Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 8)

Thatcher_1670807cA ascensão do “neoliberalismo” na Inglaterra

Como vimos no post 5 desta série, o estado de bem estar social europeu, o chamado Welfare State, deu seus primeiros sinais de crise já no início dos anos 70. Apesar das ainda altas taxas de crescimento, as projeções para o futuro mostraram-se insustentáveis, com base no aumento da expectativa de vida da população, assim como a redução da natalidade. Na Inglaterra, especialmente a decadência era mais evidente. Os sucessivos governos de esquerda engessaram a Inglaterra, de modo que sua economia chegou a ser ultrapassada pela Itália e ser apenas um pouco mais da metade da França.

Foi neste contexto que a conservadora Margareth Thatcher assumiu o poder, em 1979. Já influenciada pelos experimentos dos Chicago Boys do Chile, que comemoravam quatro anos de crescimento em ritmo acelerado, a nova primeira-ministra deu início a uma série de reformas com o objetivo de evitar o colapso da economia inglesa com o aumento inercial dos gastos sociais.

Aliás, anos antes de chegar ao poder, Thatcher já apresentava seu cartão de visitas cortando a distribuição de leite gratuita nas escolas britânicas quando, ironicamente, ocupava o cargo de Secretária de Estado para Assuntos Sociais. A “dama de ferro”, como seria conhecida posteriormente, enfrentava os primeiros protestos a sua política de redução do Estado britânico.

Apesar do objetivo inicial de reduzir a escalada inflacionária, que havia ultrapassado a barreira psicológica dos dois dígitos em 1979 (com uma forte tendência de alta, vale ressaltar), os dois primeiros anos do governo Thatcher foram desesperadores. Não só a inflação quase duplicou em 1980, como o país amargou dois anos de recessão, quando o PIB decresceu 2.1%, em 1980, e 1,3% em 1981.

A explicação para tal tragédia foi a combinação do ajuste recessivo interno (cortes de gastos, principalmente) como turbulento cenário externo com o preço do petróleo nas alturas, os juros norte-americanos na casa dos 20%.

E quando a economia inglesa dava os primeiros sinais de recuperação crescendo míseros 2,1% no complicado ano de 1982, quando a maioria dos países do mundo tiveram quedas expressivas no PIB, estoura a guerra das Malvinas entre britânicos e argentinos. Apesar de complicar ainda mais a situação financeira do Reino Unido, a guerra fortaleceu o nacionalismo britânico em meio as conturbadas medidas implantadas pelo novo governo, entre as quais a redução de impostos dos mais ricos, aumento da taxa de juros, redução dos gastos sociais, redução de direitos trabalhistas e até a extinção do salário mínimo, além, claro, da privatização de empresas estatais, a marca registrada do “neoliberalismo”.

A dama de ferro era a personificação do diabo no poder. Como alguém poderia ser tão má?

As resistências se intensificaram. Em todo o Reino Unido, os sindicatos organizaram grandes protestos. Só em 1979 foram mais de 4 mil greves, algumas das quais, como a dos mineiros, em 1984, duraram mais de um ano, causando um prejuízo de mais US$ 1,5 bilhões a economia inglesa. Thatcher era a primeira-ministra britânica mais impopular da história.

Diante de um quadro tão desfavorável, difícil entender como a dama de ferro conseguiu se reeleger em 1983 e em 1987. Pouco depois, chegaria bem perto da morte, ao escapar de um atentando durante um congresso do seu partido.

Mas ela conseguiu. As ações saneadoras do Estado, a austeridade com os gastos públicos, defendidas tão veemente por Hayek, ficavam cada dia mais associadas à direita reacionária e fascista que voltava a rondar a Europa.

Apesar do acirramento ideológico e dos excessos cometidos pelo governo Thatcher, os ajustes ortodoxos continuaram dando resultados. Finalmente em 1983 a Inglaterra batia o recorde de crescimento do PIB da década de 70 (3,6%), crescimento este que continuaria a ser acelerado nos anos seguintes até chegar ao recorde de 5% em 1988. Muito pouco para os padrões dos países emergentes, mas muito expressivos para a combalida Europa da década de 80.

