Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita (parte 3)

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Edmund Burke, o pai do conservadorismo

No primeiro post desta série falamos das cinco diferenças fundamentais entre a Esquerda e a Direita que permanecem atuais desde o início. No segundo, vimos como o marxismo infiltrou-se nas universidades e na cultura e anexou novas bandeiras ao esquerdismo. A partir deste post, vamos falar um pouco sobre cada uma das atuais vertentes da guerra ideológica.

E como já ficou claro até aqui, são os esquerdistas quem definem quem é de direita. Ao propor suas bandeiras que tentam moldar o futuro da humanidade, todos que não concordam com os pontos propostos pelos esquerdistas são caracterizados como de direita. Naturalmente, este grupo que sobra (ou seja, o resto) é bem heterogêneo, apesar da esquerda o pintar sempre como um poderoso ente conspirador, unido, bem estruturado, organizado e sempre disposto a conspirar contra os “trabalhadores”.  Mas a história real não é bem assim. Existem na direita vários pontos de vista que derivam de dois grupos bem diferentes e, em muitos aspectos, antagônicos: conservadores e liberais. Vamos começar pelos primeiros.

Conservadores

Como o próprio nome já diz, este grupo quer conservar os valores tradicionais da sociedade. São conservadores no sentido de reagir às mudanças propostas pelos esquerdistas e até mesmo a algumas bandeiras liberais. Daí o rótulo “reaça” usado e abusado pelos esquerdistas. Neste grupo, os militares, os religiosos, os empresários são alguns dos setores da sociedade onde o conservadorismo historicamente predomina.

Seu principal teórico é Edmund Burke, um irlandês que ficou horrorizado com os desdobramentos da Revolução Francesa em seus primeiros anos. Para os conservadores não adianta o homem tentar inventar a sociedade perfeita, porque o homem não é perfeito. Até aqui a história parece ter dado razão aos conservadores, pois todas as tentativas revolucionárias de moldar a sociedade e de construir um “novo homem” terminaram sempre em algo pior. Sem exceção.

O pessimismo dos conservadores remota à primeira diferença fundamental entre esquerdistas e direitistas que citamos no primeiro post desta série e que enquadra os conservadores na linha de pensamento de Thomas Hobbes, segundo o qual o homem em seu estado natural não passa de um selvagem. Para os conservadores, portanto, as instituições sociais resultantes do lento processo de evolução das civilizações são as verdadeiras bases da sociedade. Segundo eles, são instituições como a igreja, a família, a comunidade local que limitam os maus instintos humanos e garantem a ordem. Hoje nem tanto, mas no século XIX os conservadores refutavam até mesmo algumas instituições hoje consagradas resultantes do racionalismo político, como a constituição francesa, por exemplo, usando como contraponto a constituição não escrita inglesa, fruto de uma evolução secular de tradições e não de “debates acalorados” entre parlamentares. Portanto, segundo os conservadores não existe uma fórmula ideal que possa ser aplicada universalmente, pois cada país tem seu próprio contexto histórico e tradições. Daí as diferenças fundamentais entre o conservadorismo inglês (originalmente monarquista) e o norte-americano (republicano), por exemplo.

Originalmente protecionista e cético à democracia, os conservadores tiveram como uma das principais bandeiras, durante o século XIX, a defesa do imperialismo inglês, distanciando-se ainda mais dos liberais, críticos do colonialismo. Outra divergência clássica em relação aos liberais nesta época foi quanto à importância que estes davam (e ainda dão) ao individualismo. Críticos da “liberdade irrestrita liberal” os conservadores faziam apologia aos chamados corpos intermediários (família, igreja, comunidade, etc.) como instrumentos de coerção social capazes de manter a estabilidade dos regimes baseados nas tradições. Não por acaso estes mesmos corpos intermediários passaram a ser minados pelo Marxismo Cultural, a partir do século XX, como uma estratégia de conquista da hegemonia política necessária para implantar o socialismo gradativamente.

Apesar das divergências com os liberais, os conservadores começaram a absorver alguns princípios destes através de filósofos como Tocqueville, Bertrand de Jouvenel e Raymond Aron, que defendiam a descentralização, o municipalismo e as associações como contrapeso ao poder do Estado.

