Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Balanço do primeiro ano do governo Dilma (parte 2)

Como vimos no primeiro post desta série, na minha opinião o balanço do primeiro ano do governo Dilma foi positivo por dois fatores principais: 1) a menor tolerância em relação a corrupção em relação a Lula; e 2) o não agravamento da situação econômica do país em meio a um cenário altamente desfavorável, fruto da combinação do agravamento da crise européia com os abacaxis deixados por Lula.

Neste post, vamos checar o que foi conseguido pelo atual governo diante de cada um dos desafios apontados na série “Desafios do Pós-Lula”.

Antes, no entanto, é preciso deixar bem claro que, como alertamos aqui desde 2009, a maioria dos problemas deixados por Lula poderiam ter sido evitados caso este fosse menos preocupado com sua popularidade e tivesse um pouco de coragem para assumir alguns ônus necessários para efetuar algumas reformas essenciais ao nosso crescimento sustentável. E olha que não estou me referindo diretamente às faladas e consensuais reformas estruturais prometidas pelo próprio Lula desde o discurso de posse do primeiro mandato, mas que até hoje nenhuma foi realmente tocada, e sim de pequenas ações que poderiam ter evitado a esquizofrenia econômica herdada por Dilma.  Por exemplo, a economia já estava a pleno vapor depois dos seis meses desastrosos da crise de 2008, mas o governo Lula continuou dando incentivos a setores específicos da economia que já não precisavam, como o automobilístico e de eletrodoméstico. Com isto, o governo deu mais fôlego para a inflação. Com mais inflação, já no governo Lula o BC teve que reiniciar uma trajetória de alta de juros, aumentando assim o custo da dívida pública. Com mais dívida e mais juros, mais especuladores vieram ao Brasil. Com mais dinheiro entrando, mais o Real se valorizou em relação ao Dólar. Com mais valorização do Real, mais a nossa indústria perdeu competitividade e mais gente saiu do Brasil para gastar no exterior, o que, por sua vez turbinou o nosso déficit em transações correntes.

Ou seja, na busca desenfreada para fazer um PIB gordo no seu último ano de governo e assim eleger sua sucessora, Lula prejudicou todos os fundamentos da nossa economia e, de quebra, agravou ainda mais os problemas dos gargalos logísticos da nossa economia, superlotando aeroportos, portos e estradas e tornando os investimentos nestas áreas ainda mais urgentes.  Vamos então a cada um dos itens:

A valorização do Real

A excessiva desvalorização do Dólar (que chegou a casa dos 1,50) era uma preocupação constante no início do governo, pois estava inviabilizando alguns dos setores da nossa indústria. Hoje o Dólar está na casa de 1,80 e deu um fôlego a nossa indústria e exportadores, o que fez bombar nossa balança comercial, como veremos adiante. E o que o governo fez para melhorar este quadro?

Desde o final do governo Lula, o BC já havia iniciado uma série de medidas para conter a valorização do Real, mas todas com resultados pífios, pois o Dólar subia um pouco na divulgação das medidas, mas nas semanas seguintes já voltava a cair. Como os analistas previam, o BC enxugava gelo. O governo Dilma continuou enxugando gelo até que um fato novo (externo) aconteceu: o aprofundamento da crise européia. E como sempre acontece nos momentos de crise aguda, a cotação do dólar sobe. E assim chegamos à casa dos 1,80 compensando a valorização excessiva do Real. Portanto, o governo não teve nenhum mérito na melhora deste quadro.  A valorização do Dólar foi decorrente do agravamento da crise européia e, mais uma vez, saímos lucrando com a crise do mundo rico.

O déficit nas contas externas

Ainda não saíram os números finais do ano, mas até outubro, o défict chegava a US$ 39 bilhões. Felizmente terminaremos o ano com um défict menor que o recorde deixado por Lula de US$ 49 bilhões. E qual a explicação para a redução? A alta do Dólar decorrente do agravamento da crise européia. Como o Real estava supervalorizado, a alta do Dólar veio a calhar. Com o Dólar mais alto, os gastos dos brasileiros no exterior e as importações são dificultadas, pois ficam mais caros. Por outro lado, com o Dólar em alta os exportadores brasileiros ganham mais, turbinando assim o nosso saldo positivo que pulou de US$ 20,26 bilhões em 2010 para surpreendentes US$ 29,70 bilhões em 2011. Com isto, demos um importante passo para voltar aos anos da bolha da economia mundial de antes de 2008, quando o saldo positivo da nossa balança comercial rodava em torno dos US$ 45 bilhões.