A expansão do “neoliberalismo” no mundo

As aspas no termo neoliberalismo não é uma ironia. O fato é que o neoliberalismo como escola econômica simplesmente não existe. Não exitem economistas que representem o “neoliberalismo”, como o Miltro Friedman para o Monetarismo, como Keynes para Keynesianismo ou Mises para a Escola Austríaca. O é mais um rótulo pejorativo usado pelos esquerdistas para criticar políticas com um viés mais liberal, ainda que conservando muito do intervencionismo keynesiano.

Enfim, a recuperação do Reino Unido na era Thatcher fez com que algumas de suas políticas passassem a ser imitadas em vários outros países. Em 1980 ganhou um reforço político com a ascenção do republicano Ronald Reegan a Casa Branca, criando uma parceria que ajudou a derrubar o muro de Berlim. Mas, diferente de Thatcher que centrou seus esforços na liberalização da economia britânica, a prioridade de Reegan foi derrotar o império soviético, de modo que, nos EUA, o “neoliberalismo” ficou restrito a eliminação do imposto progressivo para os mais ricos.

Para os esquerdistas, esta medida era a cristalização do projeto “neoliberal” de aprofundar as desigualdades sociais. Para os “neoliberais”, uma forma de estimular os grandes empresários a continuarem crescendo, pois, segundo estes, a taxação progressiva chegava a um ponto em que tornava o crescimento um problema, o que provocava a migração do capital para outros países. Ou seja, os países ricos começavam a sentir os efeitos negativos da globalização.

Nos demais países europeus o “neoliberalismo” foi implantando de uma forma mais cautelosa, com um esforço maior na disciplina com os gastos e com reformas fiscais, procurando evitar o confronto com os sindicatos que levaram a tantas paralisações no Reino Unido.

Em 1982, chegava ao poder, na Alemanha, o conservador Helmut Kohl. Em 1983, na Dinamarca, um dos melhores exemplos de estado de bem estar social europeu, chegava ao poder o direitista Schluter. Nos anos seguintes, todos os países do norte da Europa ocidental reduziram seus Estados, com exceção apenas da Áustria e da Suécia, que resistiram até o início dos anos 90.

Enquanto isso, nos países mais ao sul da Europa ocidental, formava-se um bloco de resistência ao “neoliberalismo” entre os governos autodenominados socialistas de François Miterrand (França), Gonzáles (Espanha), Soares (Portugal), Panpadreou (Grécia) e Craxi (Itália).

Aos poucos, tais países começaram a sentir o peso da inércia do aumento dos gastos sociais com o envelhecimento da população européia, de modo que no final da década de 80 a França e a Espanha ostentavam os maiores índices de desemprego da Europa, sendo que nesta última chegou a inédita marca de 20% da população economicamente ativa.

E como sempre acontece, a diferença entre o discurso ideológico e a prática prevaleceu. E assim como Lula aderiu a política econômica de FHC, os governos ditos socialistas dos anos 80 iniciaram uma adesão gradativa ao “receituário neoliberal”.

Nas décadas seguintes, o neoliberalismo continuou ganhando novos adeptos em todo mundo, inclusive entre os ex-comunistas.

A queda de Margareth Thatcher

Ironicamente, quando os últimos governos “socialistas” aderiam ao thatcherismo, a dama de ferro entrava em decadência na Inglaterra, perdendo apoio até do seu próprio partido.

Entre as críticas mais freqüentes ao governo de Thatcher, o aumento do desemprego, que duplicou desde 1979 e uma queda expressiva do peso da indústria na economia britânica, uma tendência das economias atuais. Os efeitos colaterais não foram por acaso. As empresas britânicas, principalmente as estatais, abrigavam um excesso de mão de obra. O aumento do desemprego, portanto, é consequência da eliminação de postos de trabalho obsoletos. Estes, por sua vez, levaram a um aumento dos gastos públicos com o seguro desemprego que, por sua vez, levou ao governo ao dilema de cortar mais gastos ou aumentar impostos.

E foi neste contexto que Thatcher cometeu seu maior erro: a tentativa de instituir um novo imposto (poll tax), o que lhe custou a perda de apoio do próprio partido. O aumento de impostos contradizia o próprio programa de governo inicial da primeira-ministra e dava o discurso dos sonhos à oposição: o neoliberalismo diminuía os impostos dos mais ricos e aumentava dos pobres.

E como explicar tal contradição?

