Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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A responsabilidade do PT na recessão atual e suas lições para o futuro

mantega2E como previsto pelos economistas “chatos”, o Brasil entrou oficialmente em recessão. Surpresa mesmo só com a velocidade que tal recessão chegou, afinal nem mesmo os mais pessimistas acreditavam que tal recessão pudesse chegar em pleno ano eleitoral, quando normalmente os governos, e em especial o PT, abrem todas as torneiras de estímulos artificiais para tentar dar a impressão de que as coisas estão melhores (ou menos ruins) do que realmente estão.

O governo, claro, se defende das críticas jogando a culpa no cenário internacional, apesar do Brasil crescer hoje metade da média mundial e a 1/3 da média dos emergentes e pobres. Incrível como o governo do PT finalmente descobriu a influência do contexto internacional na nossa economia. Nos anos do boom econômico mundial da década passada, o contexto internacional favorável era sempre jogado para debaixo do tapete, afinal, segundo a retórica petista, tudo de bom que acontecia era obra do Lula. Contexto internacional desfavorável na era FHC? Que nada, “o Brasil vivia de joelhos ao FMI”, fuzilavam os petistas.  “Os números não mentem”, comparavam com ar triunfal os vários indicadores de ambos os governos para atestar a superioridade administrativa do PT.

Mas eis que agora os números passaram a mentir. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o Brasil não está em recessão!

Pois é, ele se superou mais uma vez. Depois de ter a cara de pau de, na semana passada, atribuir a indiscutível piora em todos os indicadores à tão badalada “copa das copas”, ele agora mergulha de vez na campanha presidencial, pregando o discurso do terror, insinuando que um eventual governo do PSDB iria trazer de volta o desemprego. Pois é, agora também é comum ministros da fazenda fazerem discursos eleitoreiros. Mais uma “contribuição” do PT a nossa democracia.

Mas afinal, como chegamos a tal ponto, depois de toda aquela euforia no final do governo Lula? Qual a parcela de responsabilidade do atual governo na atual recessão? Qual a responsabilidade do governo Lula?

Bom, antes de respondermos a tais perguntas, cabe uma distinção geral entre dois grandes grupos de economistas. Da mesma forma que existe um luta ideológica entre direita e esquerda, no campo econômico existe uma batalha entre economistas ortodoxos, os “chatos”, que estão sempre preocupados com o equilíbrio das finanças e insistem em chamar a atenção para o velho ditado que diz que “não existe almoço grátis”, e os heterodoxos, que acham que podem induzir o crescimento, moldando a economia via manipulação de variáveis macro e micro econômicas.

Não é preciso dizer que o segundo grupo é o que está à frente do governo petista. Depois de um primeiro governo ortodoxo, o governo do PT começou a enveredar pelo progressismo a partir do segundo mandato, principalmente a partir da chegada de Guido Mantega ao Ministério da Fazenda.

E como sempre acontece quando esta turma chega ao comando da economia, o aumento do intervencionismo estatal e do crédito fácil provoca uma sensação ilusória de progresso nos primeiros anos, o que os encoraja ainda mais a aprofundar suas políticas expansionistas.

O ápice do “progressismo” da equipe econômica cristalizou-se na instituição da chamada Nova Matriz Econômica, em 2012, a qual estaria fundamentada em um novo tripé econômico:  1) taxa de juros baixa; 2) consolidação fiscal amigável ao investimento; 3) taxa de câmbio competitiva.

Embora o governo não tenha afirmado categoricamente que a tal Nova Matriz Econômica eliminaria o antigo tripé herdado do governo FHC, ficava claro que seus fundamentos seriam “flexibilizados” pela simples observância dos adjetivos “baixa, “amigável” e “competitiva” usados em cada uma das novas metas. No minimo, o antigo tripé seria jogado para um segundo plano, uma vez que o novo tripé influenciava diretamente os seus fundamentos. E foi o que aconteceu. Só para lembrar, os três pilares da política econômica herdada do PSDB são: 1) regime de metas de inflação; 2) superávit primário; e 3) cambio flutuante.

Basta uma olhada rápida em cada um dos pontos do antigo e do novo tripé para ver que tratam dos mesmos temas, porém com enfoques antagônicos. Vejamos:

1) taxa de juros baixa (novo tripé) X regime de metas de inflação (antigo tripé)

Ora, se o governo coloca como meta principal baixar os juros, indiretamente ele está colocando em segundo plano o controle da inflação. Claro que existem divergências entre economistas quanto à eficácia do “remédio” juros no combate a inflação, mas o experimento do governo Dilma nesta área parecem dar a razão a estes. Vejamos.

Depois do governo forçar o BC a baixar os juros à casa dos 7,2%, a inflação entrou em trajetória ascendente, justamente no momento em que a economia diminuía seu ritmo de crescimento. Ora, em condições normais, sem os artificialismos incluídos pelo governo na economia, a diminuição do crescimento deveria forçar os preços para baixo e não para cima como aconteceu. Tal contradição foi prevista por Hayek há décadas atrás, quando ele ainda tentava demostrar os efeitos retardados das políticas expansionistas keynesianas, em moda desde a crise de 29.

