Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x Direita (parte 4)

keynesO ápice do keysianismo e da Social-democracia

Desde o início do século XX a Europa já ensaiava alguns passos na direção do que hoje é chamado de Estado de bem-estar social, caracterizado por significativos investimentos do Estado em saúde, educação e seguridade social.

Os Sociais-democrata, defensores de tais ideais, surgiam inspirados nos mencheviques russos, que acreditavam que a transição para uma sociedade socialista poderia ocorrer democraticamente, sem ter necessariamente que passar por revoluções. Vertente esta que foi derrotada pelos bolcheviques de Lenin, que achavam a revolução imprescindível, vale relembrar.

A nova vertente européia dava uma guinada para a direita, pois não queria mais abolir o capitalismo, e sim torná-lo mais igualitário (ou menos desigual) através de uma gradual reforma legislativa.

A partir da Grande Depressão dos anos 30 tais ideais, que já haviam ganhado o suporte teórico do agora conhecido “Lord Keynes”, ganhou  ainda mais força com o ativismo do economista Gunnar Myrdal, um sueco que viria a se tornar o maior expoente da Social-democracia européia, que, ironicamente, viria também a dividir o Prêmio Nobel de Economia em 1974 com o seu rival ideológico Hayek, o mesmo que havia perdido o debate da década de 30 para Keynes.

Com o fim da II Guerra Mundial e o financiamento norte-americano para a reconstrução da Europa, o capitalismo finalmente entra na sua “era de ouro” e a Social-Democracia finalmente encontra terreno fértil para florescer nos países escandinavos, principalmente na Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia.

O rápido crescimento europeu nos anos 50 e 60 possibilitou que os demais países adotassem também, mesmo que em menor grau, as bandeiras sociais-democratas. Parecia que finalmente o capitalismo tinha encontrado a fórmula perfeita para crescer e, ao mesmo tempo, promover justiça social.

Nesta época, os liberais permaneceram em completo ostracismo, até mesmo nos Estados Unidos, onde o keynesianismo também continuou a vigorar, embora em menor grau. E, apesar de fora de moda, os liberais continuaram a alertar sobre as conseqüências futuras do aumento do tamanho do Estado nas economias européias e norte-americana. Um importante registro histórico de uma das mais célebres vozes destoantes, a russa naturalizada americana Ayn Rand, já previa a decadência dos EUA em plena era de ouro do capitalismo. Segue um trecho da entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=3bofJMwOdAQ

O Brasil na era de ouro do capitalismo

E assim como o mundo, o Brasil também viveu a era áurea do capitalismo dos anos 50, 60 e início dos anos 70, também “turbinado” pelas medidas keynesianas. Getúlio Vargas, que se ausentou do poder nos confusos primeiros anos do pós-guerra, voltou justamente no momento em que o crescimento mundial estava a pleno vapor.

Porém, diferente do período ditatorial, desta vez o populismo getulista não conseguiu lidar com a democracia. Além das denúncias de corrupção, o governo foi contestado por uma série de medidas polêmicas, entre as quais o reajuste do salário mínimo em 100%, medida esta que causou protestos de empregadores e militares e levou a demissão do ministro do trabalho João Goulart, o mesmo que viria a governar o país após a renúncia de Jânio Quadros.

Apesar das bem intencionadas criações do BNDES e da Petrobrás, Getúlio cometeu o erro de instituir o monopólio da exploração de petróleo, medida esta que protelou nossa auto-suficiência até 1997, quando finalmente a lei foi revogada e a nossa produção de petróleo foi triplicada em apenas 10 anos.

Ainda com seu viés autoritário, Getúlio aprovou uma lei que permitia ao governo intervir no domínio econômico para “assegurar a livre distribuição de produtos necessários ao consumo do povo”. Para quem lembra dos “fiscais da Sunab” do governo Sarney sabe o que este tipo de intervenção leva.

Depois do suicídio de Getúlio, vieram os anos dourados da era JK. A abundância de crédito internacional possibilitou a implantação do famoso plano de metas, que tinha como slogan construir “50 anos em 5”. De fato, o governo JK deu largos passos para o desenvolvimento do Brasil, pois investiu pesado em infra-estrutura, construiu grandes usinas hidrelétricas, grandes rodovias, aumentou a produção de petróleo, promoveu a indústria naval e incentivou a expansão da indústria, principalmente a automobilística.

