Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita

esquerda_direita_cerebroEm 2011 escrevi uma série de 20 posts mostrando a trajetória dos dois polos ideológicos ao longo da história (ver aqui). Uma das principais conclusões foi que, com a derrocada do mundo comunista, o esquerdismo deslocou-se em direção ao centro do espectro ideológico, abandonando o comunismo como ideal a ser conquistado e abraçando a social democracia. Ou seja, a Esquerda teve que ser convencida pela realidade de que suas principais bandeiras estavam equivocadas.

No Brasil, o PT ao assumir as bandeiras da social democracia (e ao mesmo tempo abrandar o discurso socialista), ocupou o lugar originário do PSDB, empurrando-o para a direita e mantendo acesa a velha polarização esquerda x direita, agora sob a dicotomia “mais estado x menos estado”. Ou seja, tudo que sobrou da disputa ideológica que matou mais de cem milhões de pessoas no último século. Finalmente (e felizmente) a antiga bandeira de “acabar com a opressão do capitalismo” foi substituída pela mais realista “humanização do capitalismo”.

O problema foi o remédio escolhido: o keynesianismo, justamente um dos principais responsáveis pelo mar de dívidas que todos os governos do mundo se veem mergulhados nos dias atuais e os processos inflacionários que devastaram dezenas de países desde então. A ironia desta guinada da esquerda à direita é que até meados do século XX, o keynesianismo era considerado apenas mais uma vertente do liberalismo, uma derivação dos liberais clássicos, adotada em todo mundo com uma alternativa para “salvar” o mundo capitalista, em crise, com o fantasma do comunismo stalinista que passava por seus “anos gloriosos”.  Daí o neologismo “neoliberal” que, quando começou a ser usado, na primeira metade do século XX, ainda não tinha a conotação pejorativa imposta pelos esquerdistas a partir da década de 80.

Nos regimes autoritários, o keynesianismo caiu como uma luva, tornando-se um marca destes regimes, onde a mão forte do estado dava o tom dos rumos da economia.

Com tantas mudanças, é natural que a cada dia surjam mais simpatizantes de ambas as correntes afirmando que tais distinções entre esquerda e direita não fazem mais sentido. Mas será que não fazem mesmo? É possível identificar objetivamente traços característicos que estabeleçam claramente as diferenças entre esquerdistas e direitistas? É o que tentaremos responder nesta nova série de posts.

As diferenças fundamentais

A diferença mais genérica entre as duas correntes tem a ver com a visão filosófica da natureza humana, um debate que remonta aos primórdios do capitalismo. Para o “pai dos esquerdistas”, o iluminista Jean-Jacques Rousseau, o ser humano nasce bom, porém é corrompido pela sociedade.  Para o inglês Thomas Hobbes, é justamente o contrário. O homem em seu estado natural não passa de um selvagem, “o lobo do próprio homem”. A civilização, com suas leis e costumes, ajudariam a controlar estes maus instintos. Portanto, a primeira e mais clara distinção entre os dois polos ideológicos é que os esquerdistas têm uma visão otimista / romântica da natureza humana, enquanto que os direitistas tendem a ser mais pessimistas / realistas.

A visão otimista do ser humano ganharia mais força no século XIX com o surgimento do positivismo de Augusto Comte. Ao rejeitar a religião e a metafísica para explicar a realidade, Comte aponta o positivismo como uma nova forma de conhecimento, um conhecimento superior, a etapa final e definitiva da evolução da humanidade, tornando-se uma fonte de inspiração para todas as propostas de “engenharia social” que surgiram nos anos posteriores. E aqui surge uma segunda distinção clássica entre os dois polos ideológicos: o esquerdismo quer promover uma “reengenharia social”, quer mudar a sociedade através da ação de seus líderes.  A direita reage às ideias esquerdistas, pois acredita na evolução natural da socieade. Daí outro adjetivo pejorativo “reacionário” (ou simplesmente “reaça”) que os esquerdistas passaram a rotular quem não concordava com suas premissas.

A entrada dos filósofos alemães no debate entre franceses e ingleses coloca mais pimenta na briga.  Marx e Engels plantaram as sementes do comunismo que tornaram mais clara uma terceira diferença fundamental entre as duas correntes: a disposição dos esquerdistas de abrir mão de uma parte do seu individualismo (em alguns casos, todo o individualismo) em prol de um bem maior, coletivista. Esta disposição esquerdista levou a direita a se preocupar em preservar seu individualismo, ampliando o debate para uma nova dicotomia: coletivismo x individualismo.

O objetivo esquerdista de tornar a sociedade mais “igualitária” colocou em xeque a liberdade individual, uma vez que tal redistribuição de riquezas implicaria na retirada (mesmo que à força) dos mais ricos para redistribuir entre os pobres. Portanto, uma terceira distinção clara entre direita e esquerda que permanece atual é a tendência dos primeiros de preservar a liberdade e os direitos individuais, sob qualquer circunstância, enquanto que, para os esquerdistas, admite-se a perda de individualismo e liberdade (ou pelo menos parte dela) em prol da “construção de uma sociedade mais igualitária”.

