Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Dois pesos, duas medidas

capa-2397-originalVi agora a pouco a cara de pau do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em entrevista coletiva, batendo na mesa para afirmar e reafirmar a “falta de provas” contra Dilma. Para embasar sua “convicção”, o ministro, que se comporta mais como advogado do governo do que propriamente como Ministro da Justiça, recorre aos pareceres do procurador Rodrigo Janot e do ministro do STF Teori Zavascki como “provas inequívocas” da inocência de Dilma, simplesmente pelo fato de ambos considerarem insuficientes os indícios contra a presidente.

Mas será que eles estão certos? Quais são as referências à presidente nas delações premiadas?

Vejamos…

1) A primeira foi a reportada pela revista Veja às vésperas das eleições de 2014, segundo a qual o doleiro Youssef teria afirmado em depoimento ao juiz Sérgio Moro que Lula e Dilma sabiam sim do esquema de corrupção da Petrobrás. Na época, o PT conseguiu direito de resposta ao TRE e fez o maior estardalhaço nas redes sociais usando a decisão sobre o direito de resposta como a prova cabal de que a revista teria criado uma peça de ficção, chegando inclusive a usar tal exemplo para justificar seu projeto de “regulação” da mídia, já reprovado duas vezes pelo Congresso, e que voltou a tramitar mais uma vez já nos primeiros dias do segundo governo Dilma.

Sobre o assunto, escrevi o seguinte no artigo Nunca se mentiu tanto, de onde faço questão de transcrever um trecho sobre a polêmica travada na imprensa entre os colunistas Jânio de Freitas e Reinaldo Azevedo sobre a existência ou não do depoimento de Youssef que teria fundamentado a reportagem de Veja:

E como era de se esperar, dias depois o PT armou uma ofensiva para desqualificar a Veja e colocar em cheque a reportagem. O caso foi bem relatado pelo Reinaldo Azevedo (ver aqui), mas certamente muita gente engoliu a operação de contra informação montada pelo PT que ganhou as manchetes dos jornais de todo o Brasil, mostrando o advogado do doleiro Youssef negando que seu cliente teria dado um “depoimento de retificação” no dia 22, o que foi repercutido nas redes sociais e em boa parte da imprensa como se a revista Veja tivesse inventado tal depoimento.

No entanto, em nenhum momento a revista se referiu ao tal depoimento do dia 22, que de fato não existiu. Este surgiu do nada em uma nota não assinada no jornal O Globo que também foi desmentida pelo próprio jornal no dia seguinte. Ou seja, alguém com um perfil ideológico claramente alinhado ao PT plantou uma notícia falsa no O Globo, com base nela interrogaram o advogado do doleiro e este simplesmente negou que o tal depoimento teria ocorrido, como era de se esperar. Pronto! Foi o suficiente para que a Veja fosse “desmascarada”, segundo os critérios petistas.

Portanto, agora que as transcrições das delações foram liberadas e está provada a existência do depoimento que gerou a polêmica reportagem de Veja, tal episódio mostra também a capacidade da rede de contra-informação do PT, capaz não apenas de plantar uma notícia falsa em um grande jornal, como também mobilizar grandes colunistas para repercuti-las.

É importante ressaltar que Youssef deixa claro que toda a cúpula do governo sabia do esquema. Segundo o relatório da PF, “o declarante gostaria de ressaltar que tanto a presidência da Petrobrás, quanto o Palácio do Planalto tinham conhecimento da estrutura que envolvia a distribuição e o repasse de comissões no âmbito da estatal”. Indagado a citar nomes, o doleiro listou Lula, Dilma, Gilberto Carvalho, Gleisi Hoffmann, Antônio Palloci, José Dirceu, Ideli Salvatti e Édison Lobão (ver aqui). Cabe ainda ressaltar que tal depoimento, como a comprovação do repasse de R$ 1 milhão para Gleisi Hoffmann, serviram como base para investigação da senadora. No entanto, a mesma citação não serviu para Dilma, e muito menos para Lula. Por que será?

