Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita (parte 2)

gramsci

Antonio Gramsci, o pai do Marxismo Cultural

Como vimos no primeiro post desta série, a esquerda surgiu como uma forma de contestação da estrutura da sociedade europeia do final do século XVIII. Primeiro, em relação à monarquia francesa, onde contou com a ajuda da burguesia para derrubar a antiga nobreza. Depois, quando a monarquia francesa caiu, e os burgueses passaram a comandar a Revolução Industrial, a nova elite capitalista passou a ser o alvo principal dos esquerdistas.

As péssimas condições de trabalho durante a Revolução Industrial inspiraram filósofos franceses a pensar numa forma de tornar a sociedade menos desigual, mais justa e fraterna. Surgia então o Socialismo, formulado primeiramente por Saint-Simon, Charles Fourier, Louis Blanc e Robert Owen. Não era ainda o socialismo revolucionário que conhecemos hoje. Era mais brando. Propunha uma transformação gradativa da sociedade, estruturada no pacifismo, contando inclusive com a boa vontade da própria burguesia, algo mais próximo do que conhecemos hoje nos países escandinavos.

Curiosamente tais propostas foram acusadas de “utópicas” por Marx, que propôs em seu lugar o seu Socialismo Científico, assim batizado por “mostrar os meios como se promover a revolução socialista” e conduzir ao Comunismo, segundo ele o destino final da humanidade, uma sociedade sem classes sociais e apátrida.

Naturalmente, uma parte dos socialistas originais não se converteram ao comunismo e continuaram lutando, agora por um “Socialismo Conservador”, que preservava a propriedade privada, o nacionalismo e algumas tradições comuns à direita. Mas estes tornaram-se minoria e só viriam a ter novamente algum protagonismo a partir do início do século XX com o Socialismo Fabiano e o Nacional Socialismo de Hitler. Durante todo este tempo, o socialismo “científico” de Marx ditou os rumos do esquerdismo.

Apesar das divergências entre as diferentes correntes socialistas, todas elas seguiram ostentando a bandeira da Esquerda. Do outro lado, o capitalismo, o nacionalismo e toda a tradição religiosa e cultural que acompanharam o homem em sua evolução milenar seguiram seu curso natural, configurando a Direita reacionária e cética em relação as mudanças propostas pela Esquerda.

O Marxismo Cultural

O caráter internacional do Comunismo procurava unir os trabalhadores do mundo todo, independente das nações. Em uma das passagens do Manifesto Comunista, Marx afirma categoricamente “Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem”. O final do manifesto termina com a convocação a uma revolução mundial: “Proletários de todo mundo, uni-vos”. 

Além de guru máximo dos esquerdistas, Marx virou também uma espécie de profeta, pois na trajetória até o Comunismo, alguns eventos seriam inexoráveis, como o colapso do capitalismo, por exemplo. Seguindo os passos do mestre, os marxistas do início do século XX acreditavam que no próximo grande conflito europeu os trabalhadores se negariam a lutar por suas nações (afinal os proletários não tinham pátria, segundo Marx) e aproveitariam o grande conflito para derrubar as classes dominantes.

Acontece que estourou a I Guerra Mundial e os proletários contrariaram os marxistas alistando-se em massa para lutar por suas pátrias. Hitler, que esteve nas trincheiras da guerra, percebeu a força do nacionalismo como elemento de mobilização. Mais tarde, quando começou a militar no Partido dos Trabalhadores Alemães (que já era nacionalista, vale salientar) resolveu valorizar ainda mais esta característica na luta pela disputa de novos adeptos para o seu Nacional Socialismo, contrário ao marxismo internacionalista de Marx que procurava colocar a luta de classes acima das nações.

Com a chegada ao poder dos comunistas na Rússia, a cúpula marxista começou a se questionar sobre o porquê da ideologia comunista não ter tido a mesma adesão no ocidente, principalmente nas nações centrais como Inglaterra, Estados Unidos e França. A resposta eles foram encontrar no próprio Manifesto Comunista de Marx:

 “Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas (…) Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública. A família burguesa desvanece-se naturalmente com o desvanecer de seu complemento e uma e outra desaparecerão com o desaparecimento do capital.”

Ou seja, para Marx o problema era a “família burguesa”. Ao estudar mais a fundo o tema, o húngaro Gyorgy Lukacs e o italiano Antonio Gramsci concluíram que não só a família burguesa, mas toda a cultura ocidental era um obstáculo para a revolução mundial comunista. Seria preciso minar os pilares da cultura ocidental, baseada  na moral judaico-cristã, no direito Romano e na filosofia grega clássica para abrir o caminho para a revolução comunista global.

