Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

By

Esquerda x Direita (parte 11)

A queda do muro de Berlim

O colapso do Comunismo

Olá amigos! Finalmente vamos falar sobre um dos mais importantes fatos históricos do século XX: a queda do comunismo, acontecimento que mudou a geografia político-econômica mundial.

 

A transição do comunismo chinês

Como vimos no último post, as rápidas transformações introduzidas na economia mundial com a intensificação do processo de globalização também começaram a ecoar nos países do bloco comunista.

E assim como os japoneses foram os precursores do processo de globalização, um outro asiático, a China, foi o primeiro país comunista a implementar reformas em sua economia com o objetivo de se adaptar ao novo mundo globalizado.

Reconhecendo a incapacidade de ajustar a produção planificada a sua imensa e crescente demanda, o sucessor de Mao Tse Tung, Deng Xiaoping, já em 1978, iniciou um ambicioso programa de privatização de estatais e de fazendas, pondo fim a agricultura coletiva, uma das principais características das economias comunistas. Ironicamente, a China, um dos expoentes da esquerda radical, tornava-se a pioneira de uma das medidas “neoliberais” mais combatidas pelas esquerdas de todo mundo: a privatização.

Aliás, os chineses anteciparam também em mais de uma década a segunda mais combatida medida “neoliberal” (a abertura da economia ao investimento estrangeiro direto), medida esta que viria a ser listada como o sétimo item do famoso Consenso de Washington (ver post 9).

De olho no incrível progresso do Japão, os chineses não só reataram relações diplomáticas com seus arquiinimigos, como abriram suas fronteiras para os investimentos japoneses, os quais se tornaram seus os maiores credores.

E assim como aconteceu como a Coréia, que acabou absorvendo tecnologia japonesa a partir da descentralização da linha de produção introduzida pelo novo modelo industrial implementado pela Toyota (ver post 10), os chineses também iniciaram sua jornada rumo à economia de mercado orientada a exportação de produtos industrializados.

Mas os investimentos japoneses não seriam suficientes para alavancar o crescimento de uma economia com uma população de mais de um bilhão de habitantes. Então os chineses reataram relações com os Estados Unidos e demais nações européias visando atrair mais capital para as recém criadas “Zonas Econômicas Especiais”, onde empresas estrangeiras podiam se instalar, desde que em parceria com empresas chinesas. Surgia o “socialismo de mercado”, um neologismo chinês para disfarçar a sua gradativa transição para o capitalismo.

Aos poucos, as “zonas especiais” foram se multiplicando e absorvendo o que restava da antiga economia planificada comunista, processo este que culminaria com o abandono total do “socialismo de mercado” em 1997, pondo em prática o segundo e definitivo programa de privatização chinês.

Como resultado desta transição que durou mais de duas décadas, a China iniciaria o século XXI como uma das principais economias capitalistas do mundo emergente, conservando do comunismo apenas o regime autoritário de partido único (apesar da relativa abertura política, com o repúdio formal do governo chinês a Revolução Cultural que vigorou até a morte de Mao Tse Tung, em 1976).

O colapso da URSS

Ao contrário da bem sucedida transição chinesa, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) demoraram demais a perceber as mudanças impostas pelo processo de globalização, o que levou o bloco socialista a um gradativo processo de decadência que culminaria com a dissolução da URSS, em 1991.

Muito antes dos primeiros sinais de decadência do império comunista soviético (a partir dos anos 70), a supremacia do bloco capitalista ficara evidente já no final dos anos 50, quando os alemães orientais começaram a migrar em massa para a Alemanha Ocidental, o que motivaria a construção do famoso Muro de Berlim, em 1961, o símbolo da “cortina de ferro” que dividiu o continente europeu e o mundo.

Já nos anos 80, ironicamente um movimento sindicalista viria a chamar a atenção do mundo para insatisfação dos poloneses com o sistema comunista. Lech Walessa, o “Lula” polonês, e o seu sindicato Solidariedade viria a se tornar o símbolo da luta pela democracia no bloco comunista. Preso pelos militares, sua popularidade aumentou ainda mais, tornando-o o favorito para assumir a o comando da Polônia pós-comunista, o que realmente viria a acontecer em 1990.

