Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

By

Esquerda x Direita (parte 13)

decadência dos EUA

A era dos emergentes

Como vimos no último post, a fase de estagnação econômica dos anos 90 que atingiu principalmente os países emergentes se estendeu até 2002 com os efeitos do 11 de setembro. A partir de 2003, finalmente o cenário começa a mudar. Só para dar uma idéia, o PIB mundial, que de 1990 até 2002 tinha aumentando pouco mais de US$ 10 trilhões, apenas em 2003 deu um salto de mais de US$ de 4 trilhões, continuando a crescer numa proporção semelhante até 2008, quando o PIB mundial chegou a casa dos US$ 61, trilhões. Ou seja, em apenas seis anos (de 2003 a 2008), o PIB mundial cresceu o triplo que havia crescido em toda década de 90!

Mais interessante ainda é observar que tal crescimento foi mais concentrado entre os países emergentes e pobres, o que contraria todo o discurso dos partidos de esquerda que passaram toda a década de 90 alardeando os efeitos negativos do “neoliberalismo” e da globalização, como instrumento de dominação dos países ricos.

Vamos ver os gráficos da evolução dos PIBs de cada região econômica do planeta para entender o que aconteceu nos últimos anos. Vamos começar pela América do Sul:

Sem dúvida, o detalhe que mais chama a atenção neste gráfico é o rápido crescimento entre os anos de 2003 e 2008, o que ressalta ainda mais o contraste com os difíceis anos que marcaram o final da década de 90 e início dos anos 2000.

Aliás, o gráfico é bem parecido com a trajetória brasileira, com um detalhe: o Brasil cresceu menos que a América Latina. Vejamos: enquanto a comemorada média de crescimento do governo Lula nos oito anos foi de 4%, a média da América Latina foi de 4,1%. Pior, quando comparado a média da América do Sul, o crescimento do PIB brasileiro é meio ponto percentual inferior na média.

Voltando ao gráfico, depois dos estagnados anos 80, a partir de 1994 vários países da América Latina conseguem controlar a inflação, o que traz uma sensível melhora nas taxas de crescimento.  Com a série de crises iniciadas em 1997 entre os emergentes, a América do Sul têm um significativo retrocesso, chegando ao fundo do poço em 2002, para novamente entrar em uma fase de rápida expansão que prossegue até a crise de 2008.

Ou seja, em apenas seis anos (entre 2003 e 2008,) o PIB do continente foi multiplicado por duas vezes e meia.

Agora vejamos o gráfico do continente mais pobre:

Observe que ao contrário da América Latina, que sofreu bastante com as crises de 1997 a 2001, o continente africano permaneceu quase indiferente. No entanto, o crescimento africano, a partir de 2003, é bem parecido com o verificado entre os latino-americanos.

Só a título de curiosidade, foi na África, mais precisamente em Angola, que aconteceu o crescimento mais rápido da história. Em apenas um ano, em 2006, Angola cresceu absurdos 19,4%!

Agora observemos o gráfico do continente asiático:

Também fica claro o forte impacto da série de crises do final da década de 90 e início dos anos 2000. Apesar de revelar a forte aceleração do crescimento já verificado na África e na América Latina, entre 2003 e 2008, o gráfico do continente asiático reúne países muito heterogêneos, o que atenua a curva de crescimento dos últimos anos.

Vejamos então o gráfico do sul da Ásia, região que concentra os novos emergentes:

Mesmo sem contar o vertiginoso crescimento da economia chinesa, a curva de ascensão dos últimos anos do sul asiático é semelhante ao fantástico crescimento africano e latino-americano.

Agora vamos observar o gráfico da evolução do PIB dos países do leste europeu:

Os países pós-comunistas do leste europeu foram os que mais sofreram na década de 90. Aliás, a derrocada iniciou bem antes da queda do muro de Berlim. Após o recorde do PIB de US$ 1,2 trilhão em 1983, as economias do leste europeu iniciaram uma vertiginosa queda que demorou uma década e meia, reduzindo seus PIBs pela metade em 1999. Felizmente, a partir da década de 2000 tais países iniciam uma fantástica recuperação que multiplicou seus PIBs por cinco entre 2000 a 2008!

Agora vamos ver o que ocorreu com o mundo rico no mesmo período:

O que mais chama atenção neste gráfico é a quase indiferença das economias norte-americana e canadense às crises que atingiram os continentes mais pobres. Apesar do crescimento linear, o rápido crescimento verificado nos demais continentes a partir de 2003 não é tão perceptível. De 2003 a 2008 o PIB da América do Norte cresceu pouco mais de 30%. Sem dúvida, um bom crescimento, porém insignificante quando comparado aos 300% de crescimento dos países do leste europeu; 270% da África; 250% da América do Sul; dos quase 100% da Oceania; e até mesmo dos 60% da raquítica América Central.

