Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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A crise de identidade do PT

PT-rachadoUma coisa temos que admitir. O PT é de longe o partido mais organizado do Brasil. Até mesmo quando está dividido. A recente “proposta de resolução”, recheada de contradições, levada ao Diretório Nacional do partido, no último sábado, tem um objetivo claro: testar junto à opinião pública os principais argumentos das duas principais correntes que disputam o poder internamente. A linha que der mais Ibope, leva. Foi assim que o PT chegou ao poder, foi assim que o PT governou e é assim que o PT vai tentar manter-se no poder.

A volta de Lula ainda é uma incógnita. Pesam contra sua saúde e o risco político de ter que enfrentar ventos contrários na economia, o que comprometeria sua imensa popularidade construída na esteira da bolha da economia mundial dos anos 2000 e na farra da expansão do crédito. Estaria Lula disposto a correr o mesmo risco que Michael Schumacher correu ao retornar a Fórmula 1 em condições adversas, tendo que ser rebaixado de sua antiga condição de mito para piloto comum?

O orgulho de Lula diz não, mas o seu gosto pelo poder o atrai como um imã à disputa política, fomentando o coro de “volta Lula” dentro do próprio partido. A razão também diz não, mas a julgar pelo apetite em que ele tem aparecido na mídia nos últimos dias aumenta ainda mais a interrogação. A divisão é clara e a recente “proposta de resolução” é a prova documental da crise de identidade do PT, acentuada depois dos protestos de junho. Acostumado a mobilizar as massas contra um suposto ente conspirador de direita, desta vez o PT viu o feitiço virar contra o feiticeiro. A ala mais consciente do partido finalmente admitiu o que falamos aqui há anos: “o PT precisa reconhecer com humildade os erros cometidos”.

Infelizmente a ala radical, comandada pelo atual presidente, Rui Falcão (que tenta a reeleição e ambiciona suceder Dilma) prefere transformar Dilma em um bode expiatório, eximindo o partido da culpa. A estratégia é parecida com a adotada por Lula no episódio do mensalão, com a diferença que desta vez é o partido que tenta se esquivar da culpa jogando a conta para a figura da presidente. Ou seja, quando foi conveniente, Lula desatrelou sua imagem do PT. Agora, como também é conveniente para a ala radical do PT que resiste em assumir os equívocos do partido, o conveniente seria desatrelar a imagem de Dilma do PT. Nesta estratégia, a volta de Lula seria a grande solução, pois liberaria o PT para fazer o que mais gosta: atirar pedras. Algo bem parecido com o que fez o PT de Pernambuco, ao fazer oposição ao prefeito do próprio partido, história que, como todos sabem, não acabou bem.

E mesmo tentando se desculpar pelos erros cometidos, o PT repete os mesmos erros. Tentando justificar a queda de popularidade de Dilma, a proposta de resolução aponta como a principal “trava ao desenvolvimento” os velhos e já manjados vilões da mídia, agora irmanados com o Congresso e com a Justiça. Ou seja, o PT tem o governo federal nas mãos, tem uma base aliada que engloba quase todos os partidos do Brasil, nomeou quase todos os integrantes do STF, conta com o apoio de uma parte considerável da mídia e ainda assim tenta reafirmar o discurso conspiracionista do qual se diz vítima.  Até quando o PT vai apostar na radicalização da política para desviar o foco para seus reais erros? Até quando o PT vai apostar na ignorância do povo, insistindo neste manjado discurso conspiracionista? Até quando o PT vai pousar de vitima? Até quando o PT vai tentar enganar a si mesmo e ao povo?

Infelizmente não há nenhum indício de que esta autocrítica de fato venha a ocorrer. Pelo contrário, a tendência atual é de ainda mais radicalização, de mais aposta na estratégia do “nós contra eles”. Nesta estratégia já jogaram o antigo aliado, Eduardo Campos, no colo dos “conspiradores”. A proposta de resolução pede cuidado com os “porta-vozes do capital”, os “neoliberais-conservadores”, que estariam agora em busca de um outro bloco social (no caso, o PSB) ou talvez até de “candidaturas avulsas” (no caso, Marina). E aqui temos mais uma ironia da história, pois esta é a mesma crítica feita pela ala dissidente do PT que originou o PSOL no início do governo Lula. Ou seja, o PT pode “dialogar” com os setores conservadores, mas os outros não. O PT pode despejar fortunas em grupos empresariais amigos do rei, os outros não.O PT pode comprar votos, os outros não. Lula pode fazer alianças com Maluf, os outros não.