Durante o século XX, os conservadores passam por duas fases bem distintas. Primeiro, aderem gradativamente ao estado de bem estar social europeu, tornando-se muito parecidos com seus rivais ideológicos. A partir do final dos anos setenta, no entanto, quando começaram a surgir os primeiros indícios de esgotamento do modelo de bem estar social europeu, os conservadores, liderados por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, aproximaram-se de algumas ideias liberais, distanciando-se novamente da social democracia. Foi a vez dos conservadores (e liberais) influenciarem os esquerdistas europeus. As rápidas recuperações das economias inglesa e norte-americana na chamada “década perdida” levaram trabalhistas e socialistas a imitar algumas das reformas introduzidas por Thatcher para evitar o colapso iminente do estado de bem estar social. Surgia então o neoliberalismo, uma tentativa de reduzir os excessos da era de ouro do capitalismo, responsáveis pelos desequilíbrio fiscais que levaram os países europeus, principalmente, ao estado atual de alto endividamento.

Apesar da aproximação com os liberais nas últimas décadas (algo comum aos esquerdistas que também foram forçados pela realidade a aderir a um certo grau de liberalismo), os conservadores mantiveram suas características principais. E mesmo concentrando as demonstrações mais radicais de anti-esquerdismo, curiosamente, os conservadores tem alguns pontos cruciais em comum com seus arqui-inimigos, como, por exemplo, a tendência ao intervencionismo econômico, protecionismo e uma maior tolerância ao autoritarismo, características estas radicalmente contrárias aos princípios liberais. Em relação à esquerda populista (getulismo, chavismo, peronismo, lulismo, etc.), os conservadores têm ainda em comum com os esquerdistas o apelo nacionalista. Não por acaso, figuras icônicas do regime militar, como Delfin Neto, por exemplo, tornaram-se entusiastas do governo do PT.

Diferente dos países do primeiro mundo, onde os conservadores geralmente são forças políticas expressivas, nos países em desenvolvimento estes são quase inexistentes. No caso do Brasil, por exemplo, por não existir um partido declaradamente conservador, a maioria dos partidos que não se enquadra na ideologia de esquerda é enquadrada no time da “direita conservadora”. Na verdade, a maioria desses partidos é fisiológica, com uma bandeira só (ou sem bandeira nenhuma). Tais partidos tentam atrair eleitores ou candidatos com mensagens defendendo a família, valores cristãos ou simplesmente firmado posição contra aborto e outros temas que atentem contra a moral religiosa. Porém nenhum deles pode ser considerado realmente conservador, nem mesmo o Partido Social Cristão, cujas bandeiras sociais, pelo menos nos discursos, estão mais próximas da esquerda que do conservadorismo de direita. Não por acaso, o PSC e a maioria dos partidos de “direita” do Brasil hoje estão na base de apoio do governo do PT. Em seus “programas” a palavra “conservador” é inexistente. Em contrapartida os termos “progressista” e “políticas sociais” são comuns a quase todos. Para estes partidos, Edmund Burke e os demais teóricos do conservadorismo, são apenas ilustres desconhecidos.

Enfim, dos três setores da sociedade onde historicamente o conservadorismo sempre predominou (igreja, empresariado e forças armadas), no Brasil até mesmo nestes setores a esquerda tem ganhado espaço. Na igreja Católica, a CNBB e a Teologia da Libertação buscam associar os valores cristãos ao igualitarismo esquerdista. Entre o empresariado (pelo menos os maiores) as fontes generosas de financiamento subsidiado do governo federal e o protecionismo tornaram-se mais promissores que os riscos do livre mercado. Já as forças armadas continuam recolhidas a um voto de silêncio que só encoraja ainda mais a patrulha ideológica de esquerda, que hoje pousa de defensora da democracia, apesar de tentar implantar no Brasil um regime comunista que nunca teve o menor apreço pelos valores democráticos, como expressamente confessado por ex-guerrilheiros. Sobrou a bancada evangélica e alguns poucos jornalistas e filósofos brasileiros o papel ingrato de defender o conservadorismo no Brasil. Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Luiz Felipe Pondé e Demétrio Magnoli são algumas das poucas “mentes conspiratórias” (segundo o discurso de esquerda) que tentam “golpear” o governo do PT. Curiosamente, com exceção de Pondé, todos os outros conservadores citados já foram fervorosos militantes de esquerda na juventude. Por que mudaram de opinião? Bom, este é assunto para um outro post.

