Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 9)

Consenso de Washington

Olá amigos, neste post vamos falar sobre o famoso Consenso de Washington, um conjunto de recomendações para economias em crise da década de 80 que foi transformada pelas esquerdas latino-americanas na “Bíblia do Neoliberalismo”.

O Consenso de Washington

Como vimos nos posts anteriores, a década de 80 ficou conhecida como “a década perdida”, devido às enormes dificuldades enfrentadas pelos países do terceiro mundo, com o aumento dos juros norte-americanos e a conseqüente crise da dívida externa em 1982.

Após uma década de várias tentativas fracassadas de estabilização em diversos países, várias instituições internacionais sediadas em Washington (entre elas o FMI e o BIRD) realizaram um encontro para discutir meios de ajustar tais economias, em 1989.

Foi neste contexto que o economista John Williamson, do International Institute for Economy, apresentou um conjunto de dez recomendações, baseadas nas experiências do Chile e do México, os países que havia conseguido os melhores progressos nos esforços de estabilização de suas economias na América Latina até então.

As esquerdas, portanto, trataram logo de associar tais recomendações a uma suposta “conspiração” do império para subjugar ainda mais as nações latino-americanas. O chamado “Consenso de Washington”, ou simplesmente “CW”, passou a ser visto como a “cartilha no neoliberalismo”, imposta pelo FMI.

Mas, quais foram as tais recomendações? Elas foram realmente seguidas? Elas realmente contribuíram para aumentar a dependência dos latino-americanos aos EUA? E quais os resultados práticos, duas décadas depois?

Para responder estas perguntas, vamos analisar cada uma das dez recomendações e comparar com as trajetórias do Brasil, um exemplo razoavelmente bem sucedido, e da Argentina, país citado sempre pelas esquerdas como exemplo de fracasso das “medidas neoliberais”. Vejamos:

1 – Disciplina fiscal

O desequilíbrio fiscal (gastos maiores que as receitas) sempre estiveram no cerne dos principais problemas dos países latino-americanos, sendo a principal causa da inflação. Portanto, o CW colocava como condição número 1 o ajuste dos gastos às receitas.

O Brasil, depois de várias tentativas de estabilização e ajustes fiscais, conseguiu um grande avanço com a aprovação, em 2000, da Lei de Responsabilidade Fiscal, que impedia que governos e municípios gastassem mais que suas receitas. Infelizmente, no último ano do governo Lula começaram a aparecer pressões de governadores para “flexibilizar” a Lei de Responsabilidade Fiscal.

A Argentina, no entanto, nunca chegou nem próximo de cumprir este requisito básico. Sem uma lei para coibir os gastos excessivos, as províncias argentinas continuaram repassando seus déficits orçamentários para a união, os quais continuaram sendo transformados em mais dívida e mais inflação.

2 – Prioridades nas despesas públicas

Esta recomendação está diretamente relacionada à primeira. Trata-se da definição dos gastos prioritários do Estado, com o objetivo tornar mais eficientes os recursos públicos.

O Brasil até que tentou, mas o aumento da dívida interna, decorrente da incorporação dos “esqueletos” da época da hiperinflação, do repasse das dívidas dos Estados e municípios para a União e das capitalizações dos bancos públicos, aumentou ainda mais os gastos do governo, exigindo o aumento da carga tributária em oito pontos percentuais. Sobrou apenas o discurso da necessidade da redução do Estado para aplicar melhor os recursos em educação, saúde e segurança.

A Argentina passou ainda mais longe que o Brasil neste item.

3 – Reforma tributária

Um dos problemas crônicos dos países latino-americanos. O terceiro item do CW recomendava uma reforma que possibilitasse a expansão da base de arrecadação, evitando a sonegação e a sobrecarga do setor formal da economia.

No Brasil, até hoje nada foi feito.
Na Argentina foi feita uma reforma parcial.

4 – Juros de mercado

O Estado não deve manipular taxas de juros artificialmente. Tais taxas devem acompanhar o equilíbrio da oferta e da procura por dinheiro na economia.

No Brasil, a manipulação da taxa de juros foi (e ainda é) o principal mecanismo de controle da inflação. Isto explica o porquê de continuamos ainda hoje com o título de campeões mundiais de taxas de juros.

Na Argentina, o governo Menem até que tentou liberalizar os juros, mas os desequilíbrios resultantes dos déficits crescentes levou o governo a aumentar as taxas de juros progressivamente.

