Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos. Pelo mesmo motivo (Eça de Queiroz)

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E agora Dilma? (parte 2)

charge-aroeira-dilma-corrupcaoComo vimos na primeira parte deste post, Dilma mal começou o governo e já teve que admitir um dos principais erros do governo Lula: a escalada dos gastos públicos, crítica esta que a própria Dilma tentou se esquivar na campanha eleitoral. Vimos também o efeito dominó que tais gastos têm em diversos indicadores econômicos e a contradição estrutural da nossa economia que hoje sofre com o excesso de dólares, porém, ao mesmo tempo, precisa cada vez mais de financiamento externo para contrabalançar o crescente déficit em transações correntes e financiar os mega-projetos lançados e já capitalizados politicamente por Lula, mas que ainda precisam ser concretizados por Dilma.

Neste post, vamos falar de mais algumas contradições da nossa economia e dos dilemas a serem enfrentados pela nova presidente. Se você não leu o primeiro post, clique aqui.

Crédito saturando

A diferença entre remédio e veneno é apenas a dose. A antiga premissa da medicina também se aplica a economia. Depois de uma necessária e tardia recuperação do crédito a partir do 2º mandato de Lula, a qual se tornou possível com a abundância de dólares no mercado, a partir de 2005, e com a redução da nossa taxa de risco, o Governo Lula exagerou na dose e queimou quase todas as fichas do crédito, inclusive de forma ilícita, como mostra a reportagem do Estadão, razão pela qual Lula está sendo investigado pelo Ministério Público.

Como todo mundo gosta de comprar, temos aí um dos pilares da popularidade do “cara”. Porém, todo mundo tem um limite de endividamento e o nosso teto está cada ano mais próximo. Como resultado, chegamos em 2010 com 24,2% de inadimplência, o maior índice desde 2002.

E mais uma vez, Dilma está tendo que fazer algo que Lula já deveria ter feito: frear o crédito. Para começar, o BC aumentou o compulsório de depósito dos bancos, o que na prática significa a retirada do mercado de R$ 61 bi da economia. Em outra trincheira, o governo tenta frear compras com cartão de crédito internacional. E isso é só o começo.

Claro que temos que considerar que houve uma forte crise internacional e que os governos foram obrigados a gastar mais para evitar a recessão. No primeiro momento, o governo Lula agiu corretamente, pois na única crise que enfrentou teve a doce missão de fazer o que mais gosta: gastar. No entanto, errou na dose mais uma vez, pois já no segundo semestre de 2009, a indústria automobilística, um dos principais termômetros da nossa economia, já batia recordes sucessivos de produção e venda. E o governo? Não só prorrogou os subsídios à indústria automobilística como continuou aumentando os gastos, inclusive dando aumentos escalonados aos servidores públicos até 2014. Pior, reduziu pela metade o superávit primário (a economia que o governo tem que fazer para abater a dívida pública). Resultado: mais dívidas, mais pressão inflacionária e, portanto, mais juros, que, por sua vez, significam mais dívidas.

Inflação aumentando

Não é nenhum fim de mundo, mas a inflação está aumentando. O IPC de janeiro ficou em 0,83%, o maior em seis anos. Pior, a inflação de alimentos em 2010 ultrapassou a “barreira psicológica” dois dígitos: 10,2%.

E eis que surge Mantega com mais uma proposta de marabalismo contábil para “resolver” o problema: retirar os alimentos e combustíveis do cálculo da inflação! Simples assim.  Está com febre? Quebra o termômetro que passa! Parece brincadeira, mas foi exatamente isso que sugeriu o nosso ilustre ministro. Com a autoridade de quem já conseguiu maquiar as contas do governo Lula, agora ele quer maquiar os índices de inflação, abrindo um precedente muito perigoso, pois o descrédito na taxa de inflação gera ainda mais inflação. Aliás, algo que já está ocorrendo na Argentina, onde ninguém mais acredita nos números divulgados pelo governo, tanto que as instituições bancárias já começaram a desenvolver seus próprios índices. A conta, como sempre, vai para o bolso do consumidor que sente a inflação real no supermercado.

