Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 16)

Crise de 2008

Olá amigos! Finalmente chegamos ao ponto inicial da nossa série, o momento em que estourou a crise de 2008 e as famosas medidas keynesianas voltaram à moda. Desde então Keynes foi transformado no novo Max das esquerdas, servindo de justificativa para o aumento do Estado na economia.

A crise de 2008

A crise de 2008 não apenas ressuscitou John Mainard Keynes, como também elevou ao estrelato o economista turco Nuriel Rubini. Ele previu, em 2005, a hecatombe financeira mundial decorrente de uma bolha imobiliária que inflava a economia norte-americana.

De fato foi o que ocorreu, mas ele não foi o único a ver o óbvio. Senadores norte-americanos, desde o início da década de 2000, usaram a tribuna mais de uma vez para alertar sobre os rumos da economia. Mais recentemente o documentário “Inside Job”, ganhador do Oscar 2011, mostrou que nos bastidores do mundo financeiro muito mais gente sabia do que estava ocorrendo. O governo norte-americano foi alertado, e mesmo assim a crise estourou.

E como sempre ocorre, enquanto a economia cresce, tudo é festa, ninguém se preocupa com a sustentabilidade deste crescimento no futuro, pois para os políticos e agentes financeiros o que mais importa é faturar no presente. Qualquer um que alerte sobre potenciais ricos é logo taxado de pessimista, catastrófico ou de jogar no time do contra. E aí vem a crise e então todos ficam se perguntando como ninguém percebeu o que estava acontecendo.

Mas afinal, de quem é a culpa?

Como toda crise de grande proporção, diversas são as causas e culpados. No caso da crise de 2008, suas raízes remotam ao início dos anos 70, quando os EUA deram o calote no mundo, ao reconhecer que estavam fabricando dólares sem lastro e que, portanto, não tinham mais como garantir a paridade ouro-dólar, acordada no famoso encontro de Bretton Woods, logo após a II Guerra mundial. Em outras palavras, os EUA admitiram na cara-de-pau que estavam exportando inflação para o mundo, já que estavam fabricando dólares sem lastro. Começava oficialmente a bagunça financeira mundial. Se a autoridade monetária era a primeira a dar o calote, o que esperar dos demais agentes econômicos?

Com a máquina de fazer dinheiro liberada, o governo dos EUA continuou a aumentar seus gastos ano após ano, tornando-se a mais deficitária das economias. Os EUA tornaram-se o grande shopping center global, o destino principal das exportações das grandes economias, especialmente a japonesa e européia.

Tal quadro levaria a qualquer economia do mundo a falência em poucos anos. No caso dos EUA, o dólar garantiu a “estabilidade” por todos estes anos de forma artificial.

Cada ano mais acostumados a consumir mais e a produzir cada vez menos, a economia norte-americana foi mudando seu perfil. A indústria que garantiu o apogeu norte-americano na primeira metade do século XX foi perdendo espaço gradativo, enquanto que o setor de serviços assumia o posto de locomotiva da economia norte-americana. Começava oficialmente a era do capitalismo financeiro, onde o valor relativo tornava-se mais importante que o valor real das coisas.

A festa do mercado financeiro ficou ainda mais animada quando no início dos anos 80 o presidente Reagan “flexibilizou” ainda mais os mecanismos de regulação do mercado, que já haviam sido afrouxados no início dos anos 70, com o fim da paridade ouro-dólar. O mercado ficou livre para criar novos produtos financeiros, com o aval do Tesouro norte-americano.

Os bancos, que já eram grandes, ficaram gigantescos. As seguradoras e agências de classificação de risco passaram a ter uma importância cada vez maior no ambiente cada vez mais instável e complexo. O conceito de valor ficou cada vez mais virtual nas bolsas de todo mundo, principalmente com o surgimento das empresas “ponto.com”, nos anos 90.

A esta altura a economia norte-americana já dava sinais de recessão. Foi então que o governo Clinton resolveu usar mais algumas medidas keynesianas para dar mais uma injeção de ânimo no mercado imobiliário. O consumidor norte-americano, já bastante endividado, recebeu ainda mais incentivos para comprar imóveis. Temos aí a essência do keynesianismo. Ou seja, o que importa é “salvar a economia” no presente, nem que para isto tenhamos que comprometer o futuro, com o aumento dos estímulos governamentais.

