Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 5)

keynes2A decadência do keynesianismo

A rápida recuperação europeia do pós-guerra até hoje é vista como a prova incontestável da eficiência das medidas keynesianas no “aprimoramento” do capitalismo (ou na “salvação do capitalismo”, mérito reivindicado pelo próprio Keynes).

De fato, os bilhões de dólares do Plano Marshal investidos na recuperação européia e japonesa foram importantes, mas não foram a verdadeira causa da fantástica recuperação do bloco capitalista nas décadas 50 e 60.

Claro que os milhares de empregos gerados nas obras públicas de recuperação da infra-estrutura destruída pela guerra foram decisivos para o “milagre europeu”. No entanto, a base do rápido crescimento da chamada “era de ouro” do capitalismo foi a forte demanda de consumo reprimida pela guerra.

Se considerarmos que a população europeia tinha um nível educacional muito acima da média mundial e agora contava com crédito norte-americano para dar o start inicial na recuperação da economia, foi criado então ambiente ideal para o rápido crescimento: forte demanda interna + mão-de-obra qualificada + crédito.

Aliás, algo bem parecido com o que houve na economia brasileira em 2010 (tirando a mão-de-obra qualificada, claro). A recessão que levou nosso PIB a decrescer 0,6% em 2009, além de criar um patamar mínimo de comparação (já que o PIB diminuiu) criou uma forte demanda de consumo para o ano seguinte. Como resultado, a população que estava cautelosa, esperando o desdobrar da crise, voltou às compras com força, criando o ambiente de euforia verificado em 2010.

No caso da Europa, a demanda reprimida era infinitamente superior, pois não se tratava de comprar novos bens, luxos ou supérfluos e sim comprar bens essenciais que foram totalmente destruídos na guerra. Ou seja, não seria esgotada de um ano para outro. Demoraria, pelo menos, uma década, como de fato aconteceu.

O problema do crescimento muito acelerado é que ele não é auto-sustentável a longo prazo. Aos poucos, a população foi recuperando tudo que havia perdido, de modo que a euforia inicial de crescimento foi perdendo força a cada ano, até chegar às pífias taxas de crescimento do final dos anos 70.

Os dados são ilustrativos: na década de 50 a Europa cresceu a uma média de 5,8%, portanto bem acima da média mundial que foi de 4,3. Na década de 60 ocorre a inversão, pois a média de crescimento da Europa cai para 4,5% e é ultrapassada pela média do crescimento mundial que chegou a 5,5. Ou seja, a demanda europeia já começava a dar os primeiros sinais de saturação.

O mesmo ambiente descrito para a Europa vale também para o Japão. No entanto, o país asiático registrou taxas muito superiores à Europa e ao mundo. O Japão dos anos 50 e 60 eram a China dos dias atuais, registrando uma média de crescimento de 8,2% na década de 50 e 10,9% na década de 60.

E assim como a China de hoje, que baseia sua economia na exportação de produtos industrializados, o Japão dos anos do pós-guerra foi o precursor do modelo. Aliás, o Japão foi um outro fator que influenciou na redução das taxas de crescimento europeia nos anos 60 e 70, pois o país asiático, com uma economia voltada para a exportação e uma forte vocação para poupança, começou a minar os mercados europeus (e norte-americano) por sua altíssima competitividade.

Por contraditório que possa parecer, o aumento expressivo da renda-per-capta também contribuiu para a decadência européia. Se por um lado, o aumento da renda da população significa aumento do poder de compra, por outro, diminui a competitividade da economia, uma vez que a mão-de-obra fica também mais cara. Este efeito foi sendo intensificado a cada ano, à medida em que a globalização avançava e possibilitava o surgimento de novos concorrentes, com mão-de-obra qualificada, porém bem mais baratas.

Por fim, as economias europeias foram as primeiras a sentirem os efeitos da mudança do perfil da pirâmide etária. A medida em que a melhoria do padrão de vida europeu e dos progressos da medicina aumentavam as expectativas de vida da população, por outro, os casais passaram a ter menos filhos, uma conseqüência direta do aparecimento da pílula anticoncepcional e demais métodos de contraceptivos. O resultado final da combinação destes dois fatores foi um significativo aumento da população aposentada em relação à população economicamente ativa.

Com os gastos sociais turbinados por anos e anos de “conquistas sociais”, aos poucos, as economias europeias começaram a apresentar déficits previdenciários, numa escala progressiva e contínua. Ficava claro que alguma coisa teria que ser feita para reverter tais tendências. Os keynesianos não sabiam mais o que fazer. E foi então que os liberais começaram a ressurgir das cinzas.