Isto é uma das coisas que mais me irritam no PT, além da mania de desqualificar o oponente para desviar o foco de suas mazelas.  O partido desceu ao fundo do poço, fez tudo que criticava quando oposição, mas não baixa a crista e continua tentando vender o discurso que só eles podem, só eles fazem e acontecem, só eles são especiais, só eles são os ungidos pelo povo para combater o mal.

Ambas as correntes ainda tiveram a cara de pau de criticar a “ditadura do marketing político”! Não acreditei quando li isso. Este pessoal não se enxerga no espelho? Quem mais no Brasil faz mais marketing político que o PT? Qual o partido político no Brasil que conseguiu mobilizar até mesmo empresas privadas para fazer publicidade estimulando o ufanismo do “Brasil potência” pintando por Lula? Qual o partido político que mais usou as estatais como instrumento de marketing político? Qual o partido do Brasil que tem a militância mais fanática e que, mesmo assim, ainda pagou para jornalistas infestarem as redes sociais com discursos petistas? Qual o partido político que no poder inventou os programa de rádio “Café com o presidente” e a coluna de jornal “Conversa com a presidente”, disseminados por milhares de jornais e rádios pelo Brasil afora com o objetivo claro de divulgar as ações da presidência? Ou seja, este é um caso de patologia social, onde milhões de pessoas se habituaram a ver as coisas de forma distorcida.

Nas raras vezes que os petistas ensaiam uma autocrítica, é sempre de forma dúbia, sempre com um viés contrário, sempre apontando os outros para diluir sua culpa. Neste exemplo mais recente, eles dão porrada e afagos na Dilma. Ao mesmo tempo em que a apresentam como uma “estadista, uma líder que tem ouvido o país”, criticam o fato da presidente não ter cumprido ainda “todas as tarefas”. Nas palavras dos próprios petistas, “tudo o que foi feito não é suficiente para colocar o universo das políticas públicas em diálogo permanente fértil com as grandes causas do nosso tempo”.

Quanta sinceridade! Se os petistas usassem 10% dessa sinceridade para avaliar os governos Lula e FHC certamente o debate político hoje seria bem mais racional e menos polarizado. Certamente eles perceberiam que muitas das “grandes causas” que eles cobram da presidente exigem tempo e dinheiro, duas variáveis reais que influem diretamente na definição de prioridades de quem ocupa a cadeira de presidente. Eles sabem disso, mas o marketing político do PT não os deixa falar a verdade. Eles ensaiam tudo que devem e o que não devem falar à imprensa. O modus operandi do PT fazer política já foi amplamente divulgado por milhares de militantes e políticos que foram curados dessa patologia social. O próprio Reinaldo Azevedo, hoje um dos mais aguerridos jornalistas empenhados em desmascarar o PT, já foi petista. Aliás, qual dos colunistas da nossa imprensa atual nunca foi petista? Certamente uma minoria que dá para contar nos dedos. Se não foi lulista, foi pelo menos brizolista.

Lula na estrada. De novo!

Quem estranhou o silêncio de Lula sobre os protestos até poucos dias, deve agora estar agora surpreso com o seu apetite para falar. Além do seu artigo biônico para o New York Times, Lula tem proferido palestras e conversado com jovens, certamente muito bem selecionados para evitar eventuais vaias. E, na mesma linha da tal “proposta de resolução”, Lula também faz críticas ao partido, tudo de forma genérica, claro, sem apontar nada muito grave, apenas obviedades com a defesa da política com instrumento democrático e blá blá blá. Segundo ele, o PT precisa de uma “profunda renovação”. Ou seja, ele é o grande guru do PT, o cara que manda e desmanda, que dá as diretrizes para a presidente pau mandado, mas na hora de fazer uma autocrítica, mais uma vez ele se exime e coloca toda a culpa no partido.

Continuando com as generalidades, Lula diz que o PT precisa “encontrar novas soluções para novos problemas”. Ou seja, mais uma vez ele não tem nenhuma responsabilidade. Os problemas são todos novos. Ele deixou tudo lindo e maravilhoso. A responsabilidade é toda de Dilma. Nas palavras do nosso grande guru, os protestos de junho “são resultados do sucesso econômico, político e social do país”!!!