5 – Câmbio de mercado

Assim como os juros, o câmbio também deve ser definido pelas leis de mercado. Deve estimular as exportações, porém não pode ser um obstáculo às importações.

No Brasil, o cambio flutuante só veio a ser implantado em 1999, após cinco anos de câmbio artificial, instituído no Plano Real.

Na Argentina, a coisa foi muito pior, pois o país passou dez anos seguidos com o valor do peso atrelado artificialmente ao dólar, na proporção 1 x 1.

6 – Política comercial de integração aos fluxos mundiais

Abertura às importações, com o objetivo de fortalecer a competitividade da economia.

No Brasil, a abertura começou com Collor e foi concluída com FHC. E, ao contrário do que as esquerdas previam, a abertura da economia fortaleceu nossa economia (apesar das muitas falências nos primeiros anos), tornando-a competitiva para o mundo globalizado.

Na Argentina, apesar da abertura inicial, aos poucos, o governo foi elevando as tarifas alfandegárias para compensar a perda de competitividade com o câmbio cada ano mais valorizado.

7 – Abertura da economia ao investimento estrangeiro direto

Este é o segundo item mais “neoliberal” da lista. Além de uma importante fonte de recursos, é também um grande indutor de ganhos de produtividade.

No Brasil, apesar do alarmismo das esquerdas apontando este item como “um dos principais instrumentos de dominação estrangeira”, ironicamente foi no governo do PT que o investimento estrangeiro se tornou o principal fator de equilíbrio das contas públicas. Ou seja, o PT deu mais uma contribuição neste importante item do receituário “neoliberal”, até de uma forma demasiada, pois hoje nossa economia está ainda mais dependente dos recursos externos para equilibrar as contas, já que o governo aumentou os gastos muito além do que deveria. Na era FHC, apesar dos esforços do governo para atrair o capital estrangeiro direto, muito pouco foi conseguido devido ao risco país ainda muito elevado. Sobrou ao governo, a atração de capital especulativo com os altos juros dos títulos brasileiros, capital volátil que sempre fugia quando ocorria qualquer indicio de crise.

Na Argentina, assim como nos itens anteriores, aconteceu num primeiro momento, mas foi sendo inviabilizado gradativamente com a perda de competitividade da economia, decorrente da valorização cambial.

8 – Privatização das estatais ineficientes

Este é sem dúvida o mais “neoliberal” dos itens. Está diretamente relacionado ao item 2 (Definição de prioridades nas despesas públicas). Se o governo não tem dinheiro para investir em estatais ineficientes, que venda então tais empresas e utilize os recursos obtidos para reduzir despesas financeiras.

No Brasil, tornou-se um dos maiores símbolos do governo “entreguista” de FHC. Apesar do pouco dinheiro arrecadado com os leilões, tais empresas transformaram-se nas âncoras da economia brasileira nos anos seguintes.

Na Argentina, também ocorreu.

9 – Desregulação de setores controlados ou cartelizados

Redução da burocracia, flexibilização de leis trabalhistas, combate aos monopólios e criação de agências reguladoras.

No Brasil, não houve nenhuma alteração na legislação trabalhista. Avançamos muito pouco na redução da burocracia, um pouco mais no combate aos monopólios (principalmente o do petróleo). Avançamos mais na criação das agências reguladoras, apesar do aparelhamento destas nos últimos anos do governo do PT.

Na Argentina, as privatizações foram feitas sem nenhum planejamento, o que resultou em novos monopólios privados. Pior: sem agências reguladoras.

10 – Direito de propriedade

Um pré-requisito para o aporte de investimentos estrangeiro é estabilidade de regras e o respeito aos contratos, inclusive o respeito à propriedade intelectual. Além de instituições fortes e independentes, é imprescindível o controle da inflação e estabilidade econômica e política.

No Brasil, mesmo após o fortalecimento das instituições democráticas com o fim do regime militar, a instabilidade econômica não apenas continuou como foi até intensificada nos períodos de hiperinflação. Com o Plano Real, a instabilidade diminuiu, mas permaneceu até 2003, devido às sucessivas crises entre os emergentes e, por último, com a desconfiança do mercado com a eleição de Lula, candidato que passou toda sua militância política combatendo o “neoliberalismo”. Ao implementar o ajuste fiscal de 2003 e surpreender o mercado com a elevação do antes combatido superávit primário e continuar a política econômica do seu antecessor, o governo do PT assegurou este último item do “receituário neoliberal”, criando as condições para o aporte de capital estrangeiro que passou a chegar em grande volume a partir de 2005.