E de onde veio todo este saldo? Da exportação de commodities (minérios e produtos agrícolas), cujos preços continuam em alta no mercado internacional. Destaque para a Vale, nossa maior exportadora, que responde sozinha por 12% do total exportado brasileiro. Mais uma vez os méritos ficam com a iniciativa privada e com os ventos favoráveis aos países emergentes que continuam aumentando sua participação na economia mundial.

A dúvida é como o Brasil vai se comportar depois que a onda das commodities baixar, pois, como diria Warrem Bufet, “é quando a onda baixa que sabemos quem está nu”.

Desindustrialização

A previsão de déficit no comércio exterior dos bens típicos da indústria de transformação já era prevista. No entanto, os números ficaram bem piores: 40,2% superior ao já expressivo déficit de US$ 34,8 bilhões registrado em 2010. Ou seja, terminamos o ano com um saldo negativo de US$ 48,7 bilhões com tendência de aumentar ainda mais nos próximos anos.

Este número preocupante, no entanto, vai sendo escondido para debaixo do tapete, pois no geral, nosso saldo comercial foi positivo em US$ 29,8 bilhões, com um incremento de US$ 9,5 bilhões em relação ao ano anterior. Ou seja, nosso superávit recorde na exportação de produtos primários (US$ 78,5 bilhões) vai segurando a nossa peteca. Até quando, ninguém sabe, mas o certo é que nossa vulnerabilidade vai aumentando a cada ano, assim como nossa desindustrialização.

Um número que ilustra bem este processo é o déficit de US$ 50 bilhões da nossa indústria no ano passado, déficit este que tem piorado ano após ano. Só a título de comparação, em 2007  tivemos um saldo positivo de US$ 18,8 bilhões.

E o pior é que a principal medida a se tomada para reverter este quadro (a desoneração da cadeia produtiva) nem sequer tem sido cogitada. Muito pelo contrário, em seu primeiro ano, o governo Dilma continuou com a obsessão de Lula de recriar a CPMF. Diante do salve-se quem puder que tem se tornado a sobrevivência da indústria nacional, o governo tem agido sob demanda, baixando um IPI para um determinado setor, oferecendo crédito para outro. Ou seja, soluções paliativas que não atacam o principal fator que a cada ano torna-se mais decisivo para nossa indústria: o famigerado “custo Brasil”.

A solução para outras indústrias tem sido mudar para a China ou para a Índia. Depois da Azaléia, outras grandes empresas nacionais estão migrando para conseguir melhores condições de competitividade, como, por exemplo, a WEG, com sede em Santa Catarina. Especializada na fabricação de motores elétricos, e tintas, a empresa produziu 60 mil motores em 2009, 110 mil motores em 2010, tudo para o mercado chinês.

Tal tendência já tem números reveladores. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 10% das grandes empresas brasileiras já produzem com fábrica própria na China. Pior: 67% das nossas empresas perderam clientes para a China e 45% das empresas que competem com a China perderam participação no mercado brasileiro.

A taxa Selic

O governo fez uma aposta arriscada ao baixar os juros substancialmente em um momento em que a inflação se apresentava como um dos principais problemas. E acertou.  Mais uma vez o aprofundamento da crise européia foi determinante, pois arrefeceu o crescimento da economia, cumprindo assim o papel dos juros, que puderam entrar numa nova trajetória de queda.

Inflação

Uma das principais preocupações do governo no último ano, a inflação passou a maior parte do tempo acima do teto da meta, chegando inclusive a 7,2% no início do segundo semestre. E mais uma vez o agravamento da crise européia foi decisivo, pois a desaceleração da nossa economia no último trimestre trouxe a inflação para o teto da meta que, segundo o governo, foi de redondos 6,5%.

O déficit da Previdência

Uma das melhores notícias do ano. O recuo do déficit da previdência,  que caiu de R$ 47 bilhões em 2010 para R$ 36,5 bilhões no ano passado. A redução já era prevista por causa do baixo impacto do aumento do salário mínimo em 2011, o que reduziu sensivelmente os custos da Previdência. A má notícia, no entanto, é que a redução deste ano dificilmente se repetirá em 2012, pois com o aumento mais expressivo do salário mínimo, a previsão é que a Previdência Social tenha um gasto extra de R$ 14 bilhões.  Ou seja, a Previdência continua sendo um enorme ralo para as contas públicas e sem perspectivas de resolução, pois nem mesmo a mini-reforma aprovada ainda no primeiro governo Lula até hoje não foi sancionada. Aliás, Dilma já fala em discutir uma nova reforma, voltando a proposta inicial do governo FHC que aumentaria a idade mínima para aposentadoria, proposta esta que foi rejeitada pelos congressistas e terminou substituída pelo odiado “fator previdenciário” que, bem ou mal, economizou R$ 11 bilhões no ano passado.