O problema, portanto, era como transpor tamanho obstáculo? Eis a questão que os pais do Marxismo Cultural se debruçaram durante anos. Lukacs deu as primeira dicas, chamando a atenção para a necessidade de incutir nos trabalhadores a “consciência de classe”, sugestão que se mostrou  insuficiente. A resposta definitiva para a questão Gramsci encontrou na prisão, quando escreveu sua coletânea de 29 cadernos, que após sua morte, em 1937, foram publicados com o título Cadernos do Cárcere. Ele propunha um investimento de longo prazo nas futuras gerações. Como não seria mais possível mudar a cabeça dos adultos, o caminho seria introduzir o marxismo na educação para preparar a sociedade para o grande “príncipe” que, segundo ele, era o Partido Comunista. Vejamos as palavras do próprio Gramsci:

“O moderno Príncipe (partido comunista), desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa… que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe… O Príncipe toma o lugar nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.

Ou seja, para Gramsci o Partido Comunista está acima de tudo. Para coloca-lo no poder vale qualquer coisa, inclusive subverter a moral, a ética, as tradições e culturas. Não existem crimes, desde que sejam cometidos em nome do “Príncipe”. É incrível, mas este cara conseguiu influenciar todas as gerações do pós-guerra, dominando os círculos acadêmicos, a mídia e o meio artístico. O Marxismo Cultural é sim uma realidade.

Gramsci não viveu o suficiente para ver o resultado de sua “obra”, mas seu colega de conspiração Lukacs viveu até 1971, tempo suficiente para perceber o mal que fez a humanidade e renegar sua própria obra “História e Consciência de Classe”.

Mas Gramsci e Lukacs não estiveram sós na construção do Marxismo Cultural. Desde 1924, um grupo de marxistas reformistas fundaram a famosa Escola de Frankfurt, na Alemanha. Desde então, produziram uma imensa coletânea de obras em todas as áreas das ciências humanas, procurando sempre incutir as ideias marxistas e combater a cultura ocidental.

Quando Hitler chega ao poder, dois dos mais importantes nomes da Escola de Frankfurt (Adorno e Marcuse) migraram para os EUA, onde continuaram a plantar as sementes marxistas no meio acadêmico. Agora ainda mais próximos do objeto de suas críticas, eles passaram a associar algumas características dos conservadores norte-americanos ao nazismo, ajudando a criar o mito de que Hitler teria sido o maior exemplo de extrema direita, mesmo ele sendo socialista, assim como seu próprio partido. Nacionalismo, patriarcalismo, pais repressores, apego as tradições, enfim, todas as características da direita conservadora que fossem identificadas no nazismo, logo eram salientadas ao máximo pelos teóricos frankfurtianos. Eles conseguiram juntar o marxismo à psicologia de Freud e ao existencialismo de Heidegger, um terreno fértil para a produção de milhões de teses ema universidades do mundo todo desde então.

Marcuse é considerado o pai do “politicamente correto” norte-americano exportado para todo mundo via indústria cultural. A cada nova guerra em que os norte-americanos se metiam, mais combustível para Marcuse, autor da célebre frase “Faça amor, não faça a guerra“, um dos lemas da revolução sexual dos anos 60 e 70. Não por acaso Marcuse viria a ser um dos principais homenageados nos protestos de Maio de 1968, em Paris, um dos momentos mais icônicos do Marxismo Cultural do século XX.

Aos poucos, o “politicamente correto” marxista foi moldando as bandeiras do esquerdismo, anexando às diferenças filosóficas fundamentais, que citamos no primeiro post desta série, novos elementos à dicotomia esquerda x direita, como, por exemplo, o aborto, o casamento gay, o feminismo, o ambientalismo, a descriminalização das drogas, a eutanásia, entre outras bandeiras esquerdistas atuais mais sutis.

Claro que temas polêmicos como estes nunca encontram unanimidade mesmo entre os integrantes de um mesmo partido que tenha alguns desses temas como bandeira. No entanto, o alinhamento do “politicamente correto” à esquerda tem indicado a “direção” a ser seguida pelos esquerdistas, levando muitas pessoas a pensar em bloco.