A coisa chegou a tal ponto que o governo norte-americano oferecia deduções no imposto de renda para quem hipotecasse seus imóveis. Daí porque tornou-se comum nos EUA famílias terem mais de uma hipoteca. O mais incrível de tudo isso é que o governo não oferecia nenhum benefício fiscal para quem comprava à vista.

Isto explica porque os bancos norte-americanos chegaram a concentrar 50% do crédito ao setor imobiliário-governamental. Aliás, isto explica também como surgiu o chamado “subprime”, o principal fator que desencadeou a crise de 2008. Para quem não está familiarizado com o economês, o subprime é o conjunto dos empréstimos de risco, concedidos a pessoas que não oferecem garantias suficientes.

Aos poucos, o “sucesso” instantâneo dos estímulos governamentais ao consumo foram sendo expandidos também para outras áreas, como o setor automobilístico, cartões de crédito e até para aluguel de carros a clientes sem comprovação de renda, sem emprego e sem patrimônio.

Enquanto os preços dos imóveis permaneciam em alta, os as dívidas foram sendo roladas e o crescimento do PIB norte-americano continuou sendo “turbinado”.

No início dos anos 2000 os indícios da crise ficam ainda mais evidentes. Primeiro, com a quebra da bolsa tecnológica Nasdaq, quando bilhões e bilhões em ações viraram pó da noite para o dia. Depois com a quebra de Enron, uma gigante do setor energético, cujos balanços fraudulentos vieram à tona, arrastando outras grandes empresas e derrubando bolsas em todo mundo. Tínhamos uma pequena amostra das conseqüências da falência de uma empresa que havia chegado ao patamar do que hoje os economistas chamam de “too big to fail” (grande demais para falir).

Conscientes de suas importâncias para economia norte-americana e mundial, os grandes bancos e seguradoras sentiram-se ainda mais seguros para continuar criando “novos produtos” financeiros. Um dos mais lucrativos foram os CDOs (Collateralized Debt Obligation), em português “Obrigação de dívida com garantia”.

Na prática, os bancos transformaram dívidas em mais um produto de venda. Contando com as avaliações positivas das agências de classificação de risco, tais CDOs ao mesmo tempo que turbinavam os ganhos dos bancos, socializavam os possíveis calotes dos hipotecados.

A esta altura, a máquina norte-americana de fabricar dinheiro sem lastro intensificou ainda mais a produção. Como resultado, o valor do dólar começou a cair em todo mundo a partir de 2003, chegando já às vésperas da crise de 2008 a perder metade do valor em relação às principais moedas do mundo, inclusive dos países emergentes.

Claro que mentiras de tão grande proporção não poderiam continuar escondidas para sempre, ainda mais com o agravamento das contas do governo norte-americano com os mais de dois trilhões de dólares gastos nas guerras pós 11 de setembro.

E finalmente a bomba estourou. Em setembro de 2008 um dos mais tradicionais bancos norte-americanos, o Lemon Brothers, anunciou concordata, arrastando outras grandes instituições financeiras, incluindo a maior seguradora do mundo, a AIG.

Rapidamente o pânico tomou conta dos mercados, derrubando as bolsas de valores de todo mundo e exigindo dos governos a injeção de capital nas empresas em risco, com o objetivo de tranqüilizar os investidores, evitando assim uma fuga em massa de capitais dos bancos, o que poderia multiplicar os efeitos da crise.

E Keynes finalmente ressurgiu das cinzas. Quase que simultaneamente, artigos foram publicados em todo mundo exaltando a importância do Estado, em contraposição aos capitalistas gananciosos.

Por aqui, nosso ilustre presidente, apesar de seu desprezo pelos estudos, fez vários discursos exaltando as teses keynesianas, aproveitando a crise para ressuscitar algumas bandeiras até então esquecidas das esquerdas, notadamente o aumento da presença do Estado na economia.

Felizmente no Brasil o risco de uma crise sistêmica desde o início foi bastante reduzido, pois além de terem sido saneados com o impopular PROER, na era FHC, tiveram seus lucros multiplicados no boom de desenvolvimento verificado nos últimos anos, principalmente entre os emergentes, com a total aprovação do novo PT, o partido que, quando oposição, tinha como uma das suas principais bandeiras o combate a especulação financeira.

Passado o momento mais agudo da crise, os países emergentes voltaram a crescer aceleradamente, agora mais importantes, pois tornaram-se a nova locomotiva da economia mundial, como vimos nos últimos posts.

