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Esquerda x Direita (parte 15)

Ascensão dos BRICs

Olá amigos! Neste post, finalmente vamos falar da ascensão dos BRICSs no panorama global dos anos 2000.

Se você não leu os posts anteriores desta série, leia pelo menos o post 13 desta série, um pré-requisito para entender este post. Se preferir ler desde o início, clique aqui.

A ascensão dos BRICs

Nos dois últimos posts desta série exibimos uma série de gráficos que mostram claramente a aceleração da economia global a partir do ano 2003, com um aumento expressivo da importância dos países periféricos e, em contrapartida, a diminuição do peso dos países ricos na economia mundial.

Só a título de ilustração, o FMI prevê que a partir de 2013, o PIB dos países emergentes e em desenvolvimento irá ultrapassar o PIB das economias avançadas. Vale lembrar que em 2000, o PIB dos emergentes representava menos que 60% do PIB das economias avançadas.

Já segundo o relatório do Banco Mundial, publicado no mês de maio, a previsão é que os países que compõem o BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) mais Indonésia e Coreia do Sul, responderão por mais da metade da economia mundial em 2025.

Em outras palavras, isto prova que a melhoria na nossa economia notada pela população brasileira nos últimos anos (e que garantiu a popularidade do nosso presidente) não foi um fenômeno isolado, obra única e exclusiva do governo brasileiro como muitos ainda acreditam, mas fruto, principalmente, de um fenômeno global que, pela primeira vez na história da humanidade, colocou os países emergentes e em desenvolvimento no centro da economia global.

Mas afinal, o que aconteceu a partir de 2003 que provocou o deslocamento do eixo do desenvolvimento econômico dos países ricos para os emergentes?

Antes de mais nada é necessário esclarecer que a fase de crescimento que os emergentes vivem agora foi vivida pelos países ricos antes e depois da II Guerra Mundial. Depois de esgotarem seus potenciais de crescimento no final dos anos 70, tais países diminuíram seus ritmos de crescimento, abrindo caminho para o surgimento dos novos emergentes. Nos anos 80 e 90 foi a vez dos Tigres Asiáticos, nos anos 2000, os BRICs e assim por diante. Ou seja, daqui a duas ou três décadas os novos emergentes estarão passando por problemas semelhantes e verão suas empresas migrarem para regiões menos desenvolvidas, porém com maior potencial de expansão. Ou seja, a história se repete. Em um ritmo mais acelerado, mas ainda assim um processo absolutamente normal.

Voltando questão proposta, temos que retornar aos anos 90 para entender as transformações ocorridas na última década. Enquanto os países latino-americanos e pós-comunistas esforçavam-se para reformar suas economias, a China e a Índia (os países mais populosos do mundo, que englobam 35% da população mundial) já cresciam em ritmo acelerado e totalmente indiferentes à série de crises que abalaram as economias emergentes e em desenvolvimento entre 1997 e 2001.

Por serem muito populosos, China e Índia têm uma dinâmica econômica própria, que lhes confere um grande potencial de crescimento pela gradativa incorporação da população abaixo da linha da pobreza ao mercado consumidor e pela vantagem competitiva proporcionada pela abundante mão-de-obra barata. Estes fatores combinados com pesados investimentos em educação, criaram um ambiente de euforia econômica que se retroalimenta há pelo menos três décadas.

Entre os emergentes que sofreram com as crises dos anos 90, suas economias passaram por reformas que as tornaram mais competitivas e adaptadas ao mundo globalizado. E como sempre ocorre após períodos longos de recessão, a demanda reprimida se transforma em combustível para o crescimento a partir do momento em que os indicadores econômicos entram no círculo virtuoso do desenvolvimento.

Foi percebendo a iminência deste círculo virtuoso que, em 2001, o economista Jim O’Neil, do banco de investimentos Goldman Sachs, criou a sigla BRIC em referência aos quatro grandes países emergentes candidatos a grandes potências nas décadas seguintes: Brasil, Rússia, Índia e China.

No entanto, durante os três anos seguintes, tal sigla permaneceu quase desconhecida, sem nenhum ganho evidente para os novos emergentes. Enquanto isso, a China já inicia a década de 2000 como uma nova potência econômica, candidata a superpotência rival aos EUA.

Algumas das razões que explicam a ascensão chinesa discutimos no post 11 desta série, com a bem sucedida transição do comunismo ao capitalismo entre o final da década de 70 e final dos anos 90. Outras vamos discutir agora, pegando emprestado a analogia feita pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros em seu artigo “As três cabeças do dragão chinês”, disponível aqui.

Segundo o economista, a economia chinesa, apesar de ainda bem menor que a norte-americana, a partir da crise de 2008 assumiu a posição de locomotiva da economia global.