Na Argentina, as sucessivas crises dos anos 90 criaram um ambiente ainda mais instável e incerto, o que afugentou ainda mais os investidores estrangeiros, os quais só retornaram na segunda metade da década de 2000, quando o governo Argentino firmou um acordo com os seus credores para pagar suas dívidas.

Conclusão

Das dez recomendações da “cartilha neoliberal”, o Brasil seguiu apenas sete, sendo que a maioria só foi concluída no final da era FHC (e o último já na era Lula), alguns de forma parcial. Na Argentina, apesar das tentativas, apenas quatro foram seguidos e mesmo assim de forma equivocada.

Como resultado, o Brasil sobreviveu à série de crises dos anos 90 e início dos anos 2000 se tornou um dos mais importantes emergentes. A Argentina, apesar de ter “aderido” às recomendações do CW antes do Brasil, decretou moratória duas vezes. Só a partir de meados da década de 2000 é que conseguiu complementar algumas etapas das recomendações do CW para atrair os abundantes investimentos estrangeiros que migraram dos países desenvolvidos para os emergentes, a partir de 2005.

Ao contrário do que as esquerdas pregavam na década de 90, os países que seguiram o “receituário neoliberal” não se tornaram mais dependentes dos Estados Unidos. Muito pelo contrário, ganharam mais espaço na economia mundial, enquanto que os países centrais estagnaram.

Por fim, a conclusão mais importante. O chamado neoliberalismo não é nenhuma doutrina elaborada pelos liberais com o intuito maquiavélico de subjugar os pobres países periféricos, como pregavam os esquerdistas.  É sim uma tentativa de reformar o quadro caótico da economia mundial, vítima de décadas de keynesianismo usado não apenas para protelar crises, mas principalmente para conquistar popularidade por políticos mais preocupados com as próximas eleições do que com as próximas gerações.

Até o próximo sábado!

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Artigo inspirado no ótimo texto de Paulo Roberto de Almeida: http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=236

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14 Responses to Esquerda x Direita (parte 9)

  1. aliancaliberal says:

    Eu fui na quarta feira passada 04 de maio em uma reunião do diretório do PT, para ver de perto como é a coisa.

    Era a fundação de uma nova corrente dentro do PT gaucho, nem nome ainda tem, pelo que apurei parece ter um viés social democrata, nada definido.

    Fora os discursos moderados de conciliação sem nada a acrescentar, falaram que o partido tem que utilizar a internet para mobilizar e entusiasmar a militância, apenas duas coisas da pra dar destaque, uma foi Tarso Genro admitindo que o socialismo fracassou, e a outra Olívio Dutra falou “o PT não pode ser o partido dos corruptos”.

    A maioria presente era composta por funcionários publico e CCs e de pessoas de classe média alta, a maioria homens de 40+ o que demonstra que o partido esta ficando velho na idade e nas idéias, não tem mais lideranças jovens.

    Em nenhum momento foi falado neoliberalismo, reforma agrária. Os discursos foram muito moderados ate em demasia.

    Vou dar uma de cabo Anselmo, vou ir às reuniões desta corrente só pra ouvir o que falam internamente.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal,
      Como Eduardo Dutra (ex-presidente do PT) admitiu, a realidade se sobrepôs a ideologia. O resultado disso é que o PT hoje ocupa o lugar do PSDB na defesa da social-democracia e o PSDB foi empurrado para a direita.

      Este “amadurecimento” é um processo lento, mas inevitável. Claro que ainda existem correntes no PT que ainda se iludem com os chavões do passado, mas até estes já moderaram os discursos.

      Só lamento que a oposição não tenha sabido capitalizar esta guinada do PT e que ainda tenhamos que sofrer na pele os custos de mais aprendizados, os quais virão inevitavelmente com o mais recente surto de keynesianismo.

  2. Ricardo Rocha says:

    Um homicídio prescreve em vinte anos, uma dívida trabalhista que na verdade nunca existiu por ser fruto de uma mentira, não prescreve nunca.
    Flexibilização das anacrônicas leis do trabalho, só no dia de São Nunca

    • Amilton Aquino says:

      Realmente vai ser muito difícil, Ricardo. Só mesmo uma grave crise, como a Grega, por exemplo, para “desideologizar” o debate que envolve estas questões.

