)

globalização

A Globalização

Conceitualmente, a Globalização é um processo de integração econômica, cultural e política impulsionado pela necessidade de expansão dos mercados consumidores. Ou seja, embora o termo “globalização” tenha se popularizado a partir dos anos 90, tal fenômeno acompanha a evolução da humanidade, sendo intensificado em momentos importantes da história como na época das grandes navegações, no pós-guerra e no pós-comunismo.

Apesar das “teorias conspiratórias”, trata-se de um fenômeno espontâneo, decorrente da evolução da economia global. Não tem nenhum mentor. É o resultado da ação de vários agentes econômicos e políticos, que se interligam cada vez mais rapidamente com a redução das distâncias proporcionada com a evolução dos meios de transporte e de comunicação.

Com o surgimento do capitalismo, o processo de globalização teve um forte impulso. Em sua primeira fase, no Capitalismo Comercial, a globalização foi caracterizada pelo colonialismo e pelo mercantilismo, que explorou principalmente o comércio com a Índia (no início), mas predominou com a colonização das Américas. Leia mais

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Esquerda x Direita (parte 9)

Consenso de Washington

Olá amigos, neste post vamos falar sobre o famoso Consenso de Washington, um conjunto de recomendações para economias em crise da década de 80 que foi transformada pelas esquerdas latino-americanas na “Bíblia do Neoliberalismo”.

O Consenso de Washington

Como vimos nos posts anteriores, a década de 80 ficou conhecida como “a década perdida”, devido às enormes dificuldades enfrentadas pelos países do terceiro mundo, com o aumento dos juros norte-americanos e a conseqüente crise da dívida externa em 1982.

Após uma década de várias tentativas fracassadas de estabilização em diversos países, várias instituições internacionais sediadas em Washington (entre elas o FMI e o BIRD) realizaram um encontro para discutir meios de ajustar tais economias, em 1989.

Foi neste contexto que o economista John Williamson, do International Institute for Economy, apresentou um conjunto de dez recomendações, baseadas nas experiências do Chile e do México, os países que havia conseguido os melhores progressos nos esforços de estabilização de suas economias na América Latina até então. Leia mais