O desejo de “reformar” a sociedade, mesmo com o custo da supressão de alguns direitos individuais, criou uma nova dicotomia entre os dois polos, que se tornou uma das marcas mais visíveis do século XX: revolucionarismo x conservadorismo.

O objetivo da esquerda de revolucionar a sociedade, mudando a estrutura social e os meios de produção, exige dos esquerdistas um maior empenho e organização. Eles passam a se sentir parte de um exército mundial, disposto a matar ou morrer para derrotar a “burguesia capitalista” e passar aos “trabalhadores” o controle dos meios de produção. Claro que isso não faz mais sentido nos dias atuais quando cada vez mais políticos esquerdistas do poder se aliam a grandes cooporações, numa simbiose perniciosa que chamamos hoje de “capitalismo de estado”. Porém, a velha dicotomia do “nós contra eles” (o bem contra o mal) continua sendo fomentada pelos esquerdistas, que procuram utilizar todos os meios possíveis para manter aguerrida sua militância política contra as “forças conservadoras” (do mal).

Portanto, uma quarta distinção clara entre esquerdistas e direitistas é a tendência dos primeiros de polarizar a sociedade, vendendo a ideia de que são revolucionários, construtores de uma sociedade “mais justa e igualitária”, numa luta incessante contra conspiradores de direita internos ou externos.

Este caráter “revolucionário” dos esquerdistas, ao mesmo tempo que matém a sua militância coesa (apesar de todos os equívocos históricos que levaram a esquerda a mudar de rumo em vários momentos da história), define também quem é de direita. Ou sejam quem não se enquadra na ideologia de esquerda, é automaticamente caracterizado como de direita e, portanto, o inimigo a ser abatido.

Portanto, uma quinta e clara diferença entre esquerdistas e direitistas é que os primeiros formam um grupo mais coeso e organizado. Seus militantes sentem-se parte de uma irmandade que, em muitos casos, supera até os laços de família. A direita, por ser definida como “todos aqueles que não são de esquerda”, engloba todos os outros pontos de vista que discordam da “cultura esquerdista”. Ou seja, é a esquerda quem define a direita.

Acontece que, por englobar todo o resto (para os esquerdistas mais fanáticos a escória que deveria ser extirpada da face da Terra), a direita forma um grupo heterogêneo, desorganizado, onde sobressaem dois subgrupos principais, com pontos de vista bem distintos e em alguns aspectos antagônicos: conservadores e liberais.

Mas este já é um assunto para o próximo post. Ajude-nos a divulgar nosso blog. Curta, divulgue nossos links. Até o próximo post!


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20 Responses to Diferenças fundamentais entre Esquerda e Direita

  1. Daniel says:

    Este por exemplo, é um blog de direita.

    • Amilton Aquino says:

      Bom, se ser de direita é ser defensor da democracia liberal e combater o populismo, o keynesianimo as ineficiências dos estados intervencionistas, pouco me importa o rótulo que vc vai me der. Afinal é a esquerda quem define quem é de direita, independente das ideias serem corretas ou não. E já que vcs esquerdistas se acham os donos da verdade, então seria bom que trouxessem argumentos de verdade. Mas lhe desculpo, afinal já pensei como vc. Felizmente amadureci. Amadureça também!

  2. Sandro says:

    “Direita e esquerda passaram por inúmeras variações e combinações ao longo dos últimos séculos. Mas, onde quer que se perfilem com força suficiente para hostilizar-se mutuamente no palco da política, essa distinção permanece no fundo dos seus discursos: direita é o que se legitima em nome da antigüidade, da experiência consolidada, do conhecimento adquirido, da segurança e da prudência, ainda quando, na prática, esqueça a experiência, despreze o conhecimento e, cometendo toda sorte de imprudências, ponha em risco a segurança geral; esquerda é o que se arroga no presente a autoridade e o prestígio de um belo mundo futuro de justiça, paz e liberdade, mesmo quando, na prática, espalhe a maldade e a injustiça em doses maiores do que tudo o que se acumulou no passado.” – Olavo de Carvalho

    http://www.olavodecarvalho.org/semana/051031dc.htm

  3. Sandro says:

    “o esquerdismo quer promover uma “reengenharia social”, quer mudar a sociedade através da ação de seus líderes.”

    “Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.” Bakuni – Anarquista Russo do Séc XIX

  4. Sandro says:

    “Portanto, uma quarta distinção clara entre esquerdistas e direitistas é a tendência dos primeiros de polarizar a sociedade, vendendo a ideia de que são revolucionários, construtores de uma sociedade “mais justa e igualitária”, numa luta incessante contra conspiradores de direita que desejam a todo custo manter seus status quo.”

    Ok, então quando os comunistas chegaram ao poder em 1917 passaram a ser de direita, por quererem manter o Status Quo recém conquistado?