  3. Amilton Aquino says:

    Olá amigos,
    Uma leitora nos enviou um comentário pedindo para não habilitá-lo, no qual discordava do meu ponto de vista sobre o Consenso de Washington, sugerindo a leitura de alguns ensaios do economista Bresser Pereira.

    Como ela não autorizou a habilitação do seus comentários, publico aqui os links por ela sugeridos:

    1) http://www.bresserpereira.org.br/papers/2002/60-2oCWashingtonBNDES.p.pg.pdf
    2) http://www.bresserpereira.org.br/papers/1991/91-AcriseAmericaLatina.pdf
    3) http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=1430

    Não li ainda o ensaio sobre o 2º Consenso de Washington, mas vou adiantando minhas impressões sobre os outros textos indicados.

    Resumidamente, acho que há um falso dilema na tese “A crise da América Latina: Consenso de Washington ou Crise Fiscal?”. Apesar das considerações ideológicas iniciais, na prática, o Bresser ratifica as recomendações do CW, pois resume os cinco primeiros itens num esforço de “ajuste fiscal”, justamente o que propõe sua alternativa “Crise Fiscal”, como contraponto ao CW. E quando esperava que o Bresser fosse refutar os demais itens do CW, os argumentos ficam apenas no campo ideológico, no máximo contestando o famoso “estado mínimo”, apesar de concordar também com a redução do estado. Ou seja, no final, a questão fica restrita ao nível da dosagem da aplicação das recomendações do CW, pois a validade dos dez itens sugeridos quase não são contestados, afinal tanto os governos de direita como de esquerda aderiram a tais recomendações.

    Digo que o dilema é falso, porque a proposta do Bresser de ajuste fiscal está contida nas recomendações do CW. Só diverge em dois pontos: o primeiro é que na proposta do Bresser, os ricos pagariam mais pelos custos do ajuste fiscal (o CW não faz nenhuma referência sobre quem deve pagar mais ou menos); o segundo é que na proposta do Bresser, ele praticamente propõe o calote da dívida externa, chegando a citar o Brasil como exemplo, já que Sarney havia decretado a moratória pouco antes.

    E o que isso nos trouxe de vantagem? Justamente o aprofundamento da crise. Para quem não lembra, o governo Sarney terminou com mais de 1000% de inflação ao mês, a dívida não diminuiu e a dívida teve que ser renegociada pouco depois para tentar recuperar um pouco de credibilidade no mercado internacional.

    Sobre a teoria do “chute da escada” acho que está mais para “teoria da conspiração”. Os argumentos ficam apenas nos discursos, discursos que perdem o sentido quando analisamos a realidade, pois duas décadas depois os países latino-americanos estão mais estáveis, crescendo acima da média mundial e mais independentes. Ironicamente, os países do primeiro mundo (principalmente os EUA) estão a cada ano mais enfraquecidos. Ou seja, se o CW fosse realmente uma conspiração, a conclusão é que o tiro teria saído pela culatra.

  4. aliancaliberal says:

    http://www.youtube.com/watch?v=g0bi_-pPOOo&feature=related

    “Sabe eu acho que tem havido uma falácia implícita básica neste contexto de medidas de bem estar e seguridade social e essa é a falácia (em essência).
    ………
    A falácia que é viável fazer o bem com dinheiro dos outros.
    …………..
    Agora veja, essa visão tem dois problemas:
    Se eu quero fazer o bem com o dinheiro dos outros, em primeiro tenho que tira-lo de você, isso quer dizer que a filosofia do estado de bem estar de fazer o bem com o dinheiro dos outros, bem no fundo é uma filosofia de violência e coerção; é contra a liberdade, porque eu tenho que usar a força para conseguir o dinheiro.
    Em segundo lugar, muito poucas pessoas gastam o dinheiro dos outros tão cuidadosamente quanto gastam o seu próprio.”
    ………..
    To lendo os textos indicados, Bresser fala em poupança publica que seria o que o governo “poupa” para investimento, receita menos gasto publico, complicado isso com a tradição populista do estado brasileiro.

    • Amilton Aquino says:

      Só mesmo no mundo perfeito dos keynesianos o Estado paternalista consegue promover políticas sociais e, ao mesmo tempo, fazer poupança. Na prática, a coisa é bem diferente. O Bresser foi ministro da fazenda no governo Sarney, o pai de mais um fracassado plano de estabilização, e sabe que a tal poupança só se consegue em momentos de crescimento, desde que o governo pense mais no futuro do país do que no presente. O problema é encontrar este político.

