Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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Esquerda x direita (parte 3)

vitoria-americana-2A ascensão dos Estados Unidos

As medidas keynesianas do New Deal, implantadas desde 1933, não tiveram resultados tão palpáveis como na Alemanha de Hitler. Tanto que, já nos anos 30, tais medidas começaram a ser contestadas pelos liberais, alguns dos quais acusaram os gastos do governo como o motivo da crise de 1929 ter se estendido por toda a década de 30, passando a ser chamada então de “Grande Depressão”. Ficou célebre o debate entre Keynes e Hayek, do qual este último saiu aparentemente perdedor, levando em conta a projeção mundial que alcançou Keynes e o ostracismo em que Hayek foi relegado nas décadas seguintes.

A recuperação, portanto, só veio a ocorrer a partir da II Guerra mundial quando, mais uma vez, os EUA lucraram com a desgraça da Europa. A localização geográfica ,longe do foco da guerra, evitou que as indústrias norte-americanas fossem destruídas, assim como sua produção agrícola. Como resultado, a produção industrial norte-americana triplicou durante o conflito, chegando a responder por metade de toda a produção mundial em 1946!

A II Grande Guerra, portanto, marcou a ascensão dos EUA ao posto antes ocupado pela Inglaterra, que até então comandava um império com colônias espalhadas por todo mundo. Aliás, não só a Inglaterra, como as demais nações européias mantinham colônias principalmente na África e na Ásia. Foi a partir do enfraquecimento das nações européias na II Guerra que as colônias aproveitaram para se rebelar, iniciando o processo de descolonização da segunda metade do século XX.

Mas, voltando aos EUA, ao contrário da primeira experiência pós-guerra, que levou a uma série de equívocos que culminaram na crise de 1929, desta vez os norte-americanos se prepararam para o novo pós-guerra. Além dos serviços terem ganhado mais espaço no PIB norte-americano, reduzindo assim o peso da indústria, agora os EUA detinham 80% das reservas mundiais de ouro e, portanto, davam as cartas da economia mundial

Primeiro eles asseguraram o domínio financeiro do mundo, pois mesmo antes do final da II Guerra Mundial, delegações de quarenta e quatro países, comandados pelos EUA, claro, aprovaram o acordo de Bretton Woods, que definia a conversibilidade entre o dólar e ouro, estabelecendo assim o dólar como moeda internacional, e a criação do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (que hoje corresponde a Organização Mundial do Comércio – OMC), o Banco Mundial (BIRD), com o objetivo de financiar as obras de reconstrução da Europa, e o Fundo Monetário Internacional (FMI), com a missão de estimular o comércio mundial e fiscalizar a normatividade das novas regras monetárias.Estava então consolidado o processo de migração do capitalismo industrial para o capitalismo financeiro.

Ainda no final da década de 40 surgia a Doutrina Truman, com o objetivo de conter a expansão do comunismo no mundo, e o Plano Marshal, uma derivação da Doutrina Truman, porém com um aspecto mais econômico, conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Européia.

Não era caridade. Era pura estratégia econômica e ideológica, pois ao recuperar o ambiente econômico europeu e japonês, os EUA asseguravam a existência de um mercado consumidor para sua indústria, além de garantir aliados capitalistas contra o avanço do socialismo soviético. Além do mais, ao emprestar dinheiro, os EUA assumia a posição de credor do mundo.

Deste modo, os EUA injetaram na Europa US$ 30 bilhões entre 1948 a 1961. Uma merreca para os padrões de hoje, mas, na época, o suficiente para dinamizar a economia européia em seu incrível esforço de recuperação. Como contrapartida, as economias européias se viam comprometidas a seguir as diretrizes norte-americanas, através das ações macroeconômicas keynesianas.

O ápice do esquerdismo

Assim como os Estados Unidos, a URSS saiu fortalecida da II Guerra Mundial, principalmente por ter subjugado Hitler nos momentos finais de guerra  (apesar de ter inspirado e ajudado Hitler em seu projeto nos anos iniciais da guerra). E mesmo com a opção russa pelo stalinismo (em detrimento ao trotskismo, que pregava a imediata exportação da revolução a nível global), a ideologia marxista multiplicou seus adeptos ao redor do mundo, principalmente a partir da crise de 1929, que foi entendida pelos comunistas como a comprovação da “profecia” marxista sobre o germe autodestrutivo do sistema capitalista.

Aos poucos, novas revoluções foram ocorrendo em outros países e em diferentes continentes, derrotando os esforços norte-americanos em neutralizar a ameaça comunista.

Na economia, o bloco socialista também superava o capitalista, crescendo a taxas próximas aos 10% em média nas décadas de 50 e 60 (segundo os dados fornecidos pelos comunistas, claro).

O prestígio da URSS chegou ao auge em 1961, quando Yuri Gagarin entrou para a história como o primeiro homem a chegar ao espaço. Era a prova de que a URSS havia ultrapassado os EUA em tecnologia!

Dois anos antes, os comunistas tomavam o poder na primeira nação em continente americano: Cuba, a ilha que era considerada até então uma espécie de “quintal” ou um “bordel” dos Estados Unidos.

O simbolismo da revolução cubana ganhou ainda mais ênfase com o status de estrelas internacionais adquiridos por Fidel Castro e, principalmente, por Che Guevara. E novamente o velho dilema trostkista x stalinista voltaria à tona entre o argentino Che, que queria exportar a revolução para o resto do mundo, e Fidel Castro, que preferia concentrar os esforços na consolidação do novo regime na ilha.

No Brasil, o esquerdismo havia tomado agora um novo ímpeto com a renúncia do populista Jânio Quadros, há apenas sete meses depois de assumir o cargo.

Agora teríamos não apenas um simpatizante do comunismo no poder, o vice-presidente João Goulart, como já tínhamos também alguns governadores, como o também gaúcho Leonel Brizolla, Mauro Borges (Goiás), Nei Braga (Paraná) e Miguel Arraes (Pernambuco).

Diante do impasse que se criou para a ascensão ao poder de um presidente de esquerda, foi instaurado no Brasil o regime parlamentarista, com o objetivo de enfraquecer o poder do novo presidente.

Apesar do poder de fato ter ficado nas mãos do então primeiro-ministro, Tancredo Neves, o novo governo já preparava reformas de base que conduziriam o Brasil na rota socialista, entre as quais a mais polêmica era a desapropriação de imóveis e de terras com mais de 600 hectares para a realização da tão sonhada reforma agrária.

No resto do mundo, apesar das divergências e dos esforços norte-americanos, o comunismo continuava a ganhar novos adeptos, conquistando quase todo o leste europeu e se expandindo pela Ásia, já havia ganhado em 1949 um reforço de peso: a China, que já na época respondia por 1/5 da população mundial.

Nas Américas, além das guerrilhas espalhadas por todo o continente, os esquerdistas lutavam para chegar ao poder também pela via democrática. No Brasil, a oportunidade veio com a ascensão de João Goulart ao poder, como também por seus esforços em restaurar o regime presidencialista, que lhe restituiria os plenos poderes nas eleições de 1964. O desfecho desta história todo mundo conhece.

Enquanto isso, em Cuba, a Guerra Fria entre comunistas e capitalistas chegou ao seu ápice na chamada “Crise dos Mísseis”, quando os russos instalaram bombas ogivas nucleares apontadas para os EUA na ilha de Fidel. Nunca estivemos tão próximos de uma catástrofe nuclear. O mundo estava dividido.

No próximo post, vamos falar do ápice do keynesianismo. Até lá!

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40 Responses to Esquerda x direita (parte 3)

  1. Sandro says:

    Amilton,

    Em relação à “crise dos mísseis” indico o excelente filme: TREZE DIAS QUE ABALARAM O MUNDO (Thirteen days – 2000)

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Muito bom este filme. Equilibrado, com uma ótima caracterização do presidente kennedy. Muito bem lembrado. Aliás, mais interessante ainda é o JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar, de Oliver Stone. Não fala sobre a crise dos mísseis, mas retrata muito bem o clima da época e principalmente as conspirações que levaram ao assassinado de Kennedy.

  2. Sandro says:

    Amilton,

    Você que esta escrevendo sobre direita X esquerda, esta acompanhando o debate entre Olavo de Carvalho e Alexander Dugin?

    http://debateolavodugin.blogspot.com/2011/01/apresentacao-do-debate.html

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Não sabia desse debate. Não tenho tempo agora, mas vou acompanhar com muita atenção. Aliás, fiquei curioso, pois debater com o Olavo não deve ser nada fácil .  Obrigado pela dica.