    A propósito, parece que o Mino Carta acha que Stálin era de extrema-direita: http://www.youtube.com/watch?v=l4-wZGkjECs

    • Amilton Aquino says:

      Caramba, vi o vídeo do Mino agora. Ainda bem que ele admite no final do vídeo: “É o meu raciocínio. Bastante elementar, creio eu”. Kkkkkkkkkkk! De qualquer forma, esta quarta diferença continua válida, mesmo em regimes ditatoriais. Veja o caso de Cuba, por exemplo. Na ausência de um inimigo interno, o discurso do inimigo externo é sempre utilizado. O status quo que citei tem mais um sentido de tradição que o Olavo citou. Abraço e obrigado pelas enriquecedoras citações.

  5. André Luiz says:

    Mencionou-se no texto: revolucionarismo (esquerda) X conservadorismo (direita), dicotomia que se tornou uma marca visível no séc. XX.
    Quero deixar apenas um breve comentário de como essa dicotomia pode estar ocorrendo no séc. XXI,aqui no nosso Brasil. A força “revolucionária” que ocupa o poder, atualmente, adota algumas marcas conservadoras, até mesmo por necessidade, mas alimenta o objetivo de longo-prazo de mudar as estruturas da sociedade. Ela se mistura ao poder, por meio de alianças, fazendo o jogo do próprio mercado, adotando políticas conservadoras, no entanto, em doses homeopáticas pretende, ou alimenta a fantasia de preparar uma revolução aos moldes do socialismo/marxismo, em que a igualdade é um bem mais importante que a liberdade. Não à toa há a política externa de aproximações de países que tem a característica de ter uma marca revolucionária mais agressiva nesse aspecto, a semelhança da Venezuela, Bolívia e Cuba. Não à toa nós conhecemos medidas de atingir a liberdade de imprensa, vindo dessa força.
    Em um primeiro momento, pensei que essa forma de agir da esquerda seria uma característica do sec. XXI, em todo o mundo, mas preferi ser prudente e aplicar o caso ao Brasil. Claro, considerando-se que essa minha interpretação está correta. Pois na própria esquerda, há variações, tem uma área que já está partindo para o centro, moderada, e possivelmente remodelando as suas convicções; e outra ainda afincada à idéia, de que a direita é o “lado mau da força”, e a esquerda é o “lado bom da força”. Eu digo isso porque eu já li a expressão, e não foi uma vez, de um esquerdista convicto. Já li também, que o PT se mantendo no poder, vai conseguir promover a reforma agrária. Não sei se era uma reforma agrária dentro da legalidade, pois o amigo simplesmente soltou a expressão, e não escreveu mais nada.

    • Amilton Aquino says:

      André, embora eu tenha afirmado que estas dicotomias estiveram mais acentuadas no século passado, na verdade elas continuam sim existindo nos dias atuais, só que de uma forma mais disfarçada, como vc bem observou. Abraço!

  6. Pedro Cavalcante says:

    Quem se baseia a partir de Olavo de “Caralho” não tem credibilidade…

    • Amilton Aquino says:

      Vc já ouviu falar da falácia ad hominen? Pois é, vc não argumenta, mas tenta me desqualificar direta ou indiretamente. Como vc não me conhece, já que não gosto de aparecer, tenta usar o Olavo de Carvalho.

  7. Você não tem capacidade intelectual para definir esquerda e direita, sai do Olavismo e tentar viver a vida!

    • Amilton Aquino says:

      É mesmo? Então já que vc se considera tão “capacitado” vamos debater. Mas traga argumentos de fato, não me venha tentar colar em Olavo de Carvalho.

  8. Pingback: Brasil: o país do direito sem obrigação | Blog do Munhoz

  9. Sillas says:

    Curtam meu Blog que esclarece a diferença entre Esquerda X Direita Política: http://www.esquerdaxdireita.blogspot.com.br/

    • Amilton Aquino says:

      Dei uma olhada rápida, Silas. Depois vou ver com mais calma. Gostei muito da escala radial de convergência política.

  10. Amilton Aquino! Conheci teu blog este ano e tive dele duas gratas surpresas: a primeira, tua notória capacidade de síntese e didática ao expor intrincadas questões políticas, econômicas e históricas do Brasil ; a segunda, a impressionante similitude da tua experiência com a minha. Como você eu também fui no passado esquerdista(não petista, mas simpatizante) e, hoje, também como você, ‘douro a pílula’, e me vejo, a exemplo dos filósofos contratualistas por ti citados na presente matéria, flertar com a a posição hobbesiana. Além disso, registro a irretocabilidade da tua análise dos feitos e malfeitos dos governos FHC e Lula(Dilma é só um apêndice deste) e, em especial, dos teus (3) três artigos sobre “Lula e a Mídia Golpista” que li outro dia(sobre o PNDH do Lula não tens nenhum comentário a fazer?). Por ultimo, nesse meu breve comentário, não poderia deixar de te dizer que gostaria de ver por ti tratado(3)três assuntos palpitantes do Brasil de hoje: 1)a estrutura da saúde e o programa ‘mais médicos’; 2) da educação quantitativa e qualitativa em todos os níveis; e 3) dos efeitos deletérios do programa bolsa família adotado como política de Estado numa eventual troca de modelo keynesianista de governo? Abraço e parabéns pelos excelente artigos que tens escrito( e eu lido….).

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado André. Estou com algumas pendências mais urgentes, mas certamente irei escrever sobre os temas sugeridos. Abração!