Apesar dos keynesianos ainda não conseguirem enxergar, é obvio que tal inflação é decorrente da expansão da base monetária através dos vários artifícios governamentais como, por exemplo, o estímulo ao crédito. E foi o que a aconteceu.  Ou seja, ao mesmo tempo em que o governo aumentava os juros para desestimular o crédito, por outro, tentava estimular o consumo com medidas expansionistas. Algo semelhante a apagar uma fogueira com gasolina.

Mas voltando ao experimento do PT, do qual somos as cobaias, depois da forçação de barra para baixar os juros, o governo teve que voltar atrás, não apenas aumentando o que baixou, como ultrapassando em um ponto percentual o ponto de partida (hoje o juros estão na casa do 11%). E mesmo assim a inflação continua muito próxima ao teto da meta, sendo que a inflação de serviços e de alimentos já ultrapassou a casa dos 8,25%. O governo do PT não só não baixou as metas de inflação, como abandonou completamente o objetivo de perseguir o centro da meta que é de 4,5%.

Em resumo, fracassou “a taxa de juros baixa” do novo tripé, ao passo que a meta de inflação do antigo tripé foi “flexibilizada” para cima (para o teto da meta).

2) consolidação fiscal amigável ao investimento (novo tripé) X superávit primário (antigo tripé)

Para quem não sabe, o superávit primário é a economia que o governo deve fazer para abater a dívida pública. Nos últimos anos, o governo tem reduzido sistematicamente o percentual do superávit primário de 3,1% do PIB para 1,8% (oficialmente) e 0,9%, quando descontadas as receitas atípicas, como, por exemplo, leilões de concessões e atrasos de pagamento no final do ano (restos a pagar).  Segundo alguns economistas como Mansueto de Almeida, por exemplo, tal superávit hoje já estaria próximo de zero.

Acontece que a tal redução do superávit primário não veio acompanhada de um aumento correspondente no nível de investimentos, como era de se esperar com a tal “consolidação fiscal amigável ao investimento”.  Pelo contrário, diminuiu de 1,35% do PIB, em 2012, para 1,31%, em 2013, e segue em queda em 2014, recorrendo ainda mais a tal “contabilidade criativa” que agora recorre também a recursos do PSI com promessas de começar a restituí-los a partir de 2015. Ou seja, depois das eleições.

Em resumo, a tal “consolidação fiscal amigável ao investimento” do novo tripé fracassou, enquanto que o superávit primário do antigo tripé já não consegue mais abater a dívida pública, o que nos coloca sob o risco de sermos rebaixados mais uma vez pelas agências de risco, inclusive com a possibilidade da perda do status de Investment Grade.

3) taxa de câmbio competitiva (novo tripé) X câmbio flutuante (antigo tripé)

Este foi o ponto de maior “sucesso” da Nova Matriz Econômica. De 2012 até hoje, o preço do Real desvalorizou 35%, o que, teoricamente, beneficiou nossos exportadores que reclamavam do Real a U$ 1,65. A questão que fica é se tal desvalorização foi resultado das intervenções do governo nos leilões de dólares ou da percepção do mercado sobre a clara deterioração dos principais indicadores macroeconômicos que aconteceram quase que simultaneamente, entre os quais o déficit em conta que já se aproxima de 4% do PIB. Para quem é leigo em economia, toda vez que os indicadores econômicos pioram, o preço do dólar sobe e a moeda local desvaloriza. E foi o que aconteceu. Não foi mérito do governo e sim consequência da deterioração dos nossos indicadores. E, apesar do câmbio mais “competitivo”, a indústria continua em queda livre e nossa economia perdendo competitividade.

Em resumo, a tal taxa de câmbio competitiva do novo tripé não chegou a quebrar de vez o câmbio flutuante do antigo tripé e, por isso mesmo, foi a menos fracassada das três metas da tal Nova Matriz Econômica.

O fracasso é tão indiscutível que nem mesmo a equipe econômica quer falar da tal “nova matriz”. Também não por acaso, o governo do PT já admite mudanças na condução da economia num eventual segundo mandato de Dilma. A questão que fica é, até que ponto eles aprenderam a lição e se aproximaram dos economistas “chatos”?.  Será que os petistas finalmente aprenderam que ao manipular variáveis macroeconômicas, o governo só provoca novos desequilíbrios em outras variáveis, as quais exigirão ainda mais intervencionismo que, por sua vez, vão provocar ainda mais desenquilíbrios?

Creio que não. Enquanto os economistas progressistas não se convencerem de que a política fiscal frouxa do governo está na raiz de todos os desequilíbrios atuais, vai continuar remando na direção da Argentina e da Venezuela. Ninguém pode gastar mais do que recebe. Nem mesmo os governos. Simples assim.