  3. Sandro says:

    Outros filmes interessantes para quem esta acompanhando os posts:

    Stalin
    Fidel
    Che, 1 e 2
    Cidade Proibida
    O que e isso companheiro
    A vida dos outros
    Diários de motocicleta
    Ensaio sobre a cegueira
    Amazing Grace
    Adeus, Lenin

    Abs
    A onda (Die Welle)
    A insustentável leveza do ser

  4. Sandro says:

    Amilton,

    Em relação ao filme JFK, a pergunta que não quer calar, o qual mencionas acima, me lembrei de um que fala da vida do assassino do Lee Oswald, o filme e a personagem se chamam: Jack Rugby.

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Muito pertinentes os filmes indicados. Sobre JFK, não pesquisei sobre o assunto, mas se tudo aquilo for verdade, o Stone está de parabéns.

  5. Marcinha says:

    De onde vc tirou este dado de que o bloco socialista cresceu mais que o capitalista?

    • Amilton Aquino says:

      Marcinha, não encontrei o link onde peguei esta informação, mas pode ter certeza que não inventei estes números. Não lembro exatamente o percentual, mas é bem próximo de 10% na década de 50 e superior a 10% na década de 60. Logo mais, à noite, vou pesquisar com mais calma e coloco aqui. Abraço.

  6. aliancaliberal says:

    Eo nazismo é de esquerda ou direita ?
    …….
    Fui procurar a resposta no site do pardido nacional-socialista brasileiro, é tem um PNS no brasil. http://www.nacional-socialismo.com/CompreendendoNS.htm

    “Devido ao freqüente uso da classificação de “esquerda” por estes grupos de orientação marxista-leninista ou libertária, se tornou comum taxar-se qualquer outra doutrina em oposição à eles de “direita”, e muitos Nacional-Socialistas aceitaram tal rótulo, mesmo sendo errôneo.”

    Pior que o NS tem ligação com o Irã.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, muito bem colocada a questão. Desde a adolescência o nome “socialista” na sigla do partido de Hitler me intriga, afinal eu era um engajado comunista.

      O Nazismo, considerado uma vertente do Fascismo (indiscutivelmente de extrema-direita), acabou também sendo identificado como direita, porém difere do Fascismo por ter desde o início um traço esquerdista que justifica a palavra “socialista” em sua sigla. Ou seja, o Nazismo tentava colocar o Estado alemão a serviço do seu povo, no sentido coletivista almejado pelos socialistas, mesmo que para isto fosse necessário subjugar outros povos (algo que aconteceu também com a URSS, diga-se de passagem). Daí a adoração ao Estado e ao líder populista, bem aos moldes stalinistas, uma das inspirações de Hitler, principalmente no quesito extermínio em massa.

      Claro que os meios de produção capitalista colocaram o Nazismo no campo da direita na década de 30, critério este que não seria válido para os dias atuais, uma vez que a esquerda moderna também aderiu aos meios de produção capitalista.

      Portanto, nos dias atuais o nazismo estaria indiscutivelmente no campo da esquerda, afinal o Nacional-Socialismo de hoje luta contra o sistema atual, identificado com os EUA.

      Veja um trecho do site do Nacional-Socialismo onde eles apontam seus inimigos: “Consideramos o Mundo Moderno e a atual “civilização” ocidental como nossos maiores inimigos. Constitui-se de uma sociedade absolutamente materialista e capitalista com uma filosofia burguesa e individualista. Um império construído pelo interesse e pelo egoísmo. Um império não construído para o Povo, não um império cultural ou espiritual, mas um Sistema formado por oligopólios, monopólios, grande corporações e uma mídia de massa doentia financiada por um Estado imoral e anti-nacional que protege os interesses dos poderosos e do Sionismo”.

      Ou seja, nada mais esquerdista.

  7. aliancaliberal says:

    Reparou que as ideias e os fundamentos são os mesmos da atual esquerda só trocar o racialismo, não confundir com racismo , e colocar classe social.
    ……..
    O discurso é sedutor e vai de encontro aos anseios de muitos na sociedade, inclusive o NS permite a propriedade privada mas assim como está na nossa constituição ele tem que cumprir uma função social.
    As esquerdas com seus ataques contra o liberalismo e contra a democracia estão abrindo no mundo um espaço que me parece que vai ser ocupado pelo NS, um exemplo é o NS Russo.
    ……..
    http://www.stormfront.org/forum/f173/

    • Amilton Aquino says:

      O que acontece com o nazismo hoje é algo semelhante ao que aconteceu com Getúlio Vargas. Da mesma forma que na primeira metade do século passado Hitler e Vargas eram considerados de extrema direita, hoje são ídolos daqueles que combatem o mundo globalizado: os esquerdistas e nazistas. Vejam como o nosso Vargas, simpatizante de Hitler, se tornou o ídolo de uma das mais importantes correntes de esquerda do Brasil: o PDT de Leonel Brizola. Além de ser o patrono da nova onda estatizante do atual governo.

  8. Sandro says:

    Amilton,

    uma coisa que me chama atençao no nazismo é que eles, sendo de esquerda, condenam o materialismo e cultuam o espiritual, ao contrário do comunismo científico de marx!

    • Amilton Aquino says:

      Sandro, claro que vamos encontrar muitas diferenças. Aliás, apesar das convergências, ambos se consideram adversários, mesmo com tantas convergências como demonstramos nos comentários anteriores.

      Quanto à questão religiosa, desde o início o nazismo mostrou-se “cristão”, aproximando-se tanto dos protestantes quanto dos católicos. Talvez por isso a Igreja Católica mostrou-se tão reticente (para não dizer conivente) com Hitler.

      Marx, ao contrário, combatia a religião. No entanto, há muito tempo a esquerda “flexibilizou” este seu traço, pois foi nos círculos católicos que surgiu um importante braço da esquerda: a Teologia da Libertação.

      Sob as relações da Igreja Católica com o Nazismo, sugiro o filme “Amem” de Costa-Gravas.

  9. Sandro says:

    Amilton,

    Ótimo filme o AMÉM! Quando comecei a ler o post me lembrei dele. Por outra lado, tenho que te sugerir um outro filme, alemão, chamado O NONO DIA (http://www.imdb.com/title/tt0411702/), que trata justamente dos padres católicos que eram enviados para os campos de concentração pelos nazistas.

    • Amilton Aquino says:

      Este “9º dia”, apesar de ser também muito bom, é uma espécie de “resposta” católica ao filme “Amém”, pois tenta mostrar os padres como vítimas nazistas. É sempre bom ouvir os dois lados. Muito bem indicado.

  10. Sandro says:

    Me lembrei que tinha transcrito aqui, justo sobre esse tema de DIREITA X ESQUERDA, a definição do filósofo e professor Olavo de Carvalho sobre estas duas correntes:

    Olavo de Carvalho – Diferença entre a esquerda e a direita.

    Bobbio define assim: “ser de esquerda é ser guiado pela perspectiva da igualdade social”
    Mas que coisa mais cretina. Qualquer um que tenha estudado um pouquinho, quer que seja Karl Marx, sabe que nenhuma corrente política pode jamais ser definida apenas pelo seu discurso de autolegitimação. Existe o discurso de autolegitimação e existe a ação; existe o objetivo auto-proclamado e existe a ação exercida para implementar esses objetivos. Então, existe uma articulação entre os discursos de autolegitimação e a ação imprimida. É só na dialética entre os dois que se compreende o que é uma corrente política. Mas o Norberto Bobbio não sabe que não se pode definir isso só pelo seu objetivo proclamado, autolegitimador.

    Então, na realidade das coisas, como é que se articula ação e discurso? Inclusive, o discurso é parte da ação, não tem uma existência autônoma política.

    A esquerda, de fato, usa o discurso da igualdade econômico-social, só que a esquerda não se define por esse discurso, por que ele é adotado por outras correntes também. Segundo Aristóteles, para você achar uma definição, se tem que pegar o gênero próximo e diferente específicos. Então, a perceptiva da igualdade não é a diferença específica da esquerda, por que outras correntes também marcam/adotam(?).

    Então, qual é a diferença específica? A diferença específica é que as esquerdas propõe realizar as igualdades econômico-sociais através do poder político, através da intervenção do poder político na sociedade (trecho inaudível)… e seus órgãos associados na sociedade.
    Isso significa que, para criar a igualdade econômico-social, tem que se criar uma diferença brutal de poder político. Então, aumenta a diferença de poder político, ao ponto de o governante ser onipotente e o cidadão totalmente impotente, para poder realizar a igualdade econômica e social.