Nossa oposição, mais uma vez ficou a ver navios, pois repetiu a mesma retórica do PT da oposição. Ou seja, torcer pelo “quanto pior melhor” para faturar politicamente.

Nosso populista presidente, mais uma vez, saiu por cima, aumentou ainda mais sua popularidade com mais um toque de keynesianismo e ampliou sua base de apoio no Congresso para eleger sua sucessora.

E como sempre acontece, a conta já começa a chegar para a Dilma, assim como já chegaram para a Islândia, Grécia, Portugal, Itália e Espanha.

E o pior disso tudo é que daqui a pouco vão surgir “intelectuais” dizendo que a culpa é do capitalismo e, principalmente do neoliberalismo.

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17 Responses to Esquerda x Direita (parte 16)

  1. Gilx says:

    Amilton,
    Recentemente Dilma, no aniversário de FHC, reconheceu os seus méritos na economia brasileira, contrariando o discurso da “herança maldita” dito à exaustão por Lula. Em outra oportunidade, a presidente também reconheceu indiretamente que o desenvolvimento social se iniciou antes do nosso novo descobridor do Brasil.
    Será que estão antevendo a tempestade que se avizinha, e tentam amenizar os prováveis ataques da oposição?

    • Amilton Aquino says:

      Olá Gilx,
      Desculpas pela demora em responder. Tive que abandonar um pouco o blog nos últimos dias para estudar uma nova tecnologia essencial para o meu trabalho.

      Sobre a Dilma, às vezes sou tentado a interpretar estes seus surpreendentes comentários como vc bem interpretou. No entanto, quando vejo a insistência em projetos como o trem-balar, por exemplo, concluo então que a sede de gastar ainda está muito viva neste governo. A Dilma teria que ser muito irresponsável para manter um projeto como este caso tivesse a certeza da crise. Acho que o governo atual ainda continua com excesso de otimismo. Acho que a Dilma já percebeu que a sociedade começa a perceber a herança maldita que ela herdou do Lula. Ao reconhecer os avanços anteriores ao governo do PT, a Dilma atrai a simpatia do eleitorado que vai se conscientizando da farsa que foi o governo Lula e que tende a migrar para a oposição, caso o acirramento político que predominou nos últimos anos continue. De quebra, ela baixa um pouco a bola do seu mentor, que agora é também uma ameaça a sua reeleição.

  2. Sandro says:

    Amilton,

    Como comentaste do PROER, vale ler a entrevista de FHC à Augusto Nunes da Veja, em 2009, para se saber também sobre o PROES!!!

