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Três possíveis cenários para um governo que já começa velho

dilma_posseO segundo governo Dilma começa com a mesma cara do primeiro: desastrado. Um dia após o novo ministro do Planejamento anunciar que pretendia mudar a regra de reajuste do salário mínimo, eis que Dilma reaparece, com a simpatia que lhe é peculiar, cobrando que o ministro volte atrás na afirmação (ver aqui). Ou seja, é um governo que continua na sua linha de dar uma no cravo e outra na ferradura, o que só alimenta as incertezas e o pessimismo do mercado.

Se a Dilma chegou a surpreender positivamente os agentes econômicos na última semana de 2014, permitindo as primeiras medidas impopulares que fizeram a vaca da campanha da Dilma tossir, eis que agora ela coloca seu ministro do Planejamento numa saia justa já no seu primeiro pronunciamento.

Com tal atitude, Dilma pode até ficar bem na fita com seus eleitores mais à esquerda, mas reforça o principal temor do mercado: de que ela continue sendo ela mesma. Os primeiros indícios de que ela não aprendeu nenhuma lição do primeiro mandato apareceram já no seu discurso de posse, com excessos de autoelogios e sem nenhuma autocrítica. E não por acaso, a bolsa despencou 3% no primeiro dia útil do ano.

Indiferente à piora de todos os indicadores econômicos, estagnação dos indicadores sociais e até a piora de alguns como, por exemplo, o aumento de indigentes que cresceu de 10,08 milhões, em 2012, para 10,45 milhões em 2013 (ver aqui) a presidente considera cumprida a meta do seu primeiro mandato de “a erradicação da pobreza extrema”, como se os mais de dez milhões de indigentes não existissem. E olha que os dados do desastroso ano de 2014 nem foram computados nesta última pesquisa do IBGE…

Mas o PT segue sendo o PT. A narrativa construída com um marketing mentiroso e populista vai se sobrepondo a realidade. Se o governo Lula foi “competente” em atribuir a si próprio todos os méritos do crescimento da economia turbinada pelo cenário externo favorável, no governo Dilma, toda a culpa pelos resultados negativos é atribuída à piora do cenário externo, mesmo que a média de crescimento do primeiro mandato de Dilma, na casa de 1,7% (se confirmado o PIB zero para 2014) fique na metade da média da América Latina (3,4%), pouco mais da metade da média mundial (3,2%) e a 1/3 da média dos emergentes e pobres (5,2%).

Também não por acaso o Brasil vai cair para a 8ª posição no ranking das maiores economias do mundo em 2015, perdendo posição para a Índia, como eu e outras pessoas afirmamos aqui. Só para lembrar, o ministro Mantega, no primeiro ano de Dilma, previu que o Brasil seria a quinta maior economia do mundo já em 2014 (ver aqui). Não que eu considere isso grande coisa para a Índia, afinal o país que tem a segunda maior população do planeta tem obrigação de estar entre as maiores economias do mundo. Basta fazer seu papel de emergente, aproveitando suas vantagens competitivas enquanto as tem, e crescer mais rápido que as economias avançadas com populações estagnadas, como tem feito. Da mesma forma o Brasil que, além de ter a quinta maior população do mundo, tem também um território continental, conseguiu galgar algumas posições nos anos áureos da década passada quando, pela primeira vez na história, o conjunto do PIB dos países emergentes e pobres ultrapassou o conjunto do PIB das economias avançadas. Ou seja, o mundo puxou o Brasil. E agora, nem mesmo as vantagens competitivas de emergente conseguem alavancar nosso crescimento mais alinhado com as estagnadas economias europeias que com os emergentes de fato.

Faço este registro apenas para lembrar que quando o PIB do Brasil começou a ultrapassar alguns europeus o PT fez o maior estardalhaço, como se o nosso país tivesse entrado no primeiro mundo, mesmo tendo uma renda per capta 50% inferior a de Botswana, país africano que nas últimas décadas teve um enorme progresso graças ao liberalismo econômico (ver aqui), a exemplo dos nossos vizinhos Peru e Colômbia, que com uma pequena dose de liberalismo conseguiram se desviar do populismo chavista que tem arrastado boa parte da América Latina para o abismo

Feitas estas divagações, para mostrar mais uma vez a distância entre a narrativa petista e a realidade, vamos então aos três possíveis cenários para o segundo governo Dilma.