O prêmio Nobel de economia de 1974, dividido entre o keynesiano Gunnar Myrda, considerado o maior expoente da Social-democracia, e o liberal Friedrich Hayek, que desde os anos 30 criticava o keynesianismo, ilustra bem o momento de transição em que a economia europeia se encontrava em meados dos anos 70.

A confirmação de uma crise anunciada

Desde o surgimento do keynesianismo os liberais transformaram-se nos “cavaleiros do apocalipse”. A certeza de que o modelo europeu entraria em crise era tanta que os mais renomados liberais da época reuniam-se periodicamente na Suíça para discutir os rumos da economia mundial e testar suas hipóteses.

O mais célebre livro de Hayek, “A caminho da Servidão”, exagerou no pessimismo. Partindo da premissa de que “todas as formas de coletivismo, seja o nazismo ou o socialismo, levam inevitavelmente à tirania e à supressão das liberdades” (o que de fato ocorreu nas experiências nazista e comunista) Hayek acabou, de certa forma, generalizando suas previsões sombrias também para o keysianismo.

Um exagero, sem dúvida, pois a história mostrou que as democracias europeias não sofreram nenhum arranhão. Porém devemos considerar que as críticas de Hayek focavam no planejamento econômico estatal e não nas políticas sociais, as quais se tornaram a marca mais visível da Social-democracia. É claro que estas pesaram também na decadência das economias europeias (o que confirma também as teses liberais), mas, de um modo geral, mesmo nos países mais keynesianos (como os escandinavos, por exemplo), a liberdade econômica, as facilidades para criar empresas, as baixas taxas de importação, a desregulamentação do mercado de trabalho (características essencialmente liberais) prevaleceram, de forma que, apesar das altas cargas tributárias, tais governos concentraram os esforços nas políticas sociais, e não nos meios de produção, felizmente.

De um modo geral, portanto, as previsões dos liberais se confirmaram. E não apenas para a Europa, mas, principalmente, para os Estados Unidos, cuja economia já apresentava déficits crescentes em plena era de ouro do capitalismo. Tal quadro levou os norte-americanos abolir, em 1971, a conversibilidade entre o dólar e o ouro, fato este que teve um peso significativo para a eclosão da Crise do Petróleo, em 1973, ano que marca o início de uma nova era de crises, caracterizada principalmente pela combinação mais perversa que pode ocorrer na economia: estagnação + inflação.

Mas este já é assunto para um novo post. Até o próximo sábado.

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34 Responses to Esquerda x Direita (parte 5)

  1. Sandro says:

    Amilton,

    Estou em dúvida se processo o colégio onde fiz o 2º grau ou a faculdade de administração! Não lembro de ter visto nada disso em nenhum dos dois, a não ser pinceladas quase invisíveis! Ah, e ambas as instituições eram privadas e consideradas de altíssimo nível!

    Imagina em colégio público!!!

    Bom, valeu por mais uma aula de história!

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      É como falei em um comentário anterior, em resposta ao Allan. A maioria dos historiadores colocam a economia em segundo plano, quando é ela o verdadeiro motor da história. Daí as análises carregadas de ideologia.

  2. Gilx says:

    Amilton,
    Se o keynesianismo a médio e longo prazo se torna uma bomba relógio, imagine quando ele é associado com políticas populistas, onde o dinheiro público é torrado para mostrar números econômicos bonitinhos para turbinar os índices de popularidade de um presidente.

    Fico na dúvida se PHA, Nassif, Azenha, etc., são analfabetos em economia. Quando pregam que Lula é um “exemplo” para a américa latina e para o mundo. Mas que exemplo? Esse filme nós já vimos, tanto o populismo a lá Chávez quanto os modelos do “welfare state” de vários países europeus.
    Não, não acredito que estes “imparcias” jornalistas sejam tão ignorantes assim. Eles parecem sofrer de um mal pior: o cinismo bem remunerado ($$$$)!

    • Amilton Aquino says:

      Gilx,
      Todo mundo que já defendeu uma ideologia de forma apaixonada (como eu, por exemplo), no fundo tem dúvida sobre a própria ideologia, a qual tenta diminuir sua importância. Na guerra para desqualificar a ideologia adversária esta tendência de enfatizar algumas coisas e diminuir outras é ainda mais exacerbada. No calor da disputa política, dependendo do nível do interlocutor, acabamos nos nivelando tanto na imparcialidade quanto no nível de ironia e de linguagem.

