Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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O Brasil estragou tudo?

o_brasil_estragou_tudoA última capa da revista britânica The Economist sobre o Brasil corrige uma falha da própria revista, quando, quatro anos antes, publicou uma outra reportagem especial excessivamente otimista sobre nosso país. Não traz nenhuma novidade, nada além do que boa parte dos economistas, empresários e jornalistas alertam há anos, mas traz a credibilidade de um olhar estrangeiro de uma das mais respeitadas revistas do mundo.

Dessa vez a repercussão no Brasil foi bem aquém das expectativas. Diferente da capa de 2009 que mostrava o Cristo Redentor decolando, utilizada abundantemente pela militância do PT para reforçar o clima de “Brasil potência” às vésperas das eleições presidenciais, dessa vez quase nada se falou, nem mesmo a Carta Capital, a revista que é associada à revista britânica.

Nos grandes portais que publicaram alguma alusão a reportagem, os comentários mais corriqueiros dos petistas procuravam mostrar uma contradição entre a opinião da revista sobre a presidente Dilma (segundo a qual “o brasileiro não teria bons motivos para reelege-la”) e dos próprios brasileiros, que aprovam a gestão da presidente. Também aqui nenhuma novidade, afinal o PT soube mais uma vez provocar e capitalizar politicamente algumas brigas com alguns setores da sociedade “em prol do povo”.  Como ser contra uma reforma política? Como ser contra a vinda de mais médicos para o Brasil? Como ser contra a queda dos juros? Como ser contra a queda da conta de luz? Como ser contra a queda dos impostos que incidem na cesta básica? Como ser contra o aumento do salário mínimo acima do crescimento do PIB e da inflação.

Claro que ao debater cada um dos pontos citados vamos encontrar diversas nuances em cada uma dessas polêmicas que, no final, ficarão restritas à parte mais bem informada da sociedade. A grande massa, infelizmente, só vai perceber a “luta do PT contra setores poderosos da elite”, o país vai jogar mais problemas para o tapete e o PT vai sair fortalecido politicamente. Foi assim na Argentina de Perón, foi assim na Venezuela de Chaves, e está sendo assim no Brasil do PT e em todos os governos populistas. A oposição não percebe, mas sempre cai como um patinho na isca do PT e nós seguimos aumentando o Estado que conduz a ineficiência e a escassez.

Faço esta digressão para mostrar a questão central que está por traz da indagação que dá o título da reportagem britânica: o Brasil estragou tudo?

Infelizmente temos dado vários passos na direção. Desde o segundo mandato de Lula os nossos governantes têm jogado mais para a torcida, evitando assumir os ônus necessários para fazer as reformas impopulares. Está aí a principal razão do abandono da agenda de reformas depois do escândalo do mensalão. O medo de perder o poder levou o governo a definir como prioridades ações de curto prazo. Uma frase da reportagem resume bem esta “estratégia” do governo: “o Brasil tem esgotado todas as formas fáceis de crescer”. A revista cita as vantagens competitivas naturais dos países em desenvolvimento, como, por exemplo, a migração da população do campo para a cidade, a incorporação ao mercado de trabalho da mão de obra feminina e, principalmente, o esgotamento do nosso bônus demográfico. Eu acrescentaria a esta lista o exagerado aumento do crédito que tem levado as famílias brasileiras ao limite do endividamento e o aumento do salário mínimo acima da inflação, do PIB e da produtividade.  Ou seja, ao mesmo tempo que nosso país perde potencial de crescimento de logo prazo com esgotamento de suas vantagens naturais de um país emergente, sem fazer uma poupança para os anos futuros de crescimento mais baixo, vale salientar, no curto e médio prazo, o governo ainda reduz mais os horizontes dos investidores antecipando o potencial de consumo no futuro via endividamento no presente e tornando o custo da mão de obra insustentável. Não é preciso ser bom de matemática para perceber que a política de aumento do mínimo vai ter que ser abolida em algum momento. Mas, quem terá coragem de fazê-lo? A Dilma até deu um sinal neste sentido no primeiro ano de governo, mas logo voltou atrás por causa das resistências do próprio partido. Pelo andar da carruagem, esta tarefa ingrata vai ficar para um outro governo. Se for da oposição, o PT vai faturar politicamente mais uma vez, pois pousará de “defensor dos trabalhadores”. Este sim um “investimento” de longo prazo do PT.

