Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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A crônica de uma tragédia anunciada: o desmonte das economias bolivarianas

policia_bolivarianaO “sucesso” da esquerda na América Latina na década de 2000 está intrinsecamente ligado à globalização chinesa, que possibilitou o mais rápido crescimento econômico do capitalismo, desde o final da II Guerra Mundial.

A entrada de milhões de chineses no mercado global teve dois efeitos benéficos para as economias periféricas: 1) Aumentou a demanda por produtos primários, principalmente alimentos e minérios; 2) Provocou uma deflação nos produtos industrializados, principalmente de alta tecnologia.

Com a aceleração do crescimento dos países emergentes, estes passaram também a ser os destinos preferidos dos investidores internacionais. Com mais dólares entrando e turbinando as reservas cambiais, as moedas locais foram valorizadas, aumentando o poder aquisitivo dos emergentes e tornando ainda mais evidente a sensação de progresso.

Com as arrecadações batendo recordes ano após ano ficou fácil para os governos dos emergentes ampliar os programas de transferência de renda iniciados desde a década de 90 e fazer o marketing populista que se tornou uma das mais marcantes características de tais governos.

Em um país especificamente tais efeitos foram ainda mais evidentes: a Venezuela. Por ser um grande produtor de petróleo, nossos hermanos do norte tiveram o mais expressivo ganho extra com a explosão do preço do seu principal produto de exportação, cujo barril pulou de U$ 20, no início da década de 2000, para U$ 150, em meados de 2007.

Foi uma festa para Chávez. Não por acaso, ele assumiu a liderança do Foro de São Paulo e tornou-se a grande referência dos governos de esquerda da região. Vejamos algumas características comuns no campo econômico a tais governos que explicam a ascensão e decadência dos países que enveredaram pelo bolivarianismo:

1) A não continuidade das reformas estruturais iniciadas na década de 90

A década de 90 entrou para a história como a década “neoliberal”. Tempos difíceis, de crises entre os emergentes, até mesmo entre os chamados Tigres Asiáticos. Com a derrocada do comunismo, milhares de empresas foram colocadas à venda simultaneamente. Com muita oferta, os preços das ações caíram drasticamente. Com a escassez de dólares no mercado, a moeda norte-americana foi às alturas, tornando as economias periféricas com dívidas indexadas em dólar ainda mais vulneráveis.

Neste cenário, as dez diretrizes definidas no chamado Consenso de Washington tornaram-se o grande alvo da esquerda, a badalada “cartilha neoliberal”. O engraçado é que das dez diretrizes da cartilha, ainda hoje só de fala de uma: a oitava, que recomendava a privatização das estatais ineficientes.

E por que as demais diretrizes quase nunca são mencionadas?

A razão é simples. Porque são todas corretas. Como criticar a disciplina fiscal? Como criticar a definição de prioridades nas despesas públicas? Como criticar uma reforma tributária que venha tornar a arrecadação mais justa e eficiente? Como ser contra o câmbio flutuante e os juros de mercado? Como ser contra a política de integração mundial que tanta riqueza trouxe aos emergentes? Como ser contra a abertura da economia ao investimento estrangeiro direto? Como ser contra a desregulação de setores controlados ou cartelizados? Como ser contra as garantias legais ao direito de propriedade?

Eis a “cartilha neoliberal”. Para quem quiser conhecer um pouco mais, sugiro um outro post do nosso blog: http://visaopanoramica.net/2011/03/12/esquerda-x-direita-parte-1/

Enfim, ninguém conseguiu executar de fato todas as diretrizes. Um dos países que mais chegaram perto foi justamente o Brasil, não por acaso um dos poucos grandes emergentes que não se tornaram também foco de crises nos anos 90. Mesmo assim, o governo FHC deixou pendente uma agenda de reformas, as quais Lula se comprometeu em continuá-las desde o seu primeiro pronunciamento oficial.

Doze anos depois, nenhuma grande reforma foi implementada, de modo que o máximo que o governo do PT chegou foi à aprovação da aposentadoria suplementar do servidor público no primeiro mandato de Lula, que só veio a ser sancionada recentemente no governo Dilma, além de algumas ações pontuais como a ampliação do SIMPLES e da lei de falências.

Nos demais países que entraram na onda bolivariana do Foro de São Paulo não foi muito diferente. Resultado: todo o bloco bolivariano hoje cresce menos com inflação mais alta que os países da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia, México e Costa Rica) que conseguiram alguns avanços na agenda “neoliberal” e hoje despertam o interesse de grandes nações para acordos comerciais. Será coincidência?

2 – Aumentos dos gastos governamentais

Além de uma chance única para fazer reformas impopulares, o boom de crescimento dos anos 2000 foi também uma ótima oportunidade para reduzir as dívidas interna e externas, uma vez que o pagamento de juros absorve o maior “orçamento” da União. No caso específico do Brasil, por exemplo, pagamos por ano mais de R$ 200 bilhões só de juros. Quando incluímos na conta os títulos rolados pelo governo para renovar títulos vencidos, pagamos o equivalente a cerca de 43% do nosso PIB, algo não muito diferente do que já gastávamos no final do governo FHC.