    Então, o socialismo, a esquerda em geral, procura a centralização do poder para, exerce esse poder centralizado, instaurar a tal da igualdade econômica e social.
    Acontece que, quando se adquiri mais poder político, o poder econômico vem junto necessariamente, porque o poder político para agir, ele tem que ter os meios econômicos para isso. Então quer dizer que, a realização da igualdade social a partir do poder político cria uma diferença de poder político, essas medidas de base, e cria junto com elas uma desigualdade econômica e social maior ainda, como aconteceram em todos os regimes socialistas do mundo. Então, é isso que define a esquerda, essa dialética entre igualdade econômica e social e desigualdade política.

    Agora, se se pensar o que define a direita, vai se ter um problema, por que não existe uma uniformidade mundial da direita nesse sentido, não há uma simetria entre direita e esquerda nesse sentido, passa a ser de direita quem a esquerda defini como tal. Já dizia XXXX (inaudível), quem defini a direita é a esquerda, a esquerda é indicativa da revolução, então aquele que se opõe é a reação, é a direita, etc. Claro que existe a direita e existe uma infinidade de direitas absolutamente incompatíveis entre si, que não pode sequer formar uma aliança. Mas onde existe, nos países e nas circunstancias onde existe uma direita mais ou menos estabelecida e autoconsciente, como acontece nos Estados Unidos, se pode dizer que a direita é aquela que aceita certos níveis? (palavra inaudível) de desigualdade econômica e social para impedir que aumente a desigualdade de poder político. Pelo menos é a ideia dela! É isso que realmente acontece. Porém, o Norberto Bobbio, que acha que é possível definir uma corrente política somente pelo seu discurso de auto-legitimação, é porque (trecho inaudível) só consegue operar no mundo das ideias, não faz a articulação entre ideia e realidade, que é exatamente o que define a política. Norberto Bobbio é mais (inaudível) do que político. Acho que o sucesso dele no Brasil é um dos sinais gravíssimos de perda de QI.

    http://www.youtube.com/watch?v=voeXT3CfAFg

    • Amilton Aquino says:

      Não vou me aprofundar muito neste trecho que vc citou do Olavo porque teria que antecipar algumas conclusões desta série. Tenho algumas discordâncias, mas, no geral é isso mesmo. Embora a esquerda veja conspiração da direita em tudo, a verdade é que a direita é desarticulada (principalmente depois da globalização), pois esta última não tem um discurso de legitimação tão bonitinho como o da esquerda. Daí, concordo plenamente com o Olavo, a esquerda, muito mais organizada, passa a definir quem é de direita na base do “nós contra eles”, sendo que “nós” somos os certos (apesar dos tantos equívocos do passado) e “eles” são o mal a ser extirpado.

  11. Sandro says:

    Uma outra ótima definição dada pelo filósofo Olavo de Carvalho é sobre o comunismo/socialismo:

    O que que é o comunismo?

    Nós temos aqui a luta de classes, os capitalistas estão explorando os pobrezinhos, então nós vamos ter que intervir e acabar com esta coisa! De cara, você tem que criar um aparato de poder que seja mais forte do que a totalidade dos capitalistas! O capitalista já enche o seu saco, não enche? Enche seu saco, te explora, as vezes mente para você, te vende uns negócios que não presta, que você não deveria comprar, mas compra por que acreditou na propaganda! agora você imagina um aparato de poder mais poderoso que os capitalistas, que ele tenha na sua mão não só o poder político, militar e policial, mas também o poder econômico?! A definição de comunismo é essa: A fusão de poder econômico e político! Numa democracia capitalista você pode se refugiar do poder econômico no poder político e vice-versa. Por exemplo, o governo ta te oprimindo você vai lá e procura os milionários, os caras ricos para sustentar a sua campanha que você pode fazer contra o governo com o dinheiro deles e ai você se safa, ao contrário, se você tem um capitalista te perseguindo, você vai no governo, vai no aparato judicial, e ele te protege! Agora, no socialismo funde as duas coisas, então, isso quer dizer que você não tem para onde correr, socialismo é isso, não ter para onde correr, porque a autoridade é centralizada, o poder é centralizado e o poder econômico também é centralizado, então isso nunca vai poder ser coisa boa. É gozado que as pessoas acreditam que tem gente que é socialista por boa intenção, não existe boa intenção quando não existe amor à verdade, e não existe amor a verdade quando as pessoas não querem fazer as perguntas, e a pergunta principal é o que que é o socialismo?! O socialismo é a fusão de poder econômico com poder político e militar, e disso coisa boa não pode sair jamais!

    • Amilton Aquino says:

      Concordo plenamente. O principal erro do comunismo foi tentar igualar o que por natureza é diferente. Ora, cada um de nós temos identidades próprias, gostos diferentes, perspectivas diferentes. Tem gente que se contenta em ganhar o pouco e ter um tempo para ler ou assistir bons filmes. Outros querem sempre mais, não encontram limites para suas ambições. São estes os vilões? Pode até ser, mas mesmo estes tem funções importantes no conjunto da sociedade. O primeiro normalmente é empregado do segundo e, apesar de ser privado de muitos confortos que o segundo desfruta, normalmente é mais feliz. Mas o mais importante é que nas sociedades capitalistas tanto o primeiro quanto o segundo têm a oportunidade de mudar (ou pelo menos tentar mudar) os rumos de suas vidas. No comunismo, como vimos no século passado, isto era bem mais complicado. Claro que temos também exemplos extremos, mas no geral é isso que acontece nos países do primeiro mundo.

  12. Alan Patrick says:

    No Brasil a extrema política econômica neoliberal do governo FHC deixou como herança o alto desemprego,desmonte do Estado brasileiro,piora dos serviços públicos,aumento da dívida pública,sucateamento das universidades federais,criminalização dos movimentos sociais,submissão ao FMI e o aumento da desigualdade social. As políticas neoliberais onde foi aplicada no mundo tiveram o efeito nefasto de causar o aumento da miséria,desemprego e perda de direitos sociais. As crises econômicas de 1929 e a de 2008 comprovaram a ineficácia do neoliberalismo(capitalismo selvagem) e a necessidade de seguir as idéias Keynesianas. O governo Lula fez bem em não ter dado continuidade a extrema política econômica neoliberal do governo FHC,visto que se ele tivesse seguido os dogmas da cartilha neoliberal durante a crise de 2008,o Brasil teria sido um dos primeiros países a entrar na crise e estaria nela até o momento.

    • Amilton Aquino says:

      Alan Patrick,
      Este é o discurso oficial, do marketing do PT. Na realidade, a história é um pouco diferente. Como já respondi várias vezes comentários como este seu, então vou apenas postar alguns links do nosso blog sobre os temas que vc citou. Se vc tiver argumentos de fato, seja bem vindo. O espaço aqui não é para fazer politicagem, e sim chamar as pessoas à reflexão para que tirem suas própria conclusões e não fiquem apenas repetindo o que ouviram.

      Para começar, sugiro que comece pela contextualização do governo Lula: http://www.visaopanoramica.net/2009/07/19/contextualizando-o-governo-lula/

      Todas as mazelas da era FHC que vc cita têm a ver com o aumento do dívida. Portanto, sugiro que leia a última parte da série de dez artigos sobre a dívida pública: http://www.visaopanoramica.net/2009/10/31/lula-e-a-divida-publica-final/

      Sobre o Keynesianimo, uma das quatro vertentes do liberalismo, diga-se de passagem, que agora se tornou a bandeira das esquerdas, é preciso lembrá-lo que tanto a crise de 1929 quanto a crise de 2008 tiveram suas origens em ações intervencionistas do próprio governo norte-americano. Não sei se vc sabe, mas foi o governo Clinton que, mais preocupado em promover um crescimento a qualquer custo (assim como Lula), incentivou os norte-americanos a se endividarem muito mais do que podiam. Como sempre, o preço das medidas keynesianas vai para o futuro. E o futuro finalmente chegou, e com ele a fatura das medidas artificiais do passado. Aliás, como está ocorrendo agora também com a Dilma.

      Sobre o fato do Brasil “passar bem” pela crise, vale lembrá-lo que parte disso se deve ao PROER, tão combatido pelo PT da oposição, além, claro, do fato do Brasil ser um dos emergentes. Mesmo assim, nossa economia encolheu 0,6%, enquanto que China e Índia continuaram crescendo na casa 8% e 6%, respectivamente.

