Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 14)

Charge Emergentes

Olá amigos! Havia planejado falar neste post sobre as mudanças do cenário econômico da década de 2000 que colocaram os países emergentes como eixo principal do desenvolvimento mundial. No entanto, devido aos questionamentos aos gráficos publicados no nosso último post em alguns sites de grande circulação, resolvi me estender um pouco mais sobre o assunto em resposta a tais críticas.

Se vc não leu o post anterior, clique aqui.

A vez dos emergentes II

A principal crítica aos gráficos do post anterior concentra-se no fato deles serem baseados em preços correntes em dólares norte-americanos , metodologia adotada pelas Nações Unidas desde 1970 e outros organismos internacionais. Desde a década de 2000, no entanto, surgiu uma nova metodologia criada pelo FMI que desconsidera as variações cambiais em relação ao dólar, o que atenua as curvas mostradas nos gráficos anteriores.

Portanto, tais “críticos” utilizaram a nova metodologia criada pelo FMI não apenas para questionar meus argumentos, como também para questionar a minha honestidade, já que, para estes, criei os gráficos com números falsos. Infelizmente não se deram ao trabalho nem de conferir os dados da ONU cujo link está disponível no final do post. Se o fizessem teriam que questionar a ONU e não a mim. No entanto, como é de costume, estes “iluminados” da rede não se dão ao trabalho de pesquisar, apenas repetem a publicidade oficial ou de alguns “comentaristas profissionais da rede”, empenhados em enaltecer Lula e desconstruir FHC. Aliás, repetem também uma prática que se tornou uma regra no PT: desqualificar qualquer interlocutor para desfocar o cerne da questão.

O interessante é que estes “críticos”, que normalmente esbravejam contra o FMI, questionando tudo que vem de lá (associando sempre a FHC), desta vez elegeram os dados do FMI como os “únicos confiáveis”!

E assim como na disputa do salário mínimo, onde FHC ganha no comparativo em Reais e perde quando os valores são convertidos em dólares (e os petistas usam sempre o último critério como indicador para enaltecer o governo do PT), entre as duas metodologias de contabilidade do PIB em questão nossos “críticos” fazem justamente o contrário: consideram apenas a que retira as variações cambiais do dólar, pois assim escondem a variável que favoreceu o governo Lula e foi um pesadelo para o governo FHC.

Mas aí muitos petistas vão atribuir a queda do dólar a atuação do governo Lula (e o aumento do dólar na era FHC a incompetência deste, naturalmente). Ora, basta dar uma olhada tanto nos gráficos da ONU quanto do FMI (em dólares) para ver que a alta da moeda norte-americana na década de 90 foi um fenômeno atingiu principalmente os latino-americanos (e não apenas o Brasil), da mesma forma que a curva mais acentuada do crescimento da economia dos emergentes nos gráficos em dólares fica ainda mais evidente justamente pela desvalorização da moeda norte-americana verificada em todo mundo na década de 2000.

Mas as implicações da alta ou da queda do dólar vão muito além dos gráficos. Na era FHC, o dólar que tinha sempre um viés de alta, puxava também a inflação, o que exigia do governo o aumento dos juros para conter justamente a pressão inflacionária decorrente. Como resultado, aumentava a dívida pública, o risco Brasil e piorava todos os demais indicadores econômicos, além de frear o ritmo de crescimento. Para os “esquecidinhos”, basta citar o exemplo atual do governo Dilma que, ao aumentar os juros para conter a inflação, reduziu também as expectativas de crescimento. E olha que o dólar continua sendo um aliado do governo atual no combate a inflação, já que continua em baixa, tanto que se tornou um problema também. Portanto, comparar o ritmo de crescimento da era FHC (com dólar em alta) e da era Lula (com dólar em baixa) sem levar estes fatores em consideração é, no mínimo, desonesto.

Voltando as gráficos, resolvi então comparar os dados da ONU com os dados do FMI. A primeira conclusão é que nos dados do FMI consta também uma série histórica de 1980 (dez anos após a série histórica da ONU) até 2016 (previsões, naturalmente) baseada em preços correntes em dólares, semelhante à série histórica da ONU. Digo semelhante, porque existem pequenas alterações, pouco significativas, porém suficientes para alimentar os boatos de que eu estaria “criando números”.

