Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 18)

Olá amigos! Havia programado concluir esta série neste post. No entanto, mais uma vez, tive que mudar os planos, pois senti a necessidade de sintetizar algumas conclusões sobre alguns assuntos importantes na trajetória da Esquerda e da Direita.

Para ver o primeiro post desta série, clique aqui. Para ver o primeiro post das conclusões, clique aqui.

Conclusões (continuação)

Como vimos ao longo dos vários posts desta série, muita coisa mudou na disputa entre os dois pólos ideológicos, principalmente após a implosão do mundo comunista. Desde então, a Esquerda teve que adaptar seu discurso ao sistema capitalista, mas sempre procurando colocar-se acima das mazelas capitalistas. Nesta estratégia, o “neoliberalismo”, a globalização e o FMI sempre foram pintados pelos partidos de Esquerda como instrumentos de dominação do imperialismo norte-americano.

Mas como sempre acontece, entre o discurso e a realidade existe uma grande diferença. Os Estados Unidos hoje não são nem sombra da única superpotência que emergiu do antigo mundo dividido entre capitalistas e socialistas.

O que deu errado nos “instrumentos de dominação” dos EUA? Se a globalização se expandiu por todos os países do globo, por que os EUA não ficaram mais ricos? Se o “neoliberalismo” era uma receita do FMI para subjugar ainda mais os países do terceiro mundo, por que os governos de Esquerda que chegaram ao poder não voltaram atrás nas reformas “arbitradas” pelo famoso Consenso de Washington? E se o FMI é um instrumento de dominação dos EUA, por que o Brasil hoje empresta dinheiro à instituição?

Para responder estas e outras perguntas, vamos tecer alguns comentários sobre cada um desses assuntos.

Capitalismo

Inimigo número 1 das esquerdas durante todo os séculos XIX e XX, o “sistema capitalista” sempre foi pintado como um instrumento de dominação da Direita. A afirmação tem um fundo de verdade. No entanto, a Direita aqui tem uma conotação muito maior, pois se confunde com a própria humanidade, já que o capitalismo é resultante da evolução natural do comércio desde a antiguidade.

Portanto, o capitalismo não é nem nunca foi um instrumento de dominação maquiavelicamente elaborado para “escravizar as classes trabalhadoras”, como tentou pintar a Esquerda, e sim o resultado da evolução (ou involução) das relações de troca da humanidade. Ou seja, é parte de um contexto e não o todo.

Claro que em alguns momentos da história, como na fase industrial do capitalismo, por exemplo, a deterioração das condições de trabalho chegaram a pontos extremos, os quais originaram movimentos legítimos de protesto, os quais levaram à criação das legislações trabalhistas, sem dúvida uma contribuição da Esquerda à história da humanidade.

No entanto, a politização excessiva também levou à distorções, as quais ficam a cada ano mais evidentes, exigindo reformas para adequar às relações de trabalho a um mundo cada vez mais dinâmico e competitivo.

A cada ano faz menos sentido a antiga “luta de classes” pregada pelos esquerdistas. Aos poucos, o maquiavélico estereótipo do “patrão explorador” vai sendo substituído pela figura do empreendedor. As melhores condições de mobilidade social existentes hoje possibilitam que “trabalhadores” se aventurem na difícil tarefa de se tornarem também empreendedores. Quando isso acontece, o “ex-trabalhador” e agora empresário percebe que este último muitas vezes trabalha mais horas por dia que seus empregados. E então passar a ver os altos custos da legislação trabalhista atual com outros olhos.

Portanto, a clássica crítica da Esquerda ao capitalismo deve ser mais vista como uma crítica a humanidade, e não propriamente à uma suposta Direita maquiavélica e exploradora. O problema é que quando criticamos algo temos que ter uma alternativa para por no lugar. E a alternativa proposta pela Esquerda (o socialismo) falhou.