      E por falar em emergentes, o Brasil, que vc acha que começou em 2003, continua na rabeira, crescendo menos inclusive que a média da América Latina. Sobre este assunto, sugiro que leia http://www.visaopanoramica.net/2010/09/14/um-olhar-estrangeiro-sobre-a-america-latina-o-brasil/

      Portanto, amigo, dizer que FHC quebrou o Brasil é colocar a importância das ações do presidente muito acima da importância real da economia brasileira e do contexto mundial, o que, convenhamos, é um imbecilidade. É esta mesma crença no poder do presidente (acima inclusive dos verdadeiros geradores de riqueza) que o faz crer que o Brasil começou em 2003, o que é outra imbecilidade.

      Abraço e volte sempre.

  13. Sandro says:

    Amilton,

    Outro fato importantíssimo, que passa batido na história, para lembrar ao leitor acima, Alan Patrick, é o PROES!

    “O PROES é o correspondente ao PROER nos bancos públicos, que estavam em pior situação que os privados. (…) ninguém fala do PROES por que não pode usar esse argumento: é para favorecer o banco público, o banqueiro, por que o banqueiro lá eram os políticos (…) A dívida agrária do Banco do Brasil era de 20 bi USD, a nossa dívida externa era de 40 bi USD, logo, era de metade da nossa dívida externa!
    Sugiro que assistam todas as partes desta entrevista, que considero um documento histórico!

    FHC fala sobre reestatização, PROER e PROES (6/15)
    http://www.youtube.com/watch?v=GGyYXzWNNP4&feature=channel

    Abs

    • Amilton Aquino says:

      Bem lembrado, Sandro. Quem vê o BB, a CEF e o BNDES hoje não imagina que o governo FHC teve que emitir títulos da dívida interna no valor de R$ 70 bilhões (o equivalente ao que recebeu nas privatizações) para recuperá-los e torná-los competitivos. Hoje são peças fundamentais para o “sucesso” do governo do PT, assim como as mega-empresas que surgiram depois da abertura da economia e das privatizações.

  14. aliancaliberal says:

    Amilton o “esquerdismo” é uma religião, o Deus deles representa o bem e os não crentes desejam o “mau” para o mundo.

    A questão já passou do nivel economico e depois do politico, agora é uma questão de FÉ.

    A partir dai (atualmente) eu já começo a ficar com medo.

    • Amilton Aquino says:

      Realmente é preocupante. Acredito muito na força da razão, mas confesso que também fico preocupado com o acirramento político em que nosso país foi estimulado por Lula, quando começou a atribuir o mensalão a um “golpe da direita”, como se este nunca tivesse existido. Tem militante do PT que realmente acredita nisso, apesar do próprio ex-presidente admitir, longe das câmeras, lógico, que sabia do esquema. É uma inversão total de valores. Assim como Maluf, que tem o “dom” de negar tudo que está mais que provado, o governo do PT parece ter aprendido esta “lição”. Os mensaleiros serão todos absolvidos, não tenho dúvida. Até mesmo o Delúbio que agora está prestes a retornar ao PT. A corrupção ficou institucionalizada. Nada mais escandaliza. Nada mais prova nada.

  15. Alan Patrick says:

    Amilton, fiz a leitura dos textos que vc sugeriu. O que mais me chamou a atenção neles foi a tentativa de “vender” a idéia de que os avanços do governo Lula são frutos do governo FHC. A expressão popular que diz que quando o filho e bonito todo mundo quer ser o pai e uma expressão que exemplifica muito bem essa tentativa tucana de querer ganhar a paternidade dos avanços sociais e econômicos que ocorreram no governo Lula. Não “acho” que o Brasil tenha começado em 2003,mas considero que o Brasil passou a ter um governo popular e voltado para as questões sociais a partir de 2003. O governo Lula ao contrário do governo FHC que criminalizava os movimentos socias e não recebeu as centrais sindicais uma unica vez para negociar aumentos salarias e outro benefícios para o trabalhador,manteve uma postura de diálogo e negociação com os movimentos sociais,a política de valorização do salário mínimo(inflação do ano+variação do PIB de dois anos atrás) por exemplo e resultado da negociação do governo Lula com as centrais sindicais em 2007,essa política contribuiu nos últimos anos para melhorar o poder de renda do trabalhador e consequentemente fortalecer o mercado interno brasileiro.
    O governo FHC como vc deve saber seguiu a lógica do Estado mínimo e delegou para a iniciativa privada o papel de principal indutor do desenvolvimento econômico,o contrário portanto do governo Lula que fortaleceu e passou para o Estado Brasileiro o papel de principal indutor do desenvolvimento. O resultado econômico e social da extrema política econômica neoliberal do governo FHC como vc deve saber foi:alto desemprego,baixo crescimento econômico,piora dos serviços públicos,sucateamento das universidades federais,submissão ao FMI,privatizações a preço de banana,risco Brasil estratosferico,aumento da carga tributária,dívida pública crescente,baixas reservas internacionais,apagão elétrico…
    O governo Lula por outro lado teve o êxito de ter contido o desmonte do Estado Brasileiro que vinha sendo feito,investido nas empresas estatais,ter criado o Fundo Soberano,ter implantado o Prouni,ter feito investimentos essenciais em infraestrutura,aumentado os investimentos sociais,ter reduzido o risco Brasil de mais de 2000 pontos para próximo de 240 pontos e etc.
    Uma diferença marcante e que no governo FHC o Brasil teve baixo crescimento econômico e aumento da concentração de renda,enquanto no governo Lula o Brasil cresceu economicamente distribuindo renda e com maior inclusão social.
    Sobre a crise de 2008,que se iniciou nos EUA e que se propagou pelo mundo,ela não ocorreu devido ao aumento da intervenção do Estado na economia,mas sim devido a crença infundada de que o mercado se auto-regula sozinho,tanto que se o Estado não tivesse intervido a crise provavelmente teria ficado pior.No Brasil o que contribuiu para que a crise não chegasse um tsunami por aqui foi o mercado interno fortalecido e a continuação dos investimentos do governo em infraestrutura,o que contribuiu para dinamizar a economia nos anos posteriores e gerar milhões de empregos com carteira assinada.

    PS:Sobre a questão de levar em conta a circunstância de cada governo e importante que vc note que o governo FHC seguiu a cartilha do consenso de Washington da década neoliberal de 1990,que como ficou registrado na história por onde passou causou desastres econômicos,socias e somente beneficiou uma pequena minoria.
    Abraços!

    • Amilton Aquino says:

      Patrick,
      Não parece que vc leu os posts que lhe indiquei, pois continua repetindo os mesmos argumentos superficiais, confundindo os números da nossa economia com a atuação do presidente. Por exemplo, vc citou novamente o problema da dívida. Ora, se vc leu o post que te indiquei deveria saber que 80% da dívida aumentada na era FHC foi decorrente da transferência das dívidas dos estados e municípios para União, assim como dos esforços para resolver pendências de governos anteriores (esqueletos) e para fortalecer os bancos públicos, através do PROEES.

      No governo Lula, apesar de não ter que assumir tais ônus, e mesmo contando com o mecanismo do superávit primário, deixado por FHC, que deveria praticamente quitar a dívida interna em 10 anos (caso o governo Lula tivesse reduzisse o ritmo de emissão de títulos da dívida pública), não só aumentou a dívida em um ritmo ainda maior que na era FHC, como ainda alterou a metodologia de contabilidade da dívida para fazê-la parecer menor. Sobre este assunto, sugiro que leia: http://www.visaopanoramica.net/2009/10/10/lula-e-a-divida-publica-parte-7/

      Portanto, amigo, desemprego, o baixo crescimento econômico, o risco Brasil, aumento da carga tributária, etc., etc. são apenas resultantes de um contexto histórico que qualquer que fosse o presidente da época teriam sido semelhantes.

      Para poupar saliva, vou usar os mesmos argumentos que usei para responder um comentário bem parecido com este seu.

      Compare os cenários:

      – Durante os 8 anos de FHC o PIB mundial subiu de US$ 30 trilhões para US$ 33 trilhões. Entre 2003 e 2008, o PIB mundial pulou de US$ 33 trilhões para US$ 60 trilhões!

      – O dólar só subia na década de 90, como reflexo do poderio norte-americano que pousava como única superpotência. Hoje o dólar desvalorizado em todo mundo, refletindo a decadência dos EUA.

      – O dólar valorizado pressionava a nossa inflação e forçava o governo a aumentar os juros da dívida, uma vez que o dólar era na época uma modalidade de aplicação concorrente dos títulos do Tesouro. Hoje o dólar barato ajuda a conter a inflação e a reduzir a dívida pública.

