Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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As previsões fracassadas do PT e a crise iminente

dilmaO governo Dilma começou no auge do lulismo, quando nosso PIB cresceu 7,5%, metade do recorde de 1973, mas ainda assim um crescimento considerável para os padrões atuais. O discurso triunfalista na campanha presidencial de 2010 falava de um “novo salto” do Brasil que nos levaria, na era Dilma, ao primeiro mundo.

Já nesta época muitos economistas faziam ressalvas ao nosso pibão, lembrando que parte deste crescimento era de recuperação da recessão do ano anterior e que, principalmente, tal PIB teria sido inflado artificialmente com um exagerado estímulo ao crédito e que, portanto, as “faturas” viriam nos anos seguintes, diminuindo assim nosso potencial de crescimento no novo governo.

Com sempre, qualquer crítico do PT recebe logo um rótulo e os tais economistas  foram classificados como “pessimistas”, “viúvas de FHC”, “urubólogos” ou simplesmente portadores da síndrome do complexo de vira-latas. Eu, como blogueiro independente, procurei sempre repercutir por aqui tais alertas, demostrando meu pessimismo em meio à euforia, criticando o fato de que a campanha presidencial foi transformada em um leilão de promessas de mais “programas sociais”, deixando de lado o debate econômico que revelaria a fragilidade e a insustentabilidade do crescimento artificial petista.

E por que a oposição não fez tais alertas? Porque já nesta época nos tornamos reféns do populismo lulista. A oposição não quis correr o risco de ser rotulada como “pessimista”, de se alinhar com os economistas “chatos” que defendem remédios amargos como cortes de gastos. Preferiu aderir ao oba-oba petista, inclusive chegando ao ápice do candidato da oposição se mostrar “amigo do Lula”! Deu no que deu. A oposição perdeu as eleições e, de quebra, perdeu a chance de relembrar, agora em 2014, os alertas que poderia ter feito nas eleições passadas, o que lhes daria um pouco mais de credibilidade hoje para criticar.

E eis que Dilma assumiu o governo. E qual foi sua primeira medida? O anúncio de um corte no orçamento de R$ 50 bilhões! Ué? Mas não estava tudo tão bem? Por que este “ajuste recessivo” em meio a toda aquela euforia?

Hoje sabemos que o “ajuste” não foi tão ajustado como prometido. Apesar disso e da sensível queda no crescimento no primeiro ano de governo (ainda assim o seu melhor resultado), o ministro até então autointitulado “levantador de PIBs”, Guido Mantega, prometia uma média de crescimento maior nos próximos anos, chegando a 4,5% em 2014!

E o que seu viu na prática? Uma desaceleração progressiva da economia, a ponto de hoje alguns economistas já considerarem a possibilidade de que 2014 termine com uma recessão, isto apesar do suposto acréscimo de 0,4% no PIB que seria proporcionado pela copa.  E aqui mais uma profecia petista fracassada, pois depois de todos estes anos falando do incremento na economia que a copa proporcionaria, eis que nesta semana o Guido Mantega veio a público explicar o encolhimento de 1,2% na nossa economia no segundo trimestre com os feriados da copa! Sim, ele teve a cara de pau de falar isso.

Ou seja, passada a euforia do final do governo Lula, nos acostumamos ao noticiário de constantes revisões para baixo das previsões do próprio governo. E não só as previsões são revisadas para baixo. As metas também têm sido reduzidas cada vez mais. O superávit primário é apenas um dos exemplos. Depois de várias manobras contábeis denunciadas pelo mercado para “fechar as contas”, o governo resolveu cortar pela metade a meta de superávit primário para 2014. E qual o resultado até aqui? Bom, até o mês de agosto, o governo conseguiu metade da meta já cortada pela metade. E como pretende conseguir o restante? Da mesma forma que mascarou os anos anteriores: recorrendo a receitas extraordinárias como leilões de concessões, reabertura do Refis ou, mais recentemente, forçando os bancos públicos a repassarem divididos à união.

E como consequência de todas estas barbeiragens econômicas, nos acostumamos também a ver os sucessivos recordes negativos. Notícias como “tal indicador teve o pior desempenho desde o ano tal” são cada vez mais corriqueiras. Nesta semana, por exemplo, um novo recorde negativo chegou ao melhor indicador do governo Dilma: o índice de desemprego. Segundo o Caged, a geração de empregos formais em julho foi a pior desde 1999 (ver aqui). E olha que 1999 foi o pior ano do governo FHC, quando a economia cresceu 0,2 % em meio a sequencia de quebras entre os países emergentes que nos colocou na condição de bola da vez.