Apesar do corte de mais da metade de investimentos em habitação, e 5% em transporte, os gastos do governo britânico continuaram aumentando. Duplicaram os gastos para “manter a lei e ordem” nas milhares de greves ocorridas na década; aumentaram em 31% os gastos com saúde e 31% dos gastos com seguridade social, conseqüência não apenas da inversão da pirâmide social (aumento da população inativa em relação a população economicamente ativa), como também pelo aumento expressivo dos custos do seguro-desemprego.

Com a desaceleração do crescimento da economia global a partir de 1989, a dama de ferro viu o seu maior mérito (o crescimento do PIB) despencar, assim como a pressão inflacionária aumentar.

De volta ao Congresso, Thatcher viu não apenas o seu sucessor, o também conservador John Major, continuar sua política econômica, como também o seu opositor Tony Blair.

Diante de tantas transformações, a questão que fica é: por que todos aderiram à política impopular de Margareth Thatcher?

No próximo sábado, vamos falar sobre o colapso do comunismo e sobre o Consenso de Washington. Até lá!

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13 Responses to Esquerda x Direita (parte 8)

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  2. Gilx says:

    Diferentemente do que muitos esquerdistas apregoam, a política econômica de Thatcher não foi derrotada (mesmo o opositor Blair ter dado continuidade), mas sim o partido conservador, conforme explica Roberto Campos nesta entrevista ao programa Roda Viva, em 1997:

    “Quem foi derrotado na Inglaterra não foi a política liberal de madame Thatcher, pois o senhor Tony Blair proclamou que aceitava os fundamentos da doutrina, não pretendia alterá-los. Foi derrotado o Partido Conservador, que envelheceu no poder e se corrompeu no poder, e ultimamente vivia dilacerado por brigas internas, sem saber se aderia ou não à moeda única europeia. Havia uma fadiga sistêmica, mas o ideário liberal é reconhecido pelos trabalhistas como válido. Porque os trabalhistas assumem o poder hoje com um novo trabalhismo. Eles não mencionam o trabalhismo, é um novo trabalhismo. Nesse novo trabalhismo eles não pensam mais em aumentar impostos, acham que essa velha teoria trabalhista de que se pode enriquecer os pobres empobrecendo os ricos, não mais funciona. Eles não pretendem restaurar os privilégios abusivos dos sindicatos, não pretendem desfazer as privatizações. Eles adotam, em relação à Europa, uma atitude mais compreensiva”.

    http://www.youtube.com/watch?v=2PJXoNI1Lng&feature=related

    • Amilton Aquino says:

      Ótima contribuição, Gilx. A esquerda européia é infinitamente menos panfletária e maniqueísta que as esquerdas latino-americanas. Lá eles não tiveram problemas em admitir seus equívocos do passado. É esta sinceridade que sinto falta aqui.

  3. Maiara Silva says:

    Amilton, de fato parece que os governos sociais democratas da europa tiveram que se adequar a uma nova realidade, mais hostil. No entanto, os resultados práticos do neoliberalismo não parecem também tão bons quanto pregavam na teoria. Apesar de vc dizer que os países nordicos aderiram ao neoliberalismo, na prática, tais países continuam sendo os melhores exemplos atuais a serem seguidos, ao passo que não encontramos um único país que tenha aderido ao neoliberalismo que possa ser tomado como exemplo. Todos tiveram aumento de concentração de renda e aumento do desemprego. Obrigado pela atenção.

    • Amilton Aquino says:

      Maiara,
      Embora os esquerdistas tenham criado uma imagem pejorativa do liberalismo, na prática o que houve até aqui foram tentativas de corrigir problemas criados por décadas de keynesianismo. Mesmo nos melhores exemplos de “neoliberalismo” como a Inglaterra, muitas ações foram de encontro ao que pregava Hayek, como o aumento de impostos, por exemplo. E por que Thatcher teve que aumentar os impostos? Porque os gastos sociais continuaram aumentando, ao passo que a Europa foi perdendo competitividade e que novos emergentes, como os tigres asiáticos, por exemplo, aumentavam suas participações no comércio global. Aliás, não só a Europa. Observe que a partir da década de 90 foram se tornando cada vez mais comuns produtos “made in Twaian”, “made in Cingapura”, “made in Korea”, etc, etc. No início eram apenas novas marcas, depois marcas norte-americanas e européias começaram a aparecer também fabricadas com a mão-de-obra barata dos asiáticos. Daí o porquê da perda da participação da indústria no PIB dos países europeus e nos EUA. O mundo mudou. As distâncias foram encolhendo, os países do primeiro mundo, ao contrário do que pregam os esquerdistas, tornaram-se vítimas da globalização, ao mesmo tempo em que mais e mais emergentes foram entrando em cena. Estes sim, têm lucrado com a globalização.