      – O Brasil da década de 90 tinha como principal desafio combater a inflação e criar a condições macroeconômicas para o crescimento. O Brasil dos anos 2000 tem a doce missão de crescer!

      – A série de crises dos anos 90 e início de 2000 atingiram principalmente os países do 3º mundo e os emergentes. A única crise que Lula pegou diminuiu o poder dos países do primeiro mundo e fortaleceu a posição dos emergentes que foram promovidos a “locomotiva do mundo”.

      – A América Latina toda em crise nos anos 90. A América Latina toda crescendo acima da média mundial nos anos 2000!

      – O Brasil da década de 90 era um candidato a emergente. O Brasil dos anos 2000 foi elevado à condição de emergente quando ainda em 2002 foi citado pela primeira vez como um dos BRICs. Ou seja, não foi por causa de Lula, certo?

      Bom, poderia citar vários outros fatores que custaram caro a FHC e que pavimentaram o caminho para Lula, mas vou ficar por aqui para não me tornar repetitivo.

      Quanto à redução da pobreza, este também é um fenômeno que acontece em vários outros emergentes, fruto do ambiente econômico favorável e das políticas de distribuição de renda implantados em vários países, indicados pelo BIRD. Portanto, o governo Lula não fez mais que sua obrigação, em um ambiente internacional altamente favorável e sem crises e com os principais produtos de exportação com os preços duplicados no mercado internacional.

      Sobre o socorro do FMI na era FHC, esta foi apenas uma conseqüência do ambiente instável da época. Não foi só o Brasil que recorreu ao FMI. Com exceção do Chile, quase toda a América Latina foi socorrida. Aliás, temos aí mais uma diferença de cenários, pois hoje o FMI socorre países ricos. Hoje a América Latina procura os credores para quitar suas dívidas. Até a Argentina, que deu vários calotes no FMI e no Clube da Paris finalmente fechou acordos para quitar suas dívidas! Além do mais, vale lembrá-lo que o empréstimo assinado por Lula foi decorrente do medo do mercado de que o falastrão fizesse alguma bobagem na economia. Tanto que teve que aliciar um tucano para ficar no BC.

      Se vc ver os indicadores econômicos do Brasil no início de 2002, vai ver que a recuperação econômica começaria já naquele ano, se Lula não tivesse subido nas pesquisas. Até os juros que tinha chegado ao recorde de 46% no auge da crise de 1999 recuaram para 18%, percentual este que se manteve durante quase todo governo Lula e só veio baixar a partir da crise de 2008. E mesmo assim já voltou a subir por culpa da irresponsabilidade do governo.

      Ah, e por falar em FMI, por que será que Lula, mesmo faltando dinheiro aqui, empresta uma merreca ao FMI? Ora, se o FMI é o explorador que Lula diz que é, por que emprestar dinheiro ao explorador? Das duas uma: ou Lula não vê o FMI como explorador, como faz questão de fazer parecer nas suas costumeiras bravatas, ou então empresta o dinheiro que nos falta só para se vangloriar.

      Sobre o aumento do mínimo, Lula também não fez mais que sua obrigação, pois o mínimo já vinha sendo recuperado por FHC mesmo em meio às diversas crises que enfrentou. Vejamos:

      Salário inicial de FHC: R$ 70,00
      Salário final de FHC: R$ 200,00
      Ganho total: 185,71%
      Inflação do período: 102,8%
      Ganho real: 40,88%

      Salário inicial de Lula: R$ 200,00
      Salário final de Lula: R$ 510,00
      Ganho total: 155,00%
      Inflação do período: 108,75%
      Ganho real: 22,16%

      Ou seja, mesmo diante de um quadro tão amplamente favorável, o governo Lula ainda conseguiu perder para FHC em uma das suas principais bandeiras. Isto para não falar da tão falada “reforma agrária” que terminou sendo substituída pelo aliciamento do MST.

      E sobre a política aprovada com os pelegos das centrais sindicais, mal o “acordo” começou a vigorar a Dilma já acenou com um novo projeto, que “não pressione as contas públicas”. Ora, se o acordo é tão bom, por que não continuar? Ela fez os cálculos e sabe o problemão que esta política vai trazer à longo prazo. Aliás, já no próximo ano. Não se iluda, este é mais um exemplo de um governo irresponsável que jogou para torcida, protelou todas as reformas pendentes e prometidas ainda no discurso do primeiro mandato.

      Sobre a “indução do desenvolvimento” pelo Estado, a história está repleta de exemplos fracassados. Por enquanto, o governo Lula está financiando as grandes empreiteiras com empréstimos do BNDES que não entram na contabilidade da dívida líquida, embora já tenha levado a dívida bruta para perto dos R$ 2,4 trilhões! E para que tudo isso? Para acelerar um crescimento que não pode ser acelerado por falta de infra-estrutura. A conta, claro, vai para o futuro, mas os resultados já são visíveis, pois o Brasil em seu melhor momento nas últimas décadas já apresenta déficit nas contas.

      Sobre o neoliberalismo, mais uma inversão de valores, pois Lula é um dos maiores beneficiados. Ora, de onde vem os recordes sucessivos de arrecadação do governo? Da Vale, da Embraer, da Ambev, da OI, da Vivo e tantas outras grandes empresas que se agigantaram com as medidas neoliberais de FHC, inclusive a Petrobrás, que teve a produção triplicada em apenas dez anos, a partir da quebra do monopólio do petróleo.

      Sobre a decadência dos EUA e a conseqüente crise de 2008, desde os anos 60 já era prevista. Segue um bom artigo do Kanitz que vai ajudá-lo a perceber na prática as conseqüências do intervencionismo do governo na economia: http://blog.kanitz.com.br/a-crise-de-2008-.html

      Quanto à defesa do legado de FHC, alguns brasileiros como eu nos sentimos no dever de fazê-la, uma vez que este foi praticamente abandonado pelo PSDB, tornando-se o alvo fixo de Lula que passou todos estes anos desconstruindo a sua imagem, ao mesmo tempo em que promovia o culto a si próprio. Portanto, o ditado que vc citou “quando o filho e bonito todo mundo quer ser o pai” se aplica melhor a Lula, pois se apossou de todas as conquistas dos governos anteriores, inclusive das medidas neoliberais que tanto critica no discurso, porém continua colocando em prática, como as privatizações, por exemplo.

      A questão, portanto, é dar a César ao que é de César. Aliás, como tantos e tantos petistas já reconheceram (e até mesmo o próprio Lula em um lampejo de sinceridade admitiu recentemente – depois das eleições, claro). Talvez por desconstruir a imagem de FHC é que agora Lula está tão preocupado com a “desconstrução da sua imagem”. Afinal, a verdade um dia vem à tona. E algumas já começam a aparecer, felizmente.

  16. Sandro says:

    Interessante e atual artigo do Delfin Netto, exatamente sobre o tema dos posts:

    A religião dos economistas, por Delfim

    Do Valor

    Caiu a ficha!

    Antonio Delfim Netto
    29/03/2011

    Caiu a ficha! A expressão não é elegante, mas cabe como uma luva aos economistas que ao pretenderem criar uma “ciência”, construíram uma “religião”: uma “ciência econômica” que acredita em leis naturais que governam o funcionamento do sistema econômico e são, portanto, independentes da história, da geografia, da psicologia, da antropologia etc.