Sobrou a Esquerda, portanto, tentar reformar o capitalismo. O problema é que, no poder, os partidos de esquerda têm aderido ao “sistema” de uma forma ainda mais perniciosa. Tentando fazer jus ao pouco que sobrou do seu discurso de legitimação, as esquerdas no poder tentam compensar as injustiças do sistema capitalista através de políticas sociais. O problema decorrente de tais iniciativas é que cada novo governante chega ao poder prometendo novas ”políticas sociais” as quais se somam as já existentes, num processo cumulativo de gastos públicos que diminuem a capacidade de investimento dos Estados e comprometem o futuro das próximas gerações.

Foi a superposição dessas “iniciativas” nos anos de ouro do capitalismo que engessaram a Europa, contribuindo decisivamente para o colapso que verificamos nos dias atuais. Digo “contribuíram” porque existe um outro fator ainda mais crucial para a crise atual, o qual abordaremos a seguir.

A crise atual do capitalismo

A economia mundial está doente e o sintoma mais claro disso é que todos os países do globo estão endividados. Não existem mais nações credoras. Existem nações que têm dívidas externas maiores ou menores. E todas têm imensas dívidas internas.

E por que isso ocorre?

A causa principal está no que pode ser chamado de “a maior fraude da história”. Estamos falando do sistema de reservas fracionárias, um mecanismo monetário que permite que os bancos transformem dívidas em moeda até um limite muito maior que os seus patrimônios reais.

Esta fraude não é um privilégio do sistema capitalista, pois acompanha a história da humanidade, desde o momento em que os primeiros ourives, que guardavam o ouro dos seus clientes, começaram a emprestar a terceiros, confiando que os verdadeiros donos dos metais preciosos nunca viriam resgatar seus bens todos de uma só vez (para saber mais sobre este assunto, veja o vídeo).

Ao longo da história da humanidade, tal mecanismo foi sendo “aperfeiçoado”. Os ourives, agora com o novo status de banqueiros, passaram a ter cada vez mais influência nos poderes constituídos. E assim foi legalizada a atividade de alavancagem dos bancos, inicialmente definidos por 9/1. Ou seja, os bancos podiam emprestar nove vezes mais que seus depósitos nos bancos centrais. Detalhe: os bancos norte-americanos hoje têm uma alavancagem de 30/1.

E por que chegamos a tal ponto?

Além do exposto acima a situação da economia mundial foi piorada ainda mais no início dos anos 70, quando os EUA admitiram que não tinham mais condições de cumprir o acordo assinado após o final da II Guerra Mundial que estabelecia a conversibilidade de 35 dólares por uma onça de ouro (ver post 6).

Em outras palavras, os EUA decretaram moratória, pois não eram mais capazes de converter em ouro todos dólares espalhados pelos bancos do mundo todo. Os norte-americanos ficaram livres então para fabricar moeda sem lastro em ouro. Entrávamos na era do Capitalismo Financeiro e os banqueiros ficaram ainda mais à vontade para criar novos produtos financeiros, principalmente após a flexibilização dos mecanismos de regulação.

Com a ascensão dos países asiáticos no processo de globalização os antigos países do primeiro mundo tiveram que se contentar com taxas de crescimento cada ano mais modestas. Próximos da estagnação, alguns governos (especialmente o norte-americano) usaram e abusaram de medidas keynesianas para “reanimar” suas economias, tanto pelo aumento do gasto público, quanto pelo estímulo ao consumo dos cidadãos.

E assim chegamos à crise de 2008, que trouxe mais gasto público para estimular a economia, que aumentou ainda mais as dívidas e déficits e que agora cobra a fatura na nova onda de crises que atinge a Europa.

No início desta semana, o ex-diretor do FED, Alan Greenspan, um dos responsáveis pela crise global teve a cara-de-pau de “assegurar” que os EUA não vão dar o calote na dívida, simplesmente porque “pode fabricar dólares”!

Por enquanto ainda podem. A questão que fica é até quando os EUA poderão usar este artifício para empurrar seus problemas com a barriga?