      Estes caras têm sim consciência disso. Não acredito que são movidos apenas pelo dinheiro (embora pese bastante). Eles fazem parte do grupo de pessoas que acreditam que a política é dividida apenas entre esquerda e direita, que a esquerda é a “porta-voz de um mundo melhor” e que a direita é o “mau a ser destruído”. Eles sabem que há corrupção em ambos os lados, mas estão conformadas em votar no que acreditam ser o “menos ruim”. Quando este “menos ruim” vem acompanhando de algumas cifras, então a coisa fica ainda mais engajada, a ponto de baixarem o nível ao escárnio. O PHA, por exemplo, já não mais chama as pessoas pelo nome. Está sempre inventando apelidos que servem apenas para tornar o debate ainda mais irracional, no nível de torcida de futebol, onde a paixão toma o espaço da razão.

      Uma pena, pois o que a história nos mostra é que não existem certezas absolutas. Algumas teorias acertaram mais, outras menos, mas o mais importante é estamos do lado da ética, do aprimoramento das instituições e da democracia. A própria realidade vai se encarregando de testar as teorias. Basta abrir os olhos para entender as mensagens da história.

  3. Marcos Santos says:

    Parabéns pelo blog. Consegue falar de economia, sem ser chato. Gostaria que vc escrevesse um post específico sobre o Pré-sal, pois às vezes acho que o governo do PT agiu certo com o novo marco regulador, mas ao mesmo tempo acho muito arriscado mudar algo que estava dando certo. Abraço!

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado Marcos, volte sempre. Sobre o Pré-sal, vai demorar um pouco, mas vamos sim escrever também sobre o assunto. Abraço!

  4. Marta Lima says:

    Amilton, de fato a sua capacidade de argumentar é admirável. Tanto que, para quem não conhece, pode dar a falsa impressão de que Hayek é mais do que realmente é. Na verdade, o cara não passou de um facista que, para defender sua ideologia neoliberal, dispensava até a democracia, pois como explicou Hayek “liberdade e democracia poderiam se tornar incompatíveis se a maioria decidisse interferir no direito de propriedade”. Ou seja, o direito de propriedade (dos ricos, claro) está acima dos direitos da maioria. Pinochet que o diga. Gostaria que vc me explicasse esta contradição.

    • Amilton Aquino says:

      Marta,
      Hayek foi um dos maiores críticos das experiências socializantes que conduziram a ausência total de democracia, mais precisamente o socialismo e o nazismo. Como o direito a propriedade é um dos direitos mais elementares da democracia, Hayek entendia que a supressão deste direito, mesmo que contasse com o aval da maioria, constituía a própria supressão da democracia.

      A história nos mostrou que em vários momentos as massas foram manipuladas para legitimar regimes autoritários. Os alemães que o digam. Até hoje ninguém consegue entender como os alemães conseguiram dar suporte aos delírios de Hitler. Portanto, nem sempre “a vontade da maioria” conduz a democracia. No entanto, sempre que o direito a propriedade é suprimido, aí sim temos sérios motivos para duvidar desta suposta democracia.

      Hayek percebia também que o forte apelo populista do keynesianismo conduzia a escravidão da sociedade pela própria sociedade. As sucessivas “conquistas sociais”, como a história mostrou, conduziram os países europeus a déficits sucessivos, o que abriu caminho para o surgimento do neoliberalismo. Se melhorou ou piorou, vamos discutir nos próximos posts e vc, desde já, é convidada para dar sua opinião. Por enquanto, é preciso deixar claro que o neoliberalismo só teve espaço porque o keynesianismo confirmou as previsões dos liberais. Caso contrário, estariam hoje no mesmo ostracismo que estiveram nos anos de ouro do capitalismo. Abraço.

  5. aliancaliberal says:

    Uma expropriação à força da propriedade baseada no voto democrático é tão pacífica quanto um linchamento também baseado no voto. Trata-se de uma violação primordial dos direitos individuais.

    • Amilton Aquino says:

      Grande Liberal! Já estava sentido sua falta. Seus comentários são sempre muito elucidativos, mesmo quando discordamos.