Como os dois organismos internacionais adotam critérios diferentes também para dividir as regiões econômicas do planeta (o que impossibilita a recriação dos gráficos do post anterior segundo a metodologia PPP do FMI), gerei então novos gráficos segundo os dados do FMI (tanto em PPP quanto em dólares), seguindo a divisão econômica proposta pela instituição. E como já era esperado, as conclusões também corroboram com nossa hipótese lançada no post anterior:

Houve uma acentuada aceleração no crescimento mundial a partir de 2003, concentrada principalmente entre os países emergentes e em desenvolvimento.

Comecemos com os países ricos:

Embora o gráfico confirme nossa hipótese anterior, ele mostra que a recuperação no mundo desenvolvido começou já no ano de 2002, dado este que confronta com os dados da ONU, que afirmam que a recuperação começou em 2003.

No nosso caso, a recuperação teve que ser adiada pela piora nos indicadores econômicos decorrentes da chamada “Crise Lula”, quando os juros da Selic, que já havia baixado para a casa dos 15% em alguns meses de 2001, subiram novamente a 25% (no final do governo FHC) e a 26,5% (já com quatro meses de Lula no poder), na tentativa de segurar os investidores e a inflação já que o dólar chegou a casa dos R$ 4, obrigando FHC e Lula a irem juntos ao FMI assinar um empréstimo de socorro em plena campanha eleitoral. Isto os lulistas não lembram. Preferem usar a velho chavão de que “o Brasil vivia ajoelhado ao FMI”, esquecendo que Lula também assinou o empréstimo.

Voltando aos gráficos, vejamos agora a versão segundo a metodologia PPP, que exclui as variações cambiais.

Série histórica do crescimento das economias avançadas em PPP

Observe que, apesar de atenuar as curvas, a aceleração do crescimento a partir de 2003 ainda é evidente.

Já que o FMI não disponibiliza os gráficos da América do Norte, vejamos então o gráfico dos EUA que abrange a quase totalidade do PIB do subcontinente:

Série histórica do crescimento dos EUA em PPP

Neste caso, tanto a metodologia PPP quanto a metodologia em moeda corrente são praticamente idênticos, afinal a moeda referência é norte-americana.

E assim como no gráfico mostrado no post anterior, o que mais chama atenção no gráfico da economia norte-americana é a linearidade, abalada apenas pela crise de 2008 e levemente no início dos anos 2000.

Agora vejamos os gráficos da União Européia:

Série histórica do crescimento da União Européia em dólares

Série histórica do crescimento da União Européia em PPP

Observe que, excluídas as variações cambiais das épocas de crises, o gráfico PPP da União Européia é muito semelhante ao gráfico da evolução da economia norte-americana , o que mostra que ambas a regiões crescem num mesmo ritmo, apenas com uma maior instabilidade na Europa, como demonstra o primeiro gráfico. Aliás, não apenas a Europa e os EUA crescem num ritmo acomodado, como as demais economias avançadas, que esgotaram seus mercados internos e vêem suas maiores empresas migrarem para as economias emergentes. Daí uma das razões para o ritmo mais acelerado do crescimento dos países emergentes como veremos a seguir.

Série histórica do crescimento das economias emergentes em dólares

Série histórica do crescimento das economias emergentes em PPP

Observe que não apenas o crescimento é mais acentuado como as previsões até 2016 são ainda mais significativas.

Agora vejamos os gráficos de cada sub-grupo de emergentes e em desenvolvimento. Primeiro pelos mais pobres:

Série histórica do crescimento da África Sub-saariana em dólares

Série histórica do crescimento da África Sub-saariana em PPP

Nada de novo, apenas a confirmação da nossa hipótese. Vejamos agora os gráficos do Norte da África e do Oriente Médio:

Série histórica do crescimento do Norte da África e do Oriente Médio em dólares

Este gráfico traz a curva mais acentuada no período de 2003 e 2008 e a razão é simples: além do cenário favorável aos emergentes, os países do norte da África e do Oriente Médio são grandes produtores de petróleo, uma das commodities que mais valorizaram na última década.