      Quanto aos países nórdicos, realmente estes ainda são ótimos exemplos. Porém muito difíceis de serem seguidos, pois estes enriqueceram numa época bem diferente, quando a globalização ainda dava os primeiros passos. Além do mais, estes países têm sociedades altamente civilizadas e éticas, o que reduz substancialmente o problema da corrupção e da baixa produtividade, características estas que se tornaram uma espécie de “marca registrada” do funcionalismo público. Dá uma olhada neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=UNlCWSWcmA4 e veja como vive um político na Suécia. Agora me diz se isto é possível aqui no Brasil.

  4. aliancaliberal says:

    Metade do conteudo do site esta nos comentários.
    ………….
    A solução para o mundo em termos de sociedade é diminuir a distancia entre o poder e o cidadão, com países pequenos ou paises grandes com grande independencia dos estados federados, o inverso que temos hoje no Brasil.
    ………….
    Falando em Brasil lembra Lula.

    Lula em entrevista no SBT falando sobre juros, exportação e cambio, plano real.
    Aos 6:12 da entrevista Lula diz:
    Nós precisamos garantir que esta coisa de certo, então o plano real pra mim é um plano que esta montado em cima de uma base falsa, e como se vc fizesse um prédio, e vc sabe que para vc fazer um prédio, tem que fazer as colunas, e as colunas tem que ter uma sapata grande de cimento pra poder segurar, senão qualquer coisinha a casa arreia trinca e faz um monte de coisas.
    E o plano real, esta montado numa base falsa que é a política cambial, a nossa moeda esta sobre desvalorizada, com relação ao dólar, e, portanto esta facilitando as importações e dificultando as exportações então esta quebrando a indústria brasileira daí pq vc esta vendo as denuncias de desemprego todo o dia na imprensa.
    Segundo ele esta montado numa política de juros que e a maior do mundo, os juros de um mês no Brasil é maior que os juros de um ano nos estados unidos no Japão e assim por diante e os juros altas faz o que?Faz com que a moeda brasileira fique caro as empresas não possam tomar emprestado o agricultor não possa pegar emprestado e, portanto gera mais desemprego.
    >E também a ausência de política tributaria no Brasil, nos precisamos de uma política tributaria fiscal séria.
    Então estas três coisas na minha opinião, são a base de sustentação que precisa ser corrigida para que a gente possa ter consolidado o plano real, e a gente ter consolidado uma política definitiva de combate a inflação no Brasil.
    ………….
    http://www.youtube.com/watch?v=AfYlTtH8t3Q&feature=player_embedded
    …………..

    Eu esqueci de avisar a entrevista e de 1996.

    • Amilton Aquino says:

      Aliança,
      Vi o vídeo completo. É incrível como tudo se inverte. Que ironia! Lula criticando o câmbio sobrevalorizado da era FHC (realidade atual), criticando “os juros mais altos do mundo” (continuamos com o título) e criticando a política tributária (a mesma de hoje). Ou seja, continua o mesmo falastrão. Não fez nem reforma tributária, nem trabalhista, nem agrária, nem política, nem previdenciária. Nem mesmo a parte mais fácil que seria terminar de desindexar a economia ele foi capaz. Incrível como a oposição não foi capaz de mostrar estas contradições a população. Como o povo tem memória curta, o falastrão continuou com suas bravatas.

  5. Maiara Silva says:

    Amilton,

    Concordo que houve uma guinada para a direita nestas duas últimas décadas. No entanto, me parece claro que desde a crise de 2008 há um movimento contrário. Além do mais, existem vários países asiáticos que nunca aderiram ao neoliberalismo e se deram muito bem. Ainda é cedo para conclusões, mas o balanço do neoliberalismo não me parece que foi bem sucedido.

    • Amilton Aquino says:

      Maiara,
      A crise de 2008 ressuscitou temporariamente o keynesianismo. Digo temporariamente porque os países do primeiro mundo, que se endividaram até o pescoço para evitar o aprofundamento da recessão, já começam a se questionar se valeu a pena tal esforço. O que a história tem nos mostrado é que o keynesianismo tem sido um anestésico que tem escondido as reais causas dos problemas e ajudado os governos a empurrar os problemas para os sucessores.