  6. Marta Lima says:

    Não vou me estender muito, pois já percebi que aqui sou minoria. Mas volto a salientar, como o próprio Amilton admitiu, que a previsão totalmente equivocada de Hayek que a Europa social-democrata caminharia para a ditadura definitivamente não se cumpriu. Mas o neoliberalismo de Hayek e seus comparsas tiveram um terreno bastante fértil na ditadura de Pinochet.

    • Amilton Aquino says:

      Marta, o mais importante não é dar a última palavra num debate, e sim a consistência dos seus argumentos, independente do ambiente onde vc esteja. Vc fez a crítica, nos respondemos a sua crítica. Vc, no entanto, não trouxe nada de novo. Apenas salientou, de um forma deturpada, um trecho do meu post.

      Espero que vc não se ofenda, mas sua atitude repete o estereótipo dos petistas que periodicamente aparecem por aqui. Postam (geralmente de uma só vez) todo o rosário que aprendem no diretório do partido ou nos redutos de formação de rebanho da rede (PHA, Azenha, Nassif, etc.) e chegam aqui com um topete lá em cima. Depois de duas ou três réplicas, ficam repetindo os mesmos argumentos superficiais até saírem de fininho. Uma pena!

  7. aliancaliberal says:

    Duas coisas são tão faladas e tão mal entendidas como neoliberalismo e o livre mercado.

    O termo neoliberalismo é visto como representação ideológica máxima do capitalismo.O neoliberalismo, então, seria sinônimo de livre mercado: desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social, desregulamentação de mercados, proteção da propriedade capitalista, entre outras ações. E o governo cuidando das pessoas é uma forma de amenizar o mal que o sistema capitalista causa nas pessoas.
    Se aceitarmos tais termos, estamos caindo num debate claramente marxista. E aceitar o marxismo é cair numa discussão apenas ideológica.

    O neoliberalismo é apenas uma reforma do estado intervencionista.

    Quando se associa o liberalismo de alguma forma às propostas do CW ou do livre mercado, está se cometendo uma falácia, pois de nenhuma forma as ditas propostas neoliberais representam propostas de uma economia de mercado. Então, a questão é mais profunda do que a pura linguística. É questão de não cometer erros conceituais na investigação sobre o grau de intervenção e liberdade na economia. Neoliberalismo não existe. O Consenso de Washington possui propostas neo-intervencionistas. Os países que reformaram sua política econômica nos anos 1990 buscaram o neo-intervencionismo. O período pelo qual passamos na década passada e continuamos até hoje pode se chamar a Era do Novo Intervencionismo.

    ver O mito do Consenso de Washington
    http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=236

    Livre mercado falo depois pra ficar não longo

    • Amilton Aquino says:

      Olá Liberal,
      Não deu tempo de ler todo o artigo indicado, mas não chegaria a reduzir tudo a uma questão lingüística. Acho que o que chamam de neoliberalismo é uma revalorização de alguns princípios do liberalismo clássico que haviam sido esquecidos com a ascensão do keysianismo.

      Alguns países se aproximaram mais, outros menos, mas na essência temos alguns pontos bem claros que diferem bem o que se convencionou a chamar de neoliberalismo (mesmo que com uma conotação pejorativa), em contraponto ao keynesianismo.

      Discordo, no entanto, do maniqueísmo como o neoliberalismo e a globalização são tratados pelas esquerdas, como se fosse um sistema imposto pelos EUA através do falado Consenso de Washington.

      A história tem nos mostrado que nos últimos 30 anos houve (e ainda está havendo) uma ascensão dos países do antigo terceiro mundo, ao mesmo tempo em que ocorre uma relativa perda de peso político e econômico dos países centrais. Em outras palavras, os EUA hoje perdem muito mais do que ganham com este processo. Então que conspiração seria esta?

      Claro que este é um processo ainda em andamento e que ainda aprenderemos muito com a história. Mas os resultados deste processo até aqui ajudam a entender o porquê da guinada da esquerda para direita. Demora, mas, aos poucos, os mitos vão caindo.

      Amanhã vou ler o resto do longo artigo sobre o CW. Mais uma vez obrigado por mais esta ótima contribuição.

  8. Sandro says:

    Amilton,

    “redutos de formação de rebanho da rede (PHA, Azenha, Nassif, etc.)” – PERFEITA EXPRESSÃO!!!

    Estou me matando de rir aqui! euheuehuehueheuhue

    Com certeza vou usá-la por ai, mas não espere royaties, ok?! ehehehehhe

    Abs

  9. Alan Patrick says:

    De fato, no Chile o ditador Pinochet adotou medidas econômicas neoliberais,o que demonstrou que o neoliberalismo na economia foi totalmente compatível com a ditadura política.O que era estranho, já que os neoliberais diziam que a democracia só poderia haver no regime de livre mercado.