Parece brincadeira, não é? Mas ele teve coragem de afirmar isso. E para embasar sua “tese”, Lula cita a conhecida lorota de que hoje as pessoas estão andando mais de carro, de avião, estão entrando na universidade e, portanto, querem mais. Ele esquece que foi ele quem agravou toda a nossa infraestrutura viária, dando incentivos à indústria automobilística justamente quando a economia já estava em um ritmo de crescimento acima de suas capacidades, em 2010. Ele esquece que foi ele quem reduziu a participação do governo federal de 60% para 40% no custeio da saúde. Ele esquece que sua política de expansão da demanda sem aumento de produtividade levou as pressões inflacionárias que hoje Dilma enfrenta. Ele esquece que sua explosão de crédito levou as famílias brasileiras a um nível de endividamento que praticamente anularam a capacidade de Dilma de implementarnovas “políticas anticíclicas”. Ele esquece que foram as políticas esquizofrênicas do seu ministro “levantador de PIBs”, Guido Mantega, que pioraram a maioria dos indicadores financeiros do país, criando o pessimismo atual que está levando o país à beira da recessão. Ele esquece que quase todos os seus ministros herdados por Dilma caíram por denúncias de corrupção. Ele esquece que o maior motivo do desencanto atual com a política tem a ver com sua metamorfose ambulante. Enfim, ele esquece que muitos economistas alertam há décadas que o Brasil não tinha condições de crescer acima de 7% sob a pena de colapsar sua capenga infraestrutura. Ele preferiu ignorar todos os especialistas e inflar a economia artificialmente via incentivos fiscais e crédito para o PIB ultrapassar a barreira de 7%, com o objetivo claro de colocar na publicidade, nas vésperas das eleições, que o PT tinha quebrado mais um tabu econômico!

Conseguiu. Mas o tempo provou que os especialistas estavam certos. Em todas as áreas a infraestrutura entrou em colapso e a bomba caiu no colo da sucessora, conforme previsto. Agora Dilma tem que fazer tudo ao mesmo tempo agora, inclusive a copa que ele se gabou tanto de ter “trazido” para o Brasil, mas que não fez absolutamente nada, mesmo quando a economia estava bombando.  Alias, vale lembrar a este “deus” da política que a copa foi um dos principais motivadores dos protestos. Então como este “deus” pode ter mais esta cara de pau de se eximir de culpa?

Eis o lado bom de termos a Dilma presidente hoje. Já imaginou se Serra tivesse sido eleito em 2010? O que estaria falando o PT? O que estaria fazendo o PT?

É isto que chamo de pedagogia da realidade. Se não aprender na teoria, aprende na prática, na pele. É isto que milhões de brasileiros estão aprendendo. É isto que explica a queda monumental de popularidade do governo.

Enfim, o PT precisa decidir se quer ser governo ou oposição ao próprio governo. Se optar por ser oposição, terá que admitir que errou ao indicar Dilma, como fez o PT de Pernambuco. Se optar por apoiá-la, vai ter que fazer justamente o que s petistas mais detestam: exercitar a humildade.

Portanto, não basta ao PT reconhecer genericamente que errou. É necessário dizer objetivamente onde errou. É muito fácil agora jogar a culpa na Dilma. Seria bom que o PT dissesseobjetivamente em que discorda das ações do seu próprio governo e apontar as soluções também objetivamente, informando inclusive de onde tirar os recursos para melhorar cada área que carece de melhoria.

O PT precisa urgentemente se convencer que é hora de agir, não discursar. O PT foi eleito para governar, não para fazer oposição. A autocrítica é necessária e urgente. Mas, para cumprir de fato seu papel, precisa ser sincera e não apenas mais uma estratégia política de olho nas próximas eleições.

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11 Responses to A crise de identidade do PT

  1. Ximbica says:

    e como vc mesmo adimitiu, apesar de tudo, o PT continua sendo o partido mais organizado do Brasil. Então, mudar pra quê?

    • Amilton Aquino says:

      É justamente isso que me deixa mais p. da vida com esta lenga lenga do PT. Os caras aprontam, aprontam e ainda gozam do apoio de pessoas como este tal de Ximbica. Amigo, reconhecer que um partido é organizado não é a mesma coisa que dizer que este é o partido mais apto a dirigir o país.

  2. kim says:

    O PT não é simplesmente um partido político, mas uma seita religiosa com credos e dogmas.

