Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 6)

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O início da decadência norte-americana

Desde o fim da II Guerra Mundial, quando ficou estabelecida a conversibilidade 35 dólares por uma onça de ouro (cada onça equivale a 28,349 gramas), os EUA tornaram-se os credores do mundo. No entanto, o ápice dos EUA paradoxalmente marca também o início do seu declínio. O aumento constante dos gastos do estado, especialmente com armamentos, com o financiamento de guerras em diversos continentes e, posteriormente, com a corrida espacial, começou a minar a saúde da economia norte-americana.

Aos poucos, os EUA começaram a financiar os seus crescentes déficits fabricando moeda sem lastro. Enquanto isso, a economia e a sociedade norte-americana foram se acostumando ao dinheiro fácil, tanto que, já na década de 60, passaram a consumir mais do que produzir de fato. Os EUA, que ficaram ricos exportando, aos poucos, foram transformando-se em meros importadores, o grande shopping center do mundo, para onde todos os países queriam exportar. A nova situação acelerou ainda mais o ritmo do crescente déficit norte-americano, o que, por sua vez, fez com que o governo fabricasse ainda mais dólares, sem lastro em ouro.

Os bancos de vários países, mas principalmente europeus, também foram coniventes com o “vício” norte-americano de fabricar moeda do nada, pois começaram a aceitar depósitos em dólares como se fossem ouro. E como parte do dinheiro sem lastro ficava retido nos bancos, o impacto inflacionário decorrente da falsificação era atenuado.

Foi esse acúmulo de dólares nos bancos europeus que criou as facilidades de crédito para os países emergentes no final dos anos 60. E aí começou a festa dos governos “desenvolvimentistas”, que intensificaram ainda mais as medidas keynesianas através dos mega-projetos estatais.

Mas como (quase) sempre acontece, um dia a mentira é descoberta. Tardou, mas no final dos anos 60 os franceses, desconfiados da farsa norte-americana, começaram a exigir o cumprimento do acordo da conversibilidade ouro-dólar.

Os EUA resistiram em mostrar o lastro de sua moeda, mas finalmente, em 1971, o desastrado presidente Nixon chutou o pau da barraca e recusou-se a pagar 280 milhões de onças de ouro. Em outras palavras, os EUA decretaram moratória. Não eram mais capazes de converter em ouro todos dólares espalhados pelos bancos do mundo todo.

E, surprendemente, ficou por isso mesmo. Os EUA continuaram exportando sua inflação para o mundo, situação que viria piorar ainda mais com uma nova crise, dois anos depois, agora com o “ouro negro”, o petróleo.

A era da “estagflação”

Embora o ano de 1973 tenha entrado para a história como o ano da primeira grande Crise do Petróleo, na verdade já tinha ocorrido um grande choque anterior, em 1956, quando o Egito nacionalizou o Canal de Suez, uma estreita passagem marítima entre a África e a Ásia que permite que embarcações naveguem do Mediterrâneo ao Pacífico sem terem que contornar a África. Com o fechamento temporário do canal, os preços tiveram um súbito aumento, mas logo voltaram aos patamares anteriores.

Com os preços achatados pelo cartel formado pelas sete maiores companhias petroleiras ocidentais (conhecidas até então como “as sete irmãs”), os países produtores de petróleo reagiram criando como contraponto a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1960.

Sete anos depois, com a guerra dos Seis Dias (entre Israel e vários países árabes), o preço do petróleo teve um novo repique, mas nada comparável aos 300% de aumento que viria a ocorrer em 1973, quando um novo conflito entre israelenses e árabes levou a OPEP a boicotar a produção de petróleo, como protesto ao apoio norte-americano a Israel.

Embora os historiadores não relacionem a crise de 1973 ao fim do padrão ouro-dólar, dois anos antes, me parece óbvio que o fato contribuiu muito para a crise, pois, na prática, os produtores de petróleo estavam trocando sua riqueza (esgotável) por moeda sem lastro. Isso não poderia durar eternamente.

Depois de estourada a crise de 1973, o novo cenário levou os norte-americanos a um acordo com os produtores de petróleo para cotar o produto exclusivamente em dólares. Em troca, os EUA dariam apoio militar a vários ditadores árabes contra qualquer ameaça de invasão ou golpes internos. Lembram do Mubarak, Ben Ali e outros ditadores árabes que hoje estão sendo destituídos pela população? Está aí a explicação da suas longas permanências no poder.