O governo do PT além de gastar mais do que arrecada, continua criando novos gastos fixos. E o que acontece quando um governo precisa de um dinheiro que não dispõe: 1) emite títulos da dívida pública; ou 2) Emite moeda sem lastro. Ambas as alternativas jogam mais dinheiro no mercado do que a produção de riquezas real. Logo, se existe mais dinheiro para comprar uma mesma quantidade de mercadorias, o que acontece? Bingo! Qualquer criança que tenha assistido um episódio do Duck Tales onde o Professor Pardal inventa uma máquina de duplicar dinheiro sabe que tal ação provoca inflação (ver aqui).

Não é por acaso que muitos economistas “progressistas” hoje estão tão caladinhos. O problema é que explicar economia à população é uma tarefa árdua. Quase sempre, estas só se dão conta dos erros do governo quando começam a sentir na pele (ou no bolso) os efeitos catastróficos do intervencionismo da política na economia. Que 2015 será um ano difícil, não resta dúvidas. As questões que ficam são:

1) A quem caberá assumir o ônus de medidas impopulares para corrigir o populismo econômico do governo do PT?

2) Terá o novo governo a coragem necessária para fazer o ajuste fiscal necessário para recolocar o país nos trilhos?

3) A população será capaz de entender que o arrocho dos próximos anos será consequência do populismo econômico do PT?

Veremos. Por enquanto só me vem a mente uma frase de Lula no auge do seu populismo quando dizia em tom triunfal que “os próximos governos terão que fazer mais do que fizemos. Caso contrário o povo não vai aceitar”. Ou seja, o cara não só não aproveitou os bons ventos da economia da década passada para efetuar as reformas estruturais que hoje fazem falta, como esgotou boa parte das nossas fichas (crédito, por exemplo) para inflar artificialmente nosso crescimento, roubando potencial de crescimento do futuro para o seu governo, como também iludiu a população, fazendo-a acreditar que é possível manter um crescimento artificial indefinidamente.

Vai demorar muito tempo, mas aos poucos a herança maldita do populismo petista está ficando evidente para mais pessoas. Até lá, nosso maior desafio é mostrar aos mais leigos as relações de causa e efeito entre o populismo de hoje e as crises do amanhã.

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4 Responses to A responsabilidade do PT na recessão atual e suas lições para o futuro

  1. André Luiz says:

    Você leu as páginas amarelas da Veja desta semana? O presidente da Fiesp, Benjamim Steinbruch, o mesmo que disse que o governo Dilma sofria de excesso de pessimismo por parte dos críticos, há um tempo atrás, agora reforça o coro daqueles que criticam Dilma, e disse que só um louco investe no Brasil. Vai nesse linha de raciocínio que aos poucos a herança maldita do populismo petista está ficando mais evidente.
    O governo do PT administrou tão amadoramente a economia, tão mal, que o mercado está vendo como alívio a subida de Marina Silva nas pesquisas de intenção de votos. Mesmo ela sendo reconhecidamente uma não liberal.

    • Amilton Aquino says:

      Exato, André. Há alguns meses acompanhei a série de entrevistas com grandes economistas publicada pela folha. O que mais me chamou a atenção foi que economistas até então ferrenhos defensores do governo do PT apresentaram posturas mais críticas que de costume. E olha que as coisas hoje estão muito piores. Só não vê quem não quer.

  2. Pedro Mundim says:

    Bem observado: o fenômeno Marina reflete tão-somente um alívio generalizado, não só do mercado como dos anti-petistas em geral, por haver (finalmente!) surgido alguém capaz de fazer frente ao PT, ainda que essa pessoa seja uma quase nulidade. Isso é perigoso. Marina, agora, é como aquele surfista inexperiente que de repente se vê na crista de uma onda e nem sabe como foi parar lá…

    Um político vindo do nada só chega ao comando da nação em um desses dois casos: ou dispõe de uma sólida base partidária, ou dispõe de um extraordinário carisma que o possibilita reportar-se diretamente às massas. Marina não possui nem o primeiro, nem o segundo requisito. Um hipotético governo Marina será uma incógnita. Muito provavelmente ela se deixará manobrar, só não sabemos por quem. Eu comparo Marina a uma luva: oca por dentro, só uma casca feita de lugares-comuns ambientalistas, ela está só a espera de alguém que a coloque na mão. Ironicamente, é até possível que Marina acabe desempenhando o papel que Dilma não fez: ser a “faxineira” que vai colocar a casa em ordem após os anos de gastança, a fim de deixar tudo arrumadinho para a volta triunfal de Lula. Era o que deveria acontecer em 2014, mas as coisas não saíram como previsto. Mas pode acontecer em 2018: Marina será a “neoliberal” que vai tomar as medidas de austeridade, arcar com o inevitável ônus de impopularidade e depois sair de cena. O problema é que quem vai pegar o barco em 2018 pode não ser o PT, mas o PSol…

    • Amilton Aquino says:

      O PSOL felizmente ainda está muito distante, mas o Lula é um fantasma que temos que conviver, infelizmente.Vai demorar muito tempo para nos livrarmos deste câncer que é o PT e seus dissidentes.