Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Como continuar sendo petista?

tati_bernardiO título do artigo tomei emprestado da colunista da Folha de São Paulo, Tati Bernadi, petista desde criancinha até esta semana quando, finalmente, jogou a toalha ao perceber que não tinha mais argumentos para continuar defendendo o partido (ver aqui). Aliás, ela não foi a única a surpreender nesta semana. O Juca Kfouri reconheceu publicamente que Zé Dirceu é corrupto no artigo “Por que eles não param?” . Ooooooh!

Claro que isso não significa ainda que ele tenha virado coxinha, mas já é um primeiro passo. Embora tenha jogado a toalha quanto ao Dirceu, lá pela metade do artigo ele faz o seguinte questionamento: “Não dava para ter parado antes de ficar evidente que os meios eram ilícitos e tornar as punições inevitáveis?”

Sim. Ele disse isso. Ou seja, se Dirceu tivesse parado de se corromper depois que foi preso pela primeira vez, tudo bem.

Os casos de Tati Bernadi e Juca Kfouri são emblemáticos, pois eles sintetizam os dois principais argumentos que ainda tentam “justificar” alguém continuar sendo petista. No caso da Tati, ela revela que todas as vezes que lhe faltavam argumentos, procurava enganar a si mesma com o mote “mas tanto foi feito pelos pobres”. Compreendo, Tati. Passei pelo mesmo dilema, só que há quase uma década. Apesar do atraso, antes tarde do que nunca. Bem vinda ao clube da chamada “imprensa golpista”.

Brincadeiras a parte, chega a ser patológico o fato de que uma jornalista de um dos maiores jornais do país não consiga perceber que os milhões que ascenderam no Brasil na década passada são proporcionais aos milhões que ascenderam em todo mundo decorrente do deslocamento do eixo de desenvolvimento da economia dos países ricos para os emergentes (ver aqui), combinado, claro, a uma boa dose do crédito que agora cobra a fatura.  Acreditar que Lula foi responsável por tirar 40 milhões da pobreza, portanto, é o mesmo que acreditar que Lula mudou o mundo (e não o contrário). Será que Lula poderia comemorar o inflacionado número de “40 milhões de ex pobres” se tivesse governado na década atual, por exemplo?

Claro que não. E a prova disso é que, apesar dos esforços da Dilma em intensificar as tais “políticas sociais” do PT, o número de pobres voltou a aumentar desde o ano passado, como revelou o próprio IBGE na época das eleições, apesar das pressões do governo para esconder os dados. Imaginem então os dados deste ano!

Portanto, o principal motivo da defesa tardia da Tati ao PT não passa de um mito. Nem mesmo o comemorado Bolsa Família foi mérito do PT, uma vez que a unificação dos programas sociais do governo FHC que originaram o bolsa família já havia sido iniciada em 2001 (ver aqui) .

No caso do Juca, o argumento mais importante para defender o PT é o relativismo moral que procura jogar todo mundo no mesmo saco, colocando um viés positivo para a “corrupção pela causa” do PT.

Para estas pessoas, portanto, não importam os fatos revelados pela operação Lava-jato. Elas simplesmente dão de ombros e simplificam tudo com o “argumento” de que o PT não inventou a corrupção, apesar dos próprios delatores afirmarem categoricamente que a corrupção institucionalizada, com o aval do partido do poder, com definição de percentuais aos partidos comparsas, ter começado em 2003. Ou seja, já no primeiro ano do governo Lula. E olha que tais delatores foram todos cúmplices do PT, o que naturalmente coloca em dúvida se estão falando realmente toda a verdade ou apenas meias verdades.

Aliás, segundo um dos fundadores do PT, o Cesar Benjamin, a corrupção institucionalizada no partido começou assim que o partido conquistou as primeiras prefeituras no interior de São Paulo (ver aqui).  Recentemente, lamentando a morte do petista, Antônio Neiva, Benjamin relembrou o dia em que este se interpôs entre ele os “capangas do Dirceu” (expressão dele) que o tiraram da tribuna à força de um congresso nacional do PT, simplesmente porque o Dirceu achou que ele iria abrir o bico e denunciar o esquema de corrupção que já se desenrolava na primeira metade da década de 90, o mesmo que culminou anos depois na morte do prefeito Celso Daniel e mais sete pessoas ligadas ao caso. Detalhe: um ano antes da morte de Celso Daniel outro prefeito do PT, na mesma região, foi assassinado: o Toninho do PT. Coincidência? Não para a família do Celso Daniel que teve que fugir do país para não ter o mesmo destino.

