Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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O curioso voto “BolsoLula”

Dia desses ouvi a conversa entre dois populares sobre nosso panorama político. O mais convicto era eleitor do Lula. Apesar de assumir que não tinha dúvidas da corrupção do petista, depositava suas esperanças de que ele pudesse trazer de volta os bons anos 2000. Até aí nenhuma novidade. Conheço um monte de gente que pensa assim, que acha que Lula tem uma varinha mágica para resolver problemas, ignorando completamente o contexto altamente favorável que o beneficiou. Acham que basta reconduzi-lo a presidência e tudo será como antes! Eles só não sabem explicar como é que Lula, com seu mágico conhecimento, não foi capaz de mudar a rota do governo Dilma que nos levou a maior crise da nossa história…

Mas voltando a conversa dos populares, a coisa começou a ficar confusa quando este mesmo entusiasta do Lula começou a demonstrar sua ojeriza a toda agenda esquerdista que o PT representa, de modo que, se eu não tivesse ouvido o início da conversa, acharia se tratar de entusiasmado eleitor do Bolsonaro!

É o curioso voto “bolsolula”, fenômeno já constatado pelos institutos de pesquisa que mostram que se Lula ficar fora da disputa, Bolsonaro herda boa parte dos seus votos. É irônico, mas é isso mesmo.

Quem é este eleitor? Ele é um conservador não ideológico, a maioria da população brasileira que não sabe nem nunca ouviu falar de Edmund Burke ou de qualquer valor do conservadorismo ideológico, mas tem o instinto de conservação de suas tradições.

Esta constatação deve provocar enjoo na direção do PT. No entanto, manter este eleitor do lado de Lula é a única chance de vitória nas próximas eleições. Por isso a insistência na candidatura de Lula, mesmo diante do quase certo impedimento.
Historicamente, o PT sabe que conta com 1/3 do eleitorado, o chamado eleitor ideológico de esquerda no Brasil. Acontece que boa parte deste eleitor está realmente decepcionado com Lula e o PT, migrando suas intenções de voto para outras opções de esquerda como Ciro Gomes, Marina Silva, Boulos ou Chico Alencar. É claro que numa polarização com Bolsonaro, tais eleitores tendem a preferir Lula a Bolsonaro, algo que não seria tão certo caso a polarização aconteça entre Lula e e Alckim, por exemplo. Ou seja, esta polarização Bolsonaro x Lula é muito interessante ao PT, talvez sua única chance de voltar ao poder em 2018.

Tal cenário fica ainda mais claro quando imaginamos a campanha eleitoral na TV no próximo ano. O PT, que já conta com a maior fatia do fundo partidário e o maior tempo de TV, tende a engolir Bolsonaro que contará com um ou dois minutos de guia eleitoral num partido minúsculo que até agora nem foi definido. Somado a tudo isso a ojeriza explícita dos meios de comunicação e acadêmicos a Bolsonaro, me parece pouco provável que tenha alguma chance de fato, apesar da percepção desta guerra trazer ainda mais votos para ele.

Resta a Bolsonaro a esperança de que aconteça aqui o que aconteceu nos EUA com Trump: o voto decisivo de uma maioria silenciosa de saco cheio dos excessos de “politicamente correto” esquerdista que predomina no mainstream midiático, principalmente na odiada Globo, que tornou sua posição mais clara nos polêmicos casos das exposições do Queermuseu e do MAM. Sim, existe um grande potencial de votos para Bolsonaro nesta maioria, mas pesa contra ele a falta de estrutura partidária.

Do lado de Lula, apesar da liderança provisória nas pesquisas, o cenário também é bem desfavorável. Sua tática de “não sei de nada” soa cada dia mais risível. Mesmo assim ele segue colecionando novas pérolas para sua platéia amestrada. Para seus ex-eleitores que migraram para outras opções de esquerda, vê-lo mentir tão descaradamente pode afastá-lo definitivamente de suas suas intensões de votos num segundo turo, ainda mais agora que ficou escancarado o apoio incondicional do PT ao desastre venezuelano, dando razão aos que alertavam sobre os rumos que seguíamos na mesma direção.

Apoiar um regime como o de Maduro depois de tudo que aconteceu sepulta de uma vez por todas alguns dos assuntos que foram motivos de intensos debates ao longo dos últimos anos: sim, o PT é um partido com intensões hegemônicas e autoritárias. Sim, o PT é capaz de abandonar completamente a racionalidade econômica em detrimento de narrativas fantasiosas de esquerda. E o resultado desta fatídica combinação todos podem ver na Venezuela.

Aliás, estes traços do PT já eram apontados por alguns poucos críticos antes de chegar ao poder. O PT precisou divulgar a tal Carta aos Brasileiros para convencer o mercado de que tinha “amadurecido”, que tinha abandonado os métodos da esquerda radical aparentemente sepultada com a queda do muro de Berlin.

E como ficam agora estes antigos defensores do PT que costumavam acusar de fantasiosos os alertas sobre as intensões autoritárias do PT? Muitos ainda relevam tais discursos inflamados de Lula, pois se acostumaram a vê-lo em todos estes anos moldando seus discursos às plateias. Sim, Lula é o cara que defende os métodos do MST de manhã e à tarde conversa com empresários para defender o “direito à propriedade”! A lógica e a racionalidade que se explodam. O importante conquistar adeptos para a guerra contra seus adversários.

No entanto, é fato que a máscara do PT caiu. Depois de um sensato primeiro mandato, ficou clara a gradativa guinada à esquerda a partir do segundo mantando, plantando a crise que veio estourar em 2014. Uma nova Carta aos Brasileiros não teria mais o mesmo efeito que a primeira. O mercado já percebeu que Lula entrou num caminho sem volta com a intensificação das bravatas, de modo que já considera Bolsonaro um mal menor frente ao desastre que seria a eleição de Lula em 2018. Desastre em todas as direções: para a economia, que teria todas as suas tendências de melhora revertidas (as agências de risco já preveem dólar acima dos R$ 5 com uma eventual vitória de Lula); para a política e para a institucionalidade do país, que teria o líder máximo das quadrilhas que estão sendo investigadas de volta ao poder, disposto a mobilizá-los contra a justiça, contra o MP, contra a PF e, claro, contra a estado de direito.

Enfim, Bolsonaro ou Lula no poder é a certeza de mais acirramento na nossa sociedade e mais incerteza na economia e na política. Aliás, Bolsonaro é apenas mais um sintorma da era PT. Foram os excessos do esquerdismo petista que catapultaram Bolsonaro para a posição atual de um dos favoritos às próximas eleições. Sim, é legítimo que muitos apostem num freio a escalada de bizarrices que nos acostumamos, resultante de décadas de militância do marxismo cultural nas escolas e nos meios de comunicação. No entanto, numa sociedade complexa como a nossa as soluções devem vir pela política, de forma gradativa, com muita negociação, com mais moderação do que afetação. Bolsonaro não é este cara. Lula durante um bom tempo fingiu ser este cara, ao mesmo tempo em que seu grupo político colocava em prática seu plano hegemônico de poder não apenas no Brasil, como também na América Latina e até na África. Desmascarado, resta a Lula fazer bravatas à sua claque e posar de vítima.

Torçamos para que o bom senso predomine e que os eleitores percebam que a melhor opção é mesmo escolher alguém mais ao centro. Qualquer que seja ele, não ser visto como um “salvador da pátria” já será um grande progresso. Alguém mais ao centro ajuda a despolarizar o ambiente, a trazer mais racionalidade ao debate político. É isto que precisamos neste momento. Que o bom senso prevaleça. Para o bem de todos.

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