Apesar da boa notícia, cabe ressaltar que a redução do déficit concentrou-se apenas no setor privado, pois o dos servidores públicos segue crescendo, atingindo novo recorde R$ 56 bilhões, com perspectiva de novo recorde em 2012.

E aqui está mais um câncer da nossa economia agravado pelo governo Lula, pois o um milhão aposentados do setor público são hoje responsáveis por uma déficit maior que os demais 30milhões de segurados da iniciativa privada. Para o futuro, portanto, teremos muito mais servidores públicos aposentados, já que o governo do PT, pelo menos até o governo Lula, aumentou substancialmente o número de servidores.

Gastos públicos

O ano começou com o anúncio de ajuste fiscal que cortaria R$ 50 bilhões da máquina pública. Mesmo com os cortes, a previsão dos gastos para o ano seria superior ao do último ano do governo Lula. Ou seja, a promessa de corte era, na verdade, a promessa de não aumentar os gastos na mesma proporção do governo Lula, o que na prática representou a admissão da presidente Dilma de que o governo Lula aumentava os gastos numa proporção insustentável. Mas apesar das boas intenções, o governo só conseguiu economizar 80% do prometido. Seria um número razoável num país acostumado a orçamentos fictícios. O problema é que tal resultado foi obtido com o reforço extra de R$ 21,3 bilhões proveniente da surpreendente arrecadação recorde do ano passado, turbinada com a melhora da balança comercial alavancada pela alta dos preços das commodities no mercado internacional, como vimos acima. Contribuiu também para isso a crescente formalização do mercado de trabalho. No entanto, se não houvesse esta arrecadação recorde, fruto de um contexto internacional favorável, certamente o ajuste não teria chegado nem a R$ 20 bilhões. Portanto, continuamos com o mesmo problema de gastos excessivos, apesar de atenuado um pouco pelo governo Dilma.

O aumento da dívida pública

Os números finais da dívida pública ainda não foram divulgados, mas já podemos “comemorar a diminuição do ritmo de aumento da dívida”. Comparando com o final de 2011 o Brasil terá reduzido a dívida pública em 0,4% em comparação ao PIB, graças ao cumprimento do governo da meta do superávit primário, que a Dilma conseguiu cumprir, depois de três anos de não cumprimento do governo Lula.

A relação da dívida líquida com o PIB, que é a que o governo gosta de divulgar, em projeção feita no penúltimo mês do ano passado terá ficado na casa dos 38,5%. Em termos comparativos, estamos ainda dois pontos percentuais acima do nosso melhor resultado, conquistado em 2008.

Mas existem outros números que o governo não gosta de revelar. Um deles é a dívida interna bruta contabilizada na metodologia antiga, em vigor até 2007, que já em novembro chegava à casa dos R$ 2,616 trilhões. Ou seja, em um ano, o governo Dilma terá aumentado mais de R$ 200 bilhões na divida interna bruta, apesar do esforço para cumprir a meta da superávit primário.

Na nova metodologia introduzida pelo governo Lula, como era de se esperar, os números são “suavizados”, mas ainda assim terminaremos o primeiro ano do governo Dilma rondando a casa dos R$ 2,3 trilhões, o que dá um percentual de endividamento em relação ao PIB de 55,4%. Tudo bem, estamos muito distante ainda do desastre europeu, mas não custa lembrar que o custo da nossa dívida continua sendo um dos maiores do mundo, apesar do nosso bom momento.

Com a dívida externa não foi muito diferente. Em apenas NOVE meses a dívida externa bruta pulou de US$ 352 bilhões para US$ 400,3 bilhões! Se duvidar, pode conferir diretamente no site do BC: http://www.bc.gov.br/?SERIEDEBH. Tudo bem que o aumento das nossas reservas também aumentou na mesma proporção, mas estas, ao contrário do que o governo tenta vender a idéia, não são uma poupança.  Se fossem, o governo já teria usado para quitar a parte pública da dívida que corresponde a 2/3 do total. No entanto, o governo continua pagando juros da dívida externa e, pasmem, o “custo das reservas” que a cada ano fica maior, como veremos a seguir.