Na URSS, os sinais de decadência ficavam ainda mais evidentes com a insuficiência na produção de energia, a estagnação da produção de petróleo, da siderurgia e da agricultura, o que tornava a cada dia mais freqüentes (e maiores) as filas para a compra de produtos básicos.

A coisa ficou ainda mais complicada para os comunistas quando o presidente dos EUA, Ronald Reagan, anunciou no início dos anos 80 sua intenção de implementar um enorme projeto de defesa, baseado em satélites, o qual ficou conhecido como projeto “Guerra nas Estrelas”. Tal projeto, que custaria algumas dezenas de bilhões de dólares, exigia da URSS uma contra-ofensiva que certamente custaria também alguns bilhões, cada dia mais escassos no bloco comunista. A esta altura os norte-americanos já sabiam que parte do arsenal soviético exibido diversas vezes em desfiles militares não era de verdade. Muitos não passavam de carros alegóricos, ocos por dentro, contando apenas com lataria externa. Os norte-americanos davam um xeque-mate nos soviéticos.

Foi neste contexto que Gorbachev iniciou as conversações com Reagan, com o objetivo de por um fim na corrida armamentista, afinal os gastos extras militares tornaram-se um peso excessivo não apenas para a URSS, como também para os EUA. Segundo a World Watch, uma organização não-governamental, os gastos militares da Guerra Fria envolveram gastos na cifra dos 17 trilhões de dólares, entre os anos de 1948 e 1988. Sem dúvida, um paraíso para a indústria bélica, mas um câncer para as economias dos EUA e da URSS.

Ficava claro que alguma coisa tinha que ser feita. E foi com esta percepção que o então secretário-geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev, discursou no 27º Congresso do partido, em 1986, alertando para atrofia econômica e tecnológica da URSS, que estava ficando a cada ano mais vulnerável em relação aos inimigos ocidentais.

O primeiro passo dado por Gorbachev foi a abertura política (Glasnost, que em russo significa “transparência”), retirando do Partido Comunista a prerrogativa de tomar todas as decisões secretamente e colocando a população em uma posição de participação mais efetiva e de fiscalização.

O segundo passo foi a Perestroika, um plano de reestruturação econômica que previa a criação de uma economia mista e o redirecionamento da maior parte dos recursos do orçamento militar para o setor produtivo.

A exigência de uma maior “transparência” ecoou pelas demais repúblicas soviéticas e países satélites do leste europeu, tornando-se o gatilho para a eclosão de vários movimentos clamando por mais aberturas e reformas.

Diante da impotência da URSS diante de tantas pressões, Gorbachev liberou os países do leste europeu para seguirem seus próprios caminhos. Sem a resistência soviética, aumentaram ainda mais as pressões sobre os regimes do leste europeu, até que no dia 9 de novembro de 1989 o governo da Alemanha Comunista liberou seus cidadãos para visitarem Berlim Ocidental. Imediatamente uma multidão se dirigiu aos pontos de passagem do muro, deixando os guardas impotentes, diante da enorme desvantagem numérica. Alguns cidadãos mais afoitos começaram a subir no muro, incentivando os demais a fazerem o mesmo, em um clima de celebração com a multidão que se formava também do outro lado do muro. Imediatamente, começaram a aparecer pás e picaretas, dando início a eufórica derrubada do muro. E assim como o muro simbolizou a divisão do mundo no momento da construção, agora a queda do muro de Berlim simbolizava a derrocada do regime comunista.

Na URSS, a queda do Muro de Berlim simbolizava também a derrocada da economia soviética. A Perestroika piorou ainda mais a situação, pois a casta de funcionários de auto-escalão que se formou em 70 anos de comunismo boicotou as reformas propostas por Gorbachev, que previa uma transição em quatro etapas. Quando a casta política percebeu que a transição para o capitalismo era irreversível, houve uma corrida para a partilha dos principais setores da economia, queimando as etapas previstas e mergulhando a URSS num verdadeiro “salve-se quem puder” e, claro, deixando a população órfã da já escassa infra-estrutura soviética.

