Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Reestruturação do ensino em SP: uma lição para o Brasil

Alunos de escolas estaduais protestam contra mudanças na rede de ensino em São Paulo. Foto: Rafael Arbex / Estadão

Alunos de escolas estaduais protestam contra mudanças na rede de ensino em São Paulo. Foto: Rafael Arbex / Estadão

Há duas semanas o noticiário tem mostrado a luta dos “heróicos” estudantes de São Paulo contra a truculência da polícia e do governador fechador de escolas Geraldo Alckmin. Com raríssimas exceções, esta tem sido a tônica nas redes sociais e da maioria das reportagens veiculadas sobre o caso na grande mídia, inclusive na principal reportagem do Fantástico da Rede Globo da semana passada, edição esta que ignorou completamente a notícia mais importante da semana com repercussão dos principais jornais do mundo: a prisão do líder do governo no Senado, vale lembrar.

É realmente de espantar. Mas sigamos em frente. No caso do fechamento das escolas, a primeira pergunta que surge na mente de qualquer pessoa normal é: por que? Por que um sujeito que quer ser presidente da república viria comprar uma briga como esta?

Que o projeto foi mal conduzido e mal explicado não resta a menor dúvida. Aliás, esta tem sido uma marca do PSDB: a incapacidade de mostrar seus projetos e, principalmente, de neutralizar as narrativas criadas pelo marketing petista. Mas, e o papel da imprensa nisso tudo, como é que fica? Será que buscaram realmente as informações necessárias para responder as perguntas básicas que citei acima?

Infelizmente não. Uma rápida pesquisa sobre o assunto mostra o mesmo padrão de notícias: parágrafos e mais parágrafos sobre as ocupações, sobre os confrontos com os PMs, falas de manifestantes, pais, professores e apenas um parágrafo protocolar explicando o lado do governo. Algo parecido como esta reportagem da revista Isto É:

“A reorganização prevê o fechamento de 93 escolas e a transformação de 754 unidades em ciclos únicos. O argumento é de que o projeto provocaria melhora nos indicadores educacionais.”

Só isso? Quais os argumentos em prol da melhoria? Tais mudanças se refletiriam em custos? Quanto????

A reportagem mais equilibrada que encontrei foi esta da revista Época, da qual transcrevo o seguinte trecho:

“A mudança demográfica fez o país perder alunos no ensino básico. A rede estadual de São Paulo tem 2 milhões de alunos a menos do que em 1998 e mais de 2 mil classes vagas. Esse panorama levou o governo do estado a anunciar a reestruturação da rede e aumentar o número de escolas de ciclo único.”

Ora, o que aconteceria com uma rede de ensino privado se seu número de alunos diminuísse? É claro que haveria uma reestruturação. Alunos seriam transferidos para outras unidades e algumas seriam fechadas. Óbvio. Trata-se de uma decisão racional que visa economizar recursos que são escassos, ainda mais em época de crise.

Mas não é só isso. O projeto previa que as escolas fossem separadas em três ciclos, de acordo com a faixa etária de cada série. O que isso poderia melhorar a educação?

O primeiro ganho seria a economia de recursos públicos. Por exemplo: ao invés de construir um parquinho para cada escola, com a separação em ciclos, os parquinhos só seriam necessários para as unidades do ciclo 1. O mesmo raciocínio se aplica a outras áreas como banheiros, laboratórios, bibliotecas, refeitórios, os quais exigem personalizações específicas para cada faixa etária.

Do ponto de vista da qualidade de ensino, pesquisas mostram que os alunos de escolas de ciclo único tem um rendimento 15% superior às de ciclo misto, além da vantagem de separar os pequenos das eventuais más influências dos maiores. Do ponto de vista do professor, numa mesma unidade ele poderia concentrar toda sua carga horária, evitando deslocamentos desnecessários. Do ponto de vista administrativo, o governo do Estado aproveitaria as escolas fechadas para construir creches, como foi prometido. Na pior das hipóteses, o governo ficaria com uma sobra de infra-estrutura que poderia ser usada para outras áreas da administração pública como postos médicos, por exemplo, ou até mesmo para futuras expansões de unidades de ensino, caso a procura aumentasse no futuro.

Claro que do ponto de vista do aluno que está acostumado com a escola ao lado de sua casa pode ser um desconforto ter que andar um pouco mais. No entanto, será que este ponto negativo justifica toda a histeria criada em torno do caso?

Claro que não. Assim como em junho de 2013, já está provado que a esquerda tentou usar os estudantes como massa de manobra para desgastar o governo tucano de São Paulo. E a prova definitiva veio com a negativa dos “líderes” do movimento em parar com as ocupações mesmo depois que o governo anunciou a suspensão do projeto.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil?

