Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Por que esquerdista torna-se direitista, mas nunca o contrário?

placa_esquerda_direitaO mesmo questionamento pode ser feito em outros níveis da disputa ideológica, como, por exemplo, por que milhões de militantes petistas migraram para o outro lado, mas nunca o contrário?

Pare um pouco para pensar e tente responder, honestamente, a este questionamento. Não estou falando do cidadão comum que acompanha a política vagamente pelas manchetes dos telejornais (e, portanto, muito mais suscetível a mudar de opinião de acordo com os ventos do momento), e sim de pessoas engajadas politicamente, muitas das quais dedicaram suas vidas às causas em que acreditavam.

Claro que em um universo de milhões de pessoas, sempre pode aparecer uma exceção (principalmente quando motivações financeiras entram em cena), mas, de um modo geral, não é o que acontece. Não existem antigos ícone do conservadorismo ou do liberalismo brasileiro ou mundial que tornaram-se socialistas convictos, por exemplo. No entanto, poderíamos citar milhares (talvez milhões) de grandes nomes da política em todo mundo que já foram algum dia socialistas convictos e hoje são seus ferrenhos críticos. Por que isso acontece? Será que existe um “complô” da direita mundial para cooptar esquerdistas? Serão todas estas pessoas “traidoras” da causa esquerdista? Ou será que estas pessoas foram convencidas pela realidade de que estavam equivocadas?

Pense mais um pouco. Imagine-se no lugar de alguém como David Horowitz, por exemplo, que nasceu em um lar de revolucionários comunistas, que teve seus pais perseguidos, que se tornou um dos pais da “nova esquerda” mundial, que proferiu centenas de discursos, palestras, participou de centenas de reuniões, que escreveu livros, que formou todo um círculo de amizades ao longo de sua vida ligadas ao movimento socialista. Agora imagine este cara renegar tudo isso, pedir para que esqueçam os livros que escreveu, que desconsiderem tudo que defendeu por toda a sua vida e se tornar um dos maiores ícones do conservadorismo mundial…

Tento provocar esta reflexão porque tenho sentido um grande desconforto ao reencontrar pessoas do meu passado de militante petista, ao ponto de hoje eu me esquivar de falar de qualquer assunto que tenha qualquer resquício de ligação à política nestes reencontros. E olha que nestas discussões, modéstia à parte, eu sempre levo a melhor, afinal estou em vantagem por conhecer os dois lados. Procuro guardar meus argumentos para pessoas desconhecidas, pois se a coisa ficar acirrada (o que não é muito raro de acontecer) não corro o risco de perder amizades.

É amigos, vivemos um clima cada vez mais acirrado, com patrulhamento ideológico de todos os lados. Que saudades tenho dos primeiros anos do governo Lula, quando o PT finalmente tinha dado uma demonstração de que tinha amadurecido politicamente ao renegar seu passado radical. Tempos em que a máxima crítica que a oposição podia fazer ao PT era acusá-lo de seguir a mesma política econômica herdada do PSDB!

Lembro bem dessa época, pois quase nunca debatia com tucanos. Quase sempre meus maiores adversários nos debates da Internet eram os radicais do PT (que mais tarde fundariam o PSOL), os quais não aceitavam o fato do PT ter “amadurecido”.

Infelizmente e mais uma vez eu estava equivocado. Eu e milhões de brasileiros amadurecemos. O PT não. Seu projeto gramncista de perpetuação no poder entrou em ação já antes de chegar ao poder com o esquema de “arrecadação” que levou a morte os prefeitos Toninho do PT, Celso Daniel e um rastro de mais sete cadáveres, entre testemunhas, investigadores e legistas (ver aqui). O recuo com a Carta aos Brasileiros foi apenas para a acalmar o mercado e arrefecer a Crise Lula.

O mensalão foi só mais um passo na escalada autoritária do PT que hoje é oficializada com o decreto bolivariano que institui a versão brasileiras dos soviets, os chamados “Conselhos Populares” (já em funcionamento na Venezuela de Chávez, vale salientar), e com o objetivo explicito em documento oficial do partido de “construir o socialismo no Brasil” (ver aqui).

Claro que falar desses assuntos no Brasil hoje nos coloca imediatamente na ala dos “conspiracionistas” que enxergam chifres em cabeça de burro. E aqui fica clara mais uma tática gramscista colocada em prática pelo PT: acusar de conspiracionismo quem tenta desmascará-los. Vale para a “mídia golpista” (que ajudou a criar o mito Lula) e vale para o cidadão comum rotulado de “viúva da ditadura”, “reaça”, “fascista” ou qualquer outro espantalho usado e abusado pelos esquerdistas para reforçar o sentimento quase religioso de que fazem parte de um “exército do bem” na luta contra um mal maior que tenta destituí-los do poder a todo custo.

Não é preciso dizer que relutei muito em acreditar em muita coisa que acredito hoje, da mesma forma que você deve estar relutando agora por me enxergar como mais um “conspiracionista” radical de direita. Tudo bem. Você está no seu direito. No entanto, te convido a exercitar um pouco a honestidade intelectual e a refletir sobre o título deste post, assim como cada ponto de discórdia entre esquerdistas e direitistas. Se as ideias nas quais você acredita estão realmente corretas, elas devem, no mínimo, resistir a um debate racional, correto? Então, siga em frente na trilha das reflexões e tenha sempre em mente que entre o preto e o branco existe uma infinidade de tons cinzas, e, principalmente, que tais ideias em disputa influenciam decisivamente as nossas vidas e dos nossos descendentes.