Portanto, a crise atual do capitalismo é conseqüência da ganância dos banqueiros que transformam dívidas em moeda fiduciária e dos governos de Direita ou de Esquerda que endividaram os Estados com “remédios” keynesianos.

Keynesianismo

Temos aí a essência do Keynesianismo: aumentar os gastos dos governos para reanimar as economias em crise. O problema é que tais gastos extras são financiados com mais dívidas e estas são roladas para o futuro.

Questionado sobre as conseqüências do aumento das dívidas para o futuro, o próprio John Maynard Keynes respondeu: “A longo prazo estaremos todos mortos.” Ou seja, o próprio Keynes já estava consciente das conseqüências nefastas que suas idéias teriam para a economia mundial.

Portanto, o keynesianismo é imoral, pois tenta salvar a economia no presente, comprometendo as gerações futuras.

O futuro finalmente chegou para os velhos ricos e com ele a fatura dos gastos usados para protelar as crises do passado.

Globalização

Ao contrário do que os esquerdistas afirmavam, a globalização não é um instrumento de dominação. É um fenômeno espontâneo, decorrente da evolução da economia global ao longo da história da humanidade, sendo intensificada nas últimas décadas com a evolução dos meios de transporte e de comunicação. Não tem nenhum mentor. É o resultado da ação de vários agentes econômicos e políticos, que se interligam cada vez mais rapidamente como resultado da disputa das grandes empresas por novos mercados, sendo que estas colocam seus próprios interesses acima dos interesses das nações onde foram originadas.

Como vimos no post específico sobre este assunto (post 10), os maiores beneficiados pela intensificação do processo de globalização foram os países asiáticos (primeiro o Japão entre os anos 60 e 80; depois os Tigres Asiáticos a partir dos anos 80; e a China, a partir dos anos 2000). Por terem uma forte vocação para poupança e para a exportação, tais países usaram muito bem sua farta mão-de-obra barata e qualificada para inundar o mundo com seus produtos.

Os países pobres e em desenvolvimento também foram beneficiados com o processo de globalização, pois esta provocou uma considerável deflação nos preços de bens duráveis e provocou um grande fluxo de investimentos para estes países, tanto que pela primeira vez na historia o PIB dos países emergentes irá ultrapassar o das economias avançadas já em 2012, segundo projeção do FMI.

Os ricos, portanto, foram os que menos ganharam com a globalização. Por terem rendas per captas muito altas e, portanto, uma mão-de-obra mais cara, a globalização provocou a migração de milhões de empregos da indústria dos países ricos para países em desenvolvimento.

Isto explica porque os maiores protestos contra a globalização têm ocorrido na Europa, puxados tanto por partidos de Direita quanto de Esquerda, pois é nestes países onde os efeitos negativos da globalização são sentidos mais fortemente.

Nos EUA, apesar também de crescer a resistência à globalização nos últimos anos, existe também uma consciência maior da inexorabilidade do processo. Não dá para voltar atrás, fechar as economias ao mundo globalizado. As economias estão todas interligadas, de modo que não interessa mais aos chineses, por exemplo, verem os EUA em crise ou vice-versa.

Portanto, ao contrário do que as esquerdas pregavam, a história tem nos mostrado que a globalização tem funcionado mais como um instrumento integração entre as nações, do que de “instrumento de dominação do imperialismo norte-americano”.

Neste processo, os asiáticos sempre foram protagonistas. A “fórmula” oriental foi criada pelo Japão e depois seguida pelos Tigres Asiáticos e mais recentemente pela China. No início, o importante é vender em grande escala, ainda que para isso seja necessário sacrificar a qualidade dos produtos. Como o acúmulo de capital, tais economias investem em inovação e passam por um processo de refinamento dos seus produtos até atingirem os mais altos padrões de qualidade das economias avançadas.

O problema deste modelo é que ele tem um prazo para se esgotar. O Japão já atingiu esta última etapa desde meados dos anos 90. Os Tigres Asiáticos estão bem próximos e a China está concluindo a primeira etapa.