O dólar ganhava então um novo “lastro”: o ouro negro. Começava a era dos “petrodólares”, como ficaram conhecidos os bilhões e bilhões arrecadados com o aumento do preço do petróleo e investidos em diversos bancos europeus e norte-americanos.

E aí aconteceu uma nova onda de keynesianismo, pois os países em crise (principalmente do 3º mundo) a abundância de petrodólares era um convite irrecusável para dar mais uma “injeção de ânimo” nas economias combalidas com o inusitado misto de inflação e estagnação. Digo “inusitado”, porque até então, na história do capitalismo, não se conhecida este fenômeno contraditório: inflação (que significa excesso de demanda) com estagnação (queda na demanda). Começava a era da “estagflação”.

Apesar do aumento expressivo da inflação gerada em todo mundo, já que o preço do petróleo tem influência direta na cadeia produtiva (assim como o dólar sem lastro), a situação viria a piorar ainda mais em 1979, ano da revolução iraniana que colocou no poder o xiita aiatolá Khomeini. O barril, que custava US$ 3,29 antes da crise de 1973, chegou a incríveis US$ 35,69, em 1980.

As pressões inflacionárias decorrentes da combinação do excesso de dólares (sem lastro) no mercado com o preço do barril elevado as alturas, provocou também uma escalada dos juros nos países centrais.

E aí não teve jeito. Mesmo com o novo fôlego que o dólar ganhou com a vinculação ao petróleo, os EUA tiveram que elevar seus juros para 21% em 1979! O aumento deu mais fôlego ao “sistema” norte-americano, mas tornou a situação insustentável nos os países subdesenvolvidos, agora totalmente endividados com os empréstimos contraídos nos anos de ouro do keyensianismo. O lado bom da história é que o novo cenário decretou o fim de todos os regimes ditatoriais da região.

E quando o preço do barril finalmente parecia que iria se normalizar, estoura, em 1980, a guerra entre o Irã e o Iraque, do ditador Sandan Hussein, na época apoiado pelos EUA que, por sua vez, cumpriam o acordo de “proteger seus aliados de ameaças externas”.

A situação foi ficando cada dia mais insustentável, até que em 1982 o México decreta a moratória de sua dívida externa. Preocupados com um efeito em cascata, os credores internacionais deixam de financiar novos empréstimos para rolagem das dívidas dos subdesenvolvidos. Neste mesmo ano, o Brasil e vários ouros países, tiveram que recorrer aos empréstimos do FMI.

Neste cenário de “salve-se quem puder”, um país da América Latina, o Chile, começa a chamar a atenção de alguns ingleses (entre eles Margareth Thatcher) por alguns experimentos de alguns ex-estudantes da Universidade de Chicago, que testavam algumas fórmulas de Milton Friedman, o guru de uma das vertentes atuais do neoliberalismo: o monetarismo.

Mas este já é assunto para o nosso próximo post. Até o sábado!

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10 Responses to Esquerda x Direita (parte 6)

  1. aliancaliberal says:

    Em 1994 a onça de ouro estava custando 400 dolares em 2010 1400 dolares. Creio eu que se converter os valores das mercadorias em ouro durante os anos, vamos achar valores proximos. Pq não existe “inflação” em ouro, pq não tem como o governo criar ouro na casa da moeda.

    Vc pode pensar mas tem a mineração que adiciona ouro “novo” mas em contra partida o ouro tem uso na fabricação de joias e de componentes eletronicos o que retira ouro do mercado.

    INFLAÇÃO (tanto falada e pouco entendida)

    Suponhamos que o governo diga que os salários dos funcionários públicos estão muito baixos, e que, por isso, eles devem ganhar um aumento. Como o governo por si só não produz nada, o único método bem sucedido de implementar esse aumento salarial é tributando as pessoas e utilizando as receitas coletadas pelos impostos para aumentar os salários de certos empregados do governo. Não há qualquer outra possibilidade de o governo melhorar as condições dos funcionários públicos que não seja por meio da extração de dinheiro do resto da população, medida essa que irá prejudicar o padrão desta população.