Diante do caos que se formou, alguns membros do PC tentaram ainda um golpe de estado, em 1991, no qual Gorbachev ficou detido por três dias. A resistência ao golpe foi conduzida por Boris Iéltsin, que viria a se tornar o primeiro presidente da Rússia, com a dissolução da URSS, cinco meses depois.

No próximo post, vamos falar dos difíceis anos 90. Até lá.

Posts relacionados:

14 Responses to Esquerda x Direita (parte 11)

  1. Gilx says:

    A única coisa que tenho saudades do tempo da Guerra Fria é o seu lado romântico, principalmente nos velhos filmes de guerra e espionagem.
    Uma tia minha, já falecida, visitou a Europa nos anos 80. Foi a Moscou, e chegou dizendo para nós que não existia povo mais triste do que os russos. Eu era um adolescente que começava a ter simpatias pelas ideias socialistas, mas o depoimento de minha tia foi um banho de água fria, muito mais eficaz do que qualquer argumento anti-comunista poderia fazer. Tornei-me definitivamente um entusiasta da liberdade política e econômica até hoje.

    • Amilton Aquino says:

      Também tenho uma ponta de saudade. Estive vendo uns documentários sobre a antiga URSS e lembrei da minha adolescência comunista. Foi doloroso ver tudo que acreditei ruir tão rapidamente.

  2. Sandro says:

    Boa noite aos senhores nostalgia: Amilton e Gilx!

    Indico para vocês que assistam ao excelente documentário brasileiro de 2010, UTOPIA E BARBÁRIE.

    Se mesmo assim continuar a saudade, façam o download dos filmes do 007 com o Roger Moore e leiam o livro O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO (The spy who came in from cold) o romance mais famoso do genero!!!

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Depois daquele documentário assustador sobre os milhões de vítimas de Stalin, nada mais me surpreende sobre o comunismo. De qualquer forma, cinema nunca é demais. Obrigado por mais estas ótimas sugestões. Aproveito também para indicar também “Adeus Lennin”, uma ótima comédia sobre a Alemanha Oriental após a queda do muro de Berlim.

  3. Sandro says:

    Amilton,

    Segue trecho transcrito de uma palestra do Olavo de Carvalho na Comissão de Relações Internacionais da OAB/SP, em que ele explica economia comunista, texto que vai ao encontro do post atual.

    ECONOMIA COMUNISTA
    Olavo de Carvalho – Palestra na OAB/SP 2004

    A economia comunista, a partir do momento que você estatiza todos os meios de produção ela se torna completamente inviável. Isso já foi demonstrado em 1922 pelo (economista austríaco) Ludiwig Von Mises quando ele diz o seguinte: O que é o comunismo? O comunismo é a economia planificada. Para você fazer a economia planificada você precisa fazer um negócio chamado cálculo de preço. Como é que você faz o cálculo de preço? Você faz através do mercado. Se você abole a economia de mercado, não tem preço, portanto não tem cálculo de preço, portanto não tem economia planificada. Então, quem quer que tenha acreditado por dois minutos em economia comunista acredita no quadrado do redondo.
    Vocês não pensem que a elite econômica, ou que a elite governante soviética não sabia disse: Sempre souberam!
    Então, quem quer que diga – vamos implantar aqui uma economia comunista! Não, você não vai não! O que você vai fazer é o seguinte, você vai chamar de comunismo e vai criar um capitalismo subterrâneo clandestino, que representará, como representeou na Rússia, mais de 50% da economia, e ai sim você vai maquiar com planejamento comunista, feito todinho, exatamente como foram feitas as estatísticas soviéticas, na base de dados falsificados. As estatísticas soviéticas não é que elas eram falseadas, elas eram totalmente inventadas! Não havia lugar no mundo onde o governo ignorasse tão majestosamente a realidade da economia do que na União Soviética. Aquela que parecia ser a economia mais dirigida do mundo era a economia mais anárquica do mundo! Como é que você vê isso? Vocês já repararam que no dia seguinte da queda do comunismo apareceram milionários russos, do dia para a noite!? Como é que podia ter tanto milionário se não tinha propriedade privada dos meios de produção? Resposta: Tinha, sempre teve, só oficialmente é que não tinha!
    A cúpula soviética deixava que esse capitalismo subterrâneo se desenvolvesse porque era isto que sustentava a economia. Isto que dizer que cúpula comunista no mundo já sabe disto há 70 anos. (…)