  5. Amilton Aquino says:

    Olá amigos,

    Terminei de ler o ensaio sobre o chamado “Segundo Consenso de Washington” indicada pela nossa leitora anônima, que tem se comunicado comigo por email e não quer ver seus comentários publicados. Uma pena, pois argumenta muito bem.

    Vou fazer algumas ponderações aqui que poderão levar algumas pessoas a concluírem que discordo de tudo que o Bresser Pereira escreveu nos seus ensaios, pois vou focar apenas no que discordo, o que não significa que não considere a maior parte dos seus argumentos pertinentes, principalmente no diagnóstico dos efeitos colaterais do excesso de capitais estrangeiros, que se tornaram uma espécie de anestésico para esconder os reais problemas da nossa economia.

    A primeira coisa que me chamou a atenção é que nunca tinha ouvido falar neste “Segundo Consenso de Washington”. Pesquisei na web e as únicas referências que encontrei estão relacionadas ao Bresser. Procurei na bibliografia citada por ele, mas não existe nada, uma data que remeta a algum encontro que tenha concretizado a tal instrução para “incentivar os países da América Latina a financiarem seus déficits com poupança externa”, cristalizada na seguinte frase citada por ele, atribuída a um ente qualquer do neoliberalismo que diz o seguinte:

    “Nós entendemos que vocês (nós os países subdesenvolvidos) não têm mais recursos para financiar seu desenvolvimento, mas não se preocupem, façam o ajuste fiscal e as reformas, que nós financiaremos seu desenvolvimento com poupança externa, se possível com investimentos diretos.”

    Pesquisando mais um pouco encontrei a frase do Bresser que explica o porquê de ninguém falar do tal segundo CW: “Fomos vítimas do que proponho chamar o Segundo Consenso de Washington”. Ou seja, o tal “segundo” CW é uma criação do Bresser, pois ele resolveu batizar a suposta determinação dos entes conspiratórios com o carimbo maquiavélico da capital do império. Porém, de concreto mesmo até agora, pelo menos, não encontrei nada. Se alguém tiver algum link que comprove a autenticidade de tal conspiração, por favor, publique aqui, pois aí sim vou rever meus conceitos sobre o CW. Por enquanto, minha impressão é a mesma. Existe muita ideologia nas críticas ao conjunto das recomendações, mas não na essência do que foi recomendado. Algo como um preconceito, como se, pelo fato do CW ter sido realizado em Washington, seu conteúdo herdasse a maldição do império. Certamente se o CW tivesse ocorrido em qualquer outro país do mundo, o conceito dos esquerdistas sobre seu conteúdo não seria tão negativo.

    O segundo ponto que me chama atenção é que as críticas que o Bresser faz a política de altos juros e ao câmbio valorizado da era FHC (e por extensão de Lula) contradizem as recomendações 4 e 5 do verdadeiro CW, que recomenda cambio e taxa de juros competitivas e equilibradas. Em nenhum momento o CW aconselha juros exorbitantes, nem câmbio sobrevalorizado. Aliás, o CW recomenda um câmbio que “facilite as exportações”. Portanto, a crítica do Bresser vale para os governos FHC e Lula, mas não tem nada a ver com o CW.

    O terceiro ponto que me chama a atenção neste ensaio é a importância excessiva que o Bresser dá a dívida externa como obstáculo a retomada do crescimento. Ora, com exceção do início dos anos 80 quando houve a elevação dos juros norte-americanos, os juros da dívida externa têm sido sempre inferiores aos da dívida interna, que custam cerca de três vezes mais. Se levarmos em consideração que a dívida interna a partir do governo FHC aumentou numa proporção muito maior que a dívida externa, muito me estranha ele falar tanto de endividamento externo e tão pouco do endividamento interno, o que, para mim, ajuda a explicar sua constante cisma com relação ao capital estrangeiro e principalmente com as supostas “diretrizes de Washington” com o objetivo de subjugar as nações subdesenvolvidas.

    O irônico disso tudo é que ele não refuta nenhuma das dez recomendações. Assim como no primeiro ensaio, ele as endossa, de forma que tudo fica restrito apenas a dosagem do remédio. Ou seja, a crítica fica vazia, restrita apenas as frases de efeito, pois o acato ou não de tais diretrizes depende de cada país, assim como a dosagem aplicada.