Foi um governo paradoxal, pois se por um lado seu famoso plano de metas tinham um caráter essencialmente keynesiano, por outro, tinha também traços liberais, uma vez que permitiu a abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro e se esforçou para “reduzir o custo Brasil” com a melhoria da infra-estrutura e logística.

Seu problema foi Brasília. A idéia fixa de construir a nova capital no meio do nada foi um passo muito maior que a perna. E como sempre acontece, quando o Estado promove um crescimento artificial da economia, as conseqüências vêm anos depois (e quase sempre em outros governos).

Além de aumentar a dívida externa em 65%, aumentou o déficit na balança de pagamentos iniciou um vertiginoso processo inflacionário através da emissão de moeda para honrar os compromissos da dívida. Resultado: no último ano do seu governo, a inflação já havia chegado a 25% ao ano. Pior, a tendência de alta continuou nos anos seguintes, comprometendo o desempenho da nossa economia nos três próximos governos.

O curto governo Jânio Quadros foi caracterizado pelos seus esforços em se aproximar do bloco socialista. Economicamente a situação se complicou ainda mais, quando a inflação chegou a 43% ao ano.

Com sua renúncia, o governo João Goulart teve como desafio mais urgente controlar a inflação e reduzir o déficit público deixado por JK. O problema é que a austeridade exigida pela economia não combinava com a manutenção da política desenvolvimentista keynesiana proposta pelo governo, que exigia cada vez mais financiamento externo. E o resultado não poderia ser outro. Inflação galopante: 55% em 1962 e 83% em 1963.

E olha que um dos principais ministros da área econômica do governo era ninguém mais ninguém menos que Celso Furtado, um dos mais importantes economistas de esquerda do século XX, famoso por sua teoria do subdesenvolvimento, segundo a qual os países periféricos estariam destinados a ser sempre periféricos. Ou seja, nunca chegariam ao status de desenvolvidos!

Como todos podem ver, sua teoria estava completamente equivocada, uma vez que vários países subdesenvolvidos da década de 60 chegaram ao status de desenvolvidos.

Com o Golpe Militar de 1964, o keynesianismo continuou em alta, através dos mega-projetos de infra-estrutura. Apesar disso, o governo Castelo Branco implementou algumas medidas liberais. Para combater a inflação e o déficit público, o governo reduziu as despesas, arrochou salários, extinguiu a estabilidade no emprego, atraiu investimentos externos e revogou a lei que restringia a remessa de lucros para o exterior.

As medidas surtiram efeito e o governo Castelo Branco conseguiu interromper a escalada inflacionária iniciada no governo JK. Instituiu uma nova unidade monetária, o Cruzeiro Novo, e criou a correção monetária.

O governo Médici seguiu a mesma linha de Castelo Branco, inclusive continuou com um dos seus principais erros, que foi a priorização do sistema rodoviário, em detrimento do ferroviário, atendendo a interesses norte-americanos.

Apesar de entrar para a história como a época de maior repressão do regime militar e por ter aumentado as desigualdades no país, o governo Médici implementou também algumas medidas populares, como a criação do Banco Nacional da Habitação (BNH), o Plano de Integração Social (PIS), o Mobral, programa que visava a redução do analfabetismo, e o Programa de Assistência Rural (PRORURAL), que concedia aposentadoria e o aumento dos serviços de saúde aos trabalhadores rurais.

Com a inflação controlada, o país entrou em uma fase de crescimento acelerado que chegou ao recorde de 13% no ano de 1973, quando ocorreu a primeira crise do petróleo, evento que mudou os rumos da economia mundial.

No próximo post, vamos falar da decadência do keynesianismo. Até lá!

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31 Responses to Esquerda x Direita (parte 4)

  1. Sandro says:

    Amilton,

    Ótimo texto, como sempre!

    Já que chegasse no milagre econômico brasileiro, deixo registrado aqui uma frase que gosto muito e define bem os sentimentos sobre este período da história. É do Elio Gaspari, autor de esquerda, em seu livro A DITADURA ESCANCARADA:

    “O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, co-existiam negando-se. Passados mais de trinta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro.”

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado Sandro. E como vc pode ver no caso do nosso amigo “não interessa”, muitas pessoas continuam vendo apenas o que querem ver.