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais”
(Elis Regina)


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No próximo post desta série, as principais vertentes do liberalismo. Ajude a divulgar nosso blog  Até o próximo post!

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13 Responses to Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita (parte 3)

  1. Gilx says:

    Amilton, quem acompanha seu site desde o início, há alguns anos, tem percebido a mudança de simples questionador do governo PT para um viés mais à “direita reacionária”. Isso é bom, pois ser antipetista não quer dizer muita coisa. Tucanos e o pessoal do PSTU, por exemplo, são antipetistas e nem por isso são necessariamente da mesma matiz esquerdista.

    • Amilton Aquino says:

      Gilx, me identifico mais com o liberalismo, embora compartilhe com alguns pontos do conservadorismo. Acontece que os liberais não tem força política. Então o peso de fazer o contraponto ao PT está quase todo concentrado entre os conservadores. Daí minha simpatia por estes heróicos “reacionários”. eheheeheeh!

  2. Kleber Cerqueira says:

    Prezado Amilton, nessa turma de heróicos reacionários eu incluiria o Rodrigo Constantino. E recomendo o seu mais novo livro: “Esquerda Caviar”, onde ele “desce o pau” na hipocrisia de alguns intelectuais e artistas de esquerda que não dispensam as benesses e o conforto do mundo capitalista. Abraço.

    • Amilton Aquino says:

      Coincidentemente, estou lendo neste fim de semana. De fato, o Constantino tem sido muito importante no combate ao petismo. Não o citei aqui porque ele é um autêntico liberal, que reservei para o próximo post desta série. Por não terem a menor representação política, os liberais normalmente são confundidos com os conservadores, mas existem diferenças muito expressivas. Abraço!

  3. Oneide teixeira says:

    Russell Kirk é mais importante do que Burke.
    E contra o marxismo o antidoto é Eric Voegelin.

    • Amilton Aquino says:

      De fato, no seculo XX, Russell assumiu um papel mais importante. No entanto, ele é o continuador e não o pioneiro, como o Burke. De qualquer forma, valeu o registro.

  4. Sandro says:

    Link para download do livro: Esquerda e direita – Perspectivas para a liberdade do autor da escola austríaca de economia Murray Rothbard:

    http://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=58

  5. Abbud says:

    Amilton veja que interessante artigo de Mario Vargas Llosa para O Estado de S.Paulo

    Ele indiratamente fala o que seria a esquerda e direita, que muda conforme os tempos, e define como liberais o que seriam para mim os sociais-democratas.

    Assim como os seres humanos, as palavras mudam de conteúdo dependendo do tempo e do lugar. Acompanhar suas transformações é instrutivo, embora, às vezes, como ocorre com o vocábulo “liberal”, semelhante averiguação possa fazer com que nos extraviemos num labirinto de dúvidas.

    No Quixote e na literatura de sua época, a palavra aparece várias vezes. O que significa em tal contexto? Homem de espírito aberto, bem educado, tolerante, comunicativo; em suma, uma pessoa com a qual se pode simpatizar. Nela não há conotações políticas nem religiosas, apenas éticas e cívicas no sentido mais amplo de ambos os termos.

    No fim do século 18, esse vocábulo muda de natureza e adquire matizes que têm a ver com as ideias sobre a liberdade e o mercado, dos pensadores britânicos e franceses do Iluminismo (Stuart Mill, Locke, Hume, Adam Smith, Voltaire). Os liberais combatem a escravidão e o intervencionismo do Estado, defendem a propriedade privada, o livre comércio, a concorrência, o individualismo, e declaram-se inimigos dos dogmas e do absolutismo.

    No século 19, um liberal é acima de tudo um livre pensador: ele defende o Estado laico, quer separar a Igreja do Estado, emancipar a sociedade do obscurantismo religioso. Suas divergências com os conservadores e os regimes autoritários geram, às vezes, guerras civis e revoluções. O liberal de então é o que hoje chamaríamos um progressista, defensor dos direitos humanos (conhecidos desde a Revolução Francesa como Direitos do Homem) e da democracia.