Mas, e a Europa? Como se comportou o velho continente neste novo mundo? Vejamos:

Observe que a curva ascendente da economia da Europa ocidental é semelhante à da América do Norte, com a diferença que a Europa sentiu as crises dos anos 80 e do início dos anos 2000.  Outra pequena diferença: o PIB da Europa Ocidental cresceu 50% entre 2003 e 2008, um resultado um pouco melhor que os 30% da América do Norte, mas igualmente insignificante quando comparado ao crescimento dos demais continentes. Se considerarmos, no entanto, que parte deste crescimento decorre da demanda reprimida nas crises do início da década, concluímos então que o crescimento da economia européia segue no mesmo ritmo do norte-americano: acomodado, com sinais cada vez mais evidentes de esgotamento do potencial de crescimento.

Pior que o desempenho norte-americano e europeu só mesmo da economia japonesa, que permaneceu estagnada desde meados dos anos 90.

Agora vejamos o gráfico da Oceania:

Mais uma vez, o que chama mais atenção é o rápido crescimento a partir de 2003, com um leve retrocesso no início dos anos 2000. A Oceania, portanto, aparece como uma exceção no mundo rico, pois cresceu num ritmo mais acelerado a partir de 2003, pegando carona no crescimento da China, já que a Austrália é uma das grandes exportadoras de minérios do mundo, assim como o Brasil.

Mas afinal, o que aconteceu a partir de 2003 que provocou o deslocamento do eixo do desenvolvimento econômico dos países ricos para os emergentes?

Este é o assunto do post da próxima semana, quando falaremos sobre a ascensão dos BRICs.  Até lá!

_______________________________________

Fonte dos gráficos: http://unstats.un.org

Posts relacionados:

15 Responses to Esquerda x Direita (parte 13)

  1. Ari says:

    Imprescindível, tanto os gráficos quanto as observações.
    Isto deveria ser observado severamente nsa escolas e em todos os lares
    Parabéns.

    Abç
    Ari

  2. Gilx says:

    O PT soube espertamente capitalizar esse crescimento mundial atribuindo a Lula o sucesso da economia brasileira nesse período. Por que é tão difícil para a oposição mostrar esses dados e desmascarar o falastrão de Garanhuns?

    • Amilton Aquino says:

      Gilx, está é a pergunta que não quer calar. Há muito tempo tenho a intuição dos dados mostrados nos gráficos acima, mas só na semana passada parei para consultar os dados para confirmar a intuição. Ora, basta dar uma olhada no noticiário econômico para ver que o crescimento dos últimos anos é quase generalizado entre os emergentes. Custava alguém do PSDB dar uma checada nestes dados para relativizar a publicidade petista? Das duas uma: ou a oposição acha que a população é incapaz de entender os conceitos mais simples de economia, ou são incompetentes mesmo.

      Aliás, a crítica também serve para a imprensa. Mesmo a Veja, que nos últimos anos escancarou sua posição em relação ao governo do PT, não foi capaz de mostrar algo tão simples. Quando vejo casos como este, me vem logo a mente o Olavo de Carvalho detonando tudo, governo, oposição, intelectuais e a imprensa. Estou me convencendo também que ele tem razão.

      • Sandro says:

        Amilton,

        Sobre o Olavo de Carvalho existem vários pontos que não concordo com ele mas, sinceramente, a cada dia que passa é um a menos desses pontos de discordância que tenho em relação as idéias dele no tocante à temas de política e economia principalmente!

        Abs

        • Amilton Aquino says:

          De fato ele domina muito bem a maioria dos assuntos que aborda, mas quando ele começa a falar de catolicismo e das conspirações da “nova ordem”…

  3. Ricardo Rocha says:

    Caro Aquino, sabe a piada sobre estatísticas que fala de que se um sujeito esta com uma perna no fogo e outra no gelo, em média ele está confortável?
    Pois é. Angola crescer dessa forma não é surpreendente, porque partindo quase do zero, qualquer aumento é significativo.
    É mais ou menos como certos economistas que comparam a economia do Chile com a do Brasil. Um erro que voce não comete.
    Comparar uma economia do tamanho da do Rio de janeiro com a do Brasil e suas imensas peculiaridades e distorções históricas é no meu entender, pura miopia.

    • Amilton Aquino says:

      Ricardo,
      O que mais me incomoda no Brasil nos últimos anos são as comparações descontextualizadas entre Lula e FHC, além do acirramento extremo promovido pelo nosso ex-presidente populista. Mais absurdo ainda é ver intelectuais dando suporte a estas falácias que de tão repetidas já assumiram um teor de “verdade”. Onde sobra “paixão” (política), falta a razão. Nosso consolo é a certeza que tais falácias não resistem a um debate realmente sério.