“Neoliberalismo”

Grifamos o termo para salientar o sentido pejorativo que foi imposto pelos partidos de Esquerda à política de redução do Estado em algumas economias européias e ao chamado “receituário do FMI” resultante do Consenso de Washington, em 1989.

Para quem não leu os posts específicos sobre o assunto (posts 7, 8 e 9), a tal “cartilha neoliberal” é, na verdade, um conjunto de dez recomendações de boas práticas administrativas destinadas a reformar principalmente as economias dos países do terceiro mundo que sofriam com a hiperinflação e com o aumento expressivo do endividamento desde a crise do petróleo nos anos 70.

A prova maior de que tais recomendações foram e são realmente salutares é que os partidos de esquerda miraram suas críticas em apenas dois itens: no sétimo (abertura da economia ao investimento estrangeiro direto) e oitavo (privatização das estatais ineficientes). Os outros oito pontos são quase completamente eximidos das críticas da militância de esquerda.

No caso do Brasil, seguimos apenas sete das recomendações, sendo que a maioria só foi concluída no final da era FHC (e o último já na era Lula), alguns de forma parcial como podemos ver no post 9 desta série.

Da crítica da esquerda brasileira ao “neoliberalismo”, portanto, sobrou apenas as privatizações da era FHC, crítica esta que a cada ano fica mais esvaziada tanto pelos benefícios trazidos pelas privatizações, quanto pelo arquivamento pelo governo do PT da proposta de reestatização da Vale, apresentada pelo PSOL, com também pelas últimas “concessões ao setor privado” feitas pelo governo do PT.

Caso não tivesse ocorrido a crise de 2008 e o conseqüente ressurgimento do keynesianismo certamente este debate teria sido esvaziado ainda mais. No entanto, a polarização da política brasileira promovida pelo presidente Lula realimentou a velha disputa agora em torno de John Maynard Keynes.

Estado maior x Estado menor

De toda polêmica que envolveu os dois pólos ideológicos discutidos nesta série desde o surgimento do socialismo como alternativa ao capitalismo eis o que sobrou: maior ou menor participação do Estado na economia. Ou seja, mais ou menos keynesianismo.

Os reflexos deste novo contexto levaram alguns governos de Esquerda a “nacionalizarem” empresas estrangeiras. No Brasil, o novo ímpeto estatizante se reflete nas manobras do governo para mudar a presidência da Vale e na aprovação do novo marco regulatório do petróleo que coloca novamente a Petrobrás na posição de monopólio.

Como resultado imediato, as ações das duas maiores empresas nacionais despencaram, apesar das imensas reservas do Pré-sal e dos preços dos minérios estarem em alta no mercado mundial.

Só para ter uma idéia, o valor de mercado da Petrobrás caiu de R$ 414,3 bilhões para R$ 252,6 bilhões. Ou seja, em apenas cinco meses, a companhia perdeu R$ 155,4 bilhões na bolsa de valores.

O pessimismo de mercado tem razão de ser. Segundo estudos do banco USB Pactual, seriam necessários 600 bilhões de dólares (45% do produto interno bruto brasileiro ou quase quatro vezes o valor de mercado atual da Petrobrás) para extrair os 50 bilhões de barris estimados para os blocos de exploração de Tupi, Júpiter e Pão de Açúcar, os quais representam apenas 13% da área do Pré-sal.

O dinheiro para financiar tal projeto certamente vai continuar saindo dos cofres do BNDEs, que, por sua vez, recebe recursos do governo que, por sua vez, capta recursos do mercado privado a partir da emissão de títulos da dívida pública. Ou seja, mais uma vez a conta vai para as gerações futuras.

O “Estado maior” do governo do PT já pode ser medido pelos empréstimos totais do Tesouro ao BNDES, que pulou de R$ 10 bilhões, em 2006, para a casa dos R$ 300 bilhões, em 2011.