    • Amilton Aquino says:

      Olá Alan,

      Uma coisa é liberdade política, outra é liberdade econômica. Claro que a falta de liberdade política inibe investimentos, mas não os impossibilitam. O Chile de Pinochet e a China (comunista só no nome) são exemplos disso. O capital não tem nação. Ele vai para onde oferecer melhores condições para se multiplicar, mesmo sob a ameaça de um regime ditatorial, seja de esquerda ou de direita.

      Com relação a sua citação de que “os neoliberais diziam que a democracia só poderia haver no regime de livre mercado”, o Hayek foi criticado justamente por sua suposta complacência em relação a um eventual regime ditatorial, desde que as regras de livre mercado fossem preservadas. Ou seja, apesar da deturpação, ainda assim a essência do que ele queria dizer apontava na direção correta. Vale salientar que nesta época nem Pinochet tinha chegado ao poder, nem a China tinha iniciado as reformas que abriram (até certo ponto, claro) a sua economia.

  10. Alan Patrick says:

    Discordo que sejam as idéias Keynesianas as responsáveis pela crise de 2008. A causa principal dessa crise foi a falta de regulação do sistema financeiro,que passou a ser desregulamentado de forma crescente nas décadas de 80 e 90. A desregulamentação do sistema financeiro e o cerne da crise de 2008,que e uma prática neoliberal e não Keynesiana . Não parece um pouco contraditório dizer que as idéias Keynesianas foram as reponsáveis pela crise de 2008, sendo que a mesma foi adotada como medida para enfrentar essa grave crise do sistema capetalista?

    • Amilton Aquino says:

      Alan,
      Esta é uma daquelas discussões que ficam andando em círculos, pois a crise teve várias causas e os economistas, de acordo com sua orientação ideológica, vão ficar sempre enfatizando as causas que mais convém aos seus pontos de vista.

      Concordo que houve excessos do mercado, mas a essência da crise foi o artificialismo de um crescimento falso, estimulado por moeda sem lastro e por governantes mais preocupados com a reeleição do que realmente com o futuro do próprio país. Não sei se vc leu o artigo que lhe indiquei sobre o assunto, escrito por Kanitz, que aborda tanto a culpa do keynesianismo como também, em menor grau (já como conseqüência) os excessos do monetarismo, uma das vertentes do liberalismo, como um dos fatores que agravaram uma crise já vinha se desenhando há décadas. A crise de 2008, portanto, é apenas a ponta de um iceberg de uma crise maior que ainda não aconteceu. Esta última foi prevista em detalhes ainda em 2003. Veja este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=Qr7DlGRzAok

      A desregulamentação a que vc se refere, na verdade, foi conseqüência da quebra do acordo de Breton Woods, em 1971, quando os EUA decretou o fim do padrão ouro-dólar justamente porque, já nesta época, começou a apresentar déficits sucessivos, como conseqüência do keyenesianismo dos anos de ouro do capitalismo, algo também previsto pelos economistas liberais. Aliás, este é um dos assuntos que vamos tratar no próximo post.

      Sobre as medidas keynesianas adotadas para combater a crise, de fato, ajudaram a acalmar o mercado no momento de maior pânico. Porém o endividamento recorde decorrente de tais medidas, além de tornar a recuperação mais lenta, agora coloca a beira do colapso algumas nações europeias. Aliás, aqui no Brasil também estamos sentindo agora os efeitos colaterais das medidas keynesianas adotadas por Lula. Veja os dilemas que a Dilma está tendo que enfrentar.

      Não existe almoço de graça, amigo. Em economia vc pode até fabricar dinheiro do nada, mas em algum momento a fatura chega. Como já disse aqui, acho até justificáveis as medidas adotadas para salvar a GM e os bancos no momento mais crítico da crise. O problema é convencer o próximo presidente a apertar o cinto para pagar a conta do hospital. Até aqui o que temos visto é o uso de mais keynesianismo para curar efeitos colaterais e não as razões reais das crises, as mesmas que os liberais criticam há décadas, entre as quais uma das principais é o gastar mais do que se arrecada. As regras são simples. Valem para os cidadãos e valem para o Estado. A diferença é que os cidadãos não podem jogar a conta para o próximo. Os presidentes sim.