  • Cenário 1: o pior possível
    Este é o cenário trabalhado pela consultoria Empiricus na sua tese “O fim do Brasil” (ver aqui). Infelizmente, meses depois de lançada a tese, muitos dos seus pressupostos já foram confirmados e até ultrapassados pela realidade. Além da piora rápida dos indicadores econômicos, principalmente após as eleições, o segundo governo Dilma começa com mais quatro grandes nuvens negras: 1) os desdobramentos da crise do Petrolão; 2) o risco de apagão; 3) o risco de perda do grau de investimento; e 4) a subida dos juros norte-americanos que provocaria uma fuga de dólares do país. Esta seria a chamada “tempestade perfeita” que poderia piorar muito mais rapidamente os já declinantes indicadores econômicos. Para completar este quadro, recentemente veio a público a dívida de empresas investigadas na operação Lava-jato com os bancos públicos e privados, algo em torno de R$ 130 bilhões, valor suficiente para colocar sob suspeita alguns bancos em  um quadro de crise aguda (ver aqui). É o pior cenário que pode acontecer numa crise econômica. As pessoas correm aos bancos para sacar suas economias agravando mais a crise e provocando um efeito dominó de quebra de bancos.Também no primeiro dia útil do ano, um novo complicador para o segundo mandato: Dilma começa com um rombo de restos a pagar de R$ 245 bilhões, mas que o dobro já deixado por Lula (ver aqui).Outros complicadores são as possíveis CPIs do BNDES e do setor elétrico, que podem trazer à tona novos escândalos até maiores que os do Petrolão.Somado a tudo isso, tem o risco de impeachment, uma vez que já está comprovado que o governo foi comunicado formalmente e informalmente sobre as “irregularidades” na Petrobrás desde 2008 e ainda assim não tomou as providências necessárias não apenas para estancar o esquema de corrupção, como também para punir os responsáveis. Por que será?
  • Cenário 2: o intermediário
    Não acontece a “tempestade perfeita” com os quatro fatores principais citados acima, mas apenas a combinação de um dois, o que, convenhamos, é mais provável. Este é o cenário apostado pelo próprio ministro da Fazenda Joaquim Levy que já sinalizou que não vislumbra crescimento para os próximos dois próximos anos, cuja prioridade é o ajuste nas contas públicas (ver aqui) .

 

  • Cenário 3: o otimista
    As chuvas caem acima da média, o apagão não acontece, os EUA cedem às pressões externas para não aumentarem os juros, o Brasil não perde o grau de investimento, a crise do Petrolão é contornada, as novas CPIs não dão em nada, os bancos não entram em crise. Neste cenário, as ações da Petrobrás, que estão muito baixas, entrariam em fase de ascensão e o Joaquim Levy conseguiria reverter o clima de pessimismo que trava os investimentos já no primeiro ano.

 

Considerando que cada cenário tem 33% de chances de ocorrer, o PT teria então 66% de chances de escapar do fiasco total que seria o primeiro cenário. Em ambos os casos (o segundo e o terceiro cenário), o PT terá tempo suficiente para divulgar sua narrativa da realidade e recuperar popularidade para chegar ainda com força à eleição de 2018.

No cenário intermediário, após a pior fase do ajuste, Dilma pode trocar a equipe econômica por uma mais alinhada com a heterodoxia que ela acredita, usando sua militância para divulgar a narrativa de que os “neoliberais” da equipe de Levy foram os responsáveis pelo arrocho e que, por isso, terão sido demitidos. A contradição da escalação dos neoliberais seria explicada então apenas como uma concessão ao mercado para garantir a “governabilidade”. Não custa lembrar que o PT já fez isso no governo Lula, quando a equipe que elogiava o trabalho feito por FHC foi substituída pela equipe de Mantega, com o argumento de que havia chegado a hora do país acelerar o crescimento!