  3. kim says:

    Já imaginou se o Serra tivesse sido eleito em 2010?como estaria agindo o PT? vc fez essa pergunta mto oportuna,ja parei pra pensar nela,fico imaginando se o Serra tivesse ganhado q tipo de oposiçao estaria enfrentando dos Petista e do Lula q teve recorde historico de aprovaçao,chego a conclusao Serra,PSDB e oposiçao nao estao preparados pra retomar o Poder,ate porq nesse contexto economico o Brasil precisa de reformas q nao sao nada populares e requer tempo pra resultados concretos,enfim unica soluçao pra oposiçao chegar ao poder e necessidade de um novo Plano Real ou contexto como na decada de 90.

    • Amilton Aquino says:

      Kim, não é que a oposição esteja despreparada para governar, o povo brasileiro é que não estava em 2010, e acho que ainda não está, preparado para encarar a realidade. Nosso país precisa de reformas profundas e impopulares que precisarão ser amplamente entendidas e apoiadas pela população. Um dos maiores males que Lula fez ao Brasil foi passar a impressão de que tais reformas não eram tão necessárias. O boom das economias dos países emergentes na última década deu a sensação falsa de que seria possível crescer sem fazer tais reformas. O fato é que hoje somos um dos países mais caros do mundo, com uma renda per capta apenas média. Nossos produtos custam duas, três, quatro vezes menos no exterior. Está claro que existe algo muito errado na nossa estrutura. Enquanto o mercado interno estava crescendo, o problema foi sendo mascarado. Agora que os indicadores estão piorando, a realidade está finalmente vindo à tona. O famigerado “custo Brasil” vai se tornando um fardo cada vez mais pesado. Pior, alguém vai ter que acabar com o aumento real do salário mínimo acima do PIB, aprovado no final do mandato de Lula. Dilma percebeu esta necessidade logo quando assumiu, mas teve que desistir da ideia por causa da forte resistência do próprio partido. Agora, imagina um presidente de um outro partido propondo acabar com este mecanismo… Teremos greves gerais por todo o país, e mais endeusamento de Lula, claro. Para quem entende um pouco de economia, a cada ano vai ficando mais claro o mal que Lula fez ao Brasil. Para quem não entende nada, a cada ano aumentará a saudade de Lula. Infelizmente.

  4. Gilx says:

    “artigo biônico” para o New York. rsrss
    Amilton, o PT não é um partido comum. Como vc bem falou, ele é muito bem organizado no sentido politico de se reestruturar. Vive tanto de seus acertos quanto de seus muitos erros. Eles têm o DNA do marxismo, que é proteiforme por natureza, como vem dizendo há décadas o Olavo de Carvalho.

    • Amilton Aquino says:

      Verdade. Eles podem se dividir em mil tendências, mas na hora da disputa pelo poder eles conseguem se unir. São movidos pela disputa. Por isso o Brasil entrou em um processo de eternas eleições desde que o PT chegou ao poder.

  5. Oneide teixeira says:

    Quer saber o que é o PT de “verdade”, só indo as reuniões deles.
    E eu vou e tem gente bem intencionada de boa índole, claro que iludidos pelos lideres, por isso a saída em massa de militantes.
    Para ver o que falam internamente da pra acompanhar o PED (processo de eleição direta), processo muito criticado dentro do partido.

    http://ped.pt.org.br/

    No PED as garras são mostradas e ate vi brigas não de idéias mas de combate fisico que só não foram as ultimas pq o povo conteve.
    …………….
    O problema é que para ser um bom eleitor custa muito caro, exemplo o vídeo abaixo é o debate do PED no RJ são 2 horas de vídeo, quem vai ficar vendo, apesar da importância da politica.

    http://www.youtube.com/watch?list=UU0xqLnPTcFVf8MXaIoHPeDw&v=Jad8KWt-Pr8#t=34&hd=1
    .

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado pelos links, Oneide. De fato, é preciso ter estômago para aguentar duas horas de discursos petistas. Já vi a metade e olha que já dá um bom post. É realmente muito preocupante. É um caso patológico de idiotice coletiva. O que nos dá uma esperança é que os maiores críticos do PT hoje são ex-petistas. Quem sabe alguns desses idiotas úteis acordem dessa lavagem cerebral socialista.

  6. Vânia Luz says:

    Ótimo texto. Tenho esperança de que é o último reinado do PT.