Mantega à parte, claro que parte da causa da inflação atual é externa, pois o mundo subdesenvolvido está comendo mais (certamente Lula deus uns “pitacos” nos governos dos 3º mundo para que eles reduzissem a pobreza!). E quando a procura por alimento aumenta em ritmo superior à produção, os preços sobem. Até aí tudo bem para nós, pois como somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo, nossas exportações turbinam e ajudam a diminuir o nosso crescente déficit em transações correntes.

O problema é que os produtores começam a repassar os aumentos para o mercado interno, criando uma escalada de preços que pode se tornar bastante perigosa. O problema maior, portanto, além de atender a demanda, é evitar que se crie um processo de reindexação da economia que gere mais inflação. E como aumentar a produção não é algo que se faz da noite para o dia, resta ao governo frear a economia. E qual o mecanismo mais fácil de se conseguir isso? Aumentando os juros.

E como se dá a indexação? Bom, esta história todo mundo com mais de 30 anos conhece muito bem. O vendedor de cachorro-quente da esquina aumenta o preço de R$ 1 para R$ 1,50 porque o preço da salsicha aumentou 10 ou 20%. O preço da salsicha, por sua vez, aumentou para indústria porque o produtor de carne aumentou o preço devido ao aumento da demanda. E assim se fecha um pernicioso ciclo que nos assombrou por décadas. E se o preço da salsicha baixar, dificilmente o preço do cachorro-quente baixa.

E o pior desse mecanismo perverso é que a inflação passa a ser institucionalizada pelo próprio governo através dos diversos índices de correção, os quais já deveriam ter sido desregulamentados, se o governo tivesse realmente exterminado a inflação no período da bonança. A questão do aumento do mínimo neste ano ilustra bem o problema, pois o principal argumento do governo para um aumento menor do mínimo foi justamente a pressão inflacionária que um aumento maior poderia trazer. Daí o porquê da Dilma já acenar também em mudanças na política salarial acertada entre Lula e as centrais sindicais.

A irresponsabilidade do governo anterior fica novamente clara aqui, pois a pressão inflacionária dava sinais já no final do governo Lula, não só pela forte demanda interna, acelerada desnecessariamente pela exagerada irrigação de crédito, como pelo aumento da demanda mundial. Aliás, o ministro Mantega já está jogado a culpa pela inflação no mercado internacional, mas o aumento da demanda do mundo por alimentos era mais que previsível.

Ora, todos os analistas econômicos sabiam que, apesar da recessão do primeiro mundo, os países emergentes estavam e estão crescendo forte, o que significa que a cada ano milhões de pobres entram no mercado consumidor. A conseqüência imediata quando o pobre melhora sua renda é melhorar a alimentação, o que gera mais demanda e, portanto, mais pressão inflacionária.  E o governo Lula? Mais uma vez ignorou estes sinais, pois estava mais preocupado em terminar o ano com um crescimento recorde para então sepultar de vez a oposição.

E o que ele poderia ter feito para evitar a inflação?

1) A longo prazo, poderia ter continuado e concluído o processo de desindexação da economia iniciado por FHC;

2) A médio prazo, poderia ter baixado a meta de inflação;

3) A curto prazo, poderia ter reduzido o crédito e reduzido os gastos já em 2010, quando ficou claro que a nossa economia estava mais aquecida do que deveria.

E porque o governo Lula não fez nada disso? Porque tais medidas não dão “ibope”. Desindexar a economia mexe com interesses, reduzir a meta de inflação exige austeridade do governo, reduzir o crédito significa reduzir o ritmo de crescimento, tudo o que Lula não queria, principalmente no ano das aleições.

Pior para Dilma, pois além da árdua tarefa de conter a inflação e pisar no freio do crédito, ainda vai ficar com pouca margem de expansão do crédito, o que seria essencial em um novo surto de crise mundial. Mais uma vez o governo Lula comeu a carne e deixou o osso para o sucessor.

O problema ainda é perfeitamente contornável, mas não custa alertar, pois o processo inflacionário iniciado no final da década de 70 começou exatamente assim, aos poucos. E uma vez iniciada uma tendência inflacionária, a história nos mostra que esta se retroalimenta, podendo levar a inflação a aumentar em proporções logarítmicas.

Pelo bem do Brasil, acima de qualquer interesse partidário, tomara que o governo consiga frear mais esta tendência negativa da nossa economia, pois o controle da inflação foi nossa maior conquista desde a democratização, condição sine qua non para um crescimento sustentável.

Na próxima semana, o último post desta série. Até lá!

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10 Responses to E agora Dilma? (parte 2)

  1. Aline Lins says:

    Vendo vc conversando com o safado do Alvaro Dias dá para entender para quem vc trabalha.

    • Amilton Aquino says:

      Engano seu, Aline. Meu único contato com Álvaro Dias é pelo twitter e mesmo assim antes da palhaçada da aposentadoria. Aliás, dos políticos que conheço pessoalmente, todos, sem exceção, se dizem de esquerda.

  2. aliancaliberal says:

    Só pra conceituar inflação .
    ……
    Como Mises explicou em seu ensaio, “Inflação: uma política fiscal impraticável”,

    Inflação, como esse termo sempre foi utilizado em praticamente todos os lugares do mundo, significa aumentar a quantidade de dinheiro (cédulas e moedas metálicas) em circulação, bem como a quantidade de depósitos bancários que podem ser utilizados por meio de cheques.
    ……..
    Porém, as pessoas hoje utilizam o termo “inflação” para se referirem ao fenômeno que na verdade é uma consequência inevitável da inflação, qual seja, a elevação de todos os preços e salários. O resultado desta deplorável confusão é que não mais existe um termo disponível para explicar a causa desse aumento generalizado nos preços e salários. Não mais existe qualquer palavra disponível para assinalar o fenômeno que, até então, sempre foi chamado de inflação

    Se você é incapaz de definir corretamente um fenômeno, você não tem como lutar contra ele. Aqueles que se arvoram a capacidade de lutar contra a inflação estão na verdade lutando apenas contra a consequência inevitável da inflação: o aumento dos preços. Seus esforços irão inevitavelmente fracassar porque não se está atacando a raiz do problema. Eles tentam manter os preços sob controle ao mesmo tempo em que continuam decididamente aumentando a quantidade de dinheiro na economia, algo que necessariamente fará com que os preços continuem subindo. Enquanto essa confusão terminológica não for completamente extirpada, é impossível haver qualquer chance de se acabar com a inflação”.http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=918
    ………
    Eu agora:
    …..
    O leigo comum não entende como a expansão monetária provoca o aumento de preços.
    ……
    Quando o governo decide por exemplo construir um hospital , ele obtem o custeio atraveis dos tributos ou seja os cidadãos terão que abrir mão de algo, não irão comprar digamos mais 10 kilos de arroz como antes vão comprar 5 kg .Vc deixa de consumir para pagar os impostos.E com este dinheiro o governo constroi o hospital até ai tudo bem.
    ……
    Agora se em vez de tributar o governo imprime dinheiro falso(expansão monetária) para construir o hospital ,o que aconteçe , ao pagar a construtora e fornecedores estes vão pagar seus empregados, digamos que estes vão ao mercado e compram os 10 kilos de arroz que eram acostumados , e a população tambem faz o mesmo já que não precisou poupar para pagar os impostos , compram os mesmos 10 kilos de arroz o que acontece o preço do arroz começa a subir.

    Veja que as contrutoras e fornevedores do governo ganharam pq os preços não estavam em alta , com o passar do tempo este dinheiro “novo” vai circulando e entrando em concorência com o dinheiro “velho” forçando a alta dos preços.

    Os ultimos a receber este dinheiro “novo” são os que perdem com a inflação normalmente os mais pobres ,dai o grande motivo da nossa desigualdade social ,anos e anos de inflação produziu.
    ……..
    Resumo inflação é sempre culpa do governo ,pq?ele é o unico que legalmente pode imprimir dinheiro falso.

    • Amilton Aquino says:

      Aliança, passando seu exemplo para nossa macroeconomia, temos o governo fabricando uma receita paralela através da venda de títulos públicos que são repassados para o BNDES fazer a festa com as empreiteiras. Com vc disse, o dinheiro encharca a economia produzindo inflação a médio prazo já que a maioria dos títulos são comprados por estrangeiros. Ou seja, é não é dinheiro da nossa economia realocado para outro setor, é sim dinheiro novo que aumenta a oferta de moeda na economia em descompasso com a produção. Isto sem falar da consequente elevação da dívida bruta, que por sua vez impede que nossos juros caiam. E aí se fecha o ciclo, pois os juros altos continuam atraindo estrangeiros. É trágico.

  3. aliancaliberal says:

    Amilton , o governo pegar emprestado do mercado não produz inflação , pq? a origem deste dinheiro é a poupança de alguem ,que abriu mão de consumir algo , não é dinheiro “novo”.O mesmo vale para a poupança externa.
    …….
    O governo tenta se equilibrar nesta lamina de dolar entrando pra financiar gasto publico alto , controlando a alta de preços com juros altos para impedir o consumo e o mesmo tempo usa os bancos publicos para financiar a economia para não dar recessão e desemprego.
    ……..
    A economia planificada no fim das contas da mais confusão do que o velho laissez faire .

    • Amilton Aquino says:

      Aliança, concordo com vc quando consideramos a economia global. De fato o dinheiro de estrangeiros que entra aqui para comprar títulos sai de circulação e, portanto, teoricamente não causaria inflação. No entanto, considerando apenas a nossa economia, a coisa muda um pouco de figura, pois o dinheiro que o BNDES entra na economia para financiar obras (não a produção de bens de consumo) retorna para a economia através dos empregos gerados. Como resultado, temos mais gente comprando em descompasso com a oferta de produtos, o que aumentaria a pressão inflacionária.

      De fato, o governo está na corda bamba, tentando se equilibrar nas contradições econômicas decorrentes do populismo lulista.

  4. lucia says:

    Como consumidora, eu não preciso conceituar a inflação para senti-la, assim como eu não preciso conceituar a eletricidade para levar o choque. Essa competência fica mais adequada aos estudiosos e cientistas.

    Eu vou ao supermercado e percebo imediatamente o aumento dos preços, porque eu sei o custo de cada item semana a semana. Ninguém precisa me dizer, eu sei quando a inflação está lá. Já está até faltando mercadoria nas prateleiras. No auge da inflação, os empresários preferem aplicar o dinheiro a comprar mercadoria. Serviços nem se fala, o aumento foi extraordinário.

  5. aliancaliberal says:

    Lucia não seria importante saber qual é a causa da inflação e assim combate-la?

  6. Guido Emilio Guisasola says:

    Bom Dia
    Usando o Gráfico de Política Fiscal versus Política Monetária, como posso entender a afirmação, de que,quando o Governo extrapola a condução da Política Central, o Banco Central trabalha dobrado ?

    • Amilton Aquino says:

      Olá Guido,
      Desculpas pela demora. Só agora pude dar uma olhada no blog.

      Bom, se entendi sua pergunta acho que vc se refere à diferença de atuação entre o governo e o BC. Apesar do BC não ter uma independência total do Governo, nos últimos governos tem agido com uma razoável independência, graças à política monetária bem sucedida no controle da inflação. O problema que vejo nisso tudo é que o controle da inflação no Brasil ficou restrito a atuação do BC. Recentemente a situação ficou mais complicada pois ficou clara a divergência entre o Ministério da Fazenda e o BC. O resultado da briga vemos hoje, pois desde o ano passado que o BC demonstra preocupação com o risco inflacionário. Guido Mantega nunca deu ouvidos. O resultado estamos colhendo agora, com uma inflação acima do teto da meta. E como sempre acontece, sobra ao BC a tarefa impopular de aumentar os juros. Este é apenas um exemplo do trabalho extra que o BC tem quando o governo tenta fazer populismo econômico.