    • Amilton Aquino says:

      Isto explica o caos que tomou conta da Rússia dos anos 90, assunto que abordaremos no próximo post. O interessante é que, apesar da derrocada do comunismo, ainda hoje tem gente que acredita na “solução de Lange-Lerner” para o problema apontado por Mises. Depois de ficarem décadas esquecidos, o romeno Abba Lerner e o polonês Oskar Lange foram “ressuscitados” por alguns comunistas “reformadores” a partir do relativo sucesso do “socialismo de mercado” da China e do Vietnã, nas décadas de 80 e 90.

      Acontece que, como vimos no post acima, o “socialismo de mercado” chinês serviu apenas como ponte para transição para o capitalismo. O Vietnã vai no mesmo caminho.
      Sobre o mercado paralelo da Rússia citado pelo Olavo não contesto sua existência, mas o alto percentual de 50%. Pesquisei sobre o assunto e não encontrei nenhuma fonte que dê suporte a esta afirmação. Mas como todas as estatísticas divulgadas pela URSS hoje são contestadas, então cada um fala o que quer. Acho que qualquer afirmação sobre o assunto deve ser encarada com cautela.

  4. aliancaliberal says:

    Uma cena que nunca me sai da memória, um blindado Russo andando no afeganistão,em cima do blindado um cachorro bem magrinho eos soldados idem, uma penuria uma miséria.

  5. aliancaliberal says:

    “Sem propriedade privada dos meios de produção não existem mercados .Sem mercados não há formação de preços .Sem preços não é possível realizar cálculo econômico ou seja não se pode estimar a importância e a escassez dos bens de produção sem o que uma alocação racional de recursos é impossível.”Mises.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, sabe como os comunistas definiam os preços? Pelo tamanho das filas! kkkkkkkkkkkkk

  6. aliancaliberal says:

    Allan, raciocine de onde veio esta divida?
    Pq pagamos estes juros altos?
    …….
    Tudo inicia se em governos perdulários que em prol de seu projeto pessoal, gastam sem a devida responsabilidade.
    ……..
    Lula e Dilma tem um viés populista não tem responsabilidade com o futuro apenas com seu projeto de poder.
    ………
    Na história humana temos N exemplos disso em diversos tempos o mesmo erro desde Roma chegando a europa atual, devemos pelo menos não repetir o mesmo erro do passado.

  7. Sandro says:

    Voltando a questão da precificação no COMUNISMO X CAPITALISMO, segue engraçadíssimo texto do Stephen Kanitz que acabo de ler:

    http://blog.kanitz.com.br/2011/02/o-pre%C3%A7o-justo-%C3%A9-o-de-mercado-.html

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Concordo com o Kanitz. Entre os extremos do liberalismo e do socialismo, existem muitas nuances que devem ser observadas. Mais um ótimo exemplo de como a realidade vai se sobrepondo a ideologia cega.

  8. aliancaliberal says:

    Um vídeo sobre isso. Tem tanto conteúdo que tive que “estudá-lo”.

    http://vimeo.com/13769236

    O preço de um produto é relativo, cada indivíduo valoriza os bens de acordo com as suas preferências.
    Não se vende mais produtos e sim “sonhos”, isso justifica uma mulher comprar uma bolsa de 500 dólares ou um homem comprar um carro por 150mil dólares.
    Um vídeo sobre isso.

    http://www.youtube.com/watch?v=b5_VwlMYI7Y

    • Amilton Aquino says:

      Boas sugestões, Liberal. Não deu ainda para ver a palestra toda, mas vou ver com o maior prazer. Abraço!