    O quarto ponto que me chama bastante atenção é a forma simplista como ele trata a inflação, afirmando categoricamente que tal problema já estava equacionado quando FHC assumiu o governo. Ora, todos nós sabemos que até hoje sofremos com uma inflação inercial provocada por resquícios de indexações ainda existentes na nossa economia (ele equivocadamente afirma que a indexação já havia acabado). Vejam o momento atual. Um aumento de dois pontos percentuais na inflação e o fantasma da ciranda inflacionária volta a ser uma das principais preocupações do governo. E olha que já passamos 15 anos com inflação controlada, com uma população reeducada e uma nova geração que nem sabe o que é inflação. Agora imagina nos primeiros anos do Plano Real, a desconfiança que havia tanto nos agentes econômicos quanto na população, depois de verem o mesmo filme tantas outras vezes, quando havia a queda brusca da inflação nos primeiros meses do lançamento de cada plano, seguidos de novas escaladas inflacionárias. E como ignorar os efeitos colaterais da queda da inflação para os cofres dos governos estaduais e federal, já que estes obtinham parte de suas receitas justamente do processo inflacionário? Como ignorar a crise generalizada nos bancos federais e estaduais com a perda da receita obtida com a inflação? Como ignorar os 60 bilhões investidos na recuperação de tais bancos tirados do próprio mercado através da emissão de mais títulos da dívida interna? Como ignorar o enorme aumento da dívida interna decorrente do repasse de R$ 295 bilhões de dívidas dos estados e municípios para a união? Como ignorar os “esqueletos” dos governos anteriores que vieram à tona com a queda de inflação, os quais também foram incorporados à dívida interna?

    Portanto, discordo do primeiro item indicado por Bresser na agenda de FHC (o equívoco em relação à definição do problema maior a ser enfrentado pelo governo a partir de 1995). A inflação era ainda a maior preocupação e continuou a ser na medida em que foram ocorrendo sucessivas crises entre os emergentes, o que levava o dólar às alturas e reacendia os temores de um novo repique inflacionário. E aí o governo usava sua até hoje única arma contra a inflação: a elevação dos juros. E porque ainda hoje é assim? O que é que isso tem a ver com o CW? Nada. Nossa taxa de juros é alta porque nossa dívida é alta; porque nossa economia continua indexada; porque o governo continua a criar dinheiro do nada através da moderna malandragem de emissão de títulos da dívida pelo BC, etc, etc.

    Portanto, o segundo item da agenda do governo foi acertadamente criar os mecanismos para equacionar os efeitos colaterais do fim da hiperinflação, assim como criar mecanismos de evitar novos esqueletos para o futuro, evitando assim a escalada de déficits que levaram o aumento expressivo das dívidas dos estados e municípios (repassadas para a União), tanto que a Lei de Responsabilidade Fiscal começou a ser discutida já em 1996, embora só tenha sido aprovada quatro anos depois.

    Sobre o segundo item indicado por Bresser (o II Consenso de Washington, segundo o qual deveríamos nos desenvolver com apoio na poupança externa), como já disse antes, não encontrei nenhuma base para tal afirmação. Ora, como o próprio Bresser admite, “a poupança externa pode ser útil”. O problema, mais uma vez está na dosagem. O governo FHC errou na dosagem? Pode ser. Mas o que dizer de Lula que exacerbou ainda mais esta dependência num ambiente muito mais favorável? Isto poderia ter sido mudado? Claro que sim. Se não mudou não foi por pressão dos EUA, do FMI, do BIRD ou qualquer outro ente imperialista ou neoliberal. Não mudou porque nossos governantes se habituaram a falsa impressão de que tudo vai bem proporcionada pela entrada de capitais externos. Precisamos parar de culpar os outros e assumir nossos erros.

    Concordo com a maioria das ponderações do Bresser sobre este assunto, mas repito, tais equívocos são dos nossos governos. Não tem nada a ver com o suposto “financiamento do subdesenvolvimento” bancado por países ricos para nos subjugar. Até porque boa parte dos capitais que financiam os títulos da dívida pública são comprados por pessoas comuns. Eu, por exemplo, estou “investindo” em títulos do Tesouro, já que a poupança está perdendo da inflação. Sou um especulador? Participo de alguma conspiração? Não. Estou apenas juntando um capital para ter um pouco mais de tranqüilidade no futuro. Posso ganhar ou perder, afinal o governo é quem define as taxas de juros e da saúde da nossa economia depende o meu suado dinheiro.