Ora, se o índice de desemprego é o melhor indicador do governo Dilma, o que dizer então dos demais? Bom, sobre este assunto pretendo publicar até as eleições um post específico fazendo um balanço com base em um outro post que publiquei às vésperas das eleições de 2010 quando citei os principais desafios do atual governo (ver aqui) e o que aconteceu de fato. No ano passado já adiantei alguns dados nada animadores da nossa economia (ver aqui). De lá até aqui as coisas só pioraram como veremos mais adiante. Por enquanto, vamos apenas ressaltar que existem sérios questionamentos sobre o tal índice de “pleno emprego” tão alardeado pelo PT. Por exemplo, vc sabia que de cada 100 brasileiros em idade de trabalho só 53 trabalham? Pois é, os dados são do próprio IBGE. Então como é que o governo alardeia o tal “pleno emprego”? A explicação está aqui: http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/coluna/367223_DESEMPREGO+E+MANIPULACOES

Ou seja, nada neste governo é o que parece ser. Tudo é manipulado. Além da chamada “contabilidade criativa”, o governo está sempre mudando os termômetros. Foi assim com a metodologia de contabilidade da dívida, alterada em 2006; foi assim com o cálculo do superávit primário que passou a incorporar “receitas” antes nunca computadas; foi assim com os critérios para definir a “nova classe média” cuja renda per capta ultrapasse incríveis R$ 291,00; foi assim com o índice de desemprego como citamos acima e já se fala em alteração da metodologia do cálculo da inflação e do PIB, afinal para o governo do PT é mais fácil mudar o termômetro do que tratar da doença que causa a febre.

A desaceleração já é tão visível que o próprio Lula, o mistificador mó, ja admitiu recentemente que existe uma “crise de confiança” no Brasil que tem atrapalhado os investimentos. Portanto, a questão que tem que ser respondida é quem causou a tal crise de confiança?

A resposta da atual presidente ao repórter que questionou o porquê da nossa economia crescer tão pouco é conclusiva: “não sei”. E não sabe mesmo. Ela estudou economia pela teoria errada, a keynesiana, a teoria que colocou o Estado como indutor do crescimento.  E como é que o Estado “induz” tal desenvolvimento? Criando dívidas para conceder crédito subsidiado a megaempresários. O resultado está aí: mais ineficiência, mais dívidas, mais vulnerabilidade e menos potencial de crescimento no futuro e uma conta de subsídios a juros que hoje já supera os gastos com o Bolsa Família (R$ 20 bilhões ao ano), a chamada “Bolsa Empresário”.

Mas o governo não aprende nem com os erros dos outros (vide Argentina e Venezuela) nem com seus próprios erros. Vejamos mais um exemplo nesta mesma semana. O governo anunciou a redução do compulsório dos bancos para tentar estimulá-los a emprestar cerca de R$ 35 bilhões para tentar dar uma reanimada neste último trimestre (esta mesma medida já tinha sido anunciada há alguns meses atrás). Acontece que o governo aumentou os juros da Selic justamente para dar um freio no crédito e, consequentemente, na escalada na inflação.  Ou seja, o governo estimula os bancos a emprestar de um lado e, do outro, tenta desestimulá-los a emprestar com aumentos dos juros. O que sobra de mais esta barbeiragem econômica? Mais dívidas, mais calotes, mais pressão inflacionária, mais custo da dívida, aumento de risco e, por fim, recessão.

Apesar de keynesiana, Dilma é economista. Ela sabe que 2015 será ainda pior que 2014. Até mesmo economistas keynesianos que antes defendiam o governo como, por exemplo, Delfim Neto, Belluzzo e Nelson Barbosa hoje já mudaram de discurso. Portanto, o que o governo está tentando com mais esta injeção de crédito na economia é uma última cartada para tentar dar uma nova ilusão de melhora no período eleitoral e empurrar a bomba para 2015. Ou seja, repete o que Lula fez em 2010. Pensa mais nas eleições que no futuro do país. Acontece que em 2010 o governo ainda tinha fichas para queimar, hoje não mais.  A situação é semelhante ao bêbado que, ao invés de curtir sua ressaca para melhorar, decide beber ainda mais para evitar a ressaca (recessão). No dia seguinte a ressaca vai ser ainda pior, e ainda que ele tente encher a cara mais um vez, vai chegar um dia que vai morrer de vez. No caso de um país, não chega a tanto, mas os casos dos nossos vizinhos bolivarianos já dão uma ideia do que será esta ressaca se continuarmos na trilha do PT.