Se no cenário intermediário, o mais provável, o PT tem ótimas chances de reverter o quadro desfavorável, o que dizer então do cenário otimista?

Enfim, tenho sérios motivos para desanimar quanto ao futuro do meu país, refém de um populismo que resiste à crises econômicas e aos escândalos mais escabrosos da nossa história. E para confirmar mais uma previsão nossa e de tantos outros que alertam que estamos trilhando no rumo do bolivarianismo, o governo do PT já no primeiro dia útil do segundo mandato dá mais um passo na mesma direção com o anúncio oficial da sua intenção de “regulação” da mídia (ver aqui).

Diante de um futuro tão desalentador, aconselho a todos a reduzirem ao máximo os seus gastos, trabalharem mais e pouparem o máximo possível. É isto que estou fazendo, motivo pelo qual tenho reduzido meu tempo dedicado ao blog. Continuarei por aqui esporadicamente, apenas cumprindo meu papel cívico de alertar outras pessoas sobre os rumos perigosos que temos trilhado.

E para os petistas que torcem o nariz para o meu texto, convido-os a revisar meus artigos desde o início do blog. Ao contrário do governo que errou todas as previsões, acertei quase tudo. Só errei quando dei um crédito a Dilma nos primeiros meses do seu governo.

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6 Responses to Três possíveis cenários para um governo que já começa velho

  1. Filipe Santos says:

    Muito bom! Mas não acho que a chance é de 33% para cada um. Isso porque o que tem sido visto é a concretização do pior cenário.

    • Amilton Aquino says:

      Sim, Felipe. Fiz uma simplificação, mas também tenho a mesma sensação. As coisas estão piorando muito rapidamente. O contraponto é o Levy. Acredito que com as medidas que serão tomadas, o processo de piora pode diminuir ou estacionar. Isso se a Dilma não o desautorizar como fez agora com o Barbosa. Veremos!

  2. Luiz Felipe says:

    Olá!!!

    Eu particularmente tenho um 4º cenário e não acho qeu seria improvável que isso aconteça:

    Guerra civil ( comunistas e estatistas vs resto da população, os ditos reacionários, malvados e opressores).

    Caso o dólar vier a colapsar junto a nossa crise financeira, que por bem ou mal virá, provavelmente isso ocorrerá, uma vez que a mídia não fala nisso pois ao meu ver é uma fumaça em frente a verdade que poderá se advir finalmente (ufa!) no Brasil e fazendo de uma vez a matrix sumir (ao menos na parte que corresponde ao país).

    O que acham?!

    Tudo de bom!!!

    • Amilton Aquino says:

      Não acho que chegue a tanto, Luiz, ainda que aponte aqui a escalada autoritária a moda gramsciana abraçada pelo PT. Mas não descarto que, como uma crise profunda, o separatismo do sul e sudeste do resto do Brasil venha a eclodir. Já existe um movimento na região sul chamado “O Sul é meu país”, com mais de 5 milhões de simpatizantes.

  3. Filipe Santos says:

    Amilton, Graças a Deus que Dilma venceu essas eleições! Agora a bomba explodirá na mão dela, e não na do Aécio. Ela levará a culpa por seus atos e não nenhuma herança maldita. Li o novo documento do Empiricus, que mostra a piora dos indicadores. Vejo o pior cenário de aproximando. A crise agora atingiu a Eletrobrás, os fornecedores da Petrobrás e começou a fuga de dólares. O negócio agora é fazer poupança.

    • Amilton Aquino says:

      Pois é. Este é o lado bom da vitória da Dilma. Poderia ser uma experiência pedagógica para o povo brasileiro. Infelizmente, a retórica petista pode ainda sabotar este aprendizado. Não se surpreenda se Lula virar oposição e jogar a Dilma como bode expiatório por “não ter ouvido seus conselhos”.