    Se o governo tributa, confiscando dinheiro dos pagadores de impostos, então estes serão forçados a restringir seus gastos. Porém, não há qualquer motivo para que haja, nesse cenário, uma mudança geral nos preços. Aquelas pessoas para quem o governo concede aumentos salariais estarão agora na posição de poder comprar aquilo que as outras pessoas costumavam comprar, mas que não podem mais comprar porque tiveram de pagar impostos. As mudanças resultariam do fato de que algumas coisas que o Senhor A, pagador de impostos, costumava comprar agora não mais são por ele compradas, mas sim pelo Senhor B, funcionário público. Esse novo arranjo tenderia a aumentar os preços de algumas coisas que o Senhor B compra e a reduzir os preços daquelas coisas que o Senhor A não mais pode comprar. Porém, não ocorre nenhuma alteração revolucionária no nível geral de preços. Isso é o que ocorre continuamente em um país em que o governo tem um orçamento equilibrado e não recorre à inflação.

    Porém, como imaginado, há um outro método. E o governo utiliza esse método: ele imprime o dinheiro adicional. E se o governo imprime esse dinheiro, qual o efeito de tal medida? O efeito é que aqueles para quem o governo dá esse dinheiro adicional – nesse exemplo, os funcionários do governo – estarão agora na posição privilegiada de poder comprar mais bens a preços ainda inalterados. Nada mudou no mundo; tudo ainda está como ontem; não há mais bens disponíveis; mas há mais dinheiro hoje, pois o governo imprimiu mais dinheiro e o entregou para certos empregados do governo – pode até ter sido com a melhor das intenções; não discutimos os itens no orçamento do governo, mas apenas a quantia total. E agora o governo entrega esse dinheiro recém-criado para algumas pessoas, e essas pessoas aparecem nos mercados com uma demanda adicional, com uma demanda que não existia ontem. Lord Keynes era um grande entusiasta desse tipo de demanda; ele a considerava algo maravilhoso. Ele dizia que essa demanda crescente produzia uma “demanda efetiva”. Claro, essa é uma descrição correta. Mas a questão é que os preços estão subindo. O que isso significa?

    Como exemplo, vamos pensar em batatas. Não houve um aumento do número de batatas no mercado, mas agora há mais dinheiro nas mãos de pessoas que querem comer batatas. Ao passo que ontem era suficiente para um homem gastar $1 para comprar as batatas de que precisava, hoje ele precisa de mais dinheiro. Ele precisa hoje de, digamos, $2, unicamente porque há mais dinheiro, e não porque outras coisas mudaram. Se ele oferecer apenas $1 pelas batatas, o indivíduo que ganhou o dinheiro adicional do governo irá dizer “Ha, ha! Vou pagar $1,10, levarei todas as batatas e você vai voltar pra casa de mãos abanando”. E isso é vivenciado diariamente em qualquer economia em que esteja havendo expansão monetária, a intensidade da inflação de preços variando de acordo com a intensidade da inflação monetária.
    fonte http://migre.me/4grlN
    ……………
    E adicionando ao texto, a inflação não afeta igualmente as pessoas, a moeda não tem um comportamento neutro, alguns ganharão outros perderão com a inflação , haverá uma transferencia de renda do mais pobre para o mais rico e para os setores que tem proximidade com o governo (empreiteiras, bancos , funcionários publicos).

    • Amilton Aquino says:

      Grande Liberal! Muito bom este texto. Para ficar ainda mais completo, só faltou abordar um pouco a questão da indexação, que passa a retroalimentar a inflação, através de mecanismos de reposição e pela própria expectativa criada, o que leva alguns setores da economia a antecipar aumentos. Por outro lado, os consumidores passam comprar antecipadamente e em grande quantidade para se proteger da inflação futura. O aumento da demanda pela antecipação de compra, por sua vez, acelera ainda mais o processo inflacionário, fechando o ciclo pernicioso da ciranda inflacionária que pode conduzir a hiperinflação. Já vi este filme antes. Para quem não conheceu um inferno da inflação dos anos 80 e 90 não tem noção do tamanho do problema.

  2. Gilx says:

    Você adiou de novo? É incrível como você gosta de nos enrolar (rsrs).
    Brincadeirinha! Estou adorando esta série. Espero que você adie seu final o quanto puder.
    Conhecimento nunca é demais.

    • Amilton Aquino says:

      Ehehehehhehe! Garanto que não adio mais. Na próxima semana o assunto vai ser finalmente o tão falado “neoliberalismo”! Abraço!