Desde que assumiu o poder, o PT tem se empenhado em esconder a dívida bruta e focar a atenção nos números mais palatáveis da dívida líquida, que entrou em trajetória de queda ajudada pelo grande fluxo de capitais que aportaram no Brasil a partir de 2005. No entanto, basta uma rápida olhada na evolução da dívida bruta (que é a que realmente importa, uma vez que os juros são calculados em cima do total e não apenas da parte líquida) concluímos que continuamos no mesmo patamar de 2002 (entre 60% e 70% do PIB, de acordo com os critérios do governo brasileiro ou do FMI). Ou seja, o governo do PT não aproveitou a renda extra proporcionada pela alta dos preços dos nossos produtos de exportação para reduzir de fato o nosso endividamento. Resultado: em quase doze anos pagamos de juros quase o equivalente a toda nossa dívida líquida e ainda assim continuamos devendo R$ 2,86 TRILHÕES.Se duvidar, consulte você mesmo no site do BC. O link é http://www.bcb.gov.br/?SERIEDEBH

Mas afinal, o que foi feito com os bilhões extras arrecadados nos anos do boom econômico mundial?

Simples. Foram incorporados ao aumento de gastos fixos do Estado, que inclui os programas de transferência de renda, aumento do funcionalismo público, cargos comissionados, novas instituições, etc.

O problema é que a história do capitalismo nos mostra que tais momentos de crescimento rápido quase sempre são interrompidos com o estouro de uma grande crise. Não faltaram os alertas, mas os bolivarianos não deram ouvidos. Hugo Chávez, por exemplo, torrou boa parte da grana extra do petróleo doando bilhões a Cuba, Equador e Bolívia. Quando a crise de 2008 estourou e a grana diminuiu ficou difícil cortar os novos gastos fixos. E olha que os preços dos nossos produtos de exportação nem reduziram tanto assim. Ou seja, a situação pode piorar muito, ainda mais com a perspectiva de aumento dos juros norte-americanos que estão sendo adiados há mais de dois anos.

E o que acontece quando um governo populista não tem o dinheiro para saldar seus compromissos? Inflação. Não por acaso, os países do bloco bolivariano estão enfrentando um surto inflacionário como há muito não se via na região. A inflação é sempre o resultado final de toda política expansionista. Quanto maiores os gastos, maiores as pressões inflacionárias. É básico em economia.

Infelizmente os bolivarianos acham que a política pode tudo, inclusive subverter os axiomas mais elementares da economia. Resultado: a média de inflação entre os países da Aliança do Pacífico está na casa dos 4%, enquanto que entre os bolivarianos a Venezuela já caminha para a casa dos 70% e a Argentina para os 40%. Estes são de longe os casos mais graves, mas países historicamente mais estáveis como o Uruguai, por exemplo, que só recentemente elegeu um presidente associado ao Foro de São Paulo, já ostenta taxas superiores a 8% ao ano, mais uma prova inequívoca de quanto o populismo esquerdista faz mal a economia. E olha que o Mujica tem se mostrado até moderado depois que chegou ao poder.

3 – Aumento da intervenção estatal na economia

Em alguns países, como a Bolívia e o Equador, por exemplo, a chegada dos bolivarianos ao poder foi marcada pela reestatização quase que imediata de grandes empresas (inclusive uma refinaria da Petrobrás, vale lembrar, sob a total complacência do governo do PT). Em outros, a coisa foi gradativa. No Brasil, a promessa do PT na Carta aos Brasileiros de não descumprir contratos tem segurado um pouco o ímpeto reestatizante dos bolivarianos daqui. Mesmo assim, o governo do PT já criou várias estatais e aumentou o nível de intervenção até mesmo em empresas privadas como a Vale, que alguns petistas chegaram a cogitar reestatizar.

Gradativamente, o PT começou a interferir na economia, tentando puxar para si o papel de “indutor” dos investimentos com o PAC, com a mudança do regime de exploração de petróleo, com a política fracassada dos “campeões nacionais”, com aumentos de tarifas de importação, com a manipulação da taxa de câmbio, de juros e até com o represamento dos preços administrados, como tarifas de transporte, energia e combustíveis.

Mas como nos ensina a Teoria Austríaca de economia, a cada nova intervenção, um novo problema no futuro. Hoje, por exemplo, o Brasil está tendo um prejuízo de quase R$ 20 bilhões anuais para compensar as distribuidoras de energia pela redução eleitoreira da conta de energia anunciada por Dilma. Na Venezuela, a antes poderosa PDVSA estagnou e, com ela, toda a economia entrou em recessão. A Petrobrás, que chegou ao posto de segunda maior petroleira do mundo, hoje figura na posição 120, com uma coleção de escândalos que inclui até conexões com a máfia italiana.

4 – Estímulo ao consumo e ao crédito

A Teoria Austríaca nos ensina também que o crescimento sustentável só é possível quando lastreado em poupança. Os esquerdistas, no entanto, que tanto criticam o financismo do capitalismo keynesiano atual, estão sempre demandando mais dinheiro falso para “estimular” a economia artificialmente, seja via inflação ou via expansão do crédito.