Também no longo prazo, o Brasil encaminha para um colapso total na previdência. Além de envelhecer antes de ficar rico, nosso país já gasta hoje com aposentadorias o triplo da média dos países ricos. Mesmo ainda desfrutando do bônus demográfico de uma população ainda jovem, conseguimos ser piores até mesmo que a caótica Grécia. E, ao invés de reabrirmos as discussões sobre a reforma da previdência, discutimos o fim do fator previdenciário, justamente a reforma possível do governo FHC que tem segurado um pouco o ritmo de crescimento do déficit da previdência nos últimos anos. Infelizmente o fator previdenciário só não resolve. Neste ano o rombo da previdência vai aumentar num ritmo ainda mais forte, o que poderá nos levar a uma situação parecida com a da Grécia. Ou seja, não aprendemos nada com a experiência dos outros.

No caso da reforma da previdência há ainda um agravante. Os efeitos de algumas medidas que terão que ser tomadas só serão sentidos décadas depois, pois as novas regras só valem para os novos aposentados. Aliás, os excessos de “direitos” instituídos pela constituição de 1988 é um outro fator que engessa nosso país. E o pior é que novos “direitos” vão surgindo a cada ano através de emendas parlamentares ou medidas provisórias do governo. Como resultado, temos um país que direciona a maior parte da arrecadação para custos fixos, sobrando muito pouco para investimentos. Ou seja, enquanto a média mundial de investimento está na casa dos 3,8% do PIB, no Brasil o percentual não chega a 1,5%. Sem investimento, não tem infraestrutura, sem infraestrutura, o país perde competitividade o que força o governo a aumentar as barreiras às importações, o que, por sua vez, prejudica nossa competitividade e inserção no mercado global.

Portanto, a revista conclui o óbvio: o Brasil precisa retornar a agenda de reformas para ter um crescimento realmente sustentável e não comprometer o futuro. Ao invés disso, nosso governo continua relutante, agindo na base do improviso, sempre muito tarde, quando os problemas não podem mais ser jogados para debaixo do tapete. Um exemplo disso a revista cita o programa de privatizações de aeroportos, portos, ferrovias e rodovias, os quais só foram colocados em prática depois que a realidade convenceu o governo de que não tinha recursos para fazê-los. Mas até neste aspecto positivo do governo Dilma, novos erros foram cometidos. Tentando fugir do rótulo de “privatista” que tanto acusou o governo FHC, o governo do PT impõe uma série de barreiras aos investidores, o que os tem afastado dos leilões realizados até aqui, sendo que alguns já foram adiados justamente por falta de interessados. Ou seja, até com o programa de privatização o governo do PT têm conseguido deixar o mercado ainda mais pessimista com o Brasil.

Sem recursos para investir, o governo recorre cada vez mais à emissão de novos títulos e procura interferir no mercado através das estatais e fundos de pensão. Como resultado, segue inventando novos artifícios contábeis tentar cumprir a meta de superávit primário. Acontece que a cada ano tais manobras ficam mais visíveis, esgotando as possibilidades de novas manobras e prejudicando ainda mais a reputação do Brasil, aproximando-o da caótica Argentina, cujos indicadores oficiais não têm mais nenhuma credibilidade.

Enfim, a revista conclui óbvio: o Brasil perdeu uma excelente oportunidade de fazer as reformas necessárias nos anos do boom econômico da década passada que beneficiou os países emergentes, algo que muitos economistas, inclusive nosso modesto blog, vêm repetindo há anos.

Apesar de todos os problemas apontados, a revista ainda consegue ser otimista com nosso país, afinal a realidade estará sempre pronta para nos ensinar. Como no exemplo do Pré-sal, apesar do caminho mais dispendioso escolhido pelo PT, o Brasil a longo prazo deverá se tornar um exportador de petróleo. Certamente vamos gastar mais recursos do que deveríamos para conquistar os mesmos resultados, mas a tendência universal é o desenvolvimento e o Brasil, apesar de lutar contra esta força inexorável da natureza, felizmente não está imune a ela. A realidade e a história estão sempre nos mostrando o melhor caminho. Uma pena que nem todos os políticos tenham a mesma capacidade (e honestidade) para aprender com estes excelentes professores.

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