    Tal crença apoiada numa formalização útil, mas exagerada para lhe dar um ar “científico”, interditou ou reduziu à heterodoxia visões alternativas do mundo e produziu o míope “pensamento único” que empobreceu a economia política. Está agora a desfazer-se sob os nossos olhos, sob a pressão de velhíssimos ortodoxos! Esses tentam, desesperadamente, entender como foi possível a crise de 2007/2009 que emergiu como uma “surpresa” numa conjuntura que parecia de plena tranquilidade e atribuída ao sucesso daquela “ciência monetária”…

    Nada pode demonstrar melhor essa tragédia do que as contribuições de brilhantes economistas (todos do “mainstream”) à conferência “Repensando a Política Macroeconômica”. Ela foi organizada às expensas do FMI, por Olivier Blanchard (economista-chefe do FMI e autor de dois clássicos, um dos quais, desde 1989, dominou o estudo “sério” da macroeconomia), David Romer (autor da bíblia “Macroeconomia Avançada”), Joseph Stiglitz (Nobel, 2001) e Michael Spence (Nobel, 2001).
    Na semana passada (dia 23) Blanchard publicou um minúsculo e devastador artigo “O Futuro da Política Macroeconômica: Nove Conclusões Tentativas”, resumindo os resultados da conferência (obviamente, uma visão pessoal, mas seguramente não viesada):

    1ª) Entramos num magnífico (“Brave”) mundo novo, muito diferente do que vivíamos em termos do exercício da política macroeconômica;

    2ª) Na velha discussão entre o papel relativo dos mercados e do Estado, o pêndulo avançou – pelo menos um pouco – na direção do Estado;

    3ª) Há distorções sérias e muito maiores do que pensávamos na macroeconomia. Elas foram ignoradas porque supúnhamos que fossem pertinentes à microeconomia. Quando integramos as finanças à macroeconomia descobrimos que suas distorções são relevantes para a segunda e que a regulação precisa ser aplicada também aos reguladores. A economia comportamental e sua prima, a finança comportamental, são peças centrais da macroeconomia;

    4ª) A macroeconomia tem múltiplos objetivos e muitos instrumentos (ferramentas) para implementá-los. A política monetária precisa ir além da estabilidade inflacionária. Precisa acrescentar o PIB e a estabilidade financeira como objetivos e incorporar medidas macroprudenciais entre os seus instrumentos. A política fiscal é mais do que “gastos” menos “receitas” e seus “multiplicadores” que influenciam a economia. Existem, potencialmente, dezenas de instrumentos, cada um com seus próprios efeitos dinâmicos que dependem do estado da economia e das outras políticas;

    5ª) Temos muitos instrumentos e não sabemos exatamente como utilizá-los. Em muitos casos, não temos certeza sobre o que eles são, como e quando devem ser utilizados e se vão ou não funcionar. Por exemplo, nós não sabemos de fato, o que é a liquidez. Logo, “relação de liquidez” é apenas a continuação do que não sabemos;

    6ª) Esses instrumentos são potencialmente úteis, mas levantam problemas por seu custo político. Por outro lado, os instrumentos podem ser mal utilizados. Ficou claro nas discussões que muitos pensam que existem razões plausíveis para o controle de capitais, ou para a política industrial (que todos sabem ter limites), mas o governo pode escolhê-los porque não lhe convém, politicamente, usar os instrumentos macroeconômicos corretos;

    7ª) Para onde vamos, então? Em termos de pesquisa econômica o futuro é excitante. Há um imenso número de questões que devemos esclarecer e sobre as quais devemos trabalhar;

    8ª) Os problemas são difíceis. Como não sabemos bem como usar os novos instrumentos e eles podem, potencialmente, ser mal utilizados, como devem proceder os formuladores da política econômica? O melhor é uma política cuidadosa e de pequenos avanços. O pragmatismo é fundamental;

    9ª) Devemos ser modestos em nossas esperanças. Vão acontecer novas crises que não antecipamos. A despeito de todo nosso esforço podemos assistir a outras, no velho estilo das clássicas crises de crédito. Seria possível nos livrarmos delas com uma boa teoria dos agentes e uma regulação correta ou elas são parte do comportamento humano (endógenas ao sistema de economia de mercado) de forma que não importa o que façamos, elas sempre nos visitarão?

    Abre-se, portanto, um vasto campo de conhecimento a ser explorado. Não devemos desanimar ou nos deixar enganar por essa visão relativista (de aparência quase niilista com relação a uma “ciência econômica”). O conhecimento acumulado nos últimos 300 anos, de cunho menos pretensioso, que transcende “escolas”, “ideologias” e “idiossincrasias” – a velha economia política – é, comprovadamente, rico de ensinamentos para a boa governança do Estado. Ele mostra a importância absoluta da boa coordenação entre a política fiscal e a política monetária, do incentivo correto aos agentes, da boa regulação dos mercados e a necessidade do respeito às identidades da contabilidade nacional.

    Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

    • Amilton Aquino says:

      Sandro, convenhamos, 80% do artigo é do Olivier Blanchard. Delfim só faz a introdução. Eeheheehee! Brincadeirinha. O artigo é bem pertinente. A história nos tem mostrado até aqui que, apesar dos trancos e barrancos, o capitalismo tem avançado a cada crise e a globalização tem levado o desenvolvimento para um número cada vez maior de países. Tanto que não se discute mais capitalismo x comunismo. A discussão agora gira em torno de duas vertentes do liberalismo: liberais clássicos x liberais keynesianos. Mesmo assim, os esquerdistas continuam se achando os donos da verdade.

  17. aliancaliberal says:

    Um setor que não e capitalista e tem que tornar-se capitalista por mais estranho que possa ser meu argumento é o setor financeiro.
    Esta coisa de moeda fiducitaria de curso forçado + sistema finaceiro de reservas fracionadas é fraude, 171, estelionato, picaretagem e demais adjetivos.
    ………..
    E o pior que NINGUEM critica.
    ……….
    A moeda é um bem cultural de uma sociedade não dos governos.
    ……..
    FREE BANKING + padrão-ouro puro + 100% de reservas não teriamos crises, os governos não teriam como imprimir dinheiro sem lastro, os bancos não criariam dinheiro do nada, não haveria guerra cambial, não haveria inflação pelo contrário haveria deflação e redução dos custos.

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, realmente é uma idéia bem original. Mas acho que os movimentos especulativos teriam mais força. Aliás, isso já ocorre hoje, porém o fato do governo ter algum instrumento de controle contrabalanceia um pouco esta correlação de forças. Seria perfeito se a ética prevalecesse. Como ainda estamos muito distantes disso, não vejo com bons olhos uma iniciativa tão radical.

      De fato, os bancos centrais de todo mundo são hoje um dos focos das distorções capitalistas. Porém, acabar com eles seria como acabar com a polícia em uma sociedade.

  18. aliancaliberal says:

    A questão é que a “policia BC” esta em conluio com os bancos, inclusive da garantias pode roubar que eu garanto.
    ………..
    O sistema bancário é infinitamente mais lucrativo quando opera com reservas fracionárias — o que pode ser melhor do que poder criar moeda do nada, emprestar e ainda cobrar juros sobre essa criação fictícia?

    Seria de se esperar que o setor bancário brigasse intensamente junto ao governo pela manutenção de seus privilégios. Eles jamais abririam mão facilmente de uma atividade tão lucrativa. Já o governo, por sua vez, também não teria o menor interesse nesse tipo de reforma do setor bancário — afinal, os governos dependem do sistema de reservas fracionárias para financiar seus déficits a juros baixos; os governos têm total interesse em ter sempre um acesso imediato a qualquer dinheiro adicional e barato, o qual o sistema de reservas fracionárias é ótimo para entregar.

    Por fim, o fornecimento desse dinheiro adicional e barato para o governo é um serviço que bancos operando com 100% de reservas são incapazes de oferecer.
    ………..
    http://migre.me/4almB

    • Amilton Aquino says:

      Liberal, este é um tema que divide até mesmo a escola austríaca. É um típico caso de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Confesso que também não tenho ainda uma opinião bem definida, mas certamente a solução passa por uma maior vigilância por parte da sociedade. Veja o nosso caso. O primeiro governo Lula fez um esforço para zerar os títulos em poder do BC. Ao conseguir o feito, em 2006, já no ano seguinte, os títulos resurgem, agora fora da contabilidade da dívida, com um montante ainda maior: quase R$ 300 bilhões! E ninguém questiona o porquê disso. Nem imprensa, nem políticos, nem MP… É por isso que eles fazem e acontecem. Quando estoura uma crise todos ficam se perguntando como ninguém previu a crise!

  19. aliancaliberal says:

    http://www.youtube.com/watch?v=Qr7DlGRzAok
    ………
    Ron Paul sobre a previsão da crise feita em 2003

    • Amilton Aquino says:

      Muito bom, Liberal. Sempre há uma voz clamando no deserto. Infelizmente quase sempre nunca é ouvida.

  20. aliancaliberal says:

    Amilton os “loucos” agora tem a internet divulgar suas heresias contra o sistema.
    ………….
    Antes foi a invenção de Johannes Gutenberg agora será a internet que mudará o mundo baratiando o conhecimento.

  21. Alan Patrick says:

    Amilton,sobre a dívida pública gostaria que você me sanasse uma dúvida: Por que a dívida pública aumentou tanto no governo FHC se estavam sendo vendidas as empresas estatais? sendo que o próprio governo na época dizia que as privatizações iria contribuir para fazer caixa e consequentemente reduzir a dívida pública.