Com os bolivarianos não é diferente. Nem mesmo o bônus da aceleração da economia mundial na última década foi suficiente para suprir a tendência de gastar além dos limites desta turma. Só isso explica o fato do governo do PT, em 2010, estimular ainda mais o crédito para venda de carros no momento em que a economia já estava muito mais aquecida do que poderia suportar a nossa capenga infraestrutura.

O baixo crescimento de hoje é uma das consequências do aumento irresponsável do crédito a partir da segunda metade da década passada. A razão é óbvia: quem recebe crédito gasta no presente, porém passa meses ou anos limitando o consumo de outros bens para poder pagar as dívidas. Isso quando conseguem pagar. E não adianta aumentar ainda mais o crédito, pois só vai piorar ainda mais a situação.

Mas os bolivarianos não aprendem com a realidade. Quando a economia venezuelana entrou de vez em recessão, Chávez lançou o “Mi Casa Bien Equipada”. Por aqui, seguindo os passos do “mestre”, Dilma lançou o “Minha casa Melhor”, programa que concede ainda mais crédito aos mutuários do “Minha Casa Minha Vida” que já estão endividados até o pescoço nos próximos anos, aumentando assim o risco de um grande calote coletivo no futuro, como aliás sempre acontece nestes grandes programas habitacionais. Pouca gente lembra, mas parte do aumento expressivo da dívida interna no governo FHC veio de “esqueletos” do passado, como, por exemplo, o antigo BNH do regime militar.

E como último recurso para conter a inflação, os bolivarianos resolveram apelar para o fatídico “congelamento” de preços. Quem viveu a era Sarney sabe que este filme termina em hiperinflação. Mas eles não aprendem. Tentam politizar tudo, até mesmo os índices de inflação eles tentam justificar como uma “conspiração das elites”. Para combater tais “conspiradores”, Maduro chegou ao ápice de expropriar uma das maiores redes de eletrodomésticos dos país (a Daka), que teve suas instalações tomadas pela Polícia Nacional Bolivariana, mercadorias confiscadas e posteriormente revendidas com descontos de 50% a 90%. Para finalizar a lambança, o dono da rede ainda foi preso diante da indiferença dos consumidores mais preocupados em garantir seus super descontos.

E eis aqui mais uma prova inequívoca da pífia cobertura da nossa imprensa a um evento tão grave. Quantas pessoas sabem disso no Brasil? Pois é. A primeira vez que ouvi algo sobre o assunto foi em um vídeo publicado por um venezuelano no Youtube. Pesquisando um pouco mais, descobri um blog que confirma com informações e fotos não só este caso da Daka, como também da JVG (ver aqui ou no Yahoo Internacional).

Em pronunciamento oficial, já que este também se tornou um dos recursos mais usados pelos bolivarianos, Maduro afirmou que “esta é apenas a ponta do iceberg do que estamos planejando fazer com a burguesia”.

E o que acontece quando o governo criminaliza os empresários e promove abusos explícitos como os relatados acima? A população se sente livre para fazer o mesmo. Não por acaso uma onda de saques tem acontecido em diversas outras lojas (ver aqui na tímida publicação do G1, uma vez que a mídia televisiva reluta em divulgar tais notícias para não entrar em confronto direto com o PT que dá total apoio ao aprendiz de ditador Maduro, inclusive com pronunciamentos de Lula e Dilma na TV venezualana, durante a campanha eleitoral).

E para quem acha que estamos distantes da Venezuela, veja o que aconteceu em Belo Horizonte, recentemente (ver aqui) ou em Abreu e Lima/PE, durante a greve da PM a poucos dias antes da copa.

E para provar o controle que o PT tem sobre os tais “movimentos sociais”, bastou um pedido ao MSTE para que dessem uma “maneirada” durante a copa e eles obedeceram. Deixaram os estádios em paz e agora estão invadindo o bairro nobre do Morumbi em São Paulo (ver aqui). E assim a “cultura revolucionária” segue sua escalada nas ruas e agora nos discursos cada dia mais radicais do PT. Só não vê quem não quer.

5 – Adulteração de índices

Por fim e não menos importante, os bolivarianos completaram seu arsenal de lambanças na economia com manipulações contábeis para tentar esconder o que a realidade insiste em mostrar.

Neste quesito a Argentina conseguiu superar a Venezuela, tanto que o mercado argentino passou a fazer uma contabilidade paralela. No caso da inflação, por exemplo, enquanto o governo diz que a taxa anual ronda na casa dos 30%, analistas de mercado sustentam que o índice já passou dos 40%.

No Brasil não chegamos ainda a este ponto, mas abusamos da “criatividade”, de modo que até mesmo o TCU já tem alertado para o processo de “argentinização” da nossa contabilidade.

No próximo e último post desta série, as estratégias políticas comuns colocadas em prática pelos bolivarianos , além das conclusões finais deste lamentável processo. Até lá!

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