Quem aos vinte anos, não foi de esquerda, é por que não tem coração. Quem aos quarenta, continua sendo, é por que não tem cérebro. (Winston Churchill)


Obs.: Se você não tem muita noção das diferenças entre esquerda e direita, sugiro começar por um post do nosso blog que fala das cinco grandes diferenças fundamentais entre esquerda e direita (ver aqui).

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6 Responses to Por que esquerdista torna-se direitista, mas nunca o contrário?

  1. Sandro says:

    Mais alguns ex-esquerdistas, um português e dois brasileiros.

    POR QUE VIREI A DIREITA – TRES INTELECTUAIS EXPLICAM SUA OPÇAO PELO CONSERVADORISMO

    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29784599&termo=por%20que%20virei%20a%20direita

  2. kim says:

    Porq Paixao um dia acaba,adolescencia,ficamos experientes passamos enxergar a vida na sua realidade.

  3. Marcos Juvena says:

    O “espirito revolucionário”, o romantismo e a pureza, características típicas da juventude, fazem com que olhemos o mundo com a lente que distorce a realidade.
    Isso muda com o amadurecimento e constatação de que, sendo o ser humano corruptível por natureza, as Instituições que garantem a democracia devem ser preservadas a todo custo. Daí devemos conservá-las, sem medo de sermos rotulados de “conservadores”. Penso que não há democracia sem independência dos três poderes, da imprensa, da polícia, da educação, dos serviços públicos, etc. Tudo isso sem esquecer as eleições diretas.
    Mas há uma questão:
    Não conheço ninguém que não se seduz com os ideais louváveis relativos à justiça social, tais como: diminuição da pobreza, desigualdade social, alta concentração de renda, oportunidade para todos, etc. Nos seduzimos por essas ideias porque, em contrapartida à esquerda fisiologista e oportunista que existe na América do Sul, existe também o capitalismo selvagem que ignora as necessidades básicas dos pobres e miseráveis, e que muitas vezes são olhados apenas como problemas para a chamada elite.
    Há de se achar um meio termo. Um governo que, ao mesmo tempo invista no capital, infraestrutura, modernização, competitividade, educação, transporte, saúde, para gerar empregos e renda, sanear a economia e fazer o país crescer, também coloque a mão na ferida e faça as reformas necessárias sem esquecer do social.
    Há uma frase, se bem me lembro, diz mais ou menos assim: “A direita divide injustamente a riqueza e a esquerda divide equitativamente a pobreza”. Não é isso que queremos. Acho que foi Margareth Tatcher que disse também que um governo de esquerda dura até o dinheiro acabar.
    A ideia seria fazer o país crescer, aumentar o bolo para dividir melhor, com humanidade, justiça e com critérios definidos. Penso que as ajudas sociais devem existir mas sempre condicionadas à um acompanhamento sério e sistemático atrelado à uma contrapartida do cidadão. Essa ação deveria ser desvinculada desse ou daquele partido e feita de forma a estimular o crescimento individual e atender a meritocracia.
    Infelizmente não é isso que vemos no Brasil.
    Importante também é a ação de um Judiciário independente que faça justiça e garanta a democracia. O capitalismo sem regras justas e definidas é mortal para os pequenos.
    Há uma frase de Lacordaire que diz: “Na relação entre o fraco e forte, a liberdade escraviza e a Lei faz Justiça”.

    Grande abraço e parabéns pelos textos, sempre esclarecedores e corajosos.

  4. João Pedro says:

    Tenho cá os seguintes questionamentos:

    Ao falar dos diversos exemplos de conservadores e liberais que anteriormente eram socialistas, você cita somente um. Logo, após fala de exceções. Outro ponto, ignora o simples fatos de vivermos em uma sociedade capitalista(que não se resume a um sistema econômico, é social) , o que pesa bastante na ideologia das pessoas.

    Outro ponto interessante, apesar de dizer que existem outras possibilidades na metáfora no ultimo paragrafo. SE reduz a comparação entre a bipolaridade partidária, que num cenário nacional em termos ideológicos entre esquerda x direita não se enquadra. Apesar da pequena inclinação do PT a esquerda nesse cenário eleitoral.

    A pergunta lançada no inicio do texto, não foi respondida e foi jogada em um contexto mundial e depois a episódios recentes de corrupção.

    Obrigado pelo espaço, gosto que existam debates no sentido de gerar conhecimento e não vitória ou derrota. Pois, o proposito de tudo isso é um debate para melhoria do país e não simplesmente vencer por vencer.

    • Amilton Aquino says:

      Olá João! A resposta me parece óbvia. Os anos nos trazem a experiência e nos mostra o quão desvinculadas da realidade são as ideias da esquerda. Não preciso ir muito longe para citar outros nomes. Basta vc perguntar a cada um dos colunistas mais direitistas de hoje sobre suas biografias e vc vai ver que boa parte deles já foi de esquerda algum dia. Pense no mais conservador de todos eles: Olavo de Carvalho. Pois é, até os anos 70 o cara era comunista. Abraço!