Uma das grandes “conquistas” do Marxismo Cultural foi o fortalecimento do sentimento de uma irmandade que une os esquerdistas em todo mundo. Este comportamento de tribo faz com que muitas pessoas não parem para pensar muito sobre as bandeiras que defendem. Se o grupo a que pertencem defende aquela ideia, sua capacidade crítica sobre aquele assunto será anestesiada. Ele se tornará um defensor radical daquela ideia, simplesmente por ser uma das bandeiras do seu grupo.

Tal radicalização empobrece o debate, uma vez que impede que as pessoas vejam as diferentes nuances de cada tema. Para um defensor da democracia liberal como eu, por exemplo, nada me impede de defender bandeiras ambientalistas mais identificadas com a esquerda. O mesmo vale para um esquerdista. No entanto, nos períodos eleitorais, tais diferenças são estimuladas ao máximo pelos esquerdistas, fazendo com que as pessoas como menos capacidade de discernimento acabem absorvendo os “pacotes” prontos de discursos.

Nesta luta incessante, os valores judaico-cristãos (que são um dos pilares da cultura ocidental que os marxismo cultural busca minar, vale lembrar) irão sempre se colocar radicalmente contra temas que atentem contra a vida ou a moral cristã como, por exemplo, o aborto, a eutanásia e o casamento gay (a exceção a esta regra é a pena de morte, historicamente mais identificada com a direita). Para o “politicamente correto” esquerdista, se não é possível eliminar a religiosidade do povo, como gostaria Marx, então que a religiosidade tenha seu alcance limitado. Neste contexto, o Estado laico passa a ser uma bandeira mais à esquerda. E já que não é possível acabar com a religião, o Marxismo Cultural procurar infiltrar-se nela. Na Igreja Católica, por exemplo, a Teologia da Liberação tornou-se um dos braços mais ativos do esquerdismo.

Como pano de fundo de todas estas disputas, o “politicamente correto” esquerdista evoca sempre os princípios democráticos e os direitos fundamentais do ser humano. Se o aborto atenta contra os princípios do cristianismo, o direito da mulher decidir sobre seu próprio corpo é apresentado pelos esquerdistas como contraponto aos valores religiosos. Da mesma forma os direitos dos homossexuais ou de qualquer outra minoria. Ironicamente, a esquerda que evoca tais valores é a mesma que fecha aos olhos a todas as violações dos princípios democráticos e dos direitos humanos nas experiências totalitárias, onde quer que o socialismo tenha sido implantado.

Mas “os fins justificam os meios”, diria Maquiavel, um conterrâneo de Gramsci, cujo pragmatismo foi adaptado pelo segundo para preparar o caminho para o verdadeiro “príncipe”, o Partido Comunista, um trabalho de longo prazo na estratégia de conquista da hegemonia, a principal meta de Gramsci. Para quem é cético a conspirações seculares como eu, está aí uma conspiração real que deu certo.

No próximo post desta série, as principais correntes de direita. Até la!


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2 Responses to Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita (parte 2)

  1. Silas Alencar says:

    Concordo que a esquerda errou muito ao longo da história, talvez até mais que a direita, mas acho também que é a esquerda que devemos as conquistas sociais que temos hoje, assim como a Escola de Frankfurt a crítica mais bem elaborada do nosso doente sistema capitalista. Acho que jogar a Escola de Frankfurt numa mera “conspiração marxista para destruição da cultura ocidental” é simplificar demais a contribuição dessa escola ao pensamento humano.

    • Amilton Aquino says:

      Olá Silas! É claro que a esquerda errou muito mais, tanto que a história da esquerda é cheia de reviravoltas e hoje ela está muito mais parecida com a direita que o contrário. Sobre as conquistas trabalhistas, até concordo com vc, embora perceba nelas alguns vieses nada positivos. Sobre a Escola de Frankfurt acho que seus pensadores pelo menos demostraram algum caráter ao reconhecer que estavam errados (pelo menos em alguns aspectos), ao contrário de Gramsci que chegou ao ápice da cara de pau, com seu descarado objetivo de manipular os seus declarados “idiotas úteis”. Reconheço sim algumas contribuições da Escola de Frankfurt, mas o que me incomoda mais é que ainda hoje a Teoria Crítica original é estudada a exaustão nas universidades, sendo que os próprio frankfurtianos já nos anos 50 já reconheciam que as coisas não eram bem como eles tinham imaginado. É uma masturbação sociológica sem fim, sempre usando como referência para as crítica um mundo utópico comunista que nunca existiu nem nunca existirá, que contrasta totalmente com a realidade das diversas tentativas reais de implantação de socialismos ao redor do mundo.