Série histórica do crescimento do Norte da África e do Oriente Médio em PPP

Vejamos agora os gráficos da América Latina:

Série histórica do crescimento da América latina em dólares

Assim como os dados da ONU, os dados do FMI também demonstram que esta região foi uma das que mais sofreram com a série de crises entre 1997 e 2001. Aliás, os latino-americanos sofreram até mais que os asiáticos na Crise Asiática, como veremos adiante.

Série histórica do crescimento da América latina em PPP

Mesmo sem as variações cambiais, a conclusão é a mesma: baixo crescimento nas décadas de 80 e 90 e elevado crescimento a partir da década de 2000, o que relativiza o badalado discurso do “nunca antes na história deste país”.

Agora vejamos os gráficos da Europa Central e Oriental.

Série histórica do crescimento da Europa Central e Oriental em dólares

Série histórica do crescimento da Europa Central e Oriental em PPP

Nestes gráficos encontramos a maior divergência entre os dados da ONU e do FMI, pois no gráfico do post anterior (sobre os países do leste europeu) antes da curva ascendente da década de 2000 existe uma acentuada queda iniciada nos anos 80 que vai até 1999. Certamente a explicação para tal divergência se deve ao grupo de países que compõe a região do “Leste Europeu” (segundo a ONU) e os países da “Europa Central e Oriental (segundo o FMI). Em qualquer caso, mais uma vez fica comprovada nossa tese sobre a aceleração do crescimento da última década.

Vejamos agora os gráficos da Ásia:

Série histórica do crescimento da Ásia em desenvolvimento em dólares

Série histórica do crescimento da Ásia em desenvolvimento em PPP

O que chama mais atenção nos gráficos da Ásia segundo os dados do FMI é a pouca variação entre os gráficos em dólares e em PPP. A explicação é óbvia: os países asiáticos são menos vulneráveis às variações cambiais devido principalmente as características de suas economias, com forte vocação para poupança e para exportação. Nem mesmo a crise de 2008 foi capaz de levar tais economias à recessão.

Lula x FHC

Como sempre ocorre, a polêmica entre os desempenhos de FHC e Lula acabou tornando-se o centro das discussões. Portanto, uma das conclusões do último post que mais irritou os discípulos lulistas foi quando afirmei que o desempenho do Brasil na era Lula foi meio ponto percentual inferior a média de 4,5% do crescimento da América Latina e quase um ponto percentual inferior a média da América do Sul.

De fato houve um erro nas minhas anotações. No entanto a correção atenua, mas não reverte o quadro. Na verdade o desempenho do Brasil foi meio ponto inferior a média da América do Sul e um décimo inferior a América Latina. Na era FHC ocorreu justamente o contrário: o Brasil cresceu um décimo acima da média da América Latina e 0,42 pontos percentuais acima da pífia média de 1,87% da América do Sul.

Para finalizar então esta polêmica, resolvi então comparar o desempenho do Brasil na era FHC e Lula em relação aos demais emergentes, aos países ricos e, por fim, ao mundo. Vejamos:

Em relação aos emergentes, o Brasil cresceu menos nos dois governos. A diferença é que na era FHC o Brasil cresceu a 1,88 pontos abaixo da média de 4,32% dos emergentes, enquanto que na era Lula o Brasil cresceu 2,69 pontos abaixo da média acelerada de 6,7% dos emergentes.

Em relação às economias avançadas, há uma inversão decorrente justamente da alteração do panorama global entre os anos 90 e 2000, o que mais uma vez confirma a hipótese central do post anterior sobre o deslocamento do eixo do desenvolvimento mundial dos países ricos para os emergentes nos anos 2000.

Portanto, na era FHC o Brasil cresceu 0,57 pontos percentuais abaixo da média dos países ricos que foi de 2.86%, desempenho que tem uma relação direta com a série de crises do período de 1997 e 2001 que atingiu mais os países emergentes, como vimos no caso do comparativo com a América do Sul. Na era Lula, o Brasil cresceu 1,86 pontos percentuais acima da raquítica média dos países ricos que foi de 1,71%. Neste caso o resultado tem relação direta com a crise de 2008, pois enquanto as economias avançadas caíram em média -3,36% em 2009, os países emergentes ainda assim cresceram 2,72% (o Brasil decresceu 0,6%, vale lembrar). Veja o gráfico:

Para finalizar, vamos comparar as taxas de crescimento do Brasil em relação ao mundo. Enquanto que na era FHC o Brasil cresceu 1,1 pontos percentuais abaixo da média mundial de 3,4%, na era Lula o Brasil cresceu 0,39 pontos percentuais acima da média de 3,18% da economia global.