    FHC fala sobre reestatização, PROER e PROES

    “Ninguém fala do PROES, o PROES é o correspondente ao PROER dos bancos públicos que estavam em pior situação que os privados, e o PT, especialmente, se opunha que nós fechássemos os bancos dos Estados. Olha, os bancos dos Estados estavam falidos, e os governos de muitos Estados tomavam dinheiro emprestado aos bancos, não pagavam isso e depois era transferido para o Banco Central. Era um caixa dois! o PROES teve mais efeito do que o PROER. Ninguém fala do PROES porque não pode usar esse argumento: é para favorecer o banco público, o banqueiro, porque o banqueiro lá era o político, era não sei quem e tal… nós acabamos com muitos desses ai. o PROES quase não se fala, e o PROES teve quase tanta importância quanto o PROER, porque os bancos do Estados estavam… aquilo ali era uma pipineira, ninguém tinha controle da dívida, não se pagavam as dívidas!
    Quer ver outra coisa: a Caixa Econômica. A Caixa Econômica estava paralisada! Estava paralisada porque? Estava paralisada porque os Estados e Municípios não pagavam a Caixa! E com a inflação todo mundo foi perdendo o controle de tudo! Houve um ou dois anos que nós não podemos publicar o balanço patrimonial da Caixa porque era negativo! Então, a Caixa não tinha dinheiro para emprestar para saneamento, para habitação, tava parado! Agora todo mundo fala que da empréstimo! mas como foi feito isso?! Nós enfrentamos e refizemos a Caixa Econômica. Vai ver os discursos no Congresso, contra o que nós fizemos na Caixa! o que nós fizemos? Fechamos agencias que não tinham sentido, tiramos direção de Estados, criamos os escritórios de negócio… Os deputados reclamavam muito, porque todos tinham acomodações nos Estados, tinham influencia, favoreciam os empréstimos… acabou isso, virou uma empresa!
    O Banco do Brasil! A dívida agrária no Banco do Brasil era de mais de 20 bilhões de dólares, a dívida externa nossa era de 40, metade da dívida externa! O que que era isso? Os agricultores só se financiavam no Banco do Brasil e todo o ano se rolava a dívida, renegociação da dívida rural, não se pagavam o Banco do Brasil. No meu governo houve uma vez que tivemos que dar 7 bilhões de Reais, que equivaliam a 7 bilhões de dólares para salvar o Banco do Brasil! Quer dizer, eu salvei o Banco do Brasil ! Agora ficam dizendo que eu ia privatizar o Banco do Brasil! Não! Nós colocamos o Banco do Brasil em condições de ser uma empresa eficiente! Isso é o que nós fizemos! O Banco tinha uma injustiça brutal, eu inclusive fui ao Banco do Brasil antes da campanha ou na campanha para dizer que eu não ia privatizar o Banco do Brasil, que nós tínhamos salvo o Banco do Brasil, nós salvamos o Banco do Brasil porque estava em pandarecos! E a história contada é ao contrário! Criamos a cédula do produtor rural, com a oposição da bancada ruralista na época, eu era senador fui lá discutir. O que era a cédula do produtor rural? Ao invés de se pendurar no Banco do Brasil eles se financiavam no mercado, hoje é assim, hoje ninguém nem se lembra!!! Nós criamos o PRONAF que não havia! O que era o PRONAF? Era o financiamento da agricultura familiar, pois só havia financiamento para a grande agricultura que era através do Banco do Brasil! O PRONAF nós é que criamos para permitir um avanço na agricultura familiar. É do meu governo.

    http://www.youtube.com/watch?v=GGyYXzWNNP4&feature=relmfu

    • Amilton Aquino says:

      Olá Sandro,
      Muito bem lembrado. De fato, os bancos públicos da era da inflação eram um verdadeiro caixa 2 dos governos estaduais e federal. Não por acaso, metade da dívida interna deixada por FHC foi decorrente do repasse das dívidas dos estados e municípios para o governo federal. Foi preciso pulso firme para sanear o sistema bancário. Agora imagina se Lula tivesse assumido em 1995. Será que tais reformas teriam sido efetuadas?

  3. aliancaliberal says:

    Sobre Dilma.
    LUla foi um “prefeito federal” e a Dilma esta tentando ser uma presidente da republica de “verdade”, o que acho que não tem força para isso, fora a herança maldita deixada por Lula.

    • Amilton Aquino says:

      Sintetizou bem, Liberal. A Dilma terá muitas dificuldades para lidar com atual Congresso viciado ao “toma-lá-dá-cá” institucionalizado pelo governo Lula. Daí um outro fator que explica os afagos aos governos anteriores, pois ela já percebeu que vai precisar da boa vontade da oposição para aprovar alguns algumas das muitas pendências deixadas pelo seu mentor.

      • Sandro says:

        Amilton, vale lembrar que ela era a chefe da Casa Civil no governo Lula, logo não pode reclamar dizendo que foi uma herança!

        • Amilton Aquino says:

          Pois é, Sandro, isso é que é uma saia justa. O cenário econômico mundial vai se complicando ainda mais (agora sob o efeito do endividamento no momento crítico da crise), o país vai ficando cada vez mais refém do câmbio valorizado, mas, ao mesmo tempo, depende dele para combater a inflação. E pensar que Lula poderia ter reduzido a meta de inflação em todos estes anos de queda do dólar, assim como poderia ter reduzido os juros e a dívida pública. Ela não vai falar isso em público, mas que deve lamentar muito a oportunidade que tivemos, pode ter certeza.

  4. aliancaliberal says:

    Não podemos esquecer do sistema de reservas fracionárias que permitiu um banco Americano estar com uma alavancagem de 70/1, um absurdo que nunca ocorreria no sistema 100% de reservas.

    • Amilton Aquino says:

      Caramba! Não sabia que tinha chegado a tanto. No documentário Inside Job eles falam de uma alavancagem de 1/30, que já é um absurdo. Onde vc viu esta informação?

  5. aliancaliberal says:

    Amilton foi no mises.org.br mas qual artigo não recordo.