      Sobre os asiáticos, estes países não podem ser tomados como exemplo, pois a competitividade de suas economias tem mais a ver com as características culturais dos asiáticos, muito disciplinados e bem preparados, combinado com o baixo custo da mão-de-obra. Este quadro, portanto, não é sustentável. A longo prazo, a medida em que as suas rendas per captas forem aumentando, tais países, que baseiam suas economia na exportação de produtos industrializados, vão perdendo também competitividade. Aliás, isto já tem acontecido com o Japão que, desde o início dos anos 90, tem estado mais próximo da estagnação do que do crescimento.

      Sobre o balanço sobre o neoliberalismo, primeiro é preciso deixar bem claro que nem todos os países que hoje são acusados pelas esquerdas de serem “neoliberais” fizeram realmente o dever de casa, principalmente no quesito equilíbrio fiscal (gastos compatíveis com as receitas). Em meio ao desastre das economias dos pós-comunistas, por exemplo, quando algumas das quais chegaram a encolher 40%, temos casos como o da Polônia que está definitivamente entrando para o clube dos ricos. A Nova Zelândia, na Oceania, também pode ser citada como um bom exemplo, pois o pequeno país liberalizou sua economia e hoje se tornou um importante player no cenário globalizado, sem contar com mão-de-obra barata.

  6. George Antunes says:

    muito boa a descrição, principalmente no trecho que associa o neoliberalismo ao facismo. só faltou dizer que o tão festejado governo thatcher terminou em estagnação.

    • Amilton Aquino says:

      George,
      Primeiro é preciso deixar bem claro que a associação ao fascismo a que vc se refere é uma “construção” da visão de esquerda, e não uma característica do liberalismo em si. O fato dos neo-fascistas se identificarem mais com o liberalismo em relação ao outro extremo (comunista) não torna as idéias liberais fascistas.

      Sobre a estagnação dos dois últimos anos do governo Thatcher fiz apenas uma pequena referência, pois pretendo falar sobre esta época mais especificamente adiante, pois a queda tem a ver com a recessão global que deram os primeiros sinais em 1989 com o colapso do comunismo e cristalizada no ano seguinte com a crise do Golfo, quando o Iraque invadiu o Kuwait no ano seguinte.

  7. Alan Patrick says:

    O neoliberalismo teve seu auge e hegemonia na década de 1990. A supremacia das idéias neoliberais na época chegou a levar o filósofo Francis Fukuyama a afirmar que tinhamos chegado ao “fim da história”, e que a vitória do capitalismo liberal sobre o sistema socialista e fascista, significava que a humanidade teria alcançado o melhor sistema de organização possivel(agora a humanidade só deveria aperfeiçoar o capitalismo).
    O modelo neoliberal depois do seu auge da década de 90, vive atualmente seu momento de crise,sendo que a crise do sistema financeiro de 2008/2009 foi desencadeada pela ideologia neoliberal,que foi a responsável pela crescente desregulamentação que o mercado financeiro sofreu a partir das décadas de 80 e 90. Como o neoliberalismo não foi capaz de resolver a própria crise que desencadeou(assim como em 1929),o keynesianismo mais uma vez foi utilizado como remendo.
    Do ponto de vista social o neoliberalismo também foi um desastre,já que onde essa ideologia foi aplicada,acabou havendo aumento do desemprego,da concentração de renda,desmonte do Estado,perda de direitos sociais e criminalização dos movimentos sociais.
    Aliás, o ataque do neoliberalismo contra os direitos sociais dos trabalhadores e aos investimentos do Estado em politicas sociais, já são suficientes para demonstrar a natureza elitista e antidemocrática do neoliberalismo.

    • Amilton Aquino says:

      Alan,
      A idéia geral de Fukuyama está correta, afinal só nos sobrou o capitalismo para aperfeiçoar. Não existe mais comunismo como opção. Claro que isto não significa “o fim da história” e sim o fim de uma era. Fukuyama exagerou no sensacionalismo, mas não na idéia geral.