Parece uma contradição, mas não é. O fato é que as economias avançadas que na década de 90 tinham um peso muito maior na economia global (e cresceram a uma média de 3,4%) aos poucos vão sendo alcançadas pelas economias emergentes, diferença que é drasticamente reduzida na crise de 2008/2009, já com a previsão de inversão entre 2012 e 2003. Veja o gráfico, segundo a metodologia PPP do FMI:

Série histórica comparativa entre os países ricos e emergentes

Portanto, mesmo com os dados do FMI a conclusão é a mesma. A década de 2000 marca a ascensão dos países emergentes no cenário mundial. O Brasil, como os demais emergentes, foi beneficiado com a globalização.

No próximo post finalmente falaremos sobre a ascensão dos BRICs. Até lá!

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Fonte: FMI

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6 Responses to Esquerda x Direita (parte 14)

  1. Gilx says:

    Amilton,
    Como seu site não está empenhado em fazer politicagem, mas tão somente mostrar a verdade, independentemente onde ela esteja, eu levanto uma pergunta que alguns lulistas costumam fazer:
    Se todos os emergentes cresceram entre 2002 e 2008, o plano Real não teria nenhum mérito na ascensão da economia brasileira no referido período?

    Bastariam então a tão badalada política social (ou assistencialista?) do governo Lula para chegarmos aos atuais números alardeados como sendo de competência exclusiva da gestão petista?

    • Amilton Aquino says:

      Olá Gilx,
      A estabilidade econômica é uma condição para um desenvolvimento sustentável. Sem a estabilidade, o crescimento vira uma gangorra e a inflação atrapalha a vida de todo mundo. Não que seja impossível crescer sem inflação, mas sem ela fica tudo mais fácil. Veja o que está acontecendo atualmente. O governo está tendo que frear o crescimento por causa do aumento da inflação.
      Abraço

  2. aliancaliberal says:

    Muito bons estes gráficos do FMI,to viciado em gráfico agora,não paro de analizar,hehehe
    Imprecionante e a Guiné equatorial o percapita subiu de 1995 a 2010 de 730 dólares para 18 mil dólares, e desejam ter o português como lingua oficial e estão de braços abertos para o Brasil.

    Outra a maioria dos paises não são protagonistas no desenvolvimento, aqui na AL paraguai, bolivia estão em ritimo muito lento.
    …….

    Hoje é feriado não é interessante colocar este texto hoje no nassif colocar na terça.

    • Amilton Aquino says:

      Realmente os gráficos ajudam muito. No caso da Bolívia e do Paraguai, perceba que até estes que não vão muito bem deram uma acelerada no período de 2003 a 2008.
      Abraço!

  3. Marina Lis says:

    O resumo da ópera é, nas suas palavras, “na era FHC o Brasil cresceu 1,1 pontos percentuais abaixo da média mundial de 3,4%, na era Lula o Brasil cresceu 0,39 pontos percentuais acima da média de 3,18% da economia global”.
    Não adianta fazer firula com os números, Lula foi muito melhor que FHC e ponto final!

    • Amilton Aquino says:

      Marina,

      E mais uma vez acontece aquilo que criticamos aqui o tempo todo. Alguns eleitores fanáticos que só querem ver o que querem, abstraem todo o resto e focam apenas naquilo que acreditam enfatizar o mito Lula.

      Se vc realmente tivesse entendido o artigo veria que houve uma profunda transformação no cenário mundial entre as décadas de 90 e 2000. O resumo da ópera é: os países emergentes e em desenvolvimento ascenderam na participação do PIB mundial, enquanto que os países ricos perdem cada ano mais espaço.

      Comparar as eras FHC e Lula sem levar em consideração estas transformações é pura desonestidade intelectual.