  6. aliancaliberal says:

    “E Keynes finalmente ressurgiu das cinzas” Keynes nunca saiu da mente dos governantes,pq keynes prega exatamente o que o governo quer ouvir.
    Pergunta fora de pauta
    Pode um assaltante ser um “investidor” e “indutor do desenvolvimento na sociedade”?

    • Amilton Aquino says:

      Verdade, Liberal. Quando falo que “ressurgiu das cinzas” é no mundo acadêmico, pois a partir de 2008 foram publicados milhares de artigos enaltecendo Keynes. É justamente por este motivo que iniciamos esta série. Abraço!

  7. Alan Patrick says:

    Tenho uma questão para o Amilton e para o Liberal:
    A ideia de que no capitalismo a economia se regula sozinha, que e um dos princípios básicos do neoliberalismo, não seria ainda um ideal a ser atingido nesse sistema, visto que a economia atualmente se encontra sendo dirigida pelo Estado e por monopólios privados?
    Pergunto isto,porque já encontrei alguns defensores do capitalismo dizendo que vivemos num sistema de livre mercado.

    • Amilton Aquino says:

      Alan,

      Uma coisa não exclui a outra. O problema de todo debate radicalizado é que sempre tende colocar as coisas no preto ou no branco, como se não existisse o cinza. Vejamos o caso da Suécia, por exemplo. Tem uma economia de mercado plenamente globalizada e, ao mesmo tempo, um estado que garante educação de qualidade, saúde e segurança. Tudo isso em plena democracia, garantindo liberdade de pensamento, liberdade religiosa, propriedade privada, etc. etc. Ou seja, todos os valores defendidos pelo liberalismo.

      O mercado é sim muito competente para se autoregular em relação a oferta de produtos. Se existe demanda, lá estará o mercado. Se a demanda reduz, o mercado migra para outro setor e assim sucessivamente. O problema é que esta idéia de autoregulação foi levada ao extremo em relação ao setor financeiro. Ao contrário de outros setores da economia que produzem bens reais, o mercado financeiro “cria” crédito a partir de dívidas. Foi aí que os Estados falharam, pois não cumpriram o seu papel de fiscalizar. Pelo contrário, os governos estimularam a ciranda financeira para conseguir o dinheiro para financiar suas políticas keynesianas, as quais os levaram as gigantescas dívidas de hoje, contando para isso com os déficits previdenciários crescentes, já que ninguém consegue implementar reformas nesta área. E aí não tem sistema que se sustente. Logo após a 2ª Guerra, oito pessoas da ativa financiavam um aposentado. Hoje, esta proporção está quase um a um. Ou seja, uma pessoa da ativa financiando um aposentado. Depois que a crise chega, então ficam todos culpando este ente chamado capitalismo.

      Portanto, não tem mistério. O importante é o governo fazer bem sua parte e deixar o mercado fazer a sua. EFICIÊNCIA é a palavra-chave, tanto para os governos, quanto para os mercados.

  8. Alan Patrick says:

    Amilton, mas não foi a transferência de trilhões de dólares dos cofres públicos para salvar bancos de falirem que, acabou agravando o déficit fiscal dos Estados que emprestaram o dinheiro?

    • Amilton Aquino says:

      Não só dos EUA como da Europa, Alan. Os governos tiveram que escolher entre o ruim e o péssimo, pois quando um banco quebra seus efeitos vêm em cascata, contaminando vários outros setores da economia. Foi isso que o governo FHC evitou com o PROER (para os bancos privados) e o PROES (para os bancos públicos), quando estes perderam uma de suas maiores receitas: o dinheiro fácil da hiperinflação. Aliás, o governo Lula também jogou uma enxurrada de dinheiro no Banco Panamericano, como ficamos sabendo recentemente. Também agiu muito acertadamente em estimular a compra do Unibanco pelo Itaú, já que o primeiro tinha ligações com a falida AIG norte-americana. Com isso, sentimos apenas os efeitos da recessão e nos blindamos da crise financeira que se alastrou principalmente pela Europa.

      Este tipo de socorro, na minha opinião, é a única ação keynesiana que se justifica. Neste caso, não se trata de empurrar o problema para as gerações futuras, e sim evitar um contágio maior do sistema. Infelizmente o endividamento de 2008 e 2009 foi recorde, daí as conseqüências que estamos vendo agora com o aprofundamento da crise da Europa. Se os europeus não tivessem tão endividados, certamente não teriam sofrido tanto.