Resta então a Dilma apelar para duas desculpas esfarrapadas. A primeira é repetida desde os primeiros indicadores ruins do seu governo: a crise internacional. Acontece que já se passaram sete anos da crise, os EUA já crescem há 3,5%, os países europeus mais atingidos pela crise já estão em fase de recuperação, enquanto nós seguimos afundando. Não por acaso a cada ano do governo Dilma o Brasil é o penúltimo colocado de crescimento em toda a América Latina. Não por acaso, o Brasil que na era Lula crescia próximo à média da região, hoje cresce pouco mais da metade da média da região e do mundo e a pouco mais de 1/3 da média dos países emergentes e pobres. E olha que esta comparação foi feita levando em consideração que a média de crescimento do governo Dilma será de 2%, percentual este que deverá ser puxado ainda mais para baixo, caso se confirme a recessão já neste ano.

Mas o mais engraçado de tudo isso é que só agora o governo do PT descobriu a influência do contexto internacional na nossa economia! Durante os anos do boom do crescimento chinês na década passada que puxou (e ainda puxa) o crescimento dos emergentes exportadores de commodities (como nós), os petistas não queriam nem ouvir falar de dos tais “fatores externos”. Até hoje usam as mais desonestas retóricas para diminuir o governo FHC. Em um dos diversos sites oficiais de Lula, inaugurado recentemente, o governo do PT chegou ao cúmulo de dizer que triplicou o PIB entre 2003 e 2013, “esquecendo” de descontar, no entanto, a inflação do período. Pelos mesmos critérios, FHC teria então quadruplicado o PIB que pegou em R$ 360 bilhões e o entregou na casa dos R$ 1,5 trilhão. Mais uma vez, a verdade é o que menos importa. Mais importa a versão dos fatos do que os fatos em si.

Mas eis que o PT agora lança uma nova desculpa para a terceira pior média de crescimento da história do Brasil. Segundo o programa eleitoral do PT, o momento atual seria de “maturação dos investimentos” e que tais resultados seriam sentidos nos próximos anos. O “argumento” seria válido se víssemos no atual cenário medidas saneadoras dos gastos públicos, se tivéssemos uma redução real dos gastos com a dívida pública, se reformas estruturais estivessem sendo feitas, se nosso portos estivessem sendo modernizados, se nosso nível de poupança estivesse aumentando, se o nível de endividamento das famílias estivessem diminuindo, se nosso déficit em conta corrente estivesse diminuindo, etc, etc. Mas nada disso está acontecendo. O máximo que o governo pode contar para os próximos anos seria um aumento muito significativo da produção de petróleo, produção esta que ainda hoje não consegue suprir nem o nosso consumo interno, isto depois do Lulão bradar que o Brasil teria chegado a autossuficiência em petróleo. No mais, as demais obras que estão em andamento de vagar quase parando (algumas literalmente paradas) não são significativas ao ponto de mudar nosso panorama. Por outro lado, tal argumento traz embutida uma outra questão que tira mais uma máscara do governo do PT. Ora, ainda que fosse verdade que o governo atual está plantando para colher no futuro, por que então o governo atual não está colhendo o que o governo Lula deveria ter plantado?

A verdade é que não plantou. Apenas esgotou todas as nossas fichas. A Dilma sabe disso e ela mesma em uma das suas já corriqueiras panes em seus discursos improvisados chegou a afirmar que estava “sofrendo” por decisões tomadas no período Lula (ver aqui).

Enfim, qualquer que seja a desculpa, a certeza é que a continuar o rumo do governo Dilma o resultado será o mesmo que tivemos nestes últimos anos: a constante e ininterrupta piora de cada um dos nossos indicadores econômicos, até o estouro da ressaca final inadiável, quando não mais poderá recorrer a uma nova rodada álcool.

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3 Responses to As previsões fracassadas do PT e a crise iminente

  1. Sergio says:

    Parabéns!!!! Muito esclarecedor, como os demais posts!!!

  2. Luiz Novi says:

    Excelente artigo, Amilton.