Reservas Cambiais

Este é nosso maior orgulho macroeconômico. Favorecido pelo fluxo de capitais que rumou para os países emergentes nossos últimos anos (ou seja, dinheiro que não é nosso), nossas reservas continuaram aumentado ano após ano. Em 2012 não foi diferente. De um total de US$ 300 bilhões em reservas no final do governo Lula, terminamos 2012 na casa dos US$ 360 bilhões. Teoricamente teríamos como pagar a parte pública da dívida externa, mas na prática isto não acontece justamente porque boa parte das reservas não são dinheiro do governo, e sim dinheiro depositados na conta do governo. E o pior, para manter tais reservas o governo fica no prejuízo. Os números de 2011 ainda não foram divulgados, mas já se sabe que em 2010 o Brasil pagou R$ 27 bilhões para manter as reservas de US$ 300 bilhões. Para 2011, os custos serão muito mais elevados, pois só nos dois primeiros meses do ano, nossas reservas custaram R$ 6,8 bilhões. Ou seja, o dobro da média mensal paga em 2011. Portanto, certamente teremos mais um recorde também nesta área. As reservas, portanto, já se transformaram naquilo que os economistas chamam de “dívida invisível”.

Nível de endividamento

O aumento do nível de endividamento do brasileiro era previsível, mas até o final do governo Lula ainda não era considerado um problema, afinal, em comparação com os países do primeiro mundo em crise, podemos ainda nos considerar numa posição privilegiada. Mas a situação piora a cada ano. Pela primeira vez nos nove anos do PT mais da metade das famílias brasileiras estão endividadas. De um percentual de 21% no final do governo FHC, saltamos para 47% no final do governo Lula e agora chegamos aos 51% ao final do primeiro ano do governo Dilma.

Mas como explicar o aumento considerável no primeiro ano de Dilma se o governo reduziu um pouco o crédito? Em economia também acontecem “ressacas”. Portanto, depois da farra de estímulos ao consumo nos últimos dois anos de Lula, muitos brasileiros se deram conta de que gastaram mais do que deveriam. Portanto, mais um sinal de alerta ao governo Dilma. Estimular o crescimento com crédito é fácil. O problema é administrar as dívidas depois e nosso país já está chegando a níveis preocupantes.

Poupança interna

Também ainda não temos os números finais do nível de poupança interna em 2012, mas a julgar pelo nível de endividamento das famílias, é muito mais provável que esta tenha caído. Na melhor das hipóteses, se mantido entre 16 e 18%. Ou seja, no mesmo patamar ou um ponto percentual acima do nível de 1995 e muito aquém dos 30% recomendável para se chegar a um padrão desenvolvido.

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Os demais itens (as reformas estruturais prometidas) que citei na série “Desafios do Pós-lula” não valem à pena gastar saliva, pois até agora só ficaram nos discursos dos primeiro mês de governo. De concreto mesmo só as propostas de reforma política que pioram ainda mais o que já é ruim.

No próximo e último post desta série, vamos falar dos desafios de investimentos. Até lá!

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11 Responses to Balanço do primeiro ano do governo Dilma (parte 2)

  1. Gustavo Vasconcelos Jacobina says:

    Amilton, como sempre voce consegue explicar a economia e a política sem demagogia nem firulas. seu modo direto e simplificado de explicar problemas complexos o torna um grande cidadão deste país que precisa tanto de pessoas honestas que fogem do populismo de causa própria. parabéns mais uma vez e obrigado em nome de todos os brasileiros que sonham com um Brasil real e honesto.

  2. Eder says:

    Olá Amilton Aquino,

    1) Sobre o processo de desindustrialização que o Brasil vem sofrendo, estive recentemente lendo a afirmação de alguns especialistas que apontam que a desindustrialização brasileira tem como causa principal a combinação dos efeitos do câmbio flutuante com as altas taxas de juros praticadas aqui no Brasil,ou seja, o câmbio flutuante seria o responsável pela sobrevalorização do real frente ao dólar e as altas taxas de juros(a famosa Selic) por encarecerer a produção. Agora minha pergunta para vc: se a combinação do câmbio flutuante com as altas taxas de juros praticados no país, são realmente os principais fatores resposáveis pela desindustrialização no país, não esta na hora,portanto, de o governo mudar esta política econômica para outra que beneficie e desenvolva o parque industrial?