    Concordo com as ponderações sobre o fato do FMI priorizar o déficit interno em relação ao déficit externo. É uma questão de lógica. Primeiro porque o principal foco de desequilíbrio é realmente o déficit interno. Segundo, porque o défict externo pode ser suavizado gradativamente a medida em que a economia entra nos trilhos. É realmente um problema menor diante de tantos desafios de uma economia em processo de estabilização. Terceiro, porque o FMI, como credor, nunca vai pregar controle de fluxo de capital para o exterior. Cabe aos governos pesarem os custos-benefícios de cada ação e tomar suas decisões, pois fora os ajustes fiscais sempre cobrados pelo FMI (o que convenhamos é muito salutar), os dez itens do CW não passam de recomendações, podendo ou não serem acatadas, como de fato ocorreu, pois cumprimos apenas sete, e mesmo assim parcialmente. O Bresser cita o fracasso da Argentina, mas esquece de falar que tal país não cumpriu nem mesmo a primeira recomendação, condição sine qua non para a recuperação de qualquer economia, com ou sem CW: disciplina fiscal.

    Para finalizar minhas considerações sobre a suposta conspiração dos EUA para nos subjugar, vamos pensar um pouco. Se o objetivo dos EUA (através do FMI) em nos tornar dependentes de capitais externos (e por conseguinte tornar nosso mercado dependente de importações), os verdadeiros beneficiados deste processo não seriam os EUA e sim os emergentes asiáticos, os países com maiores poupanças e com economias totalmente voltadas às exportações. Não custa lembrar que os EUA hoje são deficitários nas contas externas e dependem cada vez mais da poupança externa (assim como nós), principalmente dos asiáticos.

    Voltando ao primeiro ensaio do Bresser, ele comete um grave erro ao afirmar que “a crise da América Latina não pode ser explicada pelo populismo econômico, porque este sempre existiu e, não obstante, a região se desenvolveu”. Ora, ele ignora o efeito cumulativo de tais ações populistas, que vão se somando até inviabilizarem o Estado, caso nada seja feito para estancar tal processo. Claro que não foi apenas isso, mas negar algo tão óbvio compromete todo seu trabalho.

    E mais adiante, ainda criticando o CW ele diz:
    “(A crise) Não se explica, finalmente, pela natureza intrinsecamente equivocada da intervenção do Estado, porque esta, durante muitos anos, foi muito bem-sucedida”

    Ora, um modelo que funciona durante um certo tempo não é garantia de que funcione sempre. O modelo japonês, por exemplo, que funcionou tão bem nos anos de ouro do capitalismo já não funciona mais. O modelo intervencionista do regime militar só foi possível pela abundância de crédito no mercado. Nos anos 80 a fonte secou o não foi mais possível sustentar tal modelo. Ou seja, foi tal modelo que nos tornou vulnerável. Ou seja, o Bresser criticava o CW, defendendo o que já havia dado errado.

    Portanto, é muito fácil agora para o Bresser falar da importância de aumentar a poupança interna. O difícil é colocar tal aspiração em prática, principalmente em momentos de crise e estagnação como ficou caracterizada a década de 90. É a velha história do lençol curto. Como fazer poupança quando se está cada vez mais endividado? O Bresser já foi ministro da Fazenda e sabe muito bem disso, pois acabou sendo demitido com uma inflação de mais de 300% ao ano, pondo mais uma pá de cal em mais uma tentativa frustrada de estabilização, da qual resultou um enorme passivo ao governo, o qual só veio a ser quitada depois de 20 anos.

    Mais importante do que ficar rotulando o CW de “neoliberal” é ver o que realmente procede ou não. As discussões têm sido mais ideológicas, permanecendo apenas na superficialidade dos chavões, pois é mais fácil rotular do que realmente encontrar soluções. O governo no PT está aí para provar a diferença entre o discurso e a realidade.
    Abraço

  6. aliancaliberal says:

    Amilton vou fazer uma afirmação que parece meio “maluca”, os juros no Brasil estão abaixo do que deveria, eu sei parece bobagem mais veja:
    Quando os juros estão “altos” há uma corrida para a poupança e vc mesmo afirma que não esta valendo à pena, este dinheiro que deveria estar na poupança esta no consumo causando a alta de preços por demanda, pq a produção não acompanhou a demanda por falta de investimento, e não há investimento pq não há poupança, não há poupança pq os juros estão relativamente baixos.
    Outra prova dos juros baixos é que uma economia com juros altos tem baixo desenvolvimento, já que em vez de consumir o cidadão poupa, diminuindo o consumo.
    …….
    Consumo em alta e juros altos não tem lógica.
    ………..
    Existe um desequilíbrio na nossa economia a balança produção (investimento) x consumo (poupança) não esta equilibrada, não se comporta como seria o esperado e quem pode provocar isso? O governo intervindo na economia.
    Lembrando que juros é a diferença entre o consumo imediato e o consumo futuro, e quem e o maior consumidor do país? O governo, e que para cumprir as promessas de campanha não tem a responsabilidade alguma no consumo, ai que esta a questão ela não é econômica e sim política.

    • Amilton Aquino says:

      Olá Liberal,
      Tudo o que vc descreveu prova a anomalia da nossa economia, mas não prova que os juros estão baixos. Aliás, 12% é alto em qualquer lugar do mundo, em qualquer circunstância.

      Não só o governo tem aquecido a economia, como também o excesso de capital estrangeiro, a grande oferta de crédito e a inclusão de mais pessoas na base de consumo. Tudo isso junto provoca o efeito contraditório que faz vc concluir que os juros estarem baixos, apesar de continuarem nas alturas.

  7. Gilx says:

    Amilton,
    Estive relendo o post “Investimentos”
    http://visaopanoramica.net/2010/10/17/os-desafios-do-pos-lula-investimentos/
    No comentário 34, percebi algo escrito por vc, ano passado:

    “E eis que Lula, como sempre, aproveitou para fazer suas tradicionais bravatas para defender seu modelo ideal de Estado grande, deturpando as teorias anticíclicas de Keynes para justificar sua sede gastar cada vez mais”.

    É impressão minha ou você revisou (de lá pra cá) seu conceito pessoal sobre o keynesianismo?

    • Amilton Aquino says:

      Olá Gilx,
      Não mudei não. Mas não teria nenhum problema em admitir se realmente houvesse mudado. Sempre vi o Keynesianismo por dois ângulos. No primeiro, em situações emergenciais, como no caso dos EUA, em 2008, acho que são perfeitamente justificáveis. É como vc pedir um empréstimo para evitar um mal maior. Depois que o momento mais crítico passa, vc aperta o cinto para pagar a dívida. Esta seria uma ação anticíclica. Agora, o outro ângulo que vejo o keynesianismo é aquele que estamos abordando aqui, quando o intervencionismo deixa de ser cíclico e passa a ser constante, empurrando a conta para as futuras gerações.

  8. ASG says:

    Boas, estou pela primeira vez em contacto com o seu blog, li todas as partes deste texto até agora e tenho de lhe dar os parabéns pela forma como expõe os factos e ideias. Apesar de não concordar com o liberalismo como modelo de sociedade, gostei dos seus argumentos e elucidação.

    Contudo, e nesta parte em concreto, sobre as políticas do CW terem funcionado no Brasil significarem que o modelo resulta, não acha que teve muita ajuda o facto de, nos últimos anos, o Brasil ter encontrado os poços de pré-sal que encontrou?

    Não sou economista, nem tenho a pretensão de debater sobre isso. Apenas sou um curioso que gosta de ler sobre economia e, também, não sou grande conhecedor da economia brasileira, pois vivo fora desde muito novo.

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado pelos elogios ASG. Devo-lhe dizer que também não sou fã dos ideais liberais como modelo de sociedade. No entanto, acredito que o liberalismo funciona melhor no grau atual de evolução da humanidade. Talvez algum dia cheguemos a um estágio que possamos seguir o modelo da Suécia, por exemplo, que tem uma boa combinação entre economia de mercado e estado. O pré-requisito para isto é ter uma sociedade bem educada e um nível de corrupção baixo, o que não é o nosso caso. Portanto, no Brasil, quanto mais estado, mais corrupção. Neste caso, prefiro as desvantagens do liberalismo.

      Quanto ao Pré-sal, os primeiros poços ainda nem entraram em operação. Portanto, nosso país ainda continua importando petróleo, apesar da badalada conquista da auto-suficiência no segundo mandato de Lula.
      Abraço e volte sempre!