  4. aliancaliberal says:

    Um Petista vai afirmar:
    1- Estes dados não são confiavéis, pq a origem é Estadunidenses, não sendo do IPEA não vale.
    2-Vc deve estar recebendo para colocar isso na internet(ele se entrega pq ele esta recebendo).
    3- Você e TUCANO(um grande insulto)neoliberal e faz parte do mal.
    4-(repete a saudação petista) nuncanteznestepaíz tivemos um desenvolvimento como agora, desde 2003 quando Lula foi eleito tudo mudou no país.
    5-VC faz parte da direita(novo insulto) retrógrada e facista sem S e reacionário.
    6-como marx disse seja o que for é verdade e incontestavel por qualquer argumento contrário, e vc esta errado.
    7-As forças do bem logo vão exterminar “vcs”(ainda bem que eles são do bem)para o bem da democracia.

    • Amilton Aquino says:

      KKKKKKKKKkkkkk! Poderia acrescentar alguns outros itens a listinha. Mas estes já bastam.

      Abraços, Liberal!

  5. aliancaliberal says:

    A parte 13 coloquei la no nassif vamo ver os comentários, (se der o povo é bem preconceituoso)

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, fui o segundo a postar, respondendo ao João Bosco da Rocha e sabe o que aconteceu? Até agora meu comentário não foi publicado. Como já tinha sido censurado várias vezes no site do PHA, usei um pseudônimo, mas nem assim consegui furar o bloqueio.

      Não foi um comentário longo, apenas algumas ironias, já que o João Bosco atribuiu o rápido crescimento de 2003 a 2008, pasmem, “ao fato dos países emergentes acordarem (do pesadelo neoliberal), mudarem seus governos e, portanto, mudarem a orientação política e econômica, dando assim a volta por cima”.

      Então ironizei dizendo que houve um milagre em 2003, quando todos os governos de todos os países emergentes e pobres do mundo resolveram simultaneamente dar uma guinada para a esquerda, abolindo as privatizações, fechando suas economias aos capitais externos, abolindo as diretrizes do CW, etc. etc.

      Ou seja, estes caras pensam que para mudar uma economia basta mudar de presidente, como se muda um técnico de futebol.

      Mais engraçado é ver os caras procurando alguma no texto e nos gráficos para defender Lula. A Olga veio questionar a qualidade do crescimento dos demais emergentes, achando ela, claro, que distribuição de renda é privilégio do Brasil!
      Outro cara veio questionar os gráficos, justamente o primeiro item daquela listinha que vc postou acima. kkkkkkkk

      Ah, vc argumentou bem. Parabéns! Só faltou colocar o link para o nosso blog para os demais posts. De qualquer forma valeu! O último a postar resumiu bem “o crescimento brasileiro não se deveu a Lula, se deveu ao ambiente internacional naquele período (2003 a 2008) e de quebra, o do Brasil ainda foi o menor dos emergentes”.

  6. aliancaliberal says:

    Amilton eu ponderei sobre os links, a justificativa é que a “pesca” é nas primeiras linhas tive que abrir mão dos links pra “seduzir”.

    Faz um usuário registrado, ai diminui os problemas de postagem.

    Outra hoje tava horrivel mesmo de postar dando erro 503 parecia que o comentário não era completado e as vezes era, outras não, as vezes o comentário ficava duplicado e triplicado.

    Um me perguntou sobre inflação mundial no periodo, eu fui atrás e deviando um pouco peguei a cotação do ouro como referência de valor.

    Da uma olhada e verá que o preço do ouro anula ou atenua o aumento do PIB mundial.

    http://www.kitco.com/charts/historicalgold.html

    La embaixo em MULTI YEAR GOLD ex 1995 a 2001, repare que o gráfico é muito parecido com os do PIB mundial.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal,
      Se a quantidade de moeda circulante no mundo aumenta, é claro que o preço do ouro aumenta. É mais dinheiro para comprar uma quantidade de ouro finita. Mais importante que esta variável é o preço do dólar, assunto que vou abordar no próximo post. Como nesta década o dólar caiu em todo mundo, o poder de compra dos países emergentes foi aumentando. O Mendonça de Barros exemplifica bem esta alteração:

      “Se no início da década essa relação era próxima de 0,9, ou seja, para cada US$ 100 que exportávamos podíamos importar o equivalente a US$ 90. Hoje essa mesma relação é 1,35”. Consequentemente a riqueza produzida foi potencializada com o valor do dólar mais baixo.

      Quanto a inflação mundial, desconheço alguma série histórica sobre esta variável, até porque acho bem difícil criar um índice desses levando em consideração os diferentes métodos de cálculo em cada um dos diversos países. De qualquer forma, pode ter certeza que a inflação da década de 2002 é bem menor que a da década de 90, o que valoriza ainda mais o período de crescimento abordado.

  7. aliancaliberal says:

    Analiza estes gráficos, eles corroboram com os seus, e acresenta mais informações.

    http://migre.me/56xcP