    Os dados mostram que em 1995 a relação dívida/PIB correspondia a aproximadamente 33%, quando o governo FHC terminou seu mandato em 2002 essa relação dívida/PIB estava aproximadamente em 55% e a taxa de juros(Selic) era de 25% ao ano! O governo Lula portanto recebeu esse “abacaxi” de herança do governo FHC em 2003 e teve o êxito de com uma política equilibrada conseguir reduzir a relação dívida/PIB para próximo de 40% no final de seu mandato em 2010,com uma taxa de juros(Selic) em 10,25%.
    Esse aumento do porcentual da relação dívida/PIB na era FHC se deveu principalmente devido a política irresponsável de juros estratosferico praticado pelo governo tucano,que chegou a praticar taxas de juros acima de 40% entre 1997 e 1999. O governo Lula por outro lado teve o êxito de terminar seu mandato com a redução pela metade(10,25%) da taxa de juros herdada de 25% em 2003,o que contribuiu para que a relação dívida/PIB diminuisse.
    Uma questão que considero fundamental e que seu comentário e seus artigos não abordam e a diferença do projeto político do PT e do PSDB. Penso que a diferença de projeto seguido pelos dois governos explica melhor a tamanha diferença dos resultados sociais e econômicos que foram obtidos pelos os dois governos(sem deixar o contexto de lado).
    O governo FHC como você sabe seguiu os principios da cartilha neoliberal e levou o Brasil a falência três vezes com esse modelo(isso que as três crises internacionais que o governo FHC enfrentou nem se compara com a de 2008!). Nessas quebras da economia do país,o governo brasileiro ia se ajoelhar para o FMI e pedia SOCORRO(dinheiro emprestado),o que levou no final das contas ao aumento a dívida externa e a submissão do governo Brasileiro ao FMI(o Brasil era governado de fora!). Os desastres sociais e econômicos que a cartilha neoliberal deixou para o país esta registrado nos livros de história do Brasil(desemprego,aumento da desigualdade social,perda de direitos socias,criminalização dos movimentos sociais,desmonte do Estado brasileiro e etc).
    O governo Lula felizmente não aderiu a cartilha neoliberal e seguiu outro projeto político:a social democracia. O Estado brasileiro com esse modelo foi fortalecido e se tornou o principal indutor do desenvolvimento econômico,o contrário portanto do governo FHC que defendia o Estado mínimo e delegava para a iniciativa privada o papel de principal indutor do desenvolvimento econômico. O Estado no governo Lula além de aumentar os investimentos sociais,fez grandes investimentos em obras de infra-estrutura,o que contribuiu nos últimos anos para dinamizar a economia e gerar milhões de empregos com carteira assinada.
    A diferença fundamental portanto entre os dois governos esta na concepção do papel do Estado na economia.
    Os avanços sociais e econômicos do governo Lula com esse modelo social-democrata são bem evidentes:crescimento da economia com distribuição de renda,fortalecimento do Estado,criação do Fundo Soberano(algo inimaginavel no governo tucano),implantação do ProUni,criação de 14 novas universidades federais,investimentos na agricultura familiar(Pronaf),maiores reservas internacionais,aumento dos investimentos sociais,maior respeito internacional,fortalecimento do mercado interno e etc.
    Sobre as privatizações,o que posso te dizer e que elas trouxeram mais prejuízos do que benefícios para o país. Foram vendidas(doadas) empresas estrategicas da economia brasileira a preços abaixo do mercado,a Vale do Rio Doce por exemplo,foi vendida por apenas R$3,3 bilhões,um valor bem abaixo do mercado. Outro prejuízo para a sociedade foi os monopólios e oligopólios privados que se formaram após as privatizações. Como você citou os impostos que o governo arrecada da Vale como benefício eu faço o contraponto lembrando sobre a remessa de lucros que a empresa faz para o exterior,o que causa defict na economia brasileira.

    • Amilton Aquino says:

      Allan,

      Mais uma vez vc não leu os posts que te indiquei, pois continua na mesma argumentação superficial, baseada apenas em números, desconsiderando o contexto de cada governo. Portanto, vou ter que postar aqui novamente o post que lhe indiquei como resposta, com a esperança de que desta vez vc leia.

      Sobre a dívida pública:

      A cultura inflacionária

      Para quem não viveu a época de hiperinflação, certamente não tem dimensão do desafio que foi ao Brasil derrotar o seu principal entrave ao crescimento desde o final da década de 70. Só para dar uma idéia aos mais jovens do tamanho do problema, no final do Governo Sarney, a inflação chegou a incríveis 84,32% ao mês. Vários planos econômicos tentaram conter o processo inflacionário sem sucesso até que, no Governo Itamar Franco, finalmente o problema parecia ter sido resolvido.

      Digo “parecia” porque, ao contrário do que muitos pensam, o controle da inflação não foi nenhuma mágica que resolveu o problema da noite para o dia. Na verdade, o processo se estendeu por toda a era FHC e até o início do Governo Lula. Aliás, ainda hoje não se pode dizer que o processo foi completamente concluído, pois existem ainda mecanismos de indexação da economia resultantes da cultura inflacionária que, por falta de coragem do Governo atual, ainda não foram completamente eliminados.

      Naturalmente uma mudança tão brusca na economia trouxe, além dos resultados positivos óbvios, também alguns problemas. Entre os positivos, o mais visível foi, sem dúvida, a melhoria da distribuição de renda com o fim do chamado “imposto inflacionário”. Entre os negativos, o mais visível foi o processo de endividamento, principalmente a explosão da dívida interna. Sobre este assunto, vamos listar as principais conclusões da pesquisa do economista Flávio Rabelo Versiani.

      A explosão da dívida pública na era FHC

      Primeiramente, o pesquisador faz uma distinção entre o processo de endividamento decorrente dos ajustes do cambio (diferença entre o valor do Real em relação ao Dólar) e fatores “não repetitivos” resultantes de reformas na economia. Entre os fatores não repetitivos, o pesquisador destaca três:

      1) Refinanciamento de estados e municípios – Desde a constituição de 1988 que deu mais “liberdade” para os estados e municípios, houve um crescente endividamento nestas esferas do poder público. Entre 1989 e 1998, a dívida líquida dos estados e municípios passara de 5,8% para 14,4% do PIB. Os governadores gastavam mais do que arrecadavam, sendo que o restante era financiado por bancos estaduais, os quais disfarçavam os prejuízos nos tempos de inflação alta pois, assim como o Governo Federal, tiravam da inflação alta parte de suas receitas. Quando a inflação acabou, a situação dos bancos estaduais (e consequentemente os estados) tiveram suas situações de endividamento pioradas. Para desativar a “bomba” que explodiria mais cedo ou mais tarde, em 1997 o Governo iniciou as discussões para a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal e, para aprová-la, teve que se comprometer com os governadores a assumir as dívidas dos estados e municípios.

      “Outra forma de apoio aos estados foi o Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária – PROES, estabelecido pela Medida Provisória 1.514, de 1996, e legislação posterior. Sob esse programa, o governo federal estendeu empréstimos a estados para o propósito de privatização ou liquidação de seus bancos, ou sua transformação em instituição não-financeira. O programa teve a adesão de 21 estados e alcançou 36 instituições financeiras”

      Como resultado deste processo, foram repassados para da dívida interna federal R$ 275 bilhões.

      Vale salientar que esta mesma Lei de Responsabilidade Fiscal, a qual prevê punição aos governadores e prefeitos que gastarem mais do que suas receitas, está sendo alvo de uma grande campanha de prefeitos e governadores para que seja “flexibilizada”. Ou seja, estão querendo acabar com um dos grandes avanços da administração FHC implantada a duras penas e com alto custo ao cofres públicos. Vale lembrar também que nesta mesma época o PT foi um dos grande entraves do governo, por fazer oposição sistemática a cada ação do governo, até mesmo nas mais óbvias e necessárias como as reformas estruturais das quais hoje colhe os frutos no governo.

      2 -Passivos contingentes“O governo federal realizou diversas operações, na última década, com o objetivo de assumir dívidas latentes, ou seja, compromissos assumidos no passado, de diversas formas, pela União, mas que não tinham sido contabilizados como dívidas efetivas”.

      Um desses casos foi a resolução do grande problema criado pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH) que na época da inflação alta criou grandes distorções para os mutuários. Para quem não lembra dessa época, existiam milhões de brasileiros que financiaram imóveis pela Caixa Econômica Federal e que mesmo depois de terem pago metade da prestações, o valor total da venda do imóvel não era suficiente nem mesmo para quitar a dívida.