  3. Alícia Barros says:

    Amilton, sou estudante de história e constesto esta tese da recessão dos anos 70, afinal a taxa de crescimento mundial na época, apesar das crises de 73 e 79 ficou acima das médias das décadas de 80 e 90. Houve de fato um queda brusca nestes anos, mas a recuperação foi rápida, e o mundo continou a crescer num ritmo apenas um pouco inferior a década de 60. Portanto, não houve outro motivo para o surgimento do neoliberalismo, a não ser pela ação premeditada do FMI. Acho que vc deveria rever sua tese!

    • Amilton Aquino says:

      Alícia, nem sempre os dados refletem a realidade. Em economia existe a curva de tendência que transcende os números finais do PIB. De fato, o crescimento do PIB mundial nos anos de 75 a 79 dão a falsa impressão de que a crise já havia sido superada, até porque elas estavam infladas com medidas keynesianas e com um crescente processo inflacionário e de endividamento. É esta tendência a que me refiro que levou a década de 80 ser conhecida como a “década perdida”.

      Sobre a “ação premeditada do FMI”, prefiro deixar para falar mais adiante, pois teria que antecipar algumas informações dos próximos posts. Espero que continue por aqui para enriquecer o debate. Abraço!

  4. Mariana Costa says:

    muito bons os textos, amilton. para ficar ainda melhor, acho que vc deveria citar as fontes. acho que daria mais credibilidade ao seu trabalho.

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado, Mariana. Quanto às fontes, a dificuldade é tempo. De qualquer forma, se vc estranhar qualquer informação postada aqui, é só pesquisar no nosso amigo Google. Abraço.

  5. aliancaliberal says:

    O PIB não é bom indicativo de saude economica e mal usado e interpretado ( má fé mesmo).

    Sobre as falacias sobre o PIB tem um artigo muito bom em http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=297

    Prévia:

    Pra começar, um dos grandes problemas do PIB é que ele não faz qualquer esforço para distinguir as transações econômicas que beneficiam a saúde da economia do país daquelas que apenas a enfraquecem. Atividades destruidoras de riqueza são incluídas em pé de igualdade com atividades produtoras de riqueza. A intenção inicial do PIB — criado nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial unicamente para mensurar a capacidade de produção da economia americana naquele período belicoso — nunca foi a de mensurar o bem-estar econômico de um país. Porém, como ele inadvertidamente passou a ser utilizado para esse fim, todas as transações monetárias por ele calculadas passaram a ser vistas como sendo um progresso e uma contribuição para a saúde econômica do país.

    Assim, quando há um tornado em Santa Catarina ou uma enchente avassaladora em São Paulo, os esforços de reconstrução fazem o PIB aumentar, não obstante toda a destruição e todas as perdas trágicas enfrentadas pela população. Outras despesas negativas, como gastos para se proteger contra a criminalidade, gastos com médicos, gastos com divórcios, gastos com a defesa nacional, gastos para se reparar depredações etc., tudo isso conta como geração de riqueza e bem-estar econômico.

    Da mesma forma, quando alguma indústria, para produzir algum bem, consome recursos naturais até seu completo esgotamento, isso também gera um aumento no PIB. A distribuição de renda também é completamente ignorada pelo PIB. Se toda a renda nacional estivesse nas mãos de apenas uma família, e todo o resto da população estivesse à míngua, a renda dessa família, ao ser gasta, iria dar uma bela aditivada no PIB. Quando a Petrobras faz lambança e deixa vazar petróleo no mar, o dinheiro gasto para limpar o oceano aumenta o PIB. Se algum lixo tóxico é derramado num rio, o dinheiro gasto para descontaminar o rio estimula o PIB. Mais absurdo ainda: o dinheiro que foi gasto para criar esse lixo tóxico também gera acréscimos ao PIB. Quando os estrangeiros aplicam em títulos públicos e esse dinheiro é gasto aqui, o PIB sobe — sem qualquer consideraçãopara com o ônus da quitação dessa dívida, que será transmitido às gerações futuras.

    • Amilton Aquino says:

      Mais uma ótima contribuição, Liberal. Estou saindo agora para passar três dias fora do ar, mas assim que arranjar um tempinho vou ler o artigo que vc indicou. Os artigos do Mises são sempre muito esclarecedores. Abraço e feliz páscoa para vc e para todos!