Tudo. Este é apenas um exemplo do que acontece em cada esfera da administração pública dominadas por minorias histéricas que usam o discurso fácil dos tais “movimentos sociais” contra o tal “sistema” ou contra governos supostamente de direita.

Para estes histéricos, dinheiro nasce em árvore. Tudo é uma questão de “mais investimento”, esquecendo-se convenientemente que a otimização de recursos públicos é também uma forma de aumentar a capacidade de investimento do Estado que eles tanto idolatram, mas que, na prática, terminam por inviabilizá-lo com demandas cada vez mais crescentes. Que o diga o governo do PT. Sem reformas, sem dinheiro, sem nenhuma perspectiva a não ser a manutenção do poder, mesmo que para isso tenha que recorrer às mais desmoralizadas narrativas.

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10 Responses to Reestruturação do ensino em SP: uma lição para o Brasil

  1. Antonio Rolim Rosa says:

    Curioso não ter aparecido sequer uma faixa condenando o corte de 10 bilhões de reais que o governo federal fez na educação.

  2. Não há nada de histérico na sociedade dizer aos seus governantes quais as políticas que ela quer implantada! Obviamente o governo não pode receber quem lhe outorga o poder com a sua força repressiva, nesse diapasão ganha espaço que é ou foi preparado para se aproveitar politicamente das fragilidades e incompetências do governo Alckmin, ora se ele não foi competente ou foi arrogante demais para discutir a temática junto a sociedade, que é pra quem ele trabalha, pq e quais as chances de sua política para o setor estar certa? Pq tantos alunos, país e professores se indignaram tanto com essa política? Vale lembrar que não existe agente social mais indicado para desenhar e gerir uma política dessa natureza que os próprios professores e não existe outros agentes mais indicados para avaliar essa política do que seu usuário final, nesse caso o aluno!

    • Amilton Aquino says:

      De fato não há nada demais a sociedade mostrar suas demandas, desde que tenha argumentos racionais para elas. Exigir é muito fácil. O difícil é ter dinheiro em caixa para tais demandas. Considerando que tal dinheiro vem dos próprios cidadãos, o mínimo, portanto, que se espera de tais protestantes é que estejam cientes que suas demandas podem agravar ainda mais o que querem melhorar. Neste caso específico de SP, está claro que o projeto contribui para desafogar os cofres públicos, o que deveria ser interesse da população. No entanto, esta mentalidade histérica esquerdoide impede o debate racional, a necessidade de reformas estruturais que o país clama em todos os setores. O que sobra é esta baderna que vemos agora cujos propósitos estão agora escancarados.

    • Renanvzd says:

      Tb acho que não existe agente mais indicado pra cuidar da gestão da educação do que professores. Pena que a Dilma tb não pensa assim e tirou do cargo com apenas 5 meses o respeitadíssimo professor Renato Janine pra colocar nada menos que o Aloizio Mercadante.
      No final das contas se faz mais tumulto por alguém que tenta mudar e melhorar a educação diante da evidente falência dessa área do que por um fato que nem esse do Mercadante que demonstra o menosprezo e o pouco caso que a Dilma trata nossa educação.

      Mais um excelente texto Amilton, parabéns!

  3. ndvo says:

    Um passatempo interessante é ler as notícias de outros lugares. Esta questão das escolas em São Paulo soa completamente ridícula para quem está distante. Alunos fechando ruas contra a reestruturação do ensino enquanto cantores fazem shows dentro de escolas fechadas.

    É ridículo.
    Simplesmente ridículo.

    Para quem está em São Paulo, imagino, a questão já tomou proporções tão grandes e foi apresentada tantas vezes na imprensa que já não deve mais soar tão estranha. Estudantes fechando as ruas deve ter se tornado algo tão normal quanto é, aqui em Brasília, que sindicalistas fechem algumas faixas da esplanada dos ministérios. É parte do dia-a-dia.

    O tema da reestruturação do ensino, importante que seja, não tem rigorosamente nada a ganhar com protestos nas ruas. A desproporção é comparável à questão do uso da bandeira dos estados confederados nos EUA. Seja qual for a importância da questão, a escala que tomou é completamente desproporcional.

    Não sei se o governo de São Paulo tem razão (o que é improvável, já que governos não costumam ter razão) mas não há qualquer dúvida de que a reação, fechando vias, invadindo escolas, visa algo completamente distinto do que os manifestantes alegam. Deve ter um quê de farra, um quê de diversão e muito, muito mesmo, de massa de manobra.

    • Amilton Aquino says:

      Pois é, Nelson. E agora a coisa ficou realmente escancarada, pois estamos caminhando para uma semana depois da revogação do decreto e ainda assim os “revolucionários” continuam “na luta”.