Durante muito tempo a militância petista (e a imprensa) fez vistas grossas a este caso escabroso. Mas aos poucos a verdade vem vindo à tona. Primeiro em 2005, com a revelações de trechos de gravações telefônicas entre o braço direito de Lula, Gilberto Carvalho, e o principal suspeito do assassinato, Sérgio Sombra, combinando táticas de defesa, inclusive a intenção de desqualificar a investigação (ver aqui). Em outra gravação, o deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, também em conversa com Gilberto Carvalho, demonstrava sua preocupação com o depoimento de um dos irmãos do Celso Daniel que hoje é um dos ex petistas que acusam o partido pelo assassinato do prefeito.

Aliás, não só ele, como também o ex-delegado Tuma Junior, o juiz João Carlos da Rocha Mattos e empresários extorquidos pelo esquema, como, por exemplo, o pai da hoje deputada Mara Gabrilli (ver aqui).

No pouco que sobrou das horas e horas de gravações consideradas ilegais e que foram destruídas, pelo menos outros cinco trechos altamente comprometedores apontam para a mesma direção: o PT sempre esteve mais interessado em abafar as investigações do caso Celso Daniel do que de fato encontrar os culpados por tal atrocidade  (ver aqui).  Em nenhum trecho das conversas ninguém (nem mesmo a viúva) demostra qualquer pesar com a morte do antigo companheiro, apenas preocupação com a versão que irão passar para a imprensa, como sempre.

Mais recentemente, ao ser condenado a 37 anos de prisão no esquema do Mensalão, Marcos Valério, numa tentativa desesperada de reduzir sua pena através de uma delação premiada falou da chantagem do empresário Ronan Maria Pinto que ameaçava envolver Lula no caso Celso Daniel. Na época o PT ironizou a denúncia, como sempre, desqualificando o antigo comparsa do mensalão. Em meados de 2014, no entanto, a PF apreendeu um documento do doleiro Youssef referente a um empréstimo de R$ 6 milhões ao suposto chantagista Ronan Maria Pinto, conforme descrito por Valério (ver aqui).

Em julho de 2015, outro relato de Marcos Valério veio a ser confirmada pela PF, a existência de uma conta na Suíça que “movimentou 7 milhões de reais e envolvia o próprio Lula, Antonio Palocci e Miguel Horta e Costa, da Portugal Telecom” (ver aqui). Detalhe: o Miguel Horta e Costa já está preso em Portugal por corrupção no mesmo caso que envolve Lula, oficialmente investigado naquele país (ver aqui).

Por tudo que já veio à tona sobre o caso Celso Daniel, no mínimo a chegada ao poder do PT já veio manchada de sangue. Se isto não é suficiente para colocar uma pulga atrás da orelha dos abnegados que continuam firmes “na luta” não sei mais o que será necessário para tirá-los do estado hipnótico em que se encontram.

Ao PT resta agora apelar para o vitimismo. O patético caso da bomba caseira jogada na porta da garagem do Instituto Lula, tratado pelo segmento da imprensa aliada ao PT como um “atentado político”, demostra o desespero com a atual situação.  Para manter o caso no noticiário, o PT chegou a organizar um ato de apoio ao Instituto Lula, com direito inclusive a Lula jogando flores nos manifestantes que gritavam seu nome. Que meigo…

O mais irônico da situação é que o próprio PT que passou toda sua existência pregando o ódio a adversários, apostando na política do “nós contra eles”, agora tem a cara de pau de posar de vítima do ódio que cultivou, mesmo tendo como oposição um partido que, apesar de toda a crise moral, política e econômica que o PT jogou nosso país, apesar de ter sido vítima de todas as campanhas de difamação,  de um tentativa de impeachment, de dossiês comprovadamente falsos e manipulações da máquina pública de todo tipo, ainda se divide em apoiar ou não o impeachment.

Enfim, como a Tati reconheceu em seu artigo, “não se ‘cura’ com facilidade algo que se aprendeu a amar na infância”. Mas reconhecer-se doente é o primeiro passo para a cura de uma doença psicológica. Quem sabe os demais 8% que ainda apoiam o governo do PT deem o passo que a Tati e milhões de brasileiros (muitos fundadores do PT) já deram.

 

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