    Com o aparecimento do marxismo e a difusão das ideias socialistas, o liberalismo passa da vanguarda para a retaguarda, por defender um sistema econômico e político – o capitalismo – que o socialismo e o comunismo querem abolir em nome de uma justiça social que identificam com o coletivismo e o estatismo (essa transformação do termo liberal não ocorre em todas as partes). Nos Estados Unidos, um liberal é ainda um liberal, um social-democrata ou pura e simplesmente um socialista. A conversão da vertente comunista do socialismo para o autoritarismo impele o socialismo democrático para o centro político e o aproxima – sem juntá-lo – ao liberalismo.

    Nos nossos dias, liberal e liberalismo significam, dependendo das culturas e dos países, coisas distintas e às vezes contraditórias. O partido do tiranete nicaraguense Anastacio Somoza dizia-se liberal, e assim se denomina, na Austrália, um partido neofascista. A confusão é tão extrema que regimes ditatoriais como os de Pinochet no Chile e o de Fujimori no Peru são chamados às vezes “liberais” ou “neoliberais” porque privatizaram algumas empresas e abriram mercados. Desta degeneração da doutrina liberal não são totalmente inocentes alguns liberais convencidos de que o liberalismo é uma doutrina essencialmente econômica, que gira em torno do mercado como uma panaceia mágica para a solução de todos os problemas sociais. Estes logaritmos viventes chegam a formas extremas de dogmatismo, e se dispõem a fazer tais concessões no campo político à extrema direita e ao neofascismo que contribuem para desprestigiar as ideias liberais e para que sejam vistas como uma máscara da reação e da exploração.

    Dito isso, é verdade que alguns governos conservadores, como os de Ronald Reagan nos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, realizaram reformas econômicas e sociais de inequívoca raiz liberal, impulsionando a cultura da liberdade de maneira extraordinária, embora em outros campos a fizessem retroceder. Poderíamos dizer o mesmo de alguns governos socialistas, como o de Felipe González na Espanha ou o de José Mujica no Uruguai, que, na esfera dos direitos humanos, promoveram o progresso em seus países reduzindo injustiças inveteradas e criando oportunidades para os cidadãos de renda inferior.

    Nos nossos dias, uma das características do liberalismo é que pode ser encontrado nos lugares mais impensados e, às vezes, brilha pela ausência onde certos ingênuos acreditam vê-lo. Pessoas e partidos devem ser julgados não pelo que dizem e pregam, mas pelo que fazem. No debate que se desenrola nos dias de hoje no Peru sobre a concentração dos veículos de comunicação, alguns defensores da aquisição pelo grupo El Comercio da maioria das ações de Epensa, o que lhe confere quase 80% do mercado da imprensa, são jornalistas que silenciaram ou aplaudiram quando a ditadura de Fujimori e Montesinos cometia seus crimes mais hediondos e manipulava toda a informação, comprando ou intimidando donos e redatores de jornais. Como poderíamos levar a sério esses novíssimos catecúmenos da liberdade?

    Um filósofo e economista liberal da chamada escola austríaca, Ludwig von Mises, opunha-se à existência de partidos liberais, porque, na sua opinião, o liberalismo devia ser uma cultura que irrigasse um leque muito amplo de formações e movimentos que, embora tivessem importantes discrepâncias, compartilhavam de um denominador comum sobre certos princípios liberais básicos.

    Algo disso ocorre há bastante tempo nas democracias mais avançadas, onde, com diferenças mais de matiz do que de essência, entre democratas-cristãos e social-democratas e socialistas, liberais e conservadores, republicanos e democratas, há alguns consensos que dão estabilidade às instituições e continuidade às políticas sociais e econômicas, um sistema que só se considera ameaçado por seus extremos, o neofascismo da Frente Nacional na França, por exemplo, ou a Liga Lombarda na Itália, e grupos e grupelhos ultra comunistas e anarquistas.