      Sobre o suposto “auge do neoliberalismo na década de 90”, devo lhe lembrar que esta foi a década de reformas principalmente nos países latinos e do leste europeu. Assim como no Brasil, tais países sofreram os impactos iniciais das reformas, mas hoje colhem os frutos, pois tanto a América Latina quanto os países do leste europeu hoje crescem acima da média mundial. Se vc analisar cada um dos casos, vai ver que os mais bem sucedidos são justamente aqueles que conseguiram equilibrar as despesas às receitas, ou seja, o primeiro item do CW.

      A crise nos países europeus de hoje é conseqüência da combinação de três fatores:

      1) A perda de competitividade da economia européia com o surgimento dos novos players no mercado global, com mão de obra mais barata e mercados internos emergentes;

      2) A insuficiência das medidas “neoliberais” em desarmar as bombas de efeito retardado que 30 anos de social-democracia (e keynesianismo) deixaram. Mesmo com as “flexibilizações” das leis trabalhistas e com as tímidas reformas previdenciárias, os custos sociais da Europa (cerca de 48% do PIB) continuam altos para os padrões globais, o que significa mais déficits, mais dívidas e perda de competitividade;

      3) A crise financeira norte-americana que atingiu principalmente os países cujas economias tinham mais relações com os EUA e que têm um peso maior do setor financeiro em relação ao PIB, como por exemplo a Islândia.

      Concordo com vc sobre a desregulamentação dos mercados como um dos componentes da crise de 2008, mas não o único nem o principal. Como já disse aqui, esta crise era prevista há muito tempo pelos liberais, tanto que muitos investidores começaram a migrar para os países emergentes já a partir de 2005.

      A causa principal da crise, portanto, é o artificialismo da economia norte-americana iniciada a partir do momento em que o dólar se tornou o a moeda do mundo e os EUA passaram a fabricar moeda sem lastro. Os EUA se acostumaram ao dinheiro fácil e a empurrar com a barriga os sucessivos e crescentes déficits comerciais ao longo das últimas três décadas. Somado a isso os gastos exorbitantes com o militarismo, temos a decadência de mais um império. Isto não tem nada a ver com o “neoliberalismo”, afinal tal “ideologia” não teve nenhum efeito prático nos EUA.

      Do ponto de vista ideológico, o “neoliberalismo” não é nem nunca foi nenhum movimento para “subjugar os emergentes”. Na sua vertente européia, o neoliberalismo tinha o intuito de reverter a tendência de perda de competitividade das economias capitalistas européias num mundo cada ano mais globalizado, assim como reverter a tendência de déficits crescentes decorrente do envelhecimento da população. Foi na vertente européia que o neoliberalismo ganhou o estigma de aumentar o desemprego e reduzir direitos sociais. Mas isto foi conseqüência de anos e anos de acúmulo de “conquistas” que foram inviabilizando os Estados europeus. Como todos sabem, os governos que implementaram tais medidas foram altamente impopulares. E como todos os políticos resistem a adotar tais medidas, só mesmo uma situação muito grave para justificá-las, o que de fato ocorreu, conforme visto no post 8. Nestes países não tem nenhum sentido a conotação pejorativa das esquerdas de que o neoliberalismo é um instrumento de dominação norte-americana, até porque o mesmo teria iniciado na Inglaterra e não nos EUA.

      Na sua vertente terceiro-mundista, cristalizada no CW, o neoliberalismo também provocou desemprego num primeiro momento, mas hoje os ditos governos de esquerda colhem os frutos da medidas implantadas nos anos 90, tanto que alguns desses governos, como o de Lula, por exemplo, até aprofundaram as tais diretrizes do CW.

      Sobre o “ataque aos direitos sociais”, a questão é que estamos em um mundo globalizado. É muito bonito aumentar salários, aposentadorias, seguros-desemprego, etc. A questão é de onde vem o dinheiro para financiá-los. O PT tem aprendido na pele a diferença que existe entre o discurso ideológico e a realidade. Lembra da reforma proposta por FHC de aumentar em cinco anos a idade mínima para a aposentadoria? Pois é, o PT da época acusou tal medida de neoliberal. Agora no poder, já estuda trocar o “fator previdenciário” (a solução de meio termo encontrada, já que a proposta inicial não foi aprovada) pela proposta inicial de FHC. Por que será então que o PT agora quer adotar mais esta medida “neoliberal”? A questão é simples, amigo: a conta da previdência não fecha e vai ficar muito pior amanhã, se algo não for feito agora. Isto é uma demanda real, que independe de ideologia.
      Abraço.