  11. Gilx says:

    Amilton,
    Concordo com o Aliança Liberal: aceitar debate com um marxista é fria, pois geralmente descamba pro campo ideológico, deixando de lado a questão econômica (vejam o exemplo dos petistas que aparecem por aqui).
    Isso me lembra o debate de Olavo de Carvalho com o professor marxista Alaô Caffé, doutor em Direito pela USP. Nesse debate, Olavo (que já foi marxista de carteirinha quando jovem) diz que estudou o marxismo por décadas e chegou à conclusão que ele não é só uma filosofia, uma ideologia, uma teoria econômica, uma estratégia revolucionária, um regime político, um sistema ético-moral, uma crítica cultural ou uma organização política da militância. O marxismo é tudo isso ao mesmo tempo: é uma cultura, no sentido antropológico do termo.

    “Aqueles que analisam o marxismo no terreno econômico – o pessoal liberal tem a mania de fazer isso, o que é até covardia, porque a crítica liberal da economia marxista é tão arrasadora que este é o campo mais fácil para discussão –, quando pensam que estão ganhando a discussão, o marxista passa para outra clave (por exemplo, a da crítica moral do capitalismo) e pronto: aquele belíssimo trabalho que o liberal fez está perdido”.

    http://www.olavodecarvalho.org/textos/debate_usp_2.htm

    • Amilton Aquino says:

      Gilx,
      A descrição do Olavo é perfeita. Mas perceba que a “cultura” marxista está perdendo sua força a cada ano que passa. Veja que hoje Keynes é quem ocupa o lugar de Marx nas discussões. O estranho é que, apesar disso, há um revival das esquerdas na América Latina, justamente no momento em que o continente vive seu melhor momento econômico em 500 anos de história, justamente por causa da tão falada globalização. Demora, mas a história vai colocando os pingos nos is.

  12. aliancaliberal says:

    Chavez e kiko demosntra como funciona o equilibrio de bertrand, ou seja, a livre concôrencia e a guerra de preços, serve para guerra cambial tb já que a moeda não deixa de ser um “produto”.

    http://www.youtube.com/watch?v=2vWjWn7gaV4

    • Amilton Aquino says:

      Eheheheheheeh! Nada como a concorrência para baixar os preços!

      Agora falando sério. Não acho que as mesmas leis de mercado sejam tão eficientes para o mercado financeiro. Neste último o “produto” é muito menos palpável e propenso a ser falsificado. As distorções que aconteceram nos últimos anos nesta área criaram algo totalmente novo, que precisa ser mais estudado.

  13. aliancaliberal says:

    “o marxista passa para outra clave (por exemplo, a da crítica moral do capitalismo) e pronto: aquele belíssimo trabalho que o liberal fez está perdido”.

    O capitalismo tem uma moralidade forte baseada na participação da sociedade nos rumos da economia, atraves da suas preferencia de consumo com base na sua cultura.

    O que falta as vezes é o povo se dar conta que o capitalista é o verdadeiro servidor “publico” ele que fica com a loja aberta até a madrugada ou acorda as 5:00 pra fazer o pão para servir a seu publico.

    A moralidade do socialismo se basea nesta frase “De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade”= cada um recebe de acordo com a sua necessidade e cada um trabalha de acordo com sua capacidade.
    Isso tem muitas implicações morais.
    ……..
    E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembléia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam.
    Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos, nos davam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir.

    Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente, e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência daqueles que eram melhores que ele. Mas enquanto ele pensava que ia ganhar aquilo que ele não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores e que iam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar seus superiores.

    O trabalhador que gostava de pensar que suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão se esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era ESSE o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso: e então, quanto mais a idéia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum.

    A revolta de atlas ayn rand
    ……………..
    Pode observar nas crianças, os desejos passaram a ser direitos.

    • Amilton Aquino says:

      Faz tempo que deixei de ser comunista. Devo admitir que fiquei triste ao acordar deste sonho, pois havia algo maior que nos unia, que transcendia as nações. Era realmente uma filosofia de vida, uma cultura que se apresentava como alternativa ao consumismo ocidental, apesar desta pulga atrás da orelha que a Ayn Rand tão bem expressou.

      Passei um bom tempo em crise existencial. As feridas foram cicatrizando a medida em que fui percebendo que outros países do terceiro mundo estavam também ficando ricos, o que sepultava de vez aquela teoria equivocada de Celso Furtado de que seríamos sempre periféricos.

      Percebi então que não seria nossa ideologia que mudaria o mundo e sim a evolução natural da história, que já podia ser percebida na trajetória do capitalismo, desde o surgimento até os dias atuais.

      Isto não significa que devemos ficar passivos, vendo as coisas acontecerem. A humanidade vai ter que aprender a se contentar em crescer a taxas menores, a racionalizar melhor os recursos naturais, diminuir o consumismo, o materialismo e se dedicar mais a indústria do entretenimento, da cultura e do turismo, pois se a demanda de consumo por produtos palpáveis tende a diminuir, a demanda por cultura é quase infinita.

      Por outro lado, acho que o capitalismo vai ter que contornar a tendência monopolista que ocorre hoje, além de normalizar o mercado financeiro, corrompido pelo governo norte-americano.

  14. Alan Patrick says:

    As crises do sistema capetalista demonstra seu caráter: privatiza os lucros e socializa os prejuízos.

    • Amilton Aquino says:

      Alan, neste ponto concordo com vc. Esta é uma característica essencialmente keynesiana que tanto agrada políticos e a população em geral, porém cria as distorções que verificamos hoje. Não deveria ser assim, mas ficou assim.

  15. Alan Patrick says:

    “A humanidade vai ter que aprender a se contentar em crescer a taxas menores,a racionalizar melhor os recursos naturais,diminuir o consumismo, o materialismo e se dedicar mais a indústria do entretenimento,da cultura e do turismo,pois se a demanda de consumo por produtos palpáveis tende a diminuir,a demanda por cultura e quase infinita.”

    Amilton, o sistema capetalista esta baseado num modelo de crescimento econômico ilimitado. A super-exploração do trabalho e da natureza são bem evidentes nesse sistema que privatiza os lucros e socializa os prejuízos. O grande desequilíbrio da natureza na atualidade e resultado da ação predatoria do capetalismo no meio-ambiente(na sua busca desenfreada por lucro). O consumismo(desenfreado) como vc citou e outro malefício desse sistema que enaltece o ter e deprecia o ser; Karl Marx tinha razão ao dizer: “O consumismo consome o consumidor.”
    E não se engane,amigo. Os avanços conquistados(direitos sociais e democracia),são resultados das lutas da classe trabalhadora,dos sindicatos e dos movimentos sociais ao longo da história,portanto não são nenhuma caridade do capetalismo(que só visa o lucro).

    Em tempo:sou estudante e estou aprendendo bastante aqui no blog,apesar de não concordar com muita coisa,mas isso faz parte da democracia,não é mesmo?
    E deixo uma citação de Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dize-las.”

    • Amilton Aquino says:

      Alan,
      Primeiro precisamos desmistificar este ente que vc agora chama de “capetalista”. Da forma como fala do capitalismo, usando termos como “super-exploração do trabalho”, mostra o quanto vc ainda está preso às superadas premissas de Marx, construídas a partir da observação dos primórdios do capitalismo.

      Pode ter certeza que se ele fosse vivo hoje suas teorias seriam bem diferentes e o capitalismo não seria visto como este ente opressor, quase diabólico que veio ao mundo para promover a exploração do homem pelo homem, como foi pintado até aqui pela ideologia marxista.

      Ao contrário do socialismo, criado para ser uma alternativa, o capitalismo não foi inventado por ninguém. Ele é resultado da evolução natural da humanidade. Portanto, qualquer conclusão sobre o capitalismo é transitória, pois este está sempre em constante mutação. Observe o capitalismo de um país como o Canadá, por exemplo, e vc vai ver que não tem nada a ver o capitalismo que Marx viu.

      Hoje vc só é explorado se vc quiser. Existem exploradores? Existem. Mas se vc quiser fazer diferente, vc pode tornar-se também um empresário e tratar melhor seus funcionários. Hoje temos vários exemplos de empresas que valorizam seus funcionários, a ponto de dar total liberdade para que estes trabalhem em casa, na hora que acharem melhor. Eu mesmo recebi uma proposta dessas recentemente. Como vc pode ver, esta é uma realidade completamente diferente do capitalismo que Marx viu.

      Portanto, se hoje não temos nenhum outro sistema viável para substituir o capitalismo, então não adianta ficarmos nos lamentando, repetindo bordões de três séculos atrás. Me parece mais racional tentar aperfeiçoá-lo, não acha?

      Também não concordo com tudo que vc diz, mas seja sempre bem vindo! Opiniões divergentes enriquecem ainda mais a discussão. Também tenho aprendido bastante aqui.

  16. Gilx says:

    Amilton,
    Vou acabar sendo taxado de “olavete”, mas sou “obrigado” a concordar com o filósofo: marxismo é uma cultura, um ente proteiforme e indefinido.

    O problema dos esquerdistas é que eles não se contentam só com o monopólio das coisas físicas, das estatais, petróleo, minérios, etc. Eles também pensam que têm o monopólio das virtudes humanas. Acham que só eles pensam no “próximo”, e que o “capetalismo”(alusão pueril ao capeta) é o “inimigo” a ser extirpado da face da terra. Começando um debate a partir dessa visão maniqueísta, qualquer diálogo acaba inevitavelmente descambando pro campo da politicagem.

    • Amilton Aquino says:

      Pois é, Gilx. É este monopólio das virtudes humanas que faz com que a quase totalidade dos políticos queiram se apresentar como esquerdistas ou centro-esquerdistas, mesmo após o colapso do comunismo. O PT da oposição ocupou o lugar do PSDB, empurrando-o para a direita, embora este não queira assumir o rótulo. E aí surge agora o PSD que não quer ser nem de direita, nem de esquerda! Ou seja, mais um entre tantos partidos sem nenhuma bandeira, com a função apenas de barganhar cargos do governo do momento, seja ele de esquerda ou de direita.

  17. aliancaliberal says:

    O sobre o que citou o Alan “ação predatória do capetalismo no meio-ambiente”.
    …….
    Uma dos motivos de eu ser a favor da propriedade privada vem de um conceito que sempre temos que ter em mente, a tragédia dos comuns.
    …….
    A tragédia dos comuns é um tipo de armadilha social, freqüentemente econômica, que envolve um conflito entre interesses individuais e o bem comum no uso de recursos finitos. Ela declara que o livre acesso e a demanda irrestrita de um recurso finito, termina por condenar estruturalmente o recurso por conta de sua superexploração. (wiki).

    Exemplo: uma lagoa sem dono definido (do estado) onde os pescadores no intuito de maximizar sua produção superexploram a pesca até que não haja mais peixes.
    ………
    A tragédia dos comuns não ocorre em uma propriedade privada, o dono não vai acabar com o seu ganha pão. Pode notar que poluição somente ocorre em áreas que não tem um proprietário definido rios, oceanos, propriedades publicas, onde existe um “dono” não tem poluição ou degradação ambiental.
    Exemplo se vc ver alguém jogando lixo na sua propriedade vc aciona a autoridade competente ou processa o “poluidor”.
    ……..
    O estado tambem superexplora um recurso finito, a renda do contribuinte, a ponto de condenar o contribuinte à miséria.

    • Amilton Aquino says:

      Muito bem lembrado, Liberal. Aliás, cabe aqui também aquele raciocínio que vc citou aqui sobre o erro de Smith e Marx sobre o valor do trabalho, citado no primeiro post desta série:

      “A realidade é que a riqueza é criada por aquele indivíduo que sabe como transmitir suas visões, arriscar recursos e reconhecer oportunidades — tudo isso ao mesmo tempo em que ele cria uma renda regular para terceiros durante esse processo.

      O capitalismo cria uma classe média mundial. Antes dos capitalistas, todos tinham de assumir por completo todo o risco de uma dada atividade. Já hoje, podemos delegar os riscos para aqueles que são mais ambiciosos e mais capacitados para atividades empreendedoras, já sabendo que, no final do mês, receberemos nossos contracheques. Tal arranjo é infinitamente mais produtivo e eficaz. Em última instância, é ele quem elimina a pobreza.”

      Portanto, se a “ambição” dos capitalistas diminuir, o ritmo de crescimento da economia diminui. Acredito que aí está a chave para o capitalismo encontrar um equilíbrio no futuro. Se os valores éticos e morais continuarem evoluindo, certamente o prazer material vai sendo substituído pelo prazer intelectual. Com um ritmo de crescimento menor e mais centrado na cultural, teríamos menor pressão sobre os recursos naturais, e teríamos um crescimento mais estável.

      A humanidade já dispõe de tecnologia suficiente para reduzir as horas trabalhadas (e dedicar o restante ao lazer, que também gera riqueza). O que falta é a humanidade evoluir em ética e em cultura.

      Obs. Estou terminando o post da semana. Daqui a pouco publico. Abraço!