Na analogia das três cabeças do dragão, mudaria apenas a sequencia. A primeira seria a perniciosa, a que produz bens manufaturados, em elevada escala e com baixo custo.

“Inicialmente focada em manufaturas leves, a China inundou o mundo nos anos 80 e 90 com produtos têxteis, eletroportáteis e bens de consumo de baixo e médio valor agregado, provocando um efeito deflacionista global que apenas agora começa a perder força”.

A partir dos anos 2000, o dragão mostra ao mundo suas duas outras cabeças, estas benéficas a economia global. Uma destas cabeças é a que devora vorazmente quantidades antes inimagináveis de energia, matérias primas industriais e, cada vez mais, commodities agrícolas. É esta a cabeça que mais beneficia a economia brasileira a partir de 2002. Veja o gráfico abaixo que mostra o incrível crescimento da demanda chinesa por energia, ultrapassando o consumo de toda a Europa já em 2006.

Vejamos agora a mudança de panorama da economia chinesa quanto ao perfil de suas exportações e em relação ao destino de suas exportações.

ascensão chinesa

No primeiro gráfico, fica clara a especialização da economia chinesa. No segundo, o aumento das transações comerciais com os países emergentes e em desenvolvimento e, em contrapartida, o decréscimo das transações com os EUA. Não por acaso, a China está se tornando o maior parceiro econômico do Brasil. Para quem não lembra, no início dos anos 2000 os EUA eram nossos maiores parceiros, seguidos de longe pela Argentina.

A terceira cabeça do dragão chinês é o seu imenso mercado, hoje com quase 400 milhões de consumidores. E olha que estes 400 milhões correspondem apenas a 30% dos atuais 1,3 bilhões de chineses. Ou seja, a China ainda tem pelo menos duas décadas de crescimento assegurada apenas com a incorporação dos outros 70% de chineses ainda excluídos da festa da globalização.

Bom para o Brasil e demais emergentes exportadores de commodities, especialmente minérios e alimentos. Exportando cada vez mais para a China, os demais emergentes também incorporam seus excluídos aos seus mercados consumidores, complementando o círculo virtuoso do desenvolvimento verificado nos últimos anos.

Percebendo a tendência de mudança do eixo da economia global, as grandes multinacionais dos países ricos invadiram os emergentes disputando a tapas os novos consumidores.

Com o dólar em queda em todo mundo, tais países melhoraram suas relações de troca. Aproveitando mais um exemplo do Mendonça de Barros, se no início da década de 2000 essa relação era próxima de 0,9, ou seja, para cada US$ 100 que exportávamos podíamos importar o equivalente a US$ 90, hoje essa mesma relação é 1,35. Consequentemente a produção da nossa riqueza foi potencializada com o valor do dólar em queda.

A ascensão do Brasil

Ao contrário do mundo, o ano de 2003 para o Brasil foi de recessão, decorrente do ajuste fiscal para controlar o repique inflacionário do período eleitoral. Ou melhor, do temor do mercado de que o governo do PT alterasse a política econômica implementada no governo FHC, uma vez que passou os oitos anos de oposição ao PSDB tentando boicotar cada iniciativa do governo, até mesmo as mais notoriamente bem sucedidas.

O pulo do gato do governo do PT ocorreu já em 2003 quando a equipe econômica anunciou o aumento do superávit primário, os juros que o governo economiza para pagar juros e abater a dívida pública. Ao mostrar ao mercado que estaria disposto a ir além do que o governo do PSDB teria ido para reduzir o endividamento (e portanto, contrariando radicalmente o que pregava durante anos de oposição), os indicadores econômicos rapidamente voltaram aos patamares anteriores a Crise Lula e daí não pararam de evoluir.

Com os indicadores financeiros normalizados, o Brasil pôde finalmente entrar no círculo virtuoso do desenvolvimento a partir de 2004, agora com o saldo da balança comercial turbinado pelo aumento das exportações de commodities minerais e agrícolas, com os preços cada dia mais valorizados.

Aos poucos, os investidores internacionais começaram a perceber a melhoria dos indicadores dos novos emergentes. Foi então que a sigla BRIC começou a se tornar conhecida e os investimentos estrangeiros começaram a chegar com mais intensidade a partir de 2005.

A esta altura, a China já havia assumido a condição de nova protagonista do cenário global, tornando-se a maior importadora de commodities metálicas do mundo, o que impulsionou economias exportadoras de minérios como a do Brasil, Índia e Austrália.

Também a partir de 2003, o dólar começa a cair em todo mundo, melhorando ainda mais a relação de troca dos países emergentes, além de ajudar a combater as pressões inflacionárias decorrentes da aceleração do crescimento.