  2. Não interessa says:

    Vc se se esforça para parecer imparcial, mas a sua imparcialidade fica clara na ênfase que vc dá em cada crítica que faz a esquerda. Assume de vez e pára de ficar fazendo joguinho. Vc é de direita!

    • Amilton Aquino says:

      Meu caro “não interessa”. Pouco me importa o seu conceito sobre mim, principalmente quanto a minha situação na dicotomia tratada nesta série. Aliás, um dos objetivos desta série é tentar diminuir este acirramento ridículo que embaça a visão da realidade, que o faz desqualificar qualquer argumento vindo de qualquer interlocutor que vc tache de “direita”. Seu comentário é sintomático. Nenhuma contra argumentação. Apenas bravatas.

  3. aliancaliberal says:

    Neoliberalismo=neointervencionismo

    no geral, os economistas atuais defendem a economia mista. E o Consenso de Washington é apenas uma reforma das intervenções do governo, buscando mais eficiência, e abertura controlada para o comércio internacional. Se for perguntado a um socialista o que ele acha das propostas do CW, provavelmente ouviremos que tem “mercado demais”. Se for perguntado a um rothbardiano, provavelmente ouviremos que há intervenção demais. Ou seja, o CW não defende planificação econômica e tampouco economia de mercado, é apenas reforma do velho intervencionismo estatal.

    Devo confessar para os leitores que tenho pena de Fernando Henrique Cardoso. Apesar de ele ter se esforçado ao máximo para interferir no mercado, não foi o bastante: acabou sendo conhecido como pró-mercado (e como se sabe, isso necessariamente quer dizer uma coisa ruim no Brasil). E o que fez FHC para merecer tais títulos?

    Aqui entra a parte mais interessante: o presidente-sociológo aumentou impostos, gastos públicos, criou 10 agências reguladoras, privatizou 8 empresas em um processo que contou com a participação do estado (!) e de grupos com influência política (fundos de pensão), e no começo do governo, fixou o câmbio. Mesmo assim, é tachado de pró-mercado. Tem mais: segundo o índice de liberdade do Fraser Institute, as leis de propriedade privada pioraram no Brasil na época de FHC. A área que mais teve melhora em relação à desregulamentação foi o mercado financeiro. Durante a década de 90 o Brasil se tornou mais livre em relação à década de 80. Contudo, os índices de liberdade (tanto o do Fraser Institute como o da Heritage Foundation) mostram que o país passou longe de alguma reforma pelo livre mercado, se mantendo numa das economias mais intervencionistas do mundo.

    Não é preciso estudar o índice de todos os anos do Brasil (como o autor do presente artigo fez), basta apenas ler os feitos de FHC no parágrafo anterior e raciocinar se isso tem alguma relação com o livre mercado.

    Então, dizer que FHC foi pró-mercado por privatizar algumas estatais é puro desconhecimento dos dados. É falta de estudo e necessidade de repetir jargões da esquerda. O que houve na verdade foi uma mudança no modelo de intervenção — adotando-se um mais leve, na verdade. E isso irritou os pensadores radicais pró-estado. E, para eles, a saída foi acusar os neo-intervencionistas (como Collor e FHC) de serem entreguistas. É isso o que acontece quando se mistura o debate acadêmico com o debate político: falácias, mentiras, manipulações e jogos sujos. Essa é a essência da política, e ela contaminou o debate nas academias.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal,

      Como diria Eintein, tudo é relativo, mas, de um modo geral FHC, apesar de sua origem Social-democrata, deu sim uma guinada para diminuir o nosso estado. O aumento de impostos não foi por querer, mas por necessidade, uma vez que a dívida pública aumentou bastante. Quanto às agências reguladoras, considero necessárias. É o típico caso de ruim com elas, pior sem elas. Aliás, as agências foram um dos argumentos do governo para tentar reduzir as resistências às privatizações, assim como a participação dos fundos de pensão. Quanto à fixação do câmbio no início do governo, foi necessária para desindexar a economia. Se o câmbio fosse flutuante desde o início, muito dificilmente teríamos controlado a inflação.

      Acho que ele fez o que pôde. E mesmo assim veja o preço que ele pagou. Agora imagina se ele fosse ainda mais liberal!