    2)Qual vc considera a melhor alternativa para o governo resolver o problema da previdência: privatizar o setor, aumentar a idade para a aposentadoria ou diminuir os benefícios da previdência para os servidores públicos?

    3) vc e favoravel a uma reforma tributária que aumente os impostos sobre as grandes fortunas e as grandes empresas? lembrando que o sistema tributário brasileiro atualmente e regressivo, isto é, quem ganha menos paga proporcionalmente mais impostos do que quem ganha mais.

    • Amilton Aquino says:

      Eder,

      1) O processo de desindustrialização é decorrente de um conjunto de fatores, entre os quais o principal é o chamado “custo Brasil”, uma combinação de alta carga tributária, com altos custos logísticos (portos, aeroportos, estradas, ferrovias e hidrovias), um dos combustíveis mais caros do mundo, os maiores juros do mundo e pesados encargos trabalhistas. Estes problemas se arrastam há décadas, mas vêm se agravando à medida em que a globalização se acentua. Daí a urgência de reformas que alertamos aqui o tempo todo. O problema do câmbio sobrevalorizado é só mais um agravante do problema, mas não é o principal. Mudar para câmbio fixo também não é solução. Muito pelo contrário, traria muito mais problemas, pois um câmbio fixo é um câmbio artificial. E artificialismo em economia sempre acaba mal. Recentemente (no lançamento do Plano Real) passamos por uma experiência de câmbio fixo. Dois anos depois, nosso câmbio estava tão fora da realidade que tivemos que passar por uma maxi-desvalorização para recuperar todo o tempo em que este esteve “amarrado” artificialmente. Aliás, não só no Brasil, como em vários outros países temos exemplos de frustração nas tentativas de manter o câmbio na marra. Todas as grandes moedas do mundo flutuam e é assim que deve ser. O único país que atualmente consegue subverter temporariamente esta lógica é a China, pois esta tem muita poupança para bancar e um crescimento muito acima da média. Mesmo assim, vai chegar um momento em que tal artifício não será mais possível. Portanto, estamos muito atrasados nas medidas para reverter nossa desindustrialização. Além de atacar todos os fatores citados acima, precisamos também de uma reforma tributária que torne mais justa e menos onerosa nossa carga tributária.

      2) Sobre a previdência, mais uma reforma urgente que tem sido protelada. Além da definição de uma idade mínima e sua ampliação, a mini-reforma aprovada no primeiro governo Lula e que até hoje não foi colocada em prática daria uma boa segurada no aumento do déficit da previdência, assim como o fator previdenciário que não deve ser extinto. Aliás, vamos pagar muito caro por não sancionar a reforma. Até 2015, cerca de 40% dos atuais servidores federais estarão em condições de requerer aposentadoria. Ou seja, mais 400 mil aposentados para se somar ao um milhão de aposentados atuais (no post havia publicado inicialmente dados de 2008). Se estes se aposentarem pelo regime atual, o déficit vai explodir. Não tem outro caminho. Além de um regime de previdência complementar para os servidores públicos e a definição de tetos de aposentadoria mais próximos da iniciativa privada, temos que limitar o número de servidores, pois quanto mais o estado incha, mais comprometido será o nosso futuro. Esta é uma das razões que criticamos tanto o aumento do estado pelo PT.

      3) A reforma tributária é urgente. Além de simplificar a cobrança (diminuindo o número de impostos), precisamos aumentar a base de contribuição para reduzir a desvantagem do empresário que paga impostos da concorrência desleal dos sonegadores. Além disso, precisamos desonerar a folha de trabalho das empresas. Esta é uma das razões porque os pobres pagam mais impostos: eles não têm como sonegar. Pagam tanto nos produtos, cujos impostos já vêm embutidos, com também nos descontos do salário. Aumentar impostos de quem ganha mais só se for do patrimônio pessoal. Imposto progressivo para empresas é um discurso bonitinho para os palanques de esquerda, mas na prática é um tiro que pode sair pela culatra, pois pode funcionar como um desestímulo ao crescimento. E se colocamos barreiras para o crescimento das nossas empresas, aí as multinacionais estrangeiras tomam ainda mais nosso espaço.

      Em ambos os casos, tanto na questão da previdência, quanto na questão tributária, o governo deve aprimorar os mecanismos de fiscalização para pegar os fraudadores.

  3. Eder says:

    Amilton Aquino,

    Obrigado por ter respondido minhas indagações, se vc me permite vou fazer mais algumas:

    1)Como vc mesmo mencionou, a taxa de juros no Brasil esta além do que deveria, sendo um dos fatores responsáveis pela desindustrialização brasileira. Qual seria,portanto, na sua ótica, um valor considerado razoável para a Selic se manter: um percentual menor que quatro ou um percentual entre quatro e sete?