Ou seja, continuamos jogando para as gerações futuras o custo do nosso keynesianismo de hoje.

Portanto, repetimos os erros dos países ricos que hoje estão em crise. No futuro, quando ficarmos ricos, provavelmente estaremos enfrentando problemas semelhantes aos dos europeus. Talvez então consigamos enxergar as oportunidades que perdemos no passado.

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12 Responses to Esquerda x Direita (parte 18)

  1. Sandro says:

    Amilton,

    Sobre:

    “na fase industrial do capitalismo, por exemplo, a deteriorização das condições de trabalho chegaram a pontos extremos, os quais originaram movimentos legítimos de protesto”

    Vale ressaltar essa observação do debate entre Olavo de Carvalho e Alaor Caffé Alves, que na verdade não desmente totalmente o que afirmaste, mas é um curioso ponto para reflexão:

    “Marx era um charlatão, Marx era um vigarista. Por exemplo, para provar que a evolução do mercado tornaria os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, ele se socorreu do quê? Do exemplo que ele tinha à mão, a Inglaterra, que era o único país da Europa com boas estatísticas na época, e o melhor material eram os Blue Books, relatórios anuais do Parlamento. Quando Marx foi ver os relatórios, descobriu que, ao contrário do que ele estava dizendo, a condição da classe operária tinha melhorado. O que é que ele fez? Ele tinha todos os relatórios e consultou um por um. Os registros estão na biblioteca do Museu Britânico até hoje. Ele conhecia todos os registros, mas como os registros não comprovavam o que ele queria, ele preferiu usar os registros de trinta anos antes. Se isso não é vigarice, eu não sei o que seja.”

    http://www.olavodecarvalho.org/textos/debate_usp_3.htm

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Não conhecia este detalhe. Mais uma boa contribuição. No entanto, independentemente do grau maior ou menor da deterioração é indiscutível o grau de “coisificação” a que o trabalho foi relegado, principalmente a partir do fordismo.

  2. Sandro says:

    Amilton,

    Sobre:

    “o keynesianismo é imoral, pois tenta salvar a economia no presente, comprometendo as gerações futuras.”

    Essa afirmação me parece um paradoxo! Imagina quantas pessoas “tem a oportunidade de virem ao mundo” decorrentes de medidas keynesianas, consequentemente, “produzindo” as tais gerações futuras as quais você se refere!!!

    O que você acha?

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Sandro,
      No meu ver, o keynesianismo é apenas uma forma de “reanimar” a economia no presente e jogar a conta para o futuro. As medidas emergenciais para evitar o efeito psicológico do pânico dos mercados em crises financeiras até são justificáveis, como foi em 2008. Mas não vejo nada em que medidas keynesianas possam contribuir para que mais pessoas venham ao mundo.

  3. Sandro says:

    Amilton,

    Sobre:

    “O problema deste modelo é que ele tem um prazo para se esgotar. O Japão já atingiu esta última etapa desde meados dos anos 90. Os Tigres Asiáticos estão bem próximos e a China está concluindo a primeira etapa.”

    Segue trecho do livro THE NEXT 100 YEARS:

    “This has been an ongoing issue in East Asia, and the example of Japan is instructive. Japan during the 1980s was seen as an economic superpower. It was devastating American businesses—MBAs were being taught to learn from the Japanese and emulate their business practices. Certainly Japan was growing extremely rapidly, but its rapid growth had less to do with management than with Japan’s banking system.
    Japanese banks, under government regulation, paid extremely low interest rates on money deposited by ordinary Japanese. Under the various laws, the only option for most Japanese was to put money into Japan’s post office, which doubled as a bank. The post office paid minimal interest rates. The government turned around and lent this money to Japan’s largest banks, again at interest rates well below international levels. These banks lent it again cheaply to businesses with which they were linked, so Sumitomo Bank loaned the money to Sumitomo Chemical. While American companies were borrowing money at double- digit rates in the 1970s, Japa nese companies were borrowing money at a fraction of that amount.
    It was no surprise that Japanese businesses did better than American ones. The cost of money was much lower. It is also no surprise that the Japanese had extremely high savings rates. Japan had virtually no public retirement plan at the time, and corporate pensions were minimal. Japanese planned for retirement through savings. They weren’t more frugal, just more desperate. And this pool of desperate depositors had no alternative but to make deposits at very low interest rates.
    While high interest rates imposed discipline on Western economies, culling out the weaker companies, Japanese banks were lending money at artificially low rates to friendly corporations. No real market existed. Money was flowing and relationships were the key. As a result, a lot of bad loans were made.
    The primary means of financing in Japan was not raising equity in the stock market. It was borrowing money from banks. Boards of directors consisted of company employees and bankers who were not interested in profits nearly as much as they were in cash flow that would keep their companies afloat and pay off their debts. So Japan had one of the lowest rates of return on capital in the industrialized world. But it had a fabulous growth rate in terms of size because of the way the Japanese structured their economy. They lived by exporting.
    The Japanese had to. With an extremely high savings rate driving the system, average Japanese citizens were not spending money, and therefore Japan could not build the economy on domestic demand. And since Japa nese companies were controlled not by investors but by insiders and bankers, what they wanted to do was increase the cash coming in. How much, if any, profit was generated mattered less. Therefore, low- cost exports surged. More money was lent, more cash was needed, and more exports were sent out. The economy grew. But underneath it, a crisis was brewing.
    The casual ways in which Japanese banks made loans increased the number of nonperforming loans—loans that were not being repaid. A lot of bad ideas were funded. Rather than write these off and let the businesses involved go into bankruptcy, Japanese banks covered up with more loans to keep the companies alive. Loans surged, and since depositors’ money was spent maintaining the system, exports to bring in even more money were essential. The system was awash with money, but underneath it a vast array of companies on life support—and companies struggling to increase cash without regard for profit—were undermining the entire financial system. Massive surges in exports were producing very little profit. The entire system was churning just to keep itself afloat.
    From the outside, Japan was surging, taking over markets with incredible products at cheap prices. It was not obsessed with profits like American firms were, and the Japanese appeared to have a hammerlock on the future. In fact, the opposite was true. Japan was living off a legacy of cheap, government- controlled money, and low prices were a desperate attempt to keep the cash coming in so the banking system would hold together.
    In the end, the debt structure grew too massive and it became impossible to stay in front of it with exports. Japanese banks began to collapse and were bailed out by the government. Instead of permitting a massive recession to impose discipline, Japan used various salvaging means to put off extreme pain

    in return for a long- term malaise that is still lingering. Growth plunged, markets plunged. Interestingly, while the crisis hit in the early 1990s, many Westerners did not notice that the Japanese economy had failed until years later. They were still talking about the Japanese economic miracle in the mid-1990s.
    How is this relevant to China? China is Japan on steroids.It is not only an Asian state that values social relations above economic discipline but a communist state that allocates money politically and manipulates economic data. It is also a state in which equity holders—demanding profits—are less important than bankers and government officials, who demand cash. Both economies rely heavily on exports, both have staggeringly high growth rates, and both face collapse when the growth rate begins even to barely slow. Japan’s bad debt rate around 1990 was, by my estimate, about 20 percent of GDP. China’s, under the most conservative estimate, is about 25 percent— and I would argue the number is closer to 40 percent. But even 25 percent is staggeringly high.
    China’s economy appears healthy and vibrant, and if you look only at how fast the economy is growing, it is breathtaking. Growth is only one factor to examine, however. The more important question is whether such growth is profitable. Much of China’s growth is very real, and it generates the money necessary to keep the banks satisfied. But this growth really does not strengthen the economy. And if and when it slacks off, for example because of a recession in the United States, the entire structure could crumble very fast.
    This is not a new story in Asia. Japan was a growth engine in the 1980s. Conventional wisdom said it was going to bury the United States. But in reality, while Japan’s economy was growing fast, its growth rates were unsustainable. When growth slumped, Japan had a massive banking crisis from which it has not really fully recovered almost twenty years later. Similarly, when East Asia’s economy imploded in 1997, it came as a surprise to many, since the economies had been growing so fast.
    China has expanded extraordinarily for the last thirty years. The idea that such growth rates can be sustained indefinitely or permanently violates basic principles of economics. At some point the business cycle, culling weak business, must rear its ugly head—and it will. At some point a simple lack of skilled labor will halt continued growth. There are structural limits to growth, and China is reaching them.”