O gráfico abaixo mostra a mudança de cenário ocorrida com enorme aporte de moeda estrangeira que entrou no país através dos superávits da balança comercial, da bolsa de valores e, principalmente, através da venda de títulos da dívida pública, já que o risco país entrou em trajetória descendente e os juros da nossa dívida continuaram os mais altos do mundo, atraindo assim cada vez mais investidores.

Principais fontes de ingresso de moeda estrangeira

Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida Pública

Com o dólar em queda e aproveitando o enorme fluxo de dólares que aportava no país, foi então que o Banco Central, dirigido pelo ex-tucano aliciado pelo PT, Henrique Meireles, iniciou a compra de dólares que permitiu o aumento expressivo das reservas cambiais e a mudança do perfil da dívida pública, com a ampliação dos prazos de vencimento dos títulos e da exposição cambial do país a eventuais crises externas.

No entanto, o objetivo legítimo de reduzir a exposição ao dólar terminou saindo pela culatra, pois o dólar continuou caindo em todo mundo. Ou seja, na prática o governo trocou dívida externa a juros baixos por dívida interna a juros três vezes maior.

Com a economia agora turbinada, a arrecadação começou a bater recordes sucessivos. O governo Lula, ao invés de aproveitar o bom momento para reduzir o endividamento, as metas de inflação e a carga tributária aumentada na era FHC devido ao aumento do endividamento, foi na direção contrária, aumentando em mais dois pontos percentuais a já alta carga tributária brasileira.

Tal ânsia por mais recursos levou também o governo a mudar a metodologia de contabilidade da dívida pública em 2006, com o objetivo de aumentar ainda mais sua capacidade de aporte de dinheiro via venda de títulos públicos sem, no entanto, parecer mais endividado. Para saber mais sobre este assunto, leia o post 7 sobre a dívida pública.

E assim seguimos ouvindo a história do “nunca antes na história deste país” até o final da década. Por um breve momento, o ufanismo alimentado por nosso presidente animador de torcida foi interrompido com a crise de 2008/2009, mas, como vimos no post anterior, a crise financeira ficou mais concentrada entre os países ricos, o que aumentou ainda mais a importância dos países emergentes no cenário mundial.

Mas este já é o assunto do nosso próximo post. O momento em que o keysianismo voltou à moda, realimentando o ímpeto estatizante das esquerdas até então aparentemente adormecido. Até lá!

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6 Responses to Esquerda x Direita (parte 15)

  1. Gilx says:

    “nosso presidente animador de torcida” he he he!

    Na nossa monarquia petista, o mais populista dos presidentes governou como um rei fanfarrão e não como primeiro ministro.

    • Amilton Aquino says:

      Pois é Gilx, governou com tudo a favor e não foi capaz nem mesmo de baixar um ponto percentual da meta de inflação, mesmo contando com a ajuda do dólar em queda livre. Se pensasse mais no Brasil que na própria popularidade, hoje a Dilma não teria tantos problemas com a inflação. Isso sem falar nas reformas pendentes, cinco das quais prometidas ainda no discurso do primeiro mandato. Não foi capaz de implementar nem uma. Aliás, não conseguiu nem criar uma infra-estrutura mínima para um crescimento sustentável, nem mesmo os aeroportos para a copa. A verdade finalmente começa a aparecer.

  2. aliancaliberal says:

    Não sei se será o retorno das esquerdas ou da antiga direita ao poder.
    Com a melhoria da educação no mundo os eleitores não são mais sucessíveis ao discurso populista irresponsável.
    O que vai determinar no futuro uma eleição é o partido que tiver uma plataforma política responsável.

    Este novo eleitor deseja um estado que aloque recursos escassos corretamente.

    A antiga esquerda das lutas de classes não entende esta mudança o mesmo vale para a antiga direita.
    Este novo eleitor pode ser visto nas manifestações na Europa e especialmente na Espanha. No Brasil vai demorar esta nova consciência.

    No fundo tudo no mundo não passa de alocão recursos escassos.

    • Amilton Aquino says:

      Pô Liberal, adiantastes uma das conclusões da série. Vc disse bem. A palavra de ordem do mundo atual é EFICIÊNCIA. E aí entra também a otimização dos recursos públicos pelos governos, sejam eles ditos de esquerda ou direita.

  3. aliancaliberal says:

    http://inflacao.org/

    O nome é do site ja diz o conteudo, muito bom por sinal.

    Eu estou “vencendo” a luta contra a ignorância com o argumento da alocação de recursos escassos errôneos promovida por governos demagogos.

    “Alocação de recursos escassos” é o mantra pra se repetir mil vezes ao dia.

    • Amilton Aquino says:

      Os gráficos realmente são muito bons. Só estranhei o fato de não haver nenhuma referência sobre a fonte dos dados. Aliás, não diz nada sobre a ONG.