      “Outros passivos contingentes derivaram da assunção, pelo governo federal, de débitos e obrigações de entidades extintas ou privatizadas, como o Lloyd Brasileiro, a Rede Ferroviária Federal, a SUNAMAM, o Instituto do Açúcar e do Álcool, etc. (STN, 2002-b). O valor da Dívida Mobiliária Federal referente a assunção desses “esqueletos” montava, em abril de 2002, a R$ 143,4 bilhões”.

      3 -Fortalecimento de bancos federais – Hoje os bancos estatais como o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são exemplos de boas gestões, lucrativos e financiadores do desenvolvimento nacional, emprestando dinheiro até mesmo a Petrobrás. O que pouca gente sabe (ou esqueceu), no entanto, é que para chegar ao que são hoje, tais bancos tiveram que ser saneados no Governo FHC através do Programa de Fortalecimento das Instituições Financeiras Federais (PROEF) além de serem forçados a adequarem-se aos padrões de capitalização e de provisão de riscos de crédito estabelecidos pelas normas internacionais.

      “Como resultado do PROEF, a Caixa Econômica, o BASA e o BNB tiveram seu capital aumentado (o do Banco do Brasil já o fora, pela Medida Provisória nº 2.072-66, de março de 2001), e procedeu-se também a uma troca de ativos de pouca liquidez por outros líquidos, e remunerados a taxas de mercado. Houve também uma transferência do risco de créditos para o Tesouro Nacional, no caso de operações ligadas a programas de governo, e a uma empresa especialmente criada (Empresa Gestora de Ativos). A parcela da Dívida Mobiliária Federal correspondente às operações do PROEF atingia, em abril de 2002, o valor de R$ 69,5 bilhões.”

      Conclusão: A soma entre os totais gastos para resolver os problemas herdados pelo Governo FHC totalizam R$ 572,6 bilhões, o que corresponde a 85% da dívida de R$ 623 bilhões deixada por FHC, segundo o Tesouro Nacional, e 67,5% em relação à dívida de R$ 848 bilhões, segundo a versão do Banco Central que inclui os títulos em poder do BC e as dívidas das estatais.

      Somando-se a este montante os bilhões de dólares gastos para segurar o câmbio nas sucessivas crises da década, além de juros e algumas emissões de títulos para suprir os déficts orçamentários decorrentes da diversas fases do processo de estabilização, chegamos a famosa “herança maldita” deixada por FHC.

      A explosão da dívida pública na era Lula

      É importante observar que a pesquisa citada foi publicada no início do Governo Lula. Apesar do grande aumento da dívida verificado na era FHC, o autor da pesquisa conclui que a dívida teria entrado em “uma trajetória decrescente da relação dívida / PIB, nos próximos anos”.

      Além da resolução dos problemas decorrentes da queda da inflação citadas acima, o autor cita também a criação do superávit primário em 1999 como o principal vetor para a redução da dívida pública.

      “É importante ressaltar que a manutenção de um superávit primário significativo, da ordem de 3,5 % do PIB, é um condicionante fundamental de uma trajetória favorável da dívida. Se essa meta tivesse sido perseguida, no período 1995-1998, da forma como o foi, a partir de 1999, a relação dívida/PIB seria hoje próxima da metade do valor hoje efetivamente observado.”

      Ou seja, qualquer redução da dívida atual comemorada pelo atual governo tem mais a ver com as políticas implementadas na era FHC do que com ações do próprio Governo Lula. Aliás, a previsão da substancial redução da dívida segundo o economista com a amortização do superávit primário infelizmente não se concretizou.

      As razões são obvias: o Governo Lula, apesar de cumprir as resoluções do superávit primário até 2008 (em 2009 reduziu a meta pela metade), continuou emitindo títulos da dívida para financiar um desenvolvimento artificial da economia, através do famoso PAC. Digo artificial porque o programa não é nada mais nada menos que um paliativo, uma injeção de recursos públicos na economia com data e hora para terminar, porém com significativo endividamento público.

      Além da ausência de crises, de um cenário econômico internacional favorável que permitiu seis anos e meio de crescimento sucessivos da nossa economia, sem o peso de “esqueletos” do passado, com uma economia já estabilizada e com um dólar em queda livre, ainda assim o Governo Lula conseguiu aumentar significamente a dívida ao invés de diminuí-la (ver gráficos nos posts 7 e 8).

      Vale salientar ainda que a injeção de recursos públicos na economia tem um outro efeito negativo que se volta contra o próprio Governo: a pressão inflacionária decorrente do aumento da liquidez (excesso de dinheiro no mercado). Por isso mesmo, apesar de tantos anos de estabilidade, o Governo ainda reluta em baixar os juros da Selic (até hoje sua única arma contra a inflação). Com juros altos, o país continua pagando as mais altas taxas de juros do mundo. Infelizmente, passada a crise, novas pressões inflacionárias os juros já voltaram a subir, o que implica em mais gastos com juros e amortizações das dívidas.

      Conclusão Final

      O Governo Lula perdeu uma grande chance de criar as condições ideais para um crescimento sustentável com a redução da dívida pública e da carga tributária, aumentada na era FHC justamente para compensar a diminuição dos recursos públicos com o aumento da dívida pública. Na direção contrária, o Governo Lula aumentou ainda mais a carga tributária em dois pontos percentuais para suprir a enorme demanda de recursos decorrente do aumento dos gastos públicos, especialmente os fixos, os quais dificilmente poderão ser diminuídos no futuro.

      Tal quadro mostra também o enorme potencial do Brasil, pois consegue crescer mesmo pagando quase R$ 300 bilhões por ano de juros e amortizações da dívida pública. Imaginem como estaria então hoje este país, se o Governo Lula tivesse realmente reduzido a dívida pela metade, conforme previsto pelo pesquisador Flávio Rabelo Versiani.

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      Portanto, Allan, a questão da divida é crucial neste debate, pois quando estamos endividados, somos impossibilitados de fazer inúmeras coisas. Daí o desemprego, o pedido de socorro ao FMI, etc. etc

      Quanto à venda das estatais elas somaram cerca de R$ 60 bilhões, algo insignificante em relação ao total da dívida. Ah, mas aí vc vem com aquele argumento de que foram vendidas a preço de banana e blá-blá-blá. Acontece que, na época, foi o preço que o mercado estava disposto a pagar. Ninguém imaginava que a Vale, por exemplo, fosse dar o salto que deu. Tanto que foi disponibilizado aos funcionários da Vale a conversão de FGTS em ações da empresa e muitos não converteram uma única ação. Imagina agora o arrependimento deles. Falar agora é fácil. Mas na época a coisa era bem mais difícil.

      Sobre a taxa Selic, FHC teve motivos reais para aumentá-la, pois combatia nosso principal vilão, a inflação, em um cenário altamente volátil, com um dólar sempre em alta, pressionando o aumento da dívida e da própria inflação. Lula não teve nada disso e ainda assim, passou seu 5 primeiro anos com uma taxa ligeiramente inferior aos 18% de 2002, antes que a Crise Lula a elevasse aos 25% que os petistas tomam sempre como parâmetro de comparação. E aí Lula também teve que recorrer ao FMI, pois ele também assinou o empréstimo ao lado de FHC. Não se esqueça disso.

      Aliás, se vc fizer uma comparação entre os números do primeiro governo Lula e o segundo, vc vai achar o Lula do primeiro governo um incompetente, pois vc não considera a evolução natural da economia, nem os contextos.

      Mas o que mudou do primeiro para o segundo governo? Os preços das commodities duplicaram e o Brasil recebeu um aporte recorde de dólares depois que começou a ser conhecido como um dos BRICs. E por que o Brasil foi citado como um dos BRICs? Porque antes de Lula teve alguém que fez as reformas mínimas necessárias para criar as condições de crescimento verificadas na era Lula. Não esqueça que o Brasil foi citado como BRIC pela primeira vez ainda em 2002.

      Depois que os dólares tornaram-se abundantes por aqui aí ficou fácil para o PT colocar as manguinhas de fora no seu “projeto político”. E qual o resultado deste projeto político? Um país que, apesar da conjuntura altamente favorável para os emergentes, conseguiu terminar o governo com défict nas contas correntes, com uma dívida interna triplicada, com um crescimento pífio que mal chegou a metade da média dos demais BRICs, crescendo menos que a média da América Latina, com a maior taxa de juros do mundo e com as contas maquiadas.

      Agora eu te pergunto: se o Brasil em seu melhor ano nas últimas três décadas terminou o ano com déficit, como ficará este país se o cenário mudar para os emergentes?