  4. Sandro says:

    Prezado “Não interessa”:

    Você poderia me explicar o que é ser de direita e o que é ser de esquerda?

    Abs

  5. Marcello says:

    Amilton – mais um excelente texto.

    Qual a sua opiniao sobre uma comparacao paralela entre periodo dos anos de ouro e o atual? Vejo muitas “coincidencias”: aumentos da divida publica e do deficit orcamentario, abundancia do credito, investimentos talvez equivocados (precisavamos de Brasilia? Hoje, ha muito investimento social, pouco em infra) e, finalmente, inflacao. Alem disso, comenta-se em alguns canais (The Economist, Financial Times) sobre uma possivel bolha imobiliaria no Brasil – similar a dos EUA, mas com fundamentos diferentes (basicamente, no Brasil nao se usa imoveis como um grande banco 24hs).
    O meu ponto eh – sera que o Brasil esta perdendo (ou corre o risco de perder) a segunda grande oportunidade de desenvolver-se, assim como aconteceu com JK? Qual tua opiniao?
    Grande abraco.

    • Amilton Aquino says:

      Marcelo,

      Vc captou bem a mensagem. O Brasil está trilhando no mesmo caminho. Se o Pré-sal der certo, vamos ganhar um pouco mais de fôlego e protelar a crise que se desenha. Caso contrário, a tragédia é iminente.

      Note que mesmo no melhor ano da nossa economia em décadas, o governo ainda precisou fazer malabarismos contábeis para fechar as contas. Agora imagina se acontece uma onda de crise com foco nos BRICs.

      Vamos ser otimistas, mas não podemos deixar de lado a prudência. O governo do PT está abusando da sorte.

  6. aliancaliberal says:

    Amilton as agências reguladoras é pura ilusão, uma das poucas coisas que concordei com Brizola foi sobre este assunto.

    As agências reguladoras no decorer do tempo são “capturadas” pelas empresas que lea regula e passa a ser instrumento para engessar o setor ou seja para impedir a concorência.

    Nunca se esqueça disso as grandes empresas não se preocupam com impostos altos, com livre mercado, juros, lei trabalhista, com ditaduras ou democracia.

    O que realmente importa para uma grande empresa é reserva de mercado para isso elas utilizam do governo pra criar dificuldades para a formação de empresas concorentes.

    Estas regulações setoriais tem este objetivo não é para proteger o consumidor, longe disso.

    As grandes empresários não temem o governo que é facilmente comprado, eles temem sim é o nascimento de pequenas empresas que com inovações e melhores produtos, podem em um futuro destrona-los.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, concordo contigo em todos os seus argumentos. Se isto já acontecia na época de FHC, tornou-se praticamente uma regra no governo Lula, quando o toma-lá-dá-cá ficou institucionalizado. Mas o problema não é das instituições, e sim das pessoas que fazem as instituições. O mesmo ocorre com os políticos, com a justiça e demais instituições. Se formos acabar com cada uma delas por causa da corrupção não teremos mais Estado. O caminho é longo, mas passa pelo aprimoramento dos mecanismos democráticos de controle de sociedade e da evolução da conscientização política. Já liguei uma vez para uma agência para reclamar de uma companhia telefônica que me enrolava há semanas. No mesmo dia recebi outra ligação da Oi (na época Telemar) e o problema foi resolvido.

      Quando vc tem uma instituição que não funciona como deveria, ela se torna alvo de críticas da sociedade e da imprensa. A empresa que suborna, pode ser descoberta. É um risco a mais que tem que correr. Dependendo do caso e da repercussão, alguma coisa pode sim mudar. Mas para isso, temos que aprimorar nossa cidadania. Recentemente me vi de mãos atadas quando procurei o Juizado de Pequenas Causas contra uma Estatal. A sensação que tive na audiência de “conciliação” era que eu sozinho lutava contra três: dois advogados da Compesa e a mediadora. Recuei momentaneamente, mas vou voltar acompanhado de um advogado.
      Abraço

  7. Marcello says:

    Pois eh, Amilton, fica aqui uns pensamentos sobre uma crise dos BRIC’s, para seus comentarios:

    1. Taxas de crescimento e atracao de capital externo – os paises BRIC (mais Australia e Africa do Sul) reportaram altas taxas de crescimento e captacao de capital externo. No meu ponto de vista, isso em virtude de dois pontos chaves:
    (a) os detentores de capital – bancos e fundos – estao pressionados pelo excesso de controle nos EUA e Europa, e consequente reducao de retorno sobre ativos (pois tem que manter altas reservas), entao eles saem a procura de melhores retornos, ainda que mais arriscados; e (b) o ciclo vicioso de altos retornos “forcam” investimentos para ter ofertas maior do que a “economia real” pode absorver, expondo-se ao risco – explico: imagine qualquer produto cuja oferta seja limitada e a procura seja alta (petroleo? credito? alimento?) atrai novos investimentos para producao e alguns desses investimentos serao exagerados, ou simplesmente nao suportam uma queda de precos. Esta formada a famosa bolha!!

  8. Marcello says:

    Terminando minha msg anterior…

    2. Peso do estado na taxa de crescimento, principalmente, Brasil e China. No Brasil, muito do crescimento deve-se ao fato da elevacao das classes mais baixas a classe media. Porem, num “soluco” das taxas de desemprego e de inflacao, os mais vulneraveis (endividados e sem poupanca) desencadeiam crise de inadimplencia.

    Suficiente por hoje!! Obrigado de novo pelos otimos textos e pelo espaco aberto para o debate. Independente da posicao politica, do partido de preferencia ou da filosofia adotada, o fascinante eh o debate dos temas economicos em questao – com pontos de vista, argumentos e dados.

    Grande abraco.

    • Amilton Aquino says:

      Marcelo,

      Quanto ao primeiro tópico, acrescento um ponto. O dinheiro farto que chega ao Brasil não é apenas de investidores a procura dos juros mais altos do mundo (uma das nossas maiores contradições). Ocorre também uma migração de grandes empresas cujos mercados no primeiro mundo estão saturados. Daí a invasão de marcas de automóveis que verificamos nos últimos anos, por exemplo. O problema é quando o mercado começa a dar sinais de saturação e o nível de inadimplência aumenta, aí ocorre o ponto de inflexão.

      Quanto ao ponto 2, me preocupa o fato de que estamos desperdiçando o nosso bônus populacional com políticas equivocadas. Vai demorar, mas um dia o crescimento do nosso mercado interno, que tem segurado o crescimento dos últimos anos, vai saturar, como ocorreu com os países desenvolvidos. E aí, pelo andar da carruagem, vamos passar pelos mesmos problemas, pois não conseguimos aprender com a história.

      Abraço e volte sempre. O mais importante é testarmos nosso pontos de vista argumentando com pessoas inteligentes. Pelo menos para isso serviu a dialética de Marx. 🙂

  9. Sandro says:

    Link de entrevista com Delfim Netto no Canal Livre da Band sobre alguns dos tópicos mencionados nos posts acima:

    http://www.band.com.br/canallivre/videos.asp?v=2c9f94b52f0e826c012f20cceb3c057f

    Não achei a data que foi ao ar, mas parece atual.

    • Amilton Aquino says:

      Sandro, veja a que ponto chegamos. O Brasil está bem, se comparado com outros países. Défict nas contas de “apenas” 2% do PIB, dívida líquida na casa dos 45%, dívida bruta em 65%! Ou seja, os fundamentos da macroeconomia mundial estão todos malucos. Hoje todos devem. É normal ter déficits. Certamente o mundo caminha para uma grave crise.

  10. Alininha says:

    Amigos, acompanho o blog deste a série sobre os desafios do pós-Lula. Nunca me atrevi a comentar nada porque sempre me achei muito aquém dos debatedores que sempre estão por aqui. Estou aprendendo muito e já estou me atrevendo a contestar algumas “verdades” de um colega petista que se acha o dono da verdade em sala de aula, principalmente quando o assunto é política. Já sugeri várias vezes para ele colocar o ponto de vista dele aqui. Disse ele que deu uma olhada, mas só pelo títulos desistiu de ler o resto, pois acha que aqui é um reduto tucano. Uma pena. Abraço e parabéns ao Amilton e a todos que contribuem com esta ótima fonte de informação.

    • Amilton Aquino says:

      Obrigado Aninha. Este blog foi a forma que encontrei para dar uma pequena contribuição à sociedade. Ninguém é dono da verdade. De vez em quando alguém me corrige por aqui. O importante é ter a cabeça aberta para ver as coisas de ângulos diferentes. É desta interação que podemos criar algo novo ou, pelo menos, desenvolver nossa própria opinião.