2) O segundo depoimento que faz referência a Dilma Roussef é do ex-diretor, amigo de Lula e Dilma, Paulo Roberto Costa, que afirmou ter repassado R$ 2 milhões da cota do PP para a campanha de Dilma Roussef, através de Antônio Pallocci e do doleiro Youssef (ver aqui) .

Embora a presidente não possa ser investigada por fatos ocorridos antes de chegar à presidência, o fato é que o esquema do Petrolão continuou em sua gestão, inclusive tendo financiado a campanha também de 2014, como relata o dono da UTC, Ricardo Pessoa, cuja solicitação de delação premiada foi negada recentemente, vale salientar (ver aqui).

 

Somado a tudo isso, tem ainda o email que Paulo Roberto Costa enviou para Dilma Roussef, ainda em 2019, solicitando uma “solução política” para evitar a paralisia das obras superfaturadas que o TCU tinha apontado nos últimos três anos (ver aqui) e o relato de Venina da Fonseca que, ao alertar Paulo Roberto Costa sobre a corrupção na Petrobrás, teria ouvido como resposta a ameaça de que todos poderiam cair, apontando para o retrato do então presidente Lula na parede.

Ora se todos estes “indícios” (inclusive os depósitos em contas do PT no exterior) não são pelo menos suficientes para abrir um processo de investigação contra Dilma ou Lula, como justificar então a indicação do senador Antônio Anastasia, do PSDB, incluído na lista do Janot, apenas por ter sua foto parecida com alguém que um policial diz ter distribuído propina (ver aqui).

Mas como é bobinho este policial! Como alguém consegue enviar uma mala com R$ 1 milhão para uma figura pública como o ex-governador de Minas Gerais, Atônio Anastasia, e ainda assim ter que ver uma foto para então “reconhecê-lo”? Ou seja, para Anastasia, uma simples menção de alguém claramente confuso foi suficiente para indiciamento. Para Lula e Dilma…

Portanto, a conclusão óbvia que podemos chegar disso tudo é que tanto Janot quanto Teori e, obviamente, o ministro Cardozo agiram sim politicamente para livrar a cara de Dilma e de Lula. Isto joga ainda mais luz sobre toda a movimentação do ministro nos últimos dias, seja nas constantes entrevistas, seja nas reuniões de bastidores com advogados das empreiteiras ou em reuniões para lá de suspeitas com Rodrigo Janot.

Em meio a toda esta manobra, fica clara também a estratégia de arquivar o pedido de inquérito sobre Aécio Neves, o qual soa como uma forma de “compensação” para justificar a não inclusão do nomes de Dilma e Lula na lista.

A citação sobre o Aécio é também no mínimo estranha, pois se refere a um caso alheio a Petrobrás, a tal lista de Furnas, que desde o estouro do Mensalão é usada pelo PT para atingir o PSDB nas redes sociais, mas que nunca é levada adiante, justamente por envolver também políticos do PT.

Ora, que se investiguem todos os citados. Se o PT, que esteve todo estes anos no poder e se gaba de “investigar”, por que nunca mergulhou de fato neste e em outros casos que costuma apontar para o PSDB?

A conclusão é simples. O PT não apenas chegou ao poder corrompido, como institucionalizou a corrupção, transformando-a em um método de manutenção do poder, chegando ao cúmulo de definir percentuais de propinas regulares a serem distribuídos entre os partidos da base aliada, como já está provado no caso do Petrolão, do Mensalão e do caso de extorsão de empresários por prefeituras do PT que levou a morte dos ex-prefeitos Celso Daniel e Toninho do PT, além de mais seis pessoas ligadas ao caso (ver aqui).

Mas antes de jogarmos todos no mesmo saco, como está clara a estratégia do PT, convém sim ver o grau de culpa de cada um dos acusados, pois entre o ladrão de galinha e um serial killer existe sim uma imensa escala de iniquidades que deve sim ser pesada, principalmente se temos que nos deparar com o dilema de escolher entre dois culpados para nos governar.

 

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