    2) vc e a favor de medidas que aumente o controle de capitais no país, visto que no Brasil praticamente não temos este controle?

    3)Sobre a reforma política, pelo que tenho notado, praticamente existe um consenso entre a oposição e o governo de que ela precisa ser feita, o problema fica na questão de que mudanças deve ser feita. Na sua visão, qual proposta reforçaria mais a democracia no país, a proposta da oposição do voto distrital ou a proposta da base governista no voto em lista fechada e financiamento público de campanha, ou as duas propostas apenas piora o que e ruim?

    • Amilton Aquino says:

      Eder,

      1) Os juros no Brasil deveriam chegar no máximo a 7% ao ano. O problema é que o governo está sempre refinanciando a dívida pública. Ou seja, ele vende novos títulos para financiar os vencidos. Acontece que para vender novos títulos ele precisar oferecer juros atrativos, afinal décadas e décadas de juros na casa dos dois dígitos criou uma cultura de ganho fácil difícil de mudar da noite para o dia. Dificilmente o governo conseguiria arrecadar o suficiente para rolar a dívida com juros na casa dos 7%. Ou seja, reduzir a dívida pública é condição sine qua non para conseguirmos baixar nossos juros a níveis civilizados.

      2) O governo tem lançado várias ações para controlar a entrada de capitais no país. O problema é que nosso país também tornou-se dependente da poupança externa. Esta é mais uma esquizofrenia da nossa economia deixada por Lula. Então não podemos ser muito radicais neste controle. No máximo, ser um pouco mais seletivos quanto aos capitais especulativos. Como não temos poupança interna suficiente para tocar nossos investimentos, então dependemos dos investidores externos.

      3) O voto distrital misto é a melhor proposta, embora traga também novos problemas. A lista fechada combinada com o financiamento público de campanha é um grande retrocesso, pois além de reforçar a figura dos caciques de partido ainda aumentam os gastos do Estado. Os caciques dos partidos vão ganhar dos dois lados: do Estado e dos interessados em se candidatar. Teremos verdadeiros leilões para disputar as indicações de partidos.

      Infelizmente nenhuma proposta ataca o cerne da questão. Para mudar nossa representação de fato, precisaríamos diminuir drasticamente os privilégios dos políticos, para atrair para os cargos públicos pessoas realmente interessadas em promover o bem comum. Mantendo a estrutura atual, o leilão das vagas vai continuar, seja qual for o sistema político. Para mudar isso, precisaríamos de um presidente destemido, que usasse sua popularidade para puxar tais mudanças. Certamente não conseguiria aprovar outras reformas, mas daria início a uma grande transformação. Lula poderia ter sido este cara com sua grande popularidade. Como optou por não fazer reforma alguma, poderia pelo menos colocar as velhas raposas do congresso na berlinda, se quisesse. Ou melhor, se tivesse caráter e o desprendimento necessário para pensar mais no futuro do país que com o seu próprio. Uma pena!

  4. aliancaliberal says:

    “Os juros no Brasil deveriam chegar no máximo a 7% ao ano”

    Se chegar a este patamar teria que reduzir se o rendimento da poupança que é de 6% e não paga imposto de renda nem iof.
    Ai a coisa vai ficar feia.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, lembro que quanto os juros chegaram a 8,75% começaram as discussões para alterar o rendimento da poupança. Mas logo os juros começaram a subir novamente e a discussão perdeu o sentido. Apesar de ficarmos 1,75% acima dos 7%, não houve nenhuma mudança significativa no nível de poupança.

  5. Amilton Aquino says:

    Peço desculpas ao colegas que postaram comentários ainda sem resposta. Vou respondê-los a partir desta segunda-feira. Abraço!

  6. Gustavo Vasconcelos says:

    Vem aí o filme de ficção da década:
    “1964- O ANO EM QUE JANGO ASSUMIU ” –
    Sinopse – conta a história de um Brasil após o governo de João Goulart, onde não houve a intervenção militar e os partidários da URSS assumiram o poder no país , instauraram o comunismo no país e as consequência deste acontecimento até os dias atuais.
    OBS: Por algum motivo desconhecido o ministério da cultura nega-se veementemente a financiar a película. kkkkkk
    Autor:??????????????????
    protagonista:???????????????????