  11. aliancaliberal says:

    Alininha seu amigo esta com a “sindrome de avestruz” enterra a cabeça na terra pra não ver a nada que não seja aprovado pelo partido.
    Diz pra ele que ninguem votou no Serra aqui e os que votaram foi somente por falta de opção.

  12. Adriano says:

    Certamente este amigo da Aninha deve ser um dos seguidores do PHA. Lá eles reinam. Tudo é conspiração da oposição. Detalhe: eles censuram mensagens que possam provocar alguma reflexão mais profunda no seu “gado”. Tenho um outro colega que sempre está me mandando links com as “verdades” do PHP. Incrível como podem ser tão cegos!

  13. Alininha says:

    Bom, falei para o meu amigo petista que ele ficou famoso aqui. E olha que ninguém ainda sabe o nome dele! kkkkkkk. Ele me prometeu que vai responder aos comentários no final de semana, “se tiver tempo”. O nome dele é Cláudio. Vamos esperar!

  14. Alan Patrick says:

    Alininha,seu colega esta certo: este aqui e um blog tucano.

    Amilton,fiz a leitura da sua resposta ao meu comentário e vou ler os textos que você sugeriu. Por motivo de trabalho não tive tempo de digitar minha resposta ao que você me respondeu,assim que possível vou te responder e pretendo comentar sobre os excelentes artigos que você esta escrevendo(EsquerdaXDireita).
    abraços.

    • Amilton Aquino says:

      Seja bem vindo novamente, Alan! É sempre bom um contraponto. Se criticar Lula é ser tucano, então eu sou tucano. Mas sou um tucano bem crítico, como vc pode ver nos vários posts que escrevi até aqui. Se os petistas fossem críticos também, certamente o debate seria bem mais proveitoso. Abraço.

  15. Gilx says:

    Amilton,
    Para enriquecer esse artigo, faço uma questão para você e o internauta Aliança Liberal: que medidas não-keynesianas seriam necessárias para conter as crises de 1929 e 2008?

    • Amilton Aquino says:

      Olá Gilx,

      Muito boa a questão. Mas não vou poder me aprofundar muito agora porque não quero adiantar as conclusões desta série.

      A essência do keynesianismo foi desenvolver políticas anticíclicas para amenizar os efeitos das periódicas crises capitalistas. Neste contexto, as medidas keynesianas adotadas em todo mundo na crise de 2008 são, no meu ponto de vista, justificáveis. Seria como pedir um empréstimo para resolver uma urgência. Depois que as coisas melhoram, apertamos o cinto, pagamos as dívidas e seguimos adiante.

      A nível macroeconômico, no entanto, a coisa é um pouco mais complicada, pois ninguém quer pagar a conta. Estas são sempre empurradas para os sucessores, os quais tendem a rolar também para o próximo, normalmente aumentando ainda mais as dívidas, afinal cada um quer deixar a sua marca, criar uma nova política social, etc. E assim chegamos ao quadro atual, onde praticamente todos os países, ricos e pobres, devem somas astronômicas.

      Resumindo, as soluções keynesianas têm resultados mais palpável à curto prazo, porém comprometem o futuro. O remédio liberal é amargo, pois exige austeridade. Aprofunda ainda mais a recessão à curto prazo, mas criam melhores condições para o futuro. Portanto, a solução liberal para as crises é resumida numa palavra: austeridade. Claro que existem outras ações, como a melhoria do ambiente econômico, através de uma política fiscal mais eficaz, por exemplo, mas a essência é a otimização dos gastos do Estado.

      Por isso que hoje a grande maioria dos políticos são keynesianos, pois suas políticas têm um forte apelo popular. Políticos não gostam de assumir ônus, principalmente quando estes criam melhores condições para o sucessor.