    Na América Latina, esse processo se dá de maneira mais pausada e com maior risco de retrocesso do que em outras partes do mundo, em razão da debilidade em que se encontra ainda a cultura democrática, que tem uma tradição somente em países como Chile, Uruguai e Costa Rica, enquanto nos demais é muito mais precária. Mas começou a acontecer, e a maior prova disso é que as ditaduras militares praticamente se extinguiram e que, dos movimentos armados revolucionários, sobrevive a duras penas o das Farc colombianas, com um apoio popular decrescente. É verdade que há governos populistas e demagógicos, deixando de lado o anacronismo que é Cuba, mas a Venezuela, por exemplo, que aspirava a ser o grande fermento do socialismo revolucionário latino-americano, vive uma crise econômica, política e social tão profunda, com a grande desvalorização de sua moeda, a carestia demencial – falta tudo, comida, água, até papel higiênico – e as iniquidades da delinquência, que dificilmente poderia agora ser o modelo continental no qual queria transformá-la o comandante Chávez.

    Há certas ideias básicas que definem um liberal. Por exemplo, a liberdade, valor supremo, é una e indivisível, e deve atuar em todos os campos para garantir o verdadeiro progresso. A liberdade política, econômica, social cultural, é uma só e todas elas permitem o avanço da justiça, da riqueza, dos direitos humanos, das oportunidades e da coexistência pacífica em uma sociedade. Se a liberdade se eclipsa em apenas um desses campos, ela se encontra armazenada em todos os outros. Os liberais acreditam que o Estado pequeno é mais eficiente do que o que cresce demasiado e, quando isso ocorre, não só a economia se ressente, como também o conjunto das liberdades públicas. Eles acreditam que a função do Estado não é produzir riqueza, e essa função é melhor desempenhada pela sociedade civil, num regime de livre mercado, no qual são proibidos os privilégios e a propriedade privada é respeitada. Indubitavelmente, a segurança, a ordem pública, a legalidade, a educação e a saúde competem ao Estado, mas não de maneira monopólica, e sim em estreita colaboração com a sociedade civil.

    Estas e outras convicções gerais de um liberal têm, na hora de serem aplicadas, fórmulas e matizes muito diferentes relacionados ao grau de desenvolvimento de uma sociedade, de sua cultura e de suas tradições. Não há fórmulas rígidas e receitas únicas para que as ponhamos em prática. Forçar reformas liberais de maneira abrupta, sem consenso, pode provocar frustração, desordens e crises políticas que põem em risco o sistema democrático. Este é tão essencial ao pensamento liberal como o da liberdade econômica e o do respeito pelos direitos humanos. Por isso, a difícil tolerância – para quem, como nós, espanhóis e latino-americanos, tem uma tradição dogmática e intransigente tão forte – deveria ser a virtude mais apreciada entre os liberais. Tolerância significa simplesmente aceitar a possibilidade do erro nas próprias convicções e de verdade nas alheias.

    Por isso, é natural que haja entre os liberais discrepâncias, e às vezes muito sérias, sobre temas como o aborto, os casamentos gays, a legalização das drogas e outros. Sobre nenhum desses temas existem verdades reveladas. A verdade, como estabeleceu Karl Popper, é sempre provisória, válida apenas enquanto não surgir outra que a qualifique ou a refute. Os congressos e encontros liberais costumam ser frequentemente parecidos com os dos trotskistas (quando existia o trotskismo): batalhas intelectuais em defesa de ideias contrapostas. Alguns veem nisso um traço de inoperância e irrealismo. Acredito que essas controvérsias entre o que Isaias Berlin chamava de “as verdades contraditórias” fizeram com que o liberalismo continue sendo a doutrina que mais contribuiu para melhorar a coexistência social, promovendo o avanço da liberdade humana.

    *Mario Vargas Llosa é Prêmio Nobel de Literatura.

    TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

    • Amilton Aquino says:

      De fato, os conceitos mudam com o tempo, mas a essência do liberalismo permanece a mesma. Foi o liberalismo que puxou o constitucionalismo que fundamentou as modernas democracias. A Escola Austríaca é a mais antiga e que melhor representa o ideal liberal. Infelizmente, a partir da Crise de 29, Keynes colocou o mundo de cabeça para baixo ao defender a ideia de que poupança provoca recessão e que os gastos do governo induzem a criação de riqueza. Para os austríacos, a poupança é o ponto de partida para o crescimento sustentável. O problema é que os liberais autênticos não são bons de politica. Daí o porquê da confusão descrita por Lhosa, pois a lacuna política deixada pelos liberais acaba sendo ocupada por outras correntes.