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      De fato os baixos juros do crédito para as empresas japonesas ajudaram muito, mas, no meu ver, não foram o fator determinante do rápido crescimento do Japão. Os Tigres Asiáticos e a China não gozaram desta mesma vantagem competitiva e estão trilhando um caminho semelhante ao do Japão. Certamente vão ter que diminuir o ritmo de crescimento nos próximos anos devido a dois fatores principais: 1) Aumento do custo da mão-de-obra decorrente do aumento da renda per capta; 2) O esgotamento do mercado interno (na China este vai demorar ainda muitos anos). Perceba que o Japão já sofre com estes dois fatores. Enfim, é uma economia que já explorou quase todo o seu potencial.

  4. aliancaliberal says:

    Amilton já leu sobre o Basiélia 3 uma tentativa de reformar o sistema de reservas fracionárias mais não acabar com ele.
    Um doa maiores prazeres que tive na minha vida foi fazer um “bancário” admitir que o sistema fracionário era uma fraude.
    Agora falta um banqueiro confessar.
    Podia dar uma michel moore e invadir um banco e perguntar para o gerente etc..

    • Amilton Aquino says:

      Pelo que vi através do noticiário, acho tudo muito tímido. O aumento de 2% no colchão de depósito dos bancos continua sendo irrisório, embora isso represente o dobro do que é exigido hoje. Veja a que ponto chegamos! Mas não deixa de ser um primeiro passo. Acho que é preciso criar uma agenda de algumas décadas, como metas bem definidas, para que consigamos reduzir um pouco os absurdos acumulados por séculos e séculos.

      Realmente o assunto seria uma boa pauta para o Moore. 😉

  5. Sandro says:

    Interessante esta entrevista:

    “É a primeira crise que nasceu na periferia”, diz Francisco de Oliveira

    http://www1.folha.uol.com.br/mundo/961378-e-a-primeira-crise-que-nasceu-na-periferia-diz-francisco-de-oliveira.shtml

    • Amilton Aquino says:

      Ótima entrevista. É mais um dos fundadores do PT que cai na real. Só mesmo quem está cego pelas paixões políticas não consegue ver o óbvio. A China mudou o mundo. A Índia, o Brasil e todos os demais emergentes foram beneficiados por este mar de consumidores e força de trabalho que foi incorporada ao capitalismo nestes últimos anos. Haja commodities para mover o mundo emergente!

  6. Gilx says:

    Amilton, acerca de:

    “Segundo estudos do banco USB Pactual, seriam necessários 600 bilhões de dólares (45% do produto interno bruto brasileiro ou quase quatro vezes o valor de mercado atual da Petrobrás) para extrair os 50 bilhões de barris…”

    Existem estudos científicos comprovando que as reservas de petróleo no pré-sal são tudo isso que o governo petista alardeia, ou é mais marketing político?

    • Amilton Aquino says:

      Gilx,
      Ninguém tem certeza de quanto petróleo há no Pré-sal. De tanto ver números divergentes, evito arriscar palpites sobre o assunto. Certeza mesmo só que o PT, como sempre, tenta vender a realidade muito melhor do que ela é, além, claro, do alto custo de extração do petróleo no Pré-sal. Se não surgir outras fontes de energia competitivas nos próximos anos, talvez justifique o endividamento que o país terá que arcar para financiar a Petrobras. Caso contrário, vamos ficar no prejuízo.