  16. aliancaliberal says:

    Gilx a solução para uma crise econômica de um país e a mesma solução de quando vc perde um emprego por exemplo.
    Ao perder um emprego (crise) vc não sai comprando bens, um carro, uma casa, vc economiza para manter-se e procura saber as causas de sua demissão e procura reciclar seus conhecimentos para entrar novamente no mercado.
    ………..
    Não existe uma causa isolada para uma crise, mas um fator comum entre elas, a interferência estatal na economia para que algum setor seja beneficiado normalmente o setor que financia os políticos.
    Esta interferência causa distorções na economia que logo adiante cobram seu preço, o caso típico de interferência estatal é a “falsa poupança” onde o governo para estimular a economia, reduz artificialmente os juros, os juros não deixam de ser o “preço” do dinheiro, a interferência estatal na política de juros não passa de tabelamento de preços e assim como não funciona tabelar “batatas” não funciona tabelar o “preço” do dinheiro.

    Com a posse desta informação falsa de que existe poupança real na economia os empreendedores iniciam projetos neste ambiente artificial de juros baixos.
    Como todo tabelamento de preços, o governo cedo ou tarde tem que voltar a realidade, com isso os empreendimentos errôneos entram em falência e o mercado entra em crise ate que as iniciativas errôneas se adéquam a dura realidade.

    Reserva de mercado, protecionismo, cambio artificialmente mantido, tabelamento de salários (salário mínimo), tabelamento de preços de produtos, subsídios agrícola, tudo isso e interferência do estado onde não deveria se meter.

  17. Alan Patrick says:

    Liberal, se cortar gastos e seguir a cartilha neoliberal fosse de fato a solução para resolver a crise iniciada em 2008,então por que os EUA e alguns países da Europa que seguiram essas medidas ainda estão em crise?
    Para complementar a reflexão sugiro que assistam ao seguinte vídeo:
    http://www.viomundo.com.br/humor/não-esqueçam-de-como-eles-tirariam-o-brasil-da-crise.html

    • Amilton Aquino says:

      Allan,

      Vou me antecipara ao Liberal. Vc está redondamente enganado. Os países do primeiro mundo, assim como o Brasil, adotaram medidas keynesianas para combater a crise. A diferença é que esta crise, bem diferente da série de crises dos anos 90, teve o epicentro nos países do primeiro mundo. Portanto, ao contrário das crises da era FHC, quando os investidores fugiam daqui a cada ameaça de crise, desta vez aconteceu o contrário, pois os emergentes, menos atingidos pela crise, tornaram-se o destino dos investidores e especuladores, já que as taxas de juros dos países do primeiro mundo foram praticamente zeradas.

      Portanto, a crise que continua no primeiro mundo é também decorrente do endividamento recorde destes países decorrentes das medidas keynesianas. Aliás, a piora nas contas públicas brasileiras tem também a ver com o keynesianismo do governo Lula a partir da crise. E os resultados não foram nem tão bons assim como o governo vende a idéia, afinal nossa economia decresceu 0,6%, enquanto que os demais BRICs continuaram crescendo. A China cresceu 8% e a Índia 6%.

      Quanto ao vídeo que vc citou, a oposição (e especialmente o DEM) errou feio em ficar tirando onda da marolinha. A crise de fato era grave e o governo fez bem seu papel de tentar tranqüilizar o máximo a população. Eu mesmo cheguei a mandar um email para o site do DEM criticando aquela publicidade ridícula na TV, pois via naquela atitude a mesma atitude que o PT teve quando o Plano Real foi lançado e tantas outras iniciativas do PSDB. Este é apenas mais um lamentável exemplo de oportunismo das oposições, de jogar no time do contra. O PT foi especialista nisso e, pode ter certeza, que se voltar à oposição vai continuar fazendo, lamentavelmente. O PSDB infelizmente parece que andou aprendendo também alguns vícios do PT.

      Agora, neste episódio vale diferenciar o que é gasto e o que é investimento. O que os economistas liberais aconselharam, e estavam corretos, foi o corte de gastos ou, no mínimo, não elevar os gastos fixos. Felizmente, por aqui e em todos os demais emergentes, a crise de 2008 foi apenas um susto. Passada a fase de perplexidade inicial, tudo voltou ao normal e os emergentes voltaram a crescer forte, agora numa condição superior a da antes da crise, pois tornaram-se a “locomotiva” da economia mundial (puxados pela China, claro).

      Mas não se engane, amigo. Esta história ainda não terminou. A medidas keynesianas atenuam os efeitos da crise a curto prazo, mas a conta vai para o futuro em forma de dívida e inflação. A Dilma já começa a pagar o pato. Talvez no futuro a conclusão do filme seja bem diferente, como aliás já foi em vários outros momentos da história. Continue lendo a série e vc vai ver vários outros exemplos.

  18. aliancaliberal says:

    Alan Patrick os governos da zona do euro são perdulários há anos. Sobre o Brasil, o governo Lula mantém basicamente mesma política econômica de FHC.

    A causa da inflação brasileira deveu-se ao descontrole das contas publicas. Anteriormente não existiam mecanismos para impedir o estado financiar estes déficits utilizasse de EMISSÃO de moeda (dinheiro falso). Os governadores dos estado,s para angariar votos, pegavam dinheiro emprestado dos bancos estaduais e não pagavam. O Banco Central, para não deixar falir os bancos estaduais, emitia moeda para cobrir estes rombos.
    Brasília, por exemplo, foi criada do nada com dinheiro do nada, apenas imprimindo dinheiro falso, o que nos custou muita miséria. Todas as grandes obras trilharam o mesmo caminho, para poderem eleger-se, os governantes sacrificavam a geração futura.
    Diga-se que tantos anos com inflação alta é sem sombra de dúvida o motivo de nosso país ter tanta desigualdade social já que a inflação atinge especialmente a camada mais pobre da população.

    Com o plano Real, o governo atacou principalmente a emissão de moeda sem lastro (moeda falsa), abriu a economia e criou a lei de responsabilidade fiscal.
    Nosso país deixou de ser uma economia fechada e inflacionária para economia aberta e com moeda estável. Com isso muitos vícios tiveram que se revistos, empresas e bancos tiveram que adaptar se a esta realidade e alterar seu modo de atuar. O ponto negativo foi o desemprego. Até que empresas se adaptassem a nova economia e os empregos retornassem , o Brasil passou por uma fase de destruição criativa. Este foi o remédio amargo que tivemos que pagar pela irresponsabilidade de governos anteriores.

    O plano real não esta finalizado e necessita das reformas para que nosso país tenha uma economia forte e competitiva que produza bens baratos para nossa população.
    Sem isso ficamos dependentes do financiamento externo para cobrir déficits orçamentários, que para atrair dólares necessita de uma política de juros altos o que Impede o investimento de nossa economia.
    O gasto publico irresponsável já nos fez pagar um trilhão e seiscentos milhões de reais em serviços da divida de 2003 a 2010, na media o Brasil fica sem cobrir 200 bilhões de reais ao fim do ano fiscal.
    Para não dar calote o governo tem que ir ao mercado e financiar-se com a poupança interna e externa, isso desvia recursos que poderiam estar sem do aplicados no desenvolvimento do país. E apesar disso a divida aumentou e hoje encontra se em torno de 2,4 trilhões de reais o que da mais ou menos 48 mil reais para família brasileira.
    Para compensar o governo por intermédio do BNDES subsidia o financiamento de algumas empresas (aquelas que contribuem na campanha) o que aumenta a divida e realimenta os juros.
    Reduzindo o gasto publico reduz se a divida que reduz os juros que reduz a inflação, esta poupança pode ser aplicada em investimento que produz bens mais baratos que poderão ser comprados pela camada mais pobre do país.
    Reduzindo o gasto publico pode se reduzir os impostos que novamente vão baratear os bens que o povo vai consumir.
    Com mais dinheiro no bolso os brasileiros vão poupar ou consumir de acordo com suas prioridades, as empresas irão contratar mais. Com o custo Brasil reduzido, os produtos de exportação tornam-se competitivos e não apenas as commodities.
    Com a melhora na produtividade o país pode inclusive ter deflação o que faz os especuladores perderem dinheiro e focar seus investimentos na produção de bens que atendam o mercado interno e externo.

  19. Andrea says:

    ótima sua análise… gostaria de saber se vc tem alguma indicação de bibliografia para o estudo dos “Anos Dourados” no Brasil… algum texto ou livro que fale sobre como teria sido o Estado De Bem Estar Social no Brasil…
    Muito Obrigada!!!
    E Parabéns!!!
    Andrea

    • Amilton Aquino says:

      Olá Andrea, obrigado pelos elogios. Tem uma série de quatro livros publicado pela Folha: A história do